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O Jogo no Tabuleiro - A Falcoeira - |
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A Falcoeira Capítulo 3
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3. Àqueles que acreditam que depois de uma noite de sono as coisas tendem a parecer melhores do que no dia anterior, aconselho-os a passar uma semana no Tabuleiro. Descobrirão que alguns ditos populares não têm o menor vínculo com a realidade. Acordei molhada, espirrando como um gato sob um céu cinzento que ameaçava despejar outra chuvarada sobre nós. Sentei-me e olhei ao redor. A pele de meu rosto repuxava e passei os dedos na face, descobrindo que ainda estava coberta de lama. Márcia estava desperta e os outros ainda dormiam. Estremeci e ergui-me. Queria mexer-me, esquentar-me um pouco e verificar se minha perna ainda funcionava de maneira aceitável. Amaldiçoei os espirros e o nariz entupido. A última coisa que desejava era arranjar uma gripe naquele desolado, longe de qualquer cama, casa ou calor. – Tem um riacho mais adiante – disse-me Márcia levantando os olhos para mim. Havia chorado. Seu rosto estava inchado e vermelho, os olhos injetados. Senti pena dela e raiva de mim mesma. Por que tinha dito aquelas tolices no acampamento, dois dias antes? – Márcia, quero pedir desculpas, está bem? – disse, sem jeito. – Acho que passei dos limites dias atrás. A garota me fitou furiosamente. Onde estava a menina que amava as músicas do Gil e sempre falava como uma gata? Aqueles olhos selvagens, aquela face de pedra, aquela não era Márcia, a minha amiga que sorria diante das piadas mais sem graça que Eneias contava. – Passou – disse, secamente. – Olhe, precisamos nos manter unidos – sussurrei. – Senão não vamos chegar a lugar algum. – É por isso que está pedindo desculpas? – ela redarguiu prontamente, muito séria, muito amarga. – Acha que isso vai resolver a situação? Você não me perdoou, Cecília. E se não sairmos daqui, nunca vai me perdoar por eu ter tocado aquela campainha. Nenhum de vocês. – Ora, vamos, não seja melodramática – disse eu, chocada com o tom de voz dela. – Não seja fingida! Não você – ela pediu, interrompendo-me. – E não se preocupe. Vou tirar todo mundo daqui são e salvo. Todo mundo. Mas quando sairmos, aí eu não vou querer mais ver vocês nunca mais. Nenhum de vocês. Fitei por alguns momentos seus olhos em fogo, como se quisesse me convencer de que estava diante da mesma pessoa, procurando-a em algum lugar e não a encontrando. Dei-lhe as costas e caminhei para o campo, em busca do regato. Um vento vindo do leste balançou minha capa úmida e agitou as hastes verdes que me rodeavam. Olhei ao redor, para a planície longa e plana como uma mesa fértil, para a serra à frente, sentindo as montanhas e a solidão como que passando através de mim, altas o suficiente para tocar os portões do céu. Mais tarde, naquele dia, quando já estávamos montados e alimentados, embora não mais secos do que quando tínhamos nos levantado, encontramos um cavaleiro que vinha na direção contrária a que seguíamos. Espiei sua figura exótica por trás das costas de Tharia, que me dera carona na garupa do seu burrico. O homem montava uma criatura bizarra, uma espécie de pequeno elefante, com a tromba mais larga e curta do que aqueles que conhecíamos, e com a boca em sua extremidade. Vestia-se quase como um guru indiano e era muito magro. Confesso que fiquei com medo de aproximar-me dele: o homem levava em sua cintura uma cimitarra que reluzia mesmo sob as nuvens. Tharia, porém, sorriu de minha paranóia e aproximou-se dele, saudando-o. O sujeito deteve o pseudo-elefante, e virou-se para nós, erguendo as sobrancelhas. – Ora, peregrinos! – ele