O Jogo no Tabuleiro

- O Afilhado das Fadas -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

 

 

A Falcoeira
 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

10.

 

A aldeia de Arrelipe era muito aconchegante. Havia uma fonte de água em seu centro geográfico, e vários muros circulares, cujo único objetivo parecia ser abrigar a terra em que cresciam diferentes tipos de flores. Galinhas, pombas e pássaros de pequeno porte aglomeravam-se junto às janelas das cozinhas, devorando as migalhas dos almoços.

Nosso guia nos levava com passos elásticos, que só eram acompanhados devidamente pela pernas longas de César. Conhecia cada recanto, e de cada um extraía uma história engraçada ou encantadora. Terminamos o passeio em uma espécie de mirante, ao lado do qual passava a estrada.

Dali se via todo o vale de onde emergiam as Montanhas Rineve. Era um profundo descenso, sulcado por um rio largo, tão verde que tornava-se uma sombra escura ao pé das ribeiras. Brancas e gordas nuvens boiavam no interior da depressão e, mais ao leste, uma tempestade abatia-se nas faldas da cordilheira. Os picos distantes brilhavam sob o sol, picos de neve e tempestades guardadas em seu seio de montanha, em seus ventres de vales suspensos e seus labirintos de trilhas impraticáveis. Amei aquelas montanhas de todo o coração, inteira, de corpo e alma, o coração disparado no peito. Desejei mais os seus caminhos, mais o seu fulgor gelado do que jamais desejara coisa alguma.

– Vocês precisarão de roupas quentes e de um guia, se quiserem atravessar as Rineve – observou Tharia, a voz dele chegando de muito longe, vencendo muitos espaços para me atingir.

"O que vai acontecer com elas, quando o jogo acabar?" eu pensei de repente, sentindo o coração doer. Sim, porque quando chegarmos ao final do jogo, e vencê-lo, para onde irá tudo isso?

– Tem razão – disse César, irrealmente, limpando os óculos. – Acho que levaremos bem mais de três semanas neste caminho.

– É verdade – murmurou Márcia assombrada com a majestade da paisagem. Eles não entendiam – e ainda não entendem! Toda esta beleza resplandecendo sob o sol, brancas, altivas, lindas montanhas, ah, tão lindas! Apenas um piscar de olhos e terão para o lugar nenhum de onde foram tiradas.

De súbito, uma sensação de liberdade me invadiu. Acima de mim brilhava o sol e o céu e abaixo havia um precipício de rochas à pique. Eu estava toda banhada de sol e vento. Eu era o sol e o vento! E as correntes do céu! E a altura colossal até o fundo do vale!

Quanto tempo levou minha vertigem até que percebi que não era eu quem planava, mas Cezna? Despertei com um grito de Edula. Minhas mãos agarravam-se brutalmente à amurada de pedras redondas e todo meu tronco já se debruçava sobre o abismo dentro do qual o vento apascentava o rebanho de nuvens. A vertigem me chamava. Tentei me afastar da beirada, mas não consegui. Apertei os lábios. As montanhas estendiam seus braços para mim. Controle-se, gritei para mim mesma, enquanto Cezna, esquecido de nós, revoluteava em plena liberdade. De asas abertas, ele acabara de mergulhar num looping perfeito para a sombra das pedras e subira em seguida como um foguete, ameaçando arrancar meu nariz. Recuei espantada, e ele gritou de alegria.

Finalmente, o homem-pássaro percebeu alguma coisa lá em baixo e voltou ofegante para pousar no braço que eu mal e mal consegui estender. Cezna observou-me atentamente, preocupado, por um momento, depois, inexplicavelmente, limitou-se a rir, muito satisfeito mesmo.

– Vi uma coisa, lá embaixo – comentou, quando parou de rir.

– Bem, o que foi? – era Edula.

– É a estrada, sabem? À esquerda dela sai um caminho secundário que dá num círculo que o rio faz em torno de uma ilha bem pequena. Que lugar é esse?

– Tem alguma coisa que brilha no centro da ilha, não tem? – perguntei, como que enxergando a imagem em minha mente.

– É, tem mesmo – confirmou ele com o mesmo ar de satisfação de antes. – E algumas ruínas.

– É a Ronda da Eternidade – explicou Tharia mais sério. – A ilha chama-se a Prisão de Kavaal.

