O Jogo no Tabuleiro

- A Falcoeira -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

2.

No dia seguinte pudemos avaliar a extensão dos danos que a experiência provocara em nossa companheira. Seus cabelos haviam caído quase por completo e os belos lábios que tinha, grossos e firmes, adquiriram o terrível hábito de desaparecer boca a dentro. Ela não precisou se ver em um espelho para saber. Viu pelos nossos olhos marejados de lágrimas, pela dor de Faiald. Acenou a cabeça em silêncio e cortou o capuz do seu traje com um golpe seco de sua espada. Depois o rasgou em tiras e enrolou ao redor da cabeça e do queixo, à moda dos homens do deserto, deixando só os olhos à vista. E que olhos eram aqueles!

Márcia nem sequer encarou-nos naquele começo de manhã. Estava muito magoada, e montou em sua cabra-de-sol, colocando-se logo ao lado do irmão, muito digna. Deixamos nossa cabana de terra e magia em silêncio e foi com certo alívio que a vi desaparecer na neblina que persistia, tornando-se um vulto indistinto, e, finalmente, só uma lembrança.

A estrada começou a descer um pouco depois. O clima umedeceu ainda mais, se é que isso era possível. Deixamos as nuvens, propriamente ditas, e penetramos na área logo abaixo delas. A névoa virou garoa fina e a garoa transformou-se em chuva pesada. A água corria pelo caminho formando um regato sujo que ia devorando a terra e levando pedras de roldão, desaparecendo por baixo dos cascos de nossas cabras. Tharia olhava ao redor inquieto, tenso e lembrei-me das coisas que costumam acontecer quando chove muito na encosta dos morros: deslizamentos, avalanches, enxurradas.

– Está com medo de encontrarmos um deslizamento? – perguntei, e lembrei que fora praticamente a única coisa que lhe dissera a manhã inteira.

– Mais ou menos isso.

– Como assim "mais ou menos"? Ou é um deslizamento ou não é – impacientei-me olhando para os monólitos com mais atenção. A chuva intermitente criava a ilusão de que eles balançavam-se de leve, inclinando-se com a lentidão de todas as ilusões.

– As raízes das pedras não devem ser descobertas – ele murmurou apreensivo. – Elas podem gostar da liberdade, do movimento...

Tharia calou-se e freou seu burrico. Imitei-o, olhando para a base das pedras, agora que estávamos a pouco mais de dois metros delas e as divisávamos com mais clareza.

– O que está acontecendo? – perguntou Faiald aproximando-se a soltar a fumaça de seu cachimbo. Olhei-o de relance, me perguntando como é que conseguia manter o fumo aceso com toda aquela chuva e então percebi a terra ao redor da base das pedras revirava-se sozinha, como se uma grande toupeira estivesse cavando ali.

– O que o que está acontecendo? – perguntei para Tharia.

– Vamos andando – ele ordenou dando um tapa de leve na garupa de Maricota. – Depressa! Não parem, não parem! Depois eu explico.

Eu estava aprendendo a reconhecer aquele tom de voz bastante bem. Desviei os olhos das pedras e fiz Maricota andar mais rápido. Estava, agora, seguindo à frente do grupo e detestava isso. A chuva aumentou, o caminho tornou-se mais inseguro e Maricota escorregava, ameaçando atirar-me por cima de seu pescoço. Faiald aproximou-se de mim e vi que tinha puxado sua espingarda da garupa para frente.

– Está esperando problemas? – perguntei, tentando parecer calma.

– Estou.

– E o que será agora? – perguntei, sorrindo cínica. – Toupeiras gigantes hidrófobas?

Ele virou-se lentamente para mim.

– Talvez você tivesse dado uma boa Mestra do Jogo, Cida. Que ideia horrível!– murmurou ele vaziamente, no mesmo tom de voz de antes. Descobri que não gostava dele. Nem de sua resposta à minha pergunta. Continuei me firmando na cela, sentindo-me ensopada, olhando para o caminho e para as grandes pedras do morro íngreme, que pareciam dançar sob a chuva. Arrepiei-me. Uma delas soltou-se do solo e rolou num ângulo estranho, descendo às cambalhotas e parando, estranhamente, sobre sua base outra vez. No limite de minha visão, algo se moveu. Olhei para o lado.