murmurou prendendo os olhos em alguém, atrás de nós e mudando a expressão. Imaginei que fosse em Cíntia e seu vestido rasgado, ou Márcia. – Pode nos informar a quantas léguas se encontra o caminho para a Ronda da Eternidade? – indagou o marceneiro. – Uma ou duas, bem à frente – disse ele, ainda olhando para além de nós. – A que casa o senhor pertence? – indagou Faiald petulante, aproximando-se. Estranhei o tom de voz. Nem com Erni falara daquele modo. Percebi então, pelo movimento dos olhos do homem, que ele vigiara Faiald o tempo todo. Apertei a cintura de Tharia com medo. O homem estremeceu e fez uma careta de raiva. – Eu pertenço à Casa Vermelha, senhor – disse, entredentes. – Vocês já se conhecem? – perguntou nosso guia com ingenuidade. – De vista. Pensei que o tivesse visto a perseguir Eneias quando o encontrei e o levei até a Ronda, mais ou menos nessa altura do caminho – replicou Faiald postando-se ao nosso lado. Seu olhar arrogante era um afronta. Era um olhar de desprezo, uma bofetada no rosto sério do homem do pseudo-elefante. – Vai nos perseguir também? O sujeito mordeu os lábios, irritado, o ódio carregando os olhos cinzentos. – Não senhor, sabe que não posso fazê-lo – replicou ele acariciando o punho do sabre. – É bom que saiba o seu lugar – murmurou Faiald debochado. – Sim, senhor – mastigou o outro. – Saia daqui – ordenou nosso amigo. – Sim, senhor, é um prazer cumprir tal ordem, senhor – replicou o homem, tocando o meio da testa com os dedos indicador e médio da mão direita e baixando o rosto. Em seguida, obrigou o animal a entrar no campo numa corrida. Faiald ficou olhando para ele até que se perdeu no capinzal e na distancia. – O que foi isso? – indagou Tharia ainda espantado. O ruivo deu de ombros, enfadado. Fez um gesto vago. – O que está acontecendo? – indagou Edula aproximando-se. – Encontrei esse mercador quando trouxe Eneias. O Trovador havia cantado uma canção no acampamento dele que ofendeu quase todo mundo e eles o perseguiram. Lutei com o chefe do grupo e conquistei o direito de duas horas de vantagem para o Trovador, antes deles saírem em nossa perseguição. Em outras palavras, matei-o. Desde então a tribo me considera tabu e nenhum deles tem o direito de ficar diante de mim. Faiald encolheu os ombros diante do olhar desconfiado de Tharia. Bulbo, em sua garupa, sacudia a cabeça, desaprovadoramente. – Você não estava junto, Bulbo – disse ele, pegando fumo para seu cachimbo. – Que pena – replicou o baixotinho. – Se estivesse, talvez você não cometesse semelhante tolice. – E Eneias teria morrido! – grunhiu Damin. – Mais um de minha raça! Você deve estar brincando! – Não sabemos se os jogadores morrem, de fato – observou o gnomo. – Eu deveria arriscar-me? Avançou com sua cabra-de-sol, alguns metros diante de nós. Tharia deu rédeas ao burrico, irritado, desconfiado. Passei por Edula e trocamos um olhar demorado. Continuamos a caminhar e por um bom tempo, nenhuma palavra soou entre nós. O tempo começou a mudar. O vento que eu sentira na distância empurrava as nuvens para cima e afastava as chuvas, fazendo-a despejar-se contra as paredes da serra que deixáramos para trás, uma cortina cinzenta que ocultava-nos parte das paredes verdes à esquerda da paisagem. A estrada, naquele ponto, dividia-se em duas. O caminho que seguia à esquerda era mais estreito e dirigia-se para os reflexos de um rio que apenas entrevíamos desde onde estávamos. A estrada fazia uma grande curva antes de atravessá-lo, contornando um pântano cheio de flores amarelas e pássaros brancos e vermelhos. Paramos para almoçar. Aproveitamos o descanso para conversar sobre distancias e tempo. Cíntia achou que a lama que ficara toda a noite