– Prisão de Kavaal? Não foi lá que Faiald deixou Eneias? – perguntou César debruçando-se perigosamente na amurada de pedra.

– Eneias, o Trovador? – surpreendeu-se nosso guia

– Esse mesmo – disse eu, já afastada do transe e entusiasmada com a ideia de que íamos encontrá-lo, finalmente.

– Ele passou por aqui há algumas semanas e fez uma serenata para minha mãe a cargo de meu pai. Depois ele se foi.

Ficamos apreciando a paisagem por um instante, até que Cezna alçou voo e dirigiu-se à um ponto à direita do mirante.

– Que espécie de santa vocês têm aqui? – indagou ele, pousando sobre uma pequena capela que havia. Nos aproximamos curiosos, enquanto Tharia franzia o sobrecenho.

– “Santa”? Como assim? – perguntou. Depois viu onde ele estava e sorriu. – Ah, a Deusa! Clara e pura Luz. A Criadora de tudo.

No fundo da orada, uma estatueta de cristal representando uma mulher resplandeceu quando ele fez refletir o sol em um medalhão que tirou de suas roupas. Lembrava tanto a explosão de cores e luzes que havia antecedido a nossa... o quê? Viagem? Travessia? Deslizar? Que importa o verbo agora? Vamos chamá-la de “transferência”. Os reflexos do cristal me fizeram pensar imediatamente na transferência de nossos corpos até o Tabuleiro e eu recuei, desconfortável. Nos entreolhamos.

– É só uma representação, é claro – continuou Tharia guardando o medalhão. – É impossível fazer uma imagem da Deusa. Não alcançamos imaginar como seria seu semblante. É luminoso demais, bondoso demais, divino demais.

Márcia estrangulou uma risada. Edula deu-lhe uma cotovelada e um olhar feio.

– E esta figurinha aqui, quem é?

Ao lado da imagem de cristal havia uma outra, menor, feita de alguma pedra branca e polida, esculpida com capricho exemplar.

– Este é o Irmão da Terra – murmurou Tharia, reverente. Tocou a testa com os dedos indicador e médio da mão direita e baixou o rosto. – O Irmão da Terra é a razão pela qual a Deusa criou o mundo, como vocês sabem. Tudo devemos à ele. Ele nos guia e protege e no final dos tempos abrirá o Portal das Eras e revelará a verdadeira essência do mundo.

Voltou-se para mim e sorriu.

– O final dos tempos, vocês sabem: um dia, quando todos nós já tivermos amado, vivido e morrido e não restar nem lembranças de nós.

Engoli o bolo que havia se formado na minha garganta.

– E aquele rio lá embaixo, para onde vai? – perguntou Edula debruçando-se na amurada e desviando o assunto.

– Por falar no diabo... – cochichou Cezna sentando no meu ombro.

Faiald e Cíntia se aproximaram e aproveitaram para admirar o caminho que tínhamos a seguir. Também eles concordaram que levaríamos muito mais de três semanas para vencer todo o Tabuleiro. Nos sentíamos muito fortes, capazes de vencer o caminho sem grandes problemas. Pensando bem, não aprendêramos muito com o episódio da Colonia. Só Faiald e Bulbo sabiam então o que estava em jogo, e agora eu também. Agora eu compreendia as palavras de Nesbex para o gnomo: "Uma das tuas criaturas, carne da tua terra, sangue da tua água, trama contra ti!" Sentei-me num banco de pedra, sentindo uma pontada de dor de cabeça.

– Você está bem? – preocupou-se Cezna. – Parece febril

– Devia parecer furiosa – murmurei. – Gostaria que não tivessem me metido nisso.

– Cida?

Olhei para Edula. Ela tinha uma aparência exausta, mas sorria. Todos nós estávamos cansados, precisando de um banho e de uma cama de verdade.

– Tharia disse que a neblina deverá subir em breve e ofereceu-nos quartos na casa dele. Vamos?

– Vou depois. Não vou me perder – murmurei, olhando para o céu e duvidando que houvesse alguma névoa que fosse espessa o bastante para encobrir aquele sol e aquela paisagem. – Vou ficar aqui mais um pouco, olhando as montanhas.

– Você está bem, não está? – insistiu ela.

