O Jogo no Tabuleiro

- O Afilhado das Fadas -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

A Falcoeira
 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

11.

 

Quando despertei no grande quarto que todos nós ocupáramos, só Cíntia ainda dormia. Ergui-me e me espreguicei, olhando pela janela, avistando parte do vale emoldurado por dois telhados e uma janela semelhante à nossa. Senti uma sensação confusa, como se estivesse em minha própria casa, embora minha costas protestassem. Então lembrei-me: estava no Tabuleiro, na casa de Tharia.

Desci as escadas pensativamente, observando com atenção o trabalho de entalhe nas vigas do teto e dos degraus. As janelas estavam abertas e por elas entrava o sol, iluminando os gerânios cor-de-rosa e as tábuas escuras do assoalho. A casa tinha um cheiro de madeira seca que se misturava com os aromas que a brisa trazia da rua e enroscava nas cortinas de renda branca diante das janelas. Senti fome e caminhei por um corredor fresco, seguida pelo eco de estalidos do assoalho lustroso.

Na cozinha, encontrei Ethel às voltas com o fogão e o nosso almoço. Havia um perfume de cucas vindo do forno e de nata fresca emanando de um pote. Nos saudamos com um sorriso e ela perguntou como eu havia dormido. Achei que dificilmente conseguiria uma noite de sono igual aquela na minha vida.

– Todo mundo já levantou e está cuidando da bagagem para a viagem – ela anunciou alegremente, estendendo-me uma xícara de leite coado. Agradeci e sentei-me ao lado do fogão, acompanhando os movimentos dela com atenção, saboreando o leite cujo sabor nem de longe lembrava o que vinha nas caxinhas que comprava no super-mercado..

– Vai mesmo deixar Tharia ir com a gente? – indaguei de repente. Pousei a xícara pela metade sobre o banco e esperei a resposta mordendo os lábios.

– Sim – ela murmurou mexendo uma panela com cuidado.

– Não tem medo, Ethel, não tem medo de deixá-lo passar fome e frio, combater criaturas assustadoras, balançar-se sobre abismos? – insisti, perguntando-me se não estava sendo petulante e curiosa demais. Ela experimentou o molho atentamente, pensando em muitas coisas ao mesmo tempo.

– Não – disse, buscando o vidro de sal, acrescentando uma pitada dele ao guizado. – E você, não tem medo de ir?

Pensei um momento. Ao lado de um fogão quente, com três ou quatro panelas de ferro cozendo e cucas assando no forno, sabendo que do outro lado da parede havia uma sala luminosa, cheia de sol e flores, nada precia atemorizante demais.

– Não sei – respondi por fim. – Acho que quando temos a barriga cheia, dificilmente nos lembramos do que é sentir fome.

Ethel olhou-me com olhos de fera de novo, brilhantes, falsos.

– Vai saber como é, muito antes do final – ela murmurou.

Beberiquei o leite, pensativamente, a testa franzida.

– Por que não fica aqui, em Arrelipe? – perguntou a mulher de repente. Senti uma dor profunda em meu coração e aterrorizada, vi que estava a ponto de aceitar o convite, de esquecer todo o resto. Adeus às florestas, às mortes que habitavam nelas. Ao desconhecido, adeus, adeus!

Ai de mim...

– Tenho de voltar para casa – murmurei.

– Aqui pode ser sua casa. Nosso lar é onde mora nosso coração, e Arrelipe e o Planalto das Colinas são lugares muito bons de se viver – ela insistiu, tapando o guisado e empurrando o panelão para o fundo da chapa quente. Acrescentou, pensativa: – Mas, talvez, seu coração não se encontre aqui...

– Você faz tudo parecer muito simples – murmurei com amarga ironia, desviando o assunto.

– E é simples. É uma questão de escolha. Sim ou não – ela murmurou. – Você deve fazer o que manda seu coração, foi o que minha matriarca me ensinou.

Olhei-a, estranhando o termo. E, de repente, num átimo, compreendi algo sobre ela.