no meu rosto dera-me um ar saudável, embora eu duvidasse, pois me sentia péssima, espirrando o tempo todo. César também estava gripado. Fazíamos uma bela dupla de fanhosos. – Por que o mercador estava desgarrado? – perguntou Tharia de súbito. O silêncio foi quase imediato, culpado demais para passar por inocente. Faiald, do outro lado da roda, tirou o cachimbo da boca. – Como posso saber? – Você parece saber muito sobre eles... – sorriu Tharia suavemente. Falsamente. Estremeci e mordi os lábios. – Os mercadores, meu caro Tharia, andam aos bandos, assim como os Bins, as filhas de Ninir e a colônia de aranhas da Grande Dama. Quando um mercador está sozinho, isso geralmente significa que foi expulso do grupo por roubo ou porque se atreveu a amar uma parente consanguínea, entre as quais se incluem as cunhadas, ou, ainda, se matou alguém à sangue frio. Adultério, da parte masculina é punido com o exílio também, e por parte feminina, com a morte, geralmente provocada pelo pai ou o irmão maior da vitima, uma vez que o patrimônio da família do marido muda de mãos por ocasião da boda e o adultério obriga a família da noiva a devolver o dote. Mas se o homem ficar viúvo antes de provar o adultério, a família da mulher não precisa devolver nada – explicou Faiald com ares de professor. O topete vermelho dele mexeu-se de leve com o movimento que fez com a testa. – Eles também vagam sós quando seu bando é exterminado – completou Tharia, no mesmo tom de voz. Damin encarou-o em silêncio durante alguns segundos. – Está me acusando de ter morto, sozinho, todo o grupo daquele homem? – indagou com um sorriso frio. – Não estou acusando ninguém de nada: apenas fiz um comentário. Você é quem está dizendo isso – murmurou nosso guia, tenso. – Cuidado com o que fala, filho de uma Filha de Ninir – rosnou Faiald voltando a pôr o cachimbo da boca. Vi Tharia empalidecer violentamente, vi os olhos tingirem-se de azul escuro, furiosos, assassinos. Sim, ele tinha o sangue da mãe correndo sob a pele, muito pouco diluído no sangue de seu pai, quem quer que fosse ele. O ar parecia carregado de eletricidade, abafado, mesmo no descampado. Um zumbido tomou conta de meus ouvidos. Olhei para o marceneiro, pensando que ele saltaria contra a garganta de Faiald e que nossa viagem terminaria ali mesmo, mas, de súbito, compreendi o que era aquele bailar louco de forças ao meu redor. Pura magia. – Onde está Cíntia ? – perguntou Cezna interrompendo a discussão em ritmo de guerra fria. – O quê ? – gemeu Márcia. – Outra vez? – indagou César. Olhei para Edula e a vi pálida por baixo do pano escuro. Entretanto, logo encontramos uma pedra gravada com o símbolo de uma Casa de Lícora e relaxamos um pouco. Bulbo atiçou o fogo e ninguém disse nada. Foi uma longa espera, ou pareceu que fosse assim. Finalmente minha amiga materializou-se de pé, junto ao acampamento, com os olhos brilhando pela lembrança de alguma coisa que vira. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos e Edula saltou para ela abraçando-a com ternura. – Deixe-me – pediu a mercadora com suavidade. – Eu estou bem, juro que estou. – Onde esteve, Cíntia? – perguntou César inclinando-se para frente, pálido. – Não saberia dizer. Não consigo. Só sei que era lindo! – exclamou ela, emocionada. – Nunca via nada tão bonito. – Eu não vi nada de tão espetacular – disse Márcia, seriamente. – Mas era! Ah, meu Deus, era! – ela sussurrou. – Só que não posso mais voltar lá. Ajoelhou-se diante do granito na terra e acariciou a letra gravada nele com suavidade. – Apenas uma vez na vida, num momento qualquer, sem que esperemos, sem que estejamos preparados – sussurrou. – Só uma vez, verdadeira, única e absoluta. – O que você