Era um imenso pedregulho, cinzento como o céu acima de nós. Sob a chuva, tive a ilusão de que se sacudira como um cachorro molhado.

Outra pedra rolou, um pouco mais abaixo. Senti Maricota dar outro escorregão e engoli em seco. Desmoronamentos, pensei, então é isso! Temos de ficar atentos!

– Onde está Tharia? – indaguei, subitamente apreensiva, virando-me para trás.

Então eu vi.

O pedregulho estava se movendo de novo. Não era ilusão, não era absolutamente nada do que eu tivesse visto antes. A rocha parecia um gigante com pernas de pau. Olhei para o solo, tentando adivinhar para que lado rolaria, a fim de sair de seu caminho. Até aí eu estava assustada.

O que vi no solo me deixou de cabelos em pé.

Havia raízes na base da pedra. Raízes grossas e maleáveis como tentáculos escamados que saiam da terra remexendo-se, contorcendo-se na lama e procurando outro ponto de apoio.

Era assim que o monólito caminhava.

– Essa pedra está viva! – sussurrei paralisada de susto. Maricota sentiu me medo e olhou para trás. Soltou um guincho desagradável de pavor.

– Corram! – ouvi a voz de Tharia lá trás, perdido na chuva e nos vultos. – Corram o mais depressa que puderem!

Faiald bateu com a tira que segurava o rifle na perna de minha cabra, mas nem foi preciso, pois Maricota perdera o equilíbrio e começou a descer a encosta quase sentada. O ruivo ergueu a arma, mirou no pedregulho e disparou à queima-roupa.

Ouvi um chiado esquisito e ainda me virei a tempo de ver uma gosma escorrendo da ferida, grossa, um cheiro velho de terra queimada. A pedra estremeceu, caiu e rolou na minha direção, um barulho sem nome emergindo de suas raízes, que passaram por nós, remexendo-se enlouquecidas. Uma delas agarrou a perna de Maricota e começou a nos puxar junto. A cabra fincou os cascos dianteiros com força na lama, mas uma de suas pernas cedeu com um estalo e ela guinchou, virando de borco.

– Saia daí! – gritou Bulbo enquanto Faiald atirava noutras pedras que agora saíam da terra e avançavam em nossa direção, rolando ou correndo, equilibrando-se precariamente sobre as raízes. O problema era que tiros à média distancia não surtiam o menor efeito. Era preciso o cano estivesse quase colado ao revestimento das rochas para dar resultado. Faiald avançava e recuava, mas nem sempre conseguia chegar perto o suficiente. Eu ouvia tiros e por um instante, enquanto Maricota rolava por cima de mim, perdi por completo a noção de direção. Mas foram os estampidos que me orientaram quando a pobre cabra se foi, deixando-me só na grama molhada.

Pus-me de pé o mais depressa possível. Ficar deitada pensando em algum provável osso quebrado era, seguramente, uma tolice mortal. A estrada estava a pouco metros de mim e a tropilha, mais para cima, descendo, seguida pelas pedras que vinham caindo. Decidi que eles estavam próximos e que não me perderia com facilidade, desde que me mantivesse perto da trilha, então me virei e comecei a deslizar atrás do trilho que Maricota deixara, levada pelo rochedo. Gritos se seguiam, gritos de horror, de exaltação. Andem! ordenava Tharia e olhei para ver se estava bem, descobrindo que, embora ainda estivesse de pé, fora rodeado pelas pedras que convergiam velozmente para ele. Faiald correu em seu auxílio. Pequenas pedras voaram em todas as direções, aumentando a confusão.