Era uma filha de Ninir, vendida aos mercadores por sua mãe!

– Por isso confia tanto em Tharia! – sussurrei.

– Então você viu, afinal! – ela disse num sorriso. – Sim, sou filha das montanhas. Minha matriarca me vendeu à um mercador que o fez para o pai de Lexander. Sim, confio na força que ele herdou de minha raça.

– Mas, apesar de tudo, apesar de conseguir vencer a barreira das Montanhas, ele seguiria conosco e nunca mais voltaria – insisti. – Mesmo sabendo que isso pode acontecer, você vai deixar ele ir?

Ethel largou a colher com força no balcão e voltou-se para mim com medo e tristeza em seu rosto franco.

– O que está tentando fazer? – murmurou. – Assustar-me?

– Sim. O bastante para impedir que ele nos acompanhe.

– Por quê?

– Porque ele não vai voltar, aconteça o que acontecer – murmurei, tensa.

Eu sabia muito bem onde tudo iria parar: se fossemos vencidos pelas criaturas do caminho, Tharia pereceria junto. Se ele descobrisse quem era Faiald na verdade... fiz um esforço (ainda era um esforço pensar em termos tão extremos): se ele descobrisse quem era Faiald, tentaria impedi-lo de chegar ao fim da partida. Talvez os dois lutassem – mas eu não estaria exagerando, afinal de contas? Naquele momento me pareceu que sim. “Estou me deixando levar”, pensei. “Nada é tão dramático”. E então lembrei de que quando vencermos o jogo, tudo o que há no Tabuleiro se desfará.

“O que acontecerá se Tharia descobrir quem é Faiald? Tharia parece um sujeito prático. Logo verá que lenda ou não, Faiald não tem nada de místico. Depois de algum tempo compreenderá o que vamos fazer e tentará parar a gente. Um dos dois morrerá. E não creio que seja Faiald”, pensei com clareza absoluta.

– Eu não posso impedi-lo – murmurou a mulher.

– Então diga a Lexander que o faça! Ele não é o pai dele? – resmunguei, irritada.

– Ei, o que é que vocês duas estão conversando? – perguntou um dos gêmeos entrando na cozinha com um saco de viagens no ombro. Tinha os olhos negros brilhando pela oportunidade de preparar a mochila do irmão. Continuou, enfiando um biscoito na boca e espalhando farelos ao seu redor:

– Tharia pediu que a senhora acrescentasse umas frutas secas, aquelas do verão passado, sabe, mãe, aquelas!

O menino olhou para mim divertido, cúmplice de Ethel, que forçou um sorriso e acariciou-o com ternura.

– Vá buscá-las, você sabe onde estão. E não fale de boca cheia – ela disse com aquela voz de mãe que sabe que os filhos adoram subir nas prateleiras da despensa e enfiar o nariz no meio dos sacos de cereais e do cheiro de alimentos estocados. Quando ele desapareceu pela porta escura no fundo do aposento, ela olhou para mim com os olhos a brilhar como a neve no pico das montanhas.

– Lexander não pode fazer nada por ele. Nem o desejaria. Mas cuide dele por mim – pediu-me ela. – Foi a única coisa que o marido de Erni me deixou.

Estremeci da cabeça aos pés, sem entender muito bem. Mas o que ela dissera dançou por um momento em minha mente e começou a fazer sentido.

– Tharia é irmão de Lexander, por parte de pai? – gaguejei.

– Esse aqui, mãe? – interrompeu o menino entrando na cozinha com um pote marrom tampado com tecido.

– Isso mesmo – ela disse para ele, olhando para mim. O garoto desapareceu rapidamente com as frutas e o saco de viagem.

Acenei a cabeça, pálida. Não era preciso que ela me pedisse para ficar em silêncio.

Arrelipe perdera sua inocência e tranqüilidade. E eu não gostaria de imaginá-la semelhante à minha própria cidade.