trouxe de lá? – indagou Bulbo com suavidade, segurando-lhe as mãos. Mas se a experiência maravilhara Cíntia, não a mudara. A loira puxou as mãos com força e apertou-as fechadas junto ao peito. Depois puxou um cordão de ouro do decote e mostrou-nos, uma pedra multicolorida, que brilhava com uma inigualável beleza. – Uma Gema das Mil Cores – murmurou ela, outra vez admirada com aquilo. – Duas chaves – disse Faiald com um suspiro de alívio, olhando para todos nós. – Meus caros jogadores, só faltam cinco delas. Uma para cada um de nós. Engoli em seco, encolhendo-me sob a capa molhada. Cinco chaves para chegar ao final do jogo. Cinco chaves para que aquele lugar fosse destruído com todas as suas feiúras e belezas. Uma delas seria minha. Minha casa do Destino. Qual seria? Só de pensar nisso eu sentia tal pavor, que teria feito qualquer coisa para evitá-la. Inclusive não retornar, se esse fosse o preço. Voltamos a caminhar por mais uma ou duas horas, até que chegamos ao rio e à ponte que o atravessava. O curso d’água, chamado Rio Burto, estava fora de seu nível, por causa das chuvas na encosta das serras. As águas furiosas haviam arrastado parte da estrutura que ligava a estrada a uma grande ilha no meio da corrente. Apenas três dos cinco pilares que faziam parte da passagem original haviam sobrevivido, e apenas duas arcada ainda se alçavam inteiras, a terceira terminava no vazio. A ilha era nosso objetivo. O primeiro pilar ficava a pouco mais de cinco metros da margem, mas estava ilhado. Fiquei pensando em como atravessar a torrente que rugia contra as pedras, espumando, devorando pouco a pouco a firmeza dos sustentáculos. Faiald também avaliou a situação e murmurou: – Vou atravessar o rio e buscar Eneias. Olhei-o sem compreender muito bem. – Sozinho? – perguntou Edula, também incrédula. – Claro1 – confirmou o ruivo. – Que beleza! – explodiu ela. – Andamos todo esse tempo para você fazer uma coisa que poderia ter feito sozinho! Diga-me, não poderia tê-lo feito noutro dia? Não podia ter pego aquele bobalhão e depois ter ido nos chamar para terminar o jogo? O ruivo nos encarou um por um, tenso, e molhou os lábios. – Vou buscá-lo agora. – Quanta besteira – comentei irritada, tirando a corda da garupa do burrico de Tharia. O ruivo tirou-me a corda das mãos e enrolou-a com força na cintura. – Vocês querem o seu amigo de volta, não querem? – perguntou sério, enfrentando o olhar da guerreira. – É claro que sim. Foi para isso que viemos! – murmurou Márcia. – Não foi – objetou Edula. – Isso foi uma desculpa para nos trazer aqui. Faiald nos trouxe para vencer o jogo, por que cada um pode entrar apenas uma vez numa casa do Destino, está lembrada? Somos apenas peões nesta brincadeira virtual. Faiald tirou a camisa e as botas sem responder. Depois estendeu a espingarda dupla para a moça. – Se eu tivesse simplesmente pedido, vocês teriam vindo? Será que teriam se aventurado com um estranho e depois se arriscado tanto por ele para que ele ganhasse a liberdade e pudesse salvar sua irmã? Edula ficou encarando-o por um longo tempo, depois pegou a arma lentamente e falou com a voz firme mas cheia de um estranho alívio: – Não, acho que não teríamos feito nada. Mas já faz algum tempo que não somos mais estranhos, Damin. Poderia ter nos contado suas verdadeiras razões. – Bom, agora vocês já sabem – ele disse e jogou-se na água revolta. Minha a amiga apertou as mãos ao redor da arma. – Segurem a ponta da corda – disse César pondo mãos à obra. A fibra esticou-se, enquanto o ruivo lutava com longas braçadas contra a correnteza. Pouco depois, ele chegou ao primeiro pilar e galgou-o com destreza, parando um pouco para descansar. Finalmente acenou e jogou-se