Continuei avançando. A tropilha estava agora à minha direita e eu comecei a ouvir ganidos leves. Devia ser Maricota. Prossegui no tobogã de lama, deixando meus companheiros cada vez mais para trás. Escorreguei o último pedaço do caminho e contive na garganta um grito de susto.

O resto da decida, por uns bons cem metros, havia desmoronado numa profunda ribanceira. Dei alguns passos para trás, mas a trilha traiçoeira me fez escorregar de novo e deslizei em direção a queda de mais de cinqüenta metros de altura, conseguindo me agarrar na ponta de uma grande pedra que permanecia inclinada sobre o nada. Olhei para baixo, segurando a rocha com as duas mãos, tentando não escorregar na água que a encharcava.

Súbito, meus olhos deram com o corpo de Maricota lá em baixo, estraçalhada pela pedra que a arrastara.

– Droga! – exclamei, irritada. Minha querida Maricota, que eu tinha tirado há dois dias da liberdade ensolarada do Planalto das Colinas, arrastada para a morte por aquela estupidez. Praguejei de novo e comecei a lutar por minha vida. Tratei de puxar-me para cima, arquejando com o constante escorregar, sabendo que era importante alcançar os outros antes que chegassem ali e, movidos pelo calor das descida, tivessem o mesmo fim de minha montaria.

Eu me puxava e me puxava, mas não saia do lugar. As palmas de minhas mãos já estavam sangrando. Eu ouvia o som das montarias se aproximando, meus braços doíam como esforço, a água da chuva me afogava. Mais de uma vez tive de sacudir a cabeça para poder respirar direito. Fiz mais força, obrigando-me a suportar a dor que nos braços e nas mãos, para conseguir acomodar ao menos a parte superior do meu corpo na pedra cinzenta.

Foi aí que compreendi a tolice que estava cometendo, o corpo todo balançando-se sobre um abismo e eu confiando minha vida à uma rocha! Olhei para o barro com medo do que veria.

As raízes se moviam. A pedra estava se inclinando em minha direção. Na direção do abismo.

– Onde está Cida? – gritou alguém, que julguei ser Cíntia.

– Ficou para trás! – gritou Bulbo, que vinha mais à frente. Lágrimas de desespero uniram-se à água que já me dificultava a visão. Não enxergava um palmo diante do nariz!

Um choro fininho saiu de minha garganta, um choro fino e humilhante. Eu tinha consciência de cada centímetro que me separava do fundo do desbarrancado, e ele era muito, muito alto. A pedra deu um tranco. Minhas mãos escorregaram um pouco e meu corpo ficou ainda mais longe da beirada de terra e grama.

– Temos de voltar! – berrou alguém, mas eu não distingui mais vozes nem distancia. A única coisa de que eu tinha certeza era dos pingos da chuva ecoando ao meu redor, o som emergindo do fundo do buraco e aquela pedra inclinando-se lentamente como uma Torre de Pisa sádica.

– Não parem! – gritou uma voz e eu soube, de alguma maneira, que era Cezna. – Em frente, não parem! Em frente!

– Se pensa que vou deixar minha amiga para trás, ficou maluco de vez – disse a voz abafada de Edula. Estavam muito perto.

A rocha inclinou-se mais um pouquinho. A linha da terra não estava muito mais longe de mim do que meio metro. Mas para alcançá-la, era preciso soltar uma das mãos.

Eu não estava em condições de pensar nisso, o que dirá, fazê-lo!

– Não pare! Mas que droga, não podemos voltar, Cida está à frente! – replicou Cezna.

A cada frase, estavam mais próximos, mais claros. A pedra conseguiu soltar metade de suas raízes do solo firme e inclinou-se, ficando quase perpendicular à parede de barro. Mais uma daquelas e íamos parar as duas lá em baixo, ela por cima de mim. Não tinha ideia do que faziam com suas vítimas, mas não tinha a mínima intenção de descobrir. Larguei a pedra, estendi o braço e agarrei um tufo de capim. Enterrei os dedos no solo, segurando o máximo que podia nas raízes das gramas. Soltei a outra mão, fungando, chorando, praguejando, e enterrei-a ao lado da primeira, embora assim ficasse pendurada dentro do abismo. A lama escorria no meu rosto, sufocando-me. Já não era apenas água, mas terra também, terra e pequenas pedrinhas que se mexiam, como tatuíras na beira da praia.