Meneei a cabeça.

– Não se preocupe. Eu estou bem e vou encontrar a casa de Tharia.

Voltei algumas horas mais tarde, esforçando-me por encontrar a casa de nosso anfitrião no meio da neblina mais densa que já vira. Inútil, porém. As ruelas formavam um intricado labirinto e eu não prestara atenção quando tínhamos vindo. Terminei perambulando de praça em praça, tiritando com a umidade, até encontrar um grupo de crianças, entre as quais estava Roti, a menina que nos atendera. Ela me guiou, tagarelando alegremente. Não gostava eu de flores azuis? Ela gostava. Preferia leite à suco de frutas, o que eu pensava? E vestidos vermelhos? Flores nos cabelos? Quando chegamos à porta da casa, eu estava à beira das lágrimas. Beijei-lhe a bochecha rosada e belisquei-lhe de leve o nariz.

– Ah, aí está ela! Já íamos procurá-la!

Virei-me e encarei Tharia. Ao seu lado estava Edula. Que mudança! Ela tomara banho e vestira uma confortável calça-saia bordada de flores e uma blusa de pelúcia. Pela segunda vez naquele dia me dei conta do quanto estava suja, despenteada e malcheirosa. Perguntei-me como poderia ter suportado passar tanto tempo sem um bom banho.

– Agora você vai ter de esperar – comentou ela enquanto eu entrava constrangida na peça que antecedia a cozinha. Roti voltara correndo para seus jogos, seus sonhos de vestido vermelho, flores na cabeça e copos de leite. – Os meninos estão dentro da tina faz pelo menos uma hora. Venha até a cozinha conhecer a mãe e a avó de Tharia.

Ralhei comigo mesma por não ter vindo junto com meus amigos, e me obriguei a entrar na cozinha de tijolos vermelhos, mesmo morrendo de vergonha. Mas Ethel e Erni, a mãe e a avó de Tharia, respectivamente, me acolheram com um sorriso agradável.

Segundo minhas colegas, os garotos demoraram mais que elas na tina. Cezna, por sinal, foi o último a sair do banheiro, vestido com uma das roupas de um boneco de Roti, que chegou pouco depois, suada e suja e que o achou uma gracinha, perseguindo-o por todos os lados. Eu me enfiei na água quente e procurei não demorar demais. Quando saí, vestida com roupas semelhantes às de minhas companheiras, descobri que nossos anfitriões tinham mais dois filhos, gêmeos. Chamavam-se Rasil e Veni, de treze anos. Eles corriam por dentro da casa com a espada de Edula e a espingarda de Faiald, ameaçando a cristaleira de Ethel, o forro artisticamente pintado com flores coloridas e, enfim, matar a todos nós. Felizmente, Tharia conseguiu desarmá-los e, apesar de ambos ficarem sem o jantar, tudo acabou bem.

Comer numa mesa de verdade, depois de três noites saboreando as especiarias da mata selvagem, era uma delícia indescritível. A mesa estava repleta de geleias, cucas e nata. Havia uma espécie de café, além de leite e cerveja quente. Me perguntei se teria coragem de sair de um abrigo como aquele para lançar-me a uma empreitada que, se bem sucedida, terminaria destruindo aquelas pessoas. Bastou pensar nisso para que a geleia perdesse sua doçura e a cuca seu sabor. Entrementes, Cezna, que conseguira uma trégua com a caçula da família, começou a contar nossa caçada às cabras-de-sol, arrancando gargalhadas de toda a mesa.

– Foi por isso que aparecemos tão "limpinhos" – completou ele, rindo. – Especialmente Cida. Três banhos naquela lama fedorenta até que conseguiu pegar Maricota. Não sei como ainda consegue sentar-se.

Enrubesci, enquanto os outros riam ao relembrar minha figura sendo acertada pelos chifres redondos dos animais.

– É, mas foi Bulbo quem virou bola de jogo – defendi-me.

O gnomo ficou com o nariz ainda mais rubro.

– Pois sim. Mas fui salvo pela nossa insuperável heroína. Não se esqueçam do ladrão-de-olhos!

– Pobrezinho! – lamentei. – Será que conseguiu descer da árvore? Acho que nunca fiquei com tanto medo em toda a minha vida! Ele era bonitinho, mas bem assustador.

– Você enfrentou um ladrão-de-olhos e saiu-se bem? – indagou Lexander, o pai de Tharia, que ocupava a cabeceira da mesa.

– Sim senhor, ela o fez – replicou Bulbo pomposamente. – E de mãos nuas!

– Bem, aí está uma coisa que eu não teria coragem de fazer – disse Tharia. Encarei-o e ele sorriu, fazendo-me enrubescer mais ainda. Equilibrei minha xícara de leite e quase entornei-a por cima da mesa. Edula começou a rir.

Depois do jantar fomos todos para a sala, ao redor da lareira. Os gêmeos ficaram encarregados de lavar a louça, e eu imaginei que aproveitariam para comer alguma coisa. Sentamo-nos em almofadas pelo chão, a olhar o fogo e as brasas e ouvir as cantigas que Lexander sabia cantar. Não era muito afinado mas nos fez relaxar mais ainda. Faiald e o dono da casa finalmente acenderam os cachimbos e compreendi que aquela era a hora de falar tudo o que havia para ser falado, embora eu não soubesse o que poderia ser. Na minha opinião, tudo já tinha sido dito e só nos restava encontrar uma cama o mais depressa possível, antes que adormecêssemos em pé.

As três crianças vieram despedir-se e ouviram um sermão sobre silêncio e bom comportamento, e a recomendação expressa de não tentarem derrubar o teto da sala, como era costume. Achei-os uma graça e quando se foram quase pedi para que os chamassem de volta. Estava com saudades de minha família, do meu irmão mais novo e sua bicicleta amarelo-canário, suas histórias em quadrinhos e sua voz irritantemente aguda. Tinha medo do que viria à seguir. A presença das crianças traz segurança às conversas. Não se fala de responsabilidades, de perigos e mistérios na presença delas. Não se toca na possibilidade da morte, nos terrores da estrada, nas más lembranças, quando elas estão por perto.

Pouco depois, Faiald deu algumas baforadas e disse, fitando as nuvens de fumo:

– Não sei como vamos agradecer sua hospitalidade, Tharia e Lexander.

– Não precisa agradecer – respondeu o jovem tomando a palavra do mais velho. Levei algum tempo para perceber que o diálogo obedecia a um ritual: eu estava cabeceando de sono. – Sua presença é um prazer para meus olhos, suas palavras, música para meus ouvidos.

Edula me cutucou discretamente e pisquei descobrindo que Tharia sorria. E sorria para mim! Estava acontecendo mesmo, ou eu estava sonhando acordada?

– Até onde vocês estão viajando? – perguntou Lexander ao lado da esposa. Sacudi a cabeça e forcei-me a prestar atenção na conversa.

– Vamos até o fim – respondeu Faiald calmamente, num tom de voz tão sem compromisso que o fim poderia ser muito bem ali em Arrelipe. Tharia olhou-o friamente.

– Até o Portal das Eras? Serão como aqueles malucos que dizem ser de outro mundo além do nosso? – perguntou. – Ou místicos que esperam a chegada do Irmão da Terra, a abertura do Portal das Eras e o fim do mundo?

– Temos fé – respondeu o ruivo.

– Tolice! – resmungou o rapaz remexendo-se inquieto e agarrando-se à primeira opção. – Não há nada além do Portal das Eras!

– Você já o atravessou, para saber?

– Não. E para falar a verdade, duvido de sua existência – redarguiu o jovem, aborrecido. – E na existência de deuses, do Irmão da Terra e tudo o mais. No fundo, não creio em nada. Sou ateu.

– Tharia! – interrompeu-o Ethel um pouco escandalizada.

Em resposta, o rapaz ergueu o queixo, orgulhoso.

– Mas você fez o Gesto, fez a saudação respeitosa para a imagem do Irmão da Terra – confundiu-se Bulbo.

O louro balançou os ombros.

– Aprendi de pequeno. Queria ser educado. Nunca se sabe se ignorar o Gesto não irá ofender alguém – murmurou.

– A educação é o instrumento, mas a fé de um é seu escudo, sua espada e sua glória – citou Faiald soltando outra baforada em direção ao teto. – Ninguém tem o direito de nos dizer no que é certo ou errado acreditar. A história de Arrelipe prova isso.

– Certo – concordou Lexander balançando uma afirmativa. – Quando Kavaal tentou obrigar os Jerom à adorar os deuses do Império, deu o primeiro passo para guerra que, décadas mais tarde, marcou seu fim. Você pode aprisionar um homem, mas é inútil querer domar suas crenças e estúpido querer dobrar sua loucura. Mas aventureiros, vão e vêm e, para dizer a verdade, não se interessam por nada de produtivo. Conhece algum andarilho capaz de entalhar uma cadeira?

O gnomo sacudiu a cabeça, e intrometeu-se na discussão.

– Até quatro dias atrás, eu morava numa toca muito confortável e todos os móveis foram feitos por mim e Faiald – replicou, mau-humorado.

Lexander suspirou.

– Está bem, perdoe-me – constrangeu-se.

– Nossa marcenaria foi depredada por um pequeno grupo de homens, há dois meses – explicou Tharia, conciliador. – Apenas esta semana conseguimos terminar todos os pedidos em que trabalhávamos na época. É certo que pelo menos dois deles eram seguidores dessa nova religião que diz que além dos lugares conhecidos há uma outra realidade, como um globo de vidro dentro de outro globo de vidro. Que diz que esse aqui não é o verdadeiro Mundo. E eu lhes pergunto: se há outro lugar, como é ele?

– Eu sou de lá! – exclamou Cezna. – Eu sei como é!

– Bem – murmurou Lexander erguendo as sobrancelhas espantando. – Talvez, se me valesse um par de asas, quando chegasse lá, quem sabe até pagaria a pena.

– Lá eu não tenho asas – murmurou meu amigo, confuso. – Lá sou igual a todo mundo! É bom. – completou, sem muita convicção. Lexander abanou a cabeça.

– Ninguém acredita nisso de verdade – murmurou. – Veja lá se pode existir um lugar onde não existem gnomos, fadas, nem cabras-de-sol!

Caímos num silêncio pensativo, imaginando como devia lhes parecer, de fato, um lugar assim.

– Vocês conhecem o caminho que vão seguir? – indagou Tharia de súbito, quebrando o silêncio.

– Não de todo – disse Faiald, fazendo com todos nós o encarássemos surpresos. – Isto é, eu conheço o caminho até a Ronda da Eternidade, para onde levei Eneias.

– Mas você disse que tinha viajado até o final, certa vez – balbuciou Márcia. – E, além do mais, temos o mapa, não temos? Para que precisamos de um guia?

– Quando eu viajei pela primeira vez, os caminhos eram outros – cortou-a Faiald.

– E por melhor que seja o seu mapa, precisarão de um guia nas montanhas. – disse Erni, concentrada no ruivo. Era a única pessoa sentada em uma poltrona, o que lhe dava ares de uma rainha decrépita. – A época é de tempestades e pode ser que as trilhas não estejam muito transitáveis. Além do mais, nenhum mapa mostra rastros de Bins ou das filhas de Ninir.

– Conto em arranjar um guia para os lados das montanhas – continuou o ruivo, olhando a velha com um sorriso sábio. – Disseram-me que há um velho que conhece todos os caminhos

– Se está pensando em Nacin, ele morreu no ano passado.

Faiald empalideceu e inclinou-se para frente.

– Morreu? Mas o que houve?

– Ele era um pouco louco, você sabe – murmurou a velha com um sorriso torto nos lábios ressequidos. – De vez em quando tinha acessos de terror e vagava pelos caminhos das montanhas clamando justiça e vingança. Também era um desses visionários, talvez o mais velho de que se tenha notícia. Uma vez meu marido o encontrou quase gelado, à beira de um caminho, procurando uma passagem, que levasse a lendária Drida. Por causa dessa história de crianças, a gangrena lhe comeu a mão direita.

Faiald mordeu os lábios e encostou-se contra a parede atrás de si.

– A mão direita – sussurrou, assombrado.

– Pois é – continuou a velha, saboreando visivelmente o choque do outro. – Depois disso, ninguém mais o viu. Antes ele vinha sempre à Arrelipe vender seus desenhos, à fim de conseguir mantimentos para uma temporada. Era muito habilidoso. Temos até um ou dois trabalhos dele pendurados por aí.

Ela calou-se um momento, pensando. Seu rosto perdeu a idade, enquanto seus olhos negros refletiam as brasas da lareira.

– Ele já era muito velho quando eu era uma menina. Adorávamos ficar ao seu lado enquanto desenhava para nós figuras de gnomos e cavalos com asas, embora tivéssemos medo de seu olho caolho e ficássemos enjoados com o cheiro de suas roupas. Nacin, o Velho dos Desenhos! Acho que todos nós, velhos que o viram em sua meninice, choramos quando ele se foi. Uma parte de nossa infância tornou-se inalcançável e já não podíamos compartilhá-la com nossos netos como nossos avós tinham feito quando éramos pequenos.

Ficou em silêncio outra vez, mastigando saliva e respirando ruidosamente.

– Feverli, o filho do meu primo – continuou ela, completando sua história – o encontrou na cabana que ocupava na vertente de entrada das Rineve. Tinha cortado a metade do outro pulso, não se sabe como. A mão também estava gangrenada. Pensamos que tivesse tentado extirpá-la sem ajuda. De certo, foi isso que aconteceu.

Faiald largou o cachimbo e passou as mãos sobre os olhos. Respirou fundo e anunciou:

– Pois então, estamos sem guia.

– Talvez não – murmurou Tharia.

– Em quem deverão confiar,? – interveio Ethel com um olhar de advertência para o filho. – Nos mercadores de escravos? Nos Bins? Quem sabe, nas filhas de Ninir...

– Não, mãe – volveu Tharia, aborrecido.

– Quem são as filhas de Ninir? – perguntei, bocejando.

– As filhas das escravas dos antigos senhores. Mulheres brutais que vivem nas montanhas como animais, vendendo sua própria prole aos mercadores de escravos, quando não a devoram – disse a esposa de Lexander de um fôlego só, cheia de ódio. Olhei para ela espantada, observando pela primeira vez a rudeza de seus traços e a selvageria de seu olhar. Estremeci por dentro e olhei para Tharia.

– Não quis me referir a nenhum desses, mãe – disse ele. Seus olhos não eram tão ferozes quanto os dela, atenuados que estavam por uma educação adequada, comida farta, amor e carinho. Mas eu quase sentia, por baixo daquela pele morena de sol, algo indócil e igualmente selvagem.

– Elas são canibais? – indagou César mordiscando o lábio inferior.

– Sim – respondeu Lexander, e tive a impressão de que estava envergonhado. – Sangue podre, a matriarca e todos os seus filhos. Todo aquele que come carne humana tem sangue podre, dentes pontudos e desrespeito para com seus semelhantes.

Ethel virou o rosto para a sombra das chamas, tornando-o escarlate como o fogo. As mãos de Tharia se crisparam, brancas, sobre a poltrona.

– Mas alguns amam – disse com a voz rebelde, rouca, e imaginei, um pouco desapontada, que ele estivesse namorando uma garota que tivesse sangue das filhas de Ninir correndo nas veias.

– Sim, alguns amam – concordou Lexander com súbita ternura na voz. Encarou-nos e sorriu. – Desculpem-me a revolta. Meu pai morreu nas mãos dessas criaturas.

– Não é possível ! – interveio Faiald. – Essas histórias sobre canibalismo são puro folclore. Se não fosse assim, como é que Nacin andava por todas as montanhas e nada lhe acontecia?

– Ele participava dos banquetes,o que você acha? – replicou Lexander. – Não era um guia de confiança. Levou mais de uma caravana para as garras dos Bins.

– Mentira – rosnou Faiald entredentes, mordendo com força o bocal do cachimbo. – Não pode ser. Ele era da minha raça. Nós não compactuamos com aberrações.

– É mesmo? – interrompeu Erni irritada. – Pois por aqui todo mundo sabia o que ele fazia às vezes, quando era inverno nas montanhas e não podia vir até Arrelipe porque os caminhos estavam fechados. Ele guiava algum estúpido mercador que se arriscava!

Faiald a encarou com fúria e engoliu em seco uma ou duas vezes.

– Isso não é verdade – ele repetiu, teimoso. – Os banquetes das Filhas de Ninir não passam de folclore.

– Eu lhe avisei – murmurou Bulbo, à contragosto. Era fácil perceber que ambos haviam discutido muitas vezes sobre isso.

– É lenda!

– Lenda! – exclamou Tharia, entre divertido e intrigado. – As lendas estão mais vivas que nunca! Agora ouvi dizer que até mesmo a Grande Aranha e sua Colônia está se mudando para noroeste!

Empalideci e encolhi as pernas que estendera para o fogo, num ato reflexo. O rapaz me encarou surpreso e um vento frio soprou ao redor da casa, fazendo com que nos sentíssemos isolados do mundo. A escada atrás de nós estralou e olhamos inquietos sobre os ombros, procurando, mas desejando não ver, a grotesca criatura que se refugiara nas sombras de nossa imaginação, espreitando, aguardando, o imenso bolsão abdominal pulsando em milhares de ovos abortados.

– Quem lhe disse isso? – indagou Ethel com aquele ar doméstico outra vez. – Que bobagem! Aí está uma coisa que, seguramente, não existe. Imagine, uma aranha do tamanho de uma casa! Só pode ter sido Tok Disbur! Já lhe disse que ele é má companhia!

– O que vocês sabem sobre a Grande Aranha? – começou ele, mas Márcia interrompeu-o, enfiando o punho inteiro na boca.

– Pelo amor de Deus, vamos mudar de assunto.

Ethel encarou-a com surpresa e inocência.

– Ora, querida, isso é uma mentira para assustar crianças teimosas! – ela disse pacífica, tão maternalmente que quase solucei e enterrei meu rosto em sua barriga cheia de doces e leite. Ah, quanta tranqüilidade havia ali. Ethel não era selvagem, era pura como uma criança que diz: "não existe bicho-papão ", só porque nunca lhe viu a face hedionda.

– Por que diz que as lendas estão mais vivas que nunca? – perguntou Edula, pálida. Tharia piscou os olhos, mas foi Erni quem respondeu.

– Vocês não sabem? – ela perguntou, fingindo surpresa, como uma avó que vai contar uma história para os netos pela décima oitava vez.

– Saber o quê? – insistiu Cíntia, procurando desesperadamente mudar o curso de seus pensamentos. Até então, não havíamos mais sequer falado naquele encontro na floresta, nem dado nome daquilo que andara sobre a teia. E nem queríamos fazê-lo.

– Contam as velhas lendas, do tempo em que Arrelipe era uma aldeia cercada pelas muralhas de uma cidadela invencível e lar de magos poderosos, que um dia o Irmão da Terra empreenderia uma jornada através do mundo em busca do Portal das Eras, o lugar onde tudo terá fim. O Irmão da Terra passará pela estrada que corta nossa aldeia, descerá ao fundo dos vales, vencerá as montanhas, os mares, os desertos e tudo o mais que se interpuser entre ele e a Deusa que mora no final do Caminho. E quando ele chegar junto a ela, tudo terá fim. Será o fim do mundo. Enquanto ele andar pelas terras, tudo renascerá. Os velhos mitos; os maus andarão ao lado dele e o temerão; os bons andarão ao seu lado e não confiarão nele. Mas ele vencerá a tudo e a todos e chegará ao seu destino. Assim está escrito.

Fizemos um longo silêncio, todo mundo se esforçando para não encarar Faiald. Achei que talvez agora meu amigos compreendessem o que eu já tinha percebido naquela tarde, ao ver as Rineve. Mas isso não aconteceu. Talvez eles não compreendam senão quando for tarde demais e tudo seja apenas um sonho se diluindo no fim do jogo.

– Estou cansada – solucei.

– Não vejo o que isso tem a ver com a nossa viagem – disse Edula, numa voz suave e surpreendentemente falsa.

– Tudo! – disse a velha com um sorriso bondoso. – Vejam só esse gnomo! Ele faz parte daquilo que chamamos velhos mitos. Desde o tempo da minha avó que eles só são vistos comerciando com um ou outro fazendeiro, e no entanto, aí está o velho Bulbo Nariz de Tulipa, sentado na minha sala de visitas, em pleno centro de Arrelipe.

O gnomo enrubesceu e Faiald fechou os olhos. Tentei não imaginar no que aconteceria se eles deduzissem quem era ele. Por outro lado, a ideia devia parecer-lhes tão fantástica, que ninguém acreditaria em quem ele era de fato, mesmo se houvessem provas.

– Ora, madame – gaguejou o gnomo – eu não sou tão velho assim. Para um gnomo, quero dizer.

– Não, para um gnomo, não – ela riu a bom rir. – Mas as filhas de Ninir estão mais ativas do que nunca e para isso, ninguém precisa consultar as velhas contadoras de histórias. Semana passada capturaram uma tropa de mercadores e devoraram todos. Apenas um homem conseguiu escapar. Contou-nos que elas estão agindo em conjunto com os Bins. Isso é uma coisa que nem as antigas lendas contam. Coisas muito estranhas têm acontecido O inverno está rigoroso nas montanhas, este ano, e aventurar-se por seus caminhos sem um guia, é loucura.

– Talvez elas tenham, simplesmente, criado juízo – resmungou Faiald e fiquei irritada com o fato dele dar a si mesmo, corda suficiente para ser enforcado.

– Os Bins e as filhas de Ninir, criando juízo? Vá contar essa à outra – replicou Erni sorrindo de uma maneira que fez-me sentir mal. Remexi-me, inquieta.

– Tudo isso, afinal, são tolices para assustar crianças – retorquiu Faiald, sem dar-se por vencido nem achado. A velha riu alto de novo, desta vez, alegre, desfazendo imediatamente o mal-estar que sentíramos.

– Tem razão, Damin, "afilhado das fadas"! Meus netos costumam dormir imediatamente quando lhe conto essas coisas e digo-lhes que o Irmão da Terra virá para levá-los se não obedecerem.

Outro silêncio. César conseguiu sorrir.

– Vocês ainda não têm um guia – resmungou Lexander quebrando o mal-estar.

– Eu irei – anunciou Tharia. – Quero ver a cara da Deusa de que tanto falam e se existe de fato, algo além do Portal das Eras.

Ethel o encarou com os olhos tão brilhantes quanto o fogo ao seu lado, covarde e arisca. Erni empalideceu, fitando o próprio vestido. Lexander continuou fumando, impassível.

Isso é locura! Tive vontade de gritar. Ninguém vai fazer nada? Dizer nada? Ninguém se levantará e o mandará dormir, como se fosse pequeno?

– Você? – espantou-se Edula, evitando assim que eu dissesse alguma bobagem.

– Meu pai era um mercador – explicou ele com orgulho – e me levava junto em suas viagens através das montanhas. Eu conheço as trilhas. Conheço os hábitos e das ciladas dos Bins e das Filhas de Ninir, embora não tão bem quanto Nacim. Antes de ser um marceneiro, amigo de uma cerveja e uma serenata, viajei muito e, para falar a verdade, estou com saudades da estrada. De qualquer forma, ninguém mais vai aceitar levá-los pelas montanhas durante o inverno.

– Meio guia é melhor do que nenhum – argumentou César encolhendo os ombros.

– O que prova que você nunca viajou, companheiro – redarguiu Faiald.

– Creiam-me, não encontrarão ninguém melhor que eu – insistiu Tharia.

– Ninguém melhor – murmurou Ethel, ao meu lado. – Ninguém.

Faiald e Tharia mediram olhares por um longo instante, e o ruivo foi o primeiro a desviá-lo.

– Muito bem, você pode vir com a gente.

Eu estava cansada, perdendo o controle sobre mim mesma. Tinha os olhos cheios de lágrimas, uma tristeza imensa me apertando o coração dolorosamente.

– Estou com sono – murmurei. – Desculpem se pareço mal-educada, mas estou cansada demais para dizer outra coisa. Eu gostaria de dormir.

Edula concordou com um aceno.

– Seria melhor que todos nós fossemos dormir. Amanhã temos um longo caminho e estamos com saudades de uma boa cama. Dormir no chão acaba aborrecendo as costas.

– Vamos – eu disse, erguendo-me e caminhando resoluta para a escada. Já não havia sombras estranhas no alto do corredor, as lembranças afastadas pela tristeza que eu sentia. Ethel correu para buscar um castiçal com algumas velas e tomou a frente.

– Boa noite – murmurei para todos e meus amigos me seguiram, despedindo-se de nossos hóspedes.

Depois disso, só me lembro que caí na cama e mal tive forças para me tapar. Mergulhei num sono profundo que só terminou quando um raio de sol veio iluminar meu rosto através da vidraça, na manhã seguinte.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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