outra vez na água. – Nesbex nos avisou a seu respeito – murmurou Edula ao meu lado, tristemente. Suspirei e olhei para onde ele desaparecera, pensativamente, indagando-me até onde ele nos contara a verdade de novo. Dissera que conhecia o caminho, quando na verdade não o conhecia. E estava certa de que a história do tal mercador não era bem aquela que tínhamos escutado. Cezna voou por cima da água, dizendo que ia acompanhar as braçadas do ruivo e eu desejei-lhe boa sorte. Dei as costas para o grupo e caminhei, distraída, ao longo do rio. Descobri em seguida um remanso das águas, bem onde terminava o círculo de correntes que contornava a ilha. A água ali era clara como um espelho, limpa, e apesar da ideia ser um pouco impulsiva, resolvi no mesmo instante tomar um banho. Olhei para os lados e vi que os rapazes estavam ocupados com a corda. O remanso ficava abaixo do nível da margem e não hesitei em descer e livrar-me das roupas úmidas, estendendo-as sobre um arbusto enquanto experimentava a água gelada do rio. Estremeci ao tocá-la, mas caminhei resoluta para dentro dela. Não era minha intenção nadar, por isso me abaixei, lavando-me rapidamente. Era uma delícia sentir a água correndo na pele depois de dois dias de mormaço obrigatório dentro das roupas úmidas. Meu nariz escorria com insistência medíocre e eu às vezes ficava febril. A água era uma carícia fria e viva. Sentia-me levar pela sua fluidez, tornar-me luz e água em seu próprio ambiente. Não havia mais Cecília. Eu era agora uma corrente de água, uma forma líquida e estranha, um raio de luz aprisionado nas ondas e no toque frio. Peixes e animais moviam-se ao meu redor. Eu era como eles, parte daquele mundo mágico, misterioso e belo que era o Tabuleiro. Lama em meus pés: terra mística. Água em meu corpo: sangue puro, limpo de todas as tristezas, de todas as fúrias, de todo o medo. Mergulhei a cabeça no rio para molhar o cabelo e em seguida ergui-a, balançando-a de um lado para o outro, sentindo os cabelos pesados com prazer. – Ei, meninas! – gritou então uma voz alegre e conhecida. Levantei-me apressada e olhei para dentro do rio. Dois vultos aproximavam-se da margem, firmemente agarrados um no outro. Um deles era Eneias. Me sacudi como um cachorro, esfregando minha pele com força para tirar o excesso de água, depois me apressei para me vestir e corri ao seu encontro. O reencontro é uma coisa difícil de descrever com palavras. Rever Eneias foi maravilhoso. Tornar a abraçá-lo foi abraçar o mundo conhecido outra vez. Saber que ele não estava ferido, nem tinha cicatrizes visíveis, era descobrir que era possível sobreviver ao Tabuleiro e sair dele. – Que alegria ver vocês! – ele exclamava abraçando-nos. – Pensei que nunca mais os veria! Estávamos emocionados demais para falar. Márcia engolia as lágrimas, mas elas teimavam em escorrer e Eneias secou-as com a ponta molhada de sua capa, dando-lhe um beijo de saudades e amor como não seria possível fora do Tabuleiro. César protestou um pouco, mas não foi de verdade. – Querida Márcia – sussurrou o Trovador, abraçando-a. – Desculpe-me. Minha amiga o abraçou e nada disse, emocionada demais, alegre demais. Que importava a Grande Dama, Nesbex e as rochas? Que importava a Ampulheta? Naquele momento, nada daquilo significava coisa alguma, nada daquilo tinha qualquer importância. Sentamos para conversar. Do violão de Eneias sobrara apenas um pedaço, que lhe pendia da cintura amarrado por um cordão azul. Fiquei imaginando o que acontecera, ouvindo a voz dele como quem bebe um vinho doce, ou descansa com os pés esticados para o fogo depois de uma longa viagem. Observei os demais com atenção. Márcia perdera sua suavidade, César tinha um ar cansado