Tentei gritar. Era urgente que eu avisasse meus companheiros do desmoronamento. Abri a boca e ela encheu-se de lama. Cuspi furiosamente, lutando com os pés para encontrar um ponto de apoio para as pernas, que permitisse empurrar-me para cima. As raízes da rocha ao meu lado escavavam a terra e jogavam a lama para os lados. Enchi os pulmões de novo e gritei, ignorando-a:

– Parem! É uma armadilha!

Esperei que isso surtisse efeito, mesmo porque era a única coisa que podia fazer. A pedra avançava lentamente em minha direção e tive de mudar minhas mãos de lugar, afastando-me dela. Suas raízes me perseguiam, tateando cegas na chuva. Quando atingiram o ponto onde eu estivera, uma delas saltou do meio das outras e só tive tempo de ver que era pontuda e granítica, porque enterrou-se fulminante na terra molhada que eu revolvera à pouco. Em seguida, emergiu do monturo como que decepcionada e desapareceu na base da rocha de novo. Ouvi um chiado surdo.

– Oh, meu Deus, oh, meu Deus! – gemi, afastando-me o mais depressa que podia, mas a terra se desfazia ao redor dos meus dedos e meus pés não encontravam apoio sólido o bastante para aliviar a pressão dos braços.

– Ouviram isso? – indagou Faiald, tão perto que me pareceu impossível que não me visse. Solucei. A boca encheu-se de lama de novo. Cuspi, enojada. A cada movimento, sentia a terra ceder ainda mais.

– Ela está bem à frente!

A pedra ao meu lado inclinava-se sobre a ribanceira num ângulo quase impossível de ser corrigido. Ela ia cair. Tinha de cair! Mesmo no Tabuleiro, as leis da gravidade funcionavam.

A pedra ia cair!

Estiquei a mão para um tufo de grama que me pareceu firme. Consegui sorrir. Icei-me, colocando a cabeça na grama. Agora estava melhor. Um pouco mais e teria os ombros à salvo. Soltei a outra mão em busca de outro ponto de apoio mais adiante.

O tufo que eu segurava soltou-se e eu escorreguei outra vez na direção do desmoronamento. Enterrei as mãos no chão com força, bem à tempo. Voltara à estaca zero.

Olhei para o lado, para ver onde estava minha inimiga. A terra debaixo dela estava cedendo, desmanchando-se lentamente. Isso mesmo, pensei, caia! Caia de uma vez!

Súbito, meu joelho bateu contra um ponto firme. Ofeguei de susto. Apoiei o pé, aflita, e me empurrei para cima. Consegui colocar meu torso no gramado com um gemido de triunfo. Avancei uma das mãos, enterrando-a outra vez no solo. Olhei sobre o ombro

Gritei.

Uma das raízes avançou para mim numa tentativa desesperada que a rocha fazia para recuperar o equilíbrio, mas era tarde demais para ela. A pedra atingira uma inclinação tal que não podia mais alterar, se não pudesse se dobrar como eu. Engoli em seco, tirando-a de minha mente. Já não era uma preocupação. Ela ia cair e eu só tinha de içar-me mais um pouquinho e depois procurar meus amigos.

Nada com que me preocupar.

Nada?

O grito foi mais alto do que a chuva, do que o chiar indignado da criatura. Uma das raízes alcançou minha perna, enrolando-se nela com força, transformando-me num pedaço de carne e dor. Não era apenas a pressão desgraçada ou o peso que ameaçava arrancar minha perna pela articulação. Era mais do que isso. Era como fogo injetado nos músculos, impedindo qualquer movimento. Gritei de novo. E de novo. Meus dedos se soltavam espasmodicamente da terra. Com o canto do olho vi uma das raízes pontiagudas subir na direção do meu dorso.

– Calma, Cida, a ajuda chegou!

Súbito, ouvi um estampido. Alguém agarrou minhas mãos e eu percebi que estava de novo com o corpo todo no abismo, sustentada apenas pelas mãos que agora me erguiam com força. Alguém me agarrou pela cintura. Eu chorava. Não sentia minha perna direita. Meus braços estavam dormentes, minhas costas eram uma dor só. Sentaram-me na garupa de um animal e um par de braços me rodeou, puxando-me com força contra algo quente e firme que eu não sabia o que era.

– Procure acalmar-se, você está à salvo! – disse a voz baixa e grave de Tharia junto do meu ouvido.

Obedeci com um aceno. Aos poucos fui parando de soluçar, olhando para a estrada que desmoronara e percebi que estava viva. A palavra "salva", começou a fazer sentido em minha mente.

– Você fica uma graça com essa máscara de lama, sabia?

Pisquei e olhei para frente. Cezna estava sentado no pescoço do burrico de Tharia, com um sorriso aliviado no rosto.

– Como você é engraçadinho – repliquei, tentando parecer calma, mas o tremor da minha voz me traiu.

– Em frente – comandou César. Eu olhei para diante.

Meu amigo fizera uma ponte de terra, de lama e dos restos do que fora a estrada. Tharia bateu com força nas ancas do burrico e ele correu por cima da estrutura bamboleante que se desfazia à nossa passagem, seguido dos outros. César e Faiald ficaram por último, assegurando a retirada.

– Não parem! – berrou o ruivo, tão logo tocamos o outro lado. – Não diminuam a velocidade!

– Se eu for mais rápido, vou acabar descendo às cambalhotas – gritou Márcia em resposta.

Continuamos a louca corrida. Às vezes nossas montarias desciam sentadas, saiam da estrada e ameaçavam levar-nos junto. Depois de algum tempo, porém, a chuva começou a diminuir e a terra estava mais firme do que antes, não mais permitindo o movimento das raízes de pedra. Além do mais já víamos o fundo do vale, coisa que nos deixou muito aliviados. Diminuímos um pouco a corrida e continuamos até que a noite caiu e os globos luminosos das cabras se acenderam silenciosamente na escuridão.

Nosso animais seguiam caminho, cansados. Parara de chover, embora o céu nublado não mostrasse nenhuma estrela para animar-nos. Ali embaixo o ar era mais pesado, carregado de outros cheiros que não os do Planalto, nem da Floresta. Faiald sugeriu que acampássemos e olhando para as caras tristonhas das pobres cabras, com um ar tão exausto quanto o nosso, achei que o pedido era mais do que justo. Mas Cíntia murmurou, maneando a cabeça numa negativa:

– Eu não conseguiria dormir tão perto daquelas coisas, me desculpem.

César e eu éramos os únicos que não tínhamos deixado a garupa de nossos animais. Ele balançava junto com o passo da cabra, exaurido pelo esforço de criar a passagem para nós. Perguntei-me como sabia de tantas coisas. Depois meu corpo reclamou minha atenção. Minha perna formigava e meus braços agora doíam em ondas.

– Precisamos de descanso – murmurei. – Ninguém aqui está em condições de continuar caminhando a noite inteira.

– Vamos pelo menos comer alguma coisa – disse Faiald puxando seu animal cinzento para fora do caminho. – Depois resolveremos o que fazer.

Obedecemos sem nenhum comentário. A refeição foi fria e sem gosto, e ainda assim precisamos de um enorme esforço de boa vontade para voltar à estrada. Insisti em caminhar. O burrico de Tharia parecia capaz de ter um colapso se eu andasse mais tempo em sua garupa. Cíntia caminhava atrás de nós. Mais atrás, vinham Faiald e Edula, lado a lado. Bulbo caminhava lentamente, entre eles e Cíntia. Tharia, que tomara a frente do grupo outra vez, caminhava ao meu lado em silêncio me apoiando quando eu tropeçava. Mas com o exercício, a perna logo melhorou.

Alguns quilômetros longe do sopé da serra, depois de contornado o último vulto delineado da serra, nos encontramos em pleno vale. Aí paramos. Uma tempestade de raios vermelhos e trovões rimbombantes se desenrolava na direção que Tharia nos disse encontrar-se o mar, desenhando o vulto da serra que interpunha-se entre nós e o oceano. Paramos exaustos. A garoa recomeçou, fria, miúda, mas tivemos de dormir ao relento mesmo. Como uma manada de uma só espécie, nos reunimos todos, homens e cabras, num pequeno espaço. Elas se deitaram ruminando os pedaços de capim ao alcance de suas bocas, iluminando nosso acampamento miserável.

– Estou exausta – disse eu, lamentando que não pudéssemos acender uma fogueira. Tharia livrara-se da lenha para não sobrecarregar o burrico. Apoiei a cabeça no ombro mais próximo que era, por coincidência ou não, o do nosso guia.

– Foi uma sorte que você visse o desmoronamento a tempo – comentou Cíntia, meio deitada no colo de César, que cochilava, apoiado na irmã.

– Sorte, nada – resmunguei. – Fui atrás de Maricota. Aquela maldita pedra arrastou-a consigo. Sorte foi Cezna ter me encontrado em cima da hora. Cezna, você parece a cavalaria americana. Que tal melhorar seu tempo?

– Se você ajudar – respondeu meu amigo com o queixo enlambuzado com alguma fruta que estava comendo.

Eu não entendi o que queria dizer e estava muito cansada para decifrar seu comentário.

– Eu queria que vocês não ficassem falando nas coisas de casa – murmurou Márcia, tristonha. Fiquei em silêncio, e baixei o olhar. Lembrar de casa, àquela altura dos acontecimentos, era a pior coisa que poderíamos fazer.

– O que eram aquelas pedras? – indagou Edula através do pano, apoiada contra sua cela.

– Senhores da Casa Cinzenta – respondeu Faiald ao seu lado, sonolento. – Eles tentam impedir que avancemos, sempre.

– Eu não pensei que isso incluísse nos matar – resmungou a guerreira, franzindo o sobrolho.

– A ordem é não deixar passar, custe o que custar – respondeu Bulbo, deitado aos pés do ruivo, apoiando a cabeça neles. – Depende do que a Mestra do Jogo nos reserva.

– Jogo? De novo essa história? – perguntou Tharia. Senti seu ombro tenso, debaixo da minha orelha.

– Dificilmente os nativos sabem o que se passa na realidade – murmurou Bulbo. – Nossas vidas correm aquém desses conhecimentos.

– Vocês falam da terra como se ela pensasse – perturbou-se o marceneiro.

– Clara, a Mestra do Jogo faz mais do que pensar – murmurei. – Ela planeja, maquina, arma armadilhas e está em toda parte. Por todos os lados. Sabe o que dizemos, o que pensamos, o que sentimos. Porque agora que nos alimentamos dos alimentos que ela nos deu, ela está em nosso sangue, em nossa carne, ela é nós e nós somos ela.

– Que coisa mais mórbida – reclamou Cíntia, levantando a cabeça. – Se não tem nada melhor para dizer, fique quieta.

Silenciei. Estava quase adormecendo no ombro de Tharia, quando Edula perguntou:

– Faiald, você não encontrou as pedras quando foi ou voltou da Ronda?

O ruivo remexeu-se.

– Não... isto é.... sim, eu as vi movendo-se, mas não se aproximaram – a voz dele soou falsa mesmo para mim.

– Sorte a sua – murmurou Tharia.

– É, eu sou mesmo um rapaz de sorte – completou o ruivo.

Aí perdi o restante da conversa, porque mergulhei num sono pesado, cheio de pesadelos. Eu estava nadando num lago onde chovia e chovia, e era arrastada para o fundo por uma enorme pedra que cavalgava Maricota.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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