Partimos depois do almoço. A tarde sobre nós era bela, com o sol enchendo-nos de leveza e vontade de andar. A comida fora farta e saborosa e provavelmente estaríamos com saudade dela antes do fim do dia.

Nossa comitiva avançou pelas ruas, atraindo olhares por onde passava. Muitas moças apareceram nas janelas, secando pratos e copos e deitando em Tharia um olhar cheio de sentimento. O mestiço montava um animal semelhante a um burrico, mas com o pelo rajado como o de um tigre. O bicho tinha as pernas longas e fortes e movia-se com graça, às orelhas em pé, e parecia muito alegre por participar de nossa comitiva. Maricota, e todas as outras cabras-de-sol, faziam ecoar seus cascos galhardamente, o que era inédito. Talvez fosse porque os gêmeos haviam escovado-as vigorosamente antes de sairmos, ajudando-nos depois a arrumar as provisões. Levávamos carne seca e salgada, cereais, os cantis cheios de água e bolsas de cerveja. Frutas e compotas e mais couros para o solo, além de peles longas para enfrentar o frio que encontraríamos nas montanhas, completavam as mochilas volumosas.

Ganhamos a estrada rapidamente. Muitos dos amigos de Tharia saíram de seus estabelecimentos sorrindo, para despedir-se dele. Diante do "Panela Redonda", um jovem moreno agarrou as rédeas do burrico, segurando com a mão livre uma garrafa de vinho que já ia pela metade.

– Vai viajar, mestre marceneiro? – ele perguntou com um sorriso para todos nós. – Vai até a Aldeia do Rio?

– Dessa vez, não, Tok – respondeu nosso guia livrando sua rédea da mão do rapaz que parou oscilando. – Dessa vez eu vou até final para ver o que há do outro lado.

Tok Disbur empalideceu:

– Está louco, meu velho?

– Vai me contar outra história de terror para criancinhas, como a da Grande Aranha ? – indagou Tharia debruçando-se irônico sobre o pescoço do burrico. Tok mordeu os lábios e empinou a garrafa, engolindo boa parte do líquido em seu interior.

– Tharia, já disse que estava lá

– Sim, foi até as tocas para ver se eram reais – contou o marceneiro. – Foi sozinho, com duas garrafas de vinho à tiracolo, e pensa que alguém vai acreditar que viu uma tampa de teia da cor da terra se abrir entre as rochas e dar passagem a uma aranha imensa, cuja barriga pululava de filhotes! Pobre meirinho, esse que caiu sobre o seu nariz!

Tok olhou-o com os olhos profundamente magoados e sóbrios.

– Digo-lhe que vi – insistiu.

– Quando eu voltar – prometeu Tharia com um sorriso – iremos juntos visitar o tal lugar.

– Nunca! Jamais porei meus pés lá outra vez! – gritou o beberrão estendendo a mão e recuando.

– E fará muito bem, se não o fizer – murmurei. – Há lugares onde a própria terra fica corrompida pelas criaturas que nela habitam.

Tok olhou-me agradecido e quase sorriu. Tharia ergueu as sobrancelhas.

– Era grande – murmurou o beberrão.

– O bastante para nós todos – completou César com um sorriso. – Não se preocupe, Tok, ela foi para noroeste e, segundo o que sabemos, seguia em frente, sempre em linha reta.

– Sobre a floresta?

– Sim.

– Então está bem.

O alívio dele foi tão grande que me senti gratificada só de vê-lo.

– Vamos andando. Adeus, Tok – ordenou Tharia, abanando a cabeça, como se fossemos todos um caso perdido. O homem acenou-nos, a medida que nos afastávamos.

– Boa viagem! Mago, élfide! Quanto a você, Tharia, espero que encontre a Grande Dama pela frente!

– Eu a encontrarei! E direi que Tok Disbur manda lembranças! – riu nosso guia. – Adeus!

 

 

FIM DA PRIMEIRA PARTE

 

 

SEMANA QUE VÊM: "A FALCOEIRA"

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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