e Cíntia, embora feliz, estava abatida. Cezna era o único que mantinha a vitalidade. E Edula, cujos olhos brilhavam por cima do pano negro. Eneias nos contou todas as aventuras pelas quais havia passado desde que começara sua partida – e não eram poucas! O grupo de jogadores a que pertencera estivera composto de dois místicos, um casal metido a yogue, uma viciada em drogas e um poeta. Aparentemente, o primeiro as sofrer as consequências tinha sido um dos místicos, que enlouquecera ao chegar e se perdera na floresta, aos berros. Segundo nosso amigo, seu grupo não primava pela união. O casal de yogues, Patrícia e Leo, tinham se mantido na beira da estrada, esperando um ônibus, como o outro jogador de que o Damin nos falara, o que morrera durante a tempestade de neve. Me chamou atenção essa tendência de algumas pessoas de ficar esperando que aparecesse um ônibus, na ânsia vã de que a sensação de estranheza que nos assaltava a todos no início do jogo, fosse apenas uma confusão passageira. Achei graça, mas fiquei calada. O que havia restado do grupo seguira caminho, mas próximo a Arrelipe haviam se dividido: um dos místicos, um sujeito chamado Romualdo, partira sozinho para o leste, enquanto que os outros quatro seguiam até a vila. Uma vez ali, foi Eneias que decidiu ficar, enquanto Teodoro, o poeta, e Lúcia, a alquimista (pelo visto, ela havia recebido o dom de fazer misturas com ervas e outras substâncias, o que lhe permitia compor alucinógenos que, aparentemente, a ajudavam a adaptar-se ao Tabuleiro, melhor que qualquer um deles) seguiam caminho até as montanhas. Eneias nos contou que se manteve fazendo serenatas a pedido das pessoas e tocando seu violão na praça, até conseguir um pouco de dinheiro, e que só depois disso decidiu continuar. Foi na descida da serra que seus problemas reais começaram, ao deparar-se com um acolhedor grupo de mercadores, que lhe permitiu seguir junto até a planície. Antes de despedir-se, o Trovador tocara uma canção para a filha do chefe do grupo. – Que bobagem foi aquela! – ria ele. – Nunca vi uma turma mais enfurecida na minha vida, e por tão pouco! Pensei que não ia conseguir escapar. Fim do jogo para Eneias, o Trovador! Parou de falar e abanou a cabeça. – Foi aí que apareceu Faiald, vindo das montanhas. O ruivo já estava seco e vestido, e acendeu o cachimbo com um olhar satisfeito. Porém, Cíntia franziu o cenho como costumava fazer quando púnhamos para rodar algum DVD cuja história não conseguia acompanhar. – Espere um momento – disse, fazendo um gesto vago, como se pudesse deter o tempo. – Então, Faiald não veio com você até aqui embaixo? Eneias franziu a testa tentando lembrar algo. Cíntia continuou, voltando-se para nosso guia, que parecia duplamente interessando no cachimbo: – Porque lá na toca de Bulbo, Faiald, você nos disse que quando o grupo de Eneias apareceu, você hesitou em seguir com eles. Mas, deixe ver se entendi bem, se você estava aqui quando Eneias o encontrou, então é porque não estava no planalto quando os jogadores chegaram. Se eu entendi a história, você não teria chegado a tempo para acompanhar o grupo. Não é? Então onde você estava? Entremeci. “Muito bem, Cíntia, para uma vez que você encontra o furo do argumento, tinha que ser logo essa?” pensei. Olhamos todos para Faiald, que acendia o cachimbo com lentidão, esperando que ele se desmentisse de uma vez. – Eu disse isso? – indagou. César suspirou. Eu suspirei. Edula seguiu atentamente o vôo de um pássaro. Cezna pousou no meu ombro e murmurou sem mover os lábios: – O que ele está fazendo? Faiald olhou para cima e soltou uma baforada de fumaça azul. – Devo ter me confundido. Eu, de fato, não estava no Planalto quando o time de Eneias chegou. Eu só o encontrei aqui. – Mas... – recomeçou a loura teimosa. O que viria a seguir? “Mas, como é que os jogadores sabiam o que era isso tudo e não enlouqueceram como os demais? Mas, como é que os jogadores como conheciam as regras? Porque Bulbo lhes explicou, porque essa é a função de Bulbo no jogo – de modo que no fundo, não podemos confiar nele? E o que aconteceu com Leo e Patrícia? Por que ninguém os levou até o abrigo de Bulbo antes que congelassem? Porque Clara elimina, sistematicamente os jogadores que se recusam a jogar? Mas, por que então nos deu a opção de escolher? Por que não nos disse isso logo? Porque na verdade não está tão interessado assim em vencer o jogo, e muito mais em jogá-lo? Mas do que se trata tudo isso, afinal de contas?” Tudo isso teria vindo a seguir, e talvez agora mesmo algumas coisas fossem diferentes. Mais honestas, digamos. Porém o Trovador a interrompeu animado, bem mais animado do que estaria, se estivesse simplesmente contando-nos o que tinha acontecido. – Bom, como eu disse, Faiald conseguiu me trazer até a Ronda da Eternidade! Foi aos trancos e barrancos. Eu estava histérico, tinha quebrado meu violão na cabeça de um dos mercadores e torcera um pé. Uma companhia estúpida, eu diria. Atravessamos a ponte até a ilha com os mercadores em nossos calcanhares... – Que ponte? Essa daí? – interrompeu Cíntia de novo, incrédula. Eneias deu de ombros e olhou para Faiald rapidamente. Puxou a mão para junto dos lábios e roeu a unha do indicador. – Er... estava inteira, quando passamos... – O que aconteceu então? – indagou Márcia. Eneias voltou-se para ela e sorriu, os cantos da boca tremendo ao redor do dedo. Afastou a unha, observou-a, cuspiu o pedacinho que tinha arrancado e continuou: – Quando estávamos no meio do caminho, Faiald fez algo de herói. De herói de verdade! Ele parou no meio dela, no meio da ponte, entendem, diante de toda aquela gente furiosa, sacou a espada e deu meia volta. Meia volta! E me mandou correr, pôr-me a salvo! Que coragem, Faiald, fala sério. Acho que não cheguei a agradecer-lhe de verdade. Muito obrigado, devo-lhe a vida. – Ora, não foi nada. Bem, era isso o que ele tinha de dizer e era isso o que a gente devia ouvir: “você salvou a minha vida”. Agora, pronto, tinha dito, missão cumprida. Me senti traída, bem mais traída do que se ele fosse meu namorado e estivesse saindo com outra garota. Ele era nosso amigo e no entanto, estava mais interessado em cumprir o combinado com Faiald do que em qualquer outra coisa. Por quê? A única resposta lógica parecia ser: porque Eneias tem medo de Faiald. O que me levava a pensar que ele não era tão confiável assim, que ele podia, sim, fazer mal a um de nós, um dos da sua raça, como ele dissera na casa de Erni. Um silêncio pesado abateu-se sobre nós. – E você fugiu quando ele mandou? – perguntou Cíntia decepcionada. Eneias enrubesceu. – Eu não tinha outra saída, entendem? – E Faiald impediu o avanço dos mercadores, sozinho? – ela continuou. A voz tinha um tom quase infantil de admiração, mas os olhos procuraram a figura do Damim com algo mais do que frieza. Poderia ser medo? – Sim, sim! Não é simplesmente genial? Algo de filme, de histórias em quadrinhos! Não, não havia alegria na voz do Trovador. Havia um tom desesperado por baixo das notas agudas que imitavam risadas. Desviei os olhos entristecida. – E, depois, você falou de nós para Faiald – concluiu César sem expressão. – Bem, sim, desculpem-me. Se é verdade que estou muito feliz de vê-los, também é verdade que não me agrada nada saber que vocês vieram até aqui por minha causa. O Tabuleiro é... é um horror em cima do outro! Um pesadelo sem fim! – Não se preocupe! – disse Márcia abraçando-o. Era a única que parecia não ter ouvido nada do que ele dissera. – Não nos importa nada, de verdade! Estamos muito felizes de que esteja vivo! – E o que você andava fazendo por aqui na ocasião? – perguntou César para Faiald. – Vocês não esperavam que eu passasse todos os meus dias no Planalto, não é ? – resmungou o ruivo. – Além disso, quando soube que haviam chegado novos jogadores, voltei imediatamente para procurá-los. – Eu pensei que você estaria esperando por eles lá no início... Você nos disse que depois de perder o terceiro grupo, havia voltado para a toca, a fim de se curar – observou o mago. Outra vez ficamos em silêncio, esperando que ele nos dissesse algo em que acreditar. – Tenho outras coisas para fazer além de esperar novos jogadores. Eu me curei, depois sai de viagem. Isso é um interrogatório? Se for, eu vou querer um advogado – grunhiu Faiald, descaradamente. – Você não está nos dizendo tudo. Meu Deus, como vamos confiar em você? – gemeu Cíntia. – Você não sabe o verdadeiro significado da palavra “confiança”, mercadora – resmungou ele, aborrecido. – Vocês precisam entregar-se aos meus cuidados de olhos fechados. Sem nenhuma dúvida, nenhuma! Eu estou aqui desde a primeira partida. Sei o que estou fazendo. Como naquela história de que se você acreditar de fato em Deus, conseguirá caminhar sobre as águas e os abismos sem afundar. – Você não é Deus – retruquei, zangada. Ele sorriu: – Mas somos íntimos, neste lugar. Houve outro silêncio teimoso de nossa parte. Creio que foi a primeira vez que eu percebi que não podíamos contar com ninguém a não ser com nós mesmos para sair daqui. – Poderei fazer muitas coisas erradas, mas não vou trair os Jogadores – Faiald baixou um pouco o tom de voz. – Posso mentir para seu próprio bem, para que não enlouqueçam, para que não se percam, e inclusive porque eu mesmo não sei a verdade, mas juro por meu sangue e minha alma que se vocês confiarem em mim, plenamente, os tirarei daqui sãos e salvos. Ficamos calados, olhando o solo. E então, para cúmulo, Tharia comentou suavemente, como se a última parte do diálogo simplesmente não tivesse ocorrido: – Eneias, você podia ter pedido a Faiald que fosse me procurar, em Arrelipe, em vez de envolver seus amigos nisso. Você sabe que não lhe negaríamos ajuda. Muita gente teria vindo ajudar você. – Bem... eu não sabia o que ele ia fazer... De fato, Edula tinha razão. Faiald nos contara a triste história de Eneias só para ter outros jogadores, só para ter uma equipe capaz de jogar o jogo de novo. E de passagem, deixara nosso amigo sozinho na ilha, quando poderia, muito bem, ter providenciado um resgate para ele. Mas não, não devia nem de ter lhe passado pela cabeça uma coisa dessas. Deixou Eneias à salvo, como se fosse um peão num jogo de xadrez, e correu para nos contatar. Podíamos esperar muita coisa dele, mas não preocupação real com o nosso bem estar. Encarei Faiald enfurecida e ele me fitou através da fumaça do cachimbo. Sorriu, cínico. Não creio que mais alguém o tenha visto. Depois, ele apagou o fumo, bateu o cachimbo numa pedra e o limpou meticulosamente. Os sons pareciam imensos dentro do nosso silêncio. Por fim, nos disse: – Vamos andando? Tharia sacudiu a cabeça numa afirmativa silenciosa. – Vamos. Não é boa ideia passar a noite perto da Ronda – concordou. Fui a primeira em levantar. O encontro com Eneias me deixara um sabor amargo na boca. – Adiante, então – murmurei, buscando a mirada de Edula. – Sim, adiante – disse ela, e seus olhos estavam marejados de lágrimas que eu não compreendia. Aspirei o vento frio, ouvindo-o nos caniços da beira da água. Em pouco tempo tínhamos montado e éramos outra vez vultos castