O JOGO NO TABULEIRO

 

Um tabuleiro sobre a mesa

 

por Cesar Silva*

 

 

Acompanho o trabalho de Simone Saueressig desde seus primeiros textos no Boletim Antares, publicação oficial do extinto Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre. No final dos anos 1980, Simone era já uma escritora profissional, tendo publicado dois livros pela editora Kuarup: O mistério do formigueiro (1987) e A noite da grande magia branca (1988).

Mesmo assim, Simone não deixava de colaborar com os fanzines, sendo motivo de satisfação para os leitores-fãs, com textos claros e emotivos, recheados de maravilhamento.

Simone seguia sua carreira de escritora em paralelo com a de professora de balé, com especialização em dança flamenca, tanto que passou vários anos na Espanha. Ainda assim, continuou a publicar no Brasil.

Em 1989 publicou pela L&PM, O palácio de Ifê e, em 1993,  A fortaleza de cristal. É mais ou menos por aqui que começa a história de Jogo no tabuleiro. História essa que vai muito além daquela que pode ser lida em suas páginas.

Meu primeiro contato com o manuscrito ocorreu por volta de 1995, quando um grupo de escritores-fãs participantes de um fórum de discussão na internet organizaram ali uma espécie de oficina virtual. Foi um grande momento da FC&F lusófona, pois diversos dos textos submetidos a análise foram mais tarde publicados profissionalmente. Quando chegou a vez de Simone Saueressig, o texto que ela submeteu à análise foi exatamente Jogo no tabuleiro. Porém, tratava-se de um texto muito longo, tanto que ela o enviou em disquete aos candidatos a leitura, e não como arquivo anexado, como era praxe.

Desde o início eu sabia que valia a pena lê-lo, e muitas vezes eu me decidi a fazê-lo, mas minha tecnofobia desmotivava a leitura do texto no computador e imprimi-lo parecia estar muito além da minha capacidade técnica. Por isso, o arquivo “tabla.doc” assombrou o meu computador durante anos.

Enquanto isso, lia os muitos livros que Simone publicou ao longo do tempo, sempre constatando sua qualidade como contadora de histórias, tais como Dois teimosos e um jundiá (Sinodal, 1995); Um rio pelo meio (Sinodal, 1996); Uma questão de tempero (Sinodal, 1997); A máquina fantabulástica (Scipione, 1997) e Receita para um dragão (Scipione, 1999). Em 2000 tive o prazer de editar a sua antologia semi-profissional O ninho, pela Coleção Terra Incógnita da editora Ano-Luz.

De volta ao Brasil, Simone investiu vigorosamente em sua profissão de professora, e sua presença nas livrarias reduziu-se um pouco. Mesmo assim, foi quando ela conquistou vários prêmios, como o 3º e 4º Habitasul de Revelação Literária na Feira (2003 e 2004) e Museus, Mundos Imaginários (2004). Os trabalhos premiados foram publicados nas antologias dos eventos e a escritora ganhou boa projeção no vigoroso cenário literário porto-alegrense. Mas seu afastamento das editoras dificultou sua volta aos livros individuais, por isso em 2004 ela publicou por sua própria conta e risco a excelente novela de mistério Um vulto nas trevas.

Em 2007, Simone inaugurou a página na internet Porteira da Fantasia (www.porteiradafantasia.com), na qual disponibilizou muitas informações sobre o seu trabalho. No ano seguinte, depois de um acalorado debate naquela mesma lista de discussões em que havia submetido Jogo no tabuleiro, a autora decidiu disponibilizar, pela primeira vez, um de seus textos na grande rede. O pitbull é manso mas o dono dele já mordeu uns quantos apareceu em capítulos e acabou conquistando um bom número de pageviews

É aqui, quase 15 anos depois, que finalmente volta a cena o ainda inédito Jogo no tabuleiro.

 

 

Sendo um trabalho antigo, Simone decidiu aproveitá-lo em seu site e, ainda no final de 2008, pediu-me que lhe escrevesse uma apresentação. Eu aceitei sob uma condição: que ela me enviasse o manuscrito impresso, pois somente dessa forma eu conseguiria dar conta das mais de 200 páginas ofício que o texto ocupa. Ela aceitou e alguns dias depois eu já estava com a mais recente versão do romance em mãos.

Tenho que confessar que me arrependi de não tê-lo lido antes. Primeiro, porque Simone é uma amiga querida que eu deveria ter tratado com mais carinho com relação a esse texto. Segundo porque eu já dediquei tantas de minhas horas a leituras que não levaram a nada, enquanto o preterido romance de Simone era exatamente aquilo que eu esperava da leitura de uma boa fantasia brasileira na linha infanto-juvenil.

Um rapaz desaparece do convívio de seus amigos e familiares depois de ter dito que ia experimentar um novo tipo de jogo. As buscas da polícia são inúteis e os amigos dele sentem-se culpados por não o terem acompanhado no dia fatídico. Por isso, quando um estranho aparece e os convoca para resgatar o desaparecido, todos se movimentam em direção ao local por ele indicado. Entretanto, ao lá chegarem, são envolvidos por uma simpática senhora que os lança também para dentro do Tabuleiro, uma realidade tão bela quanto perigosa que é o panorama de um jogo que, em seu tempo relativo, já dura muitas eras. No Tabuleiro, o grupo de amigos assume identidades e aparências adequadas para o ambiente do jogo e ali vão conhecer uma pletora de personagens cativantes, entre eles o mago Faiald, o Irmão da Terra, um antigo jogador aprisionado no Tabuleiro, que está obcecado pela conclusão do jogo e pela libertação de seus antigos companheiros, tornados em lendas naquele mundo.

Cecília, ou Cida, é a narradora da jornada do grupo e da história misteriosa de Faiald. Aos poucos ela mesma é encantada pelo Tabuleiro, onde tudo é tão belo que a noção do que é ou não real fica muito nebulosa, tal como as ações pragmáticas de Faiald para garantir a vitória, que  assumem aspectos quase vilanescos aos olhos dos grupo. Somado aos grandes perigos que eles têm de superar, com o moral quase sempre abalado, somente a grande amizade que os une é a garantia de um bom termo para o jogo.

Assim, Jogo no tabuleiro é uma ótima diversão para leitores de todas as idades. Nele, os mais jovens vão encontrar o tipo de aventura que maravilha a imaginação, com muita ação e reviravoltas dramáticas. Os adultos encontrarão também níveis mais profundos de leitura no relacionamento entre os personagens, na contraposição da realidade do Tabuleiro com a nossa, e nas decisões quase sempre dolorosas que cada membro do grupo tem que tomar para garantir a vida de todos, nem sempre tão bem sucedidas assim, em sequências poéticas de grande impacto emocional.

Enfim, Jogo no tabuleiro é um romance amadurecido, que vai agradar em cheio. Apesar das opiniões contrárias da autora, penso que o romance merece uma edição profissional, em forma de livro vendido nas livrarias, volume esse que eu teria enorme prazer em comprar, reler e recomendar a todas as pessoas que conheço.

Espero que todos se divirtam com o Tabuleiro tanto quanto eu me diverti. Desafio o leitor a chegar ao final do jogo e, depois da última palavra da derradeira linha, conseguir seguir sua vida sem que lhe assaltem a memória, em momentos inspirados, os belos cenários e os personagens maravilhosos desta saga incrível, que conta muito com o que diz e ainda mais com o que não diz.

 

Boa leitura.

*Cesar Silva é publicitário, cartunista, editor, desinger e produtor gráfico de São Paulo, e um dos autores do “Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2007”, editado pela Tarja Editorial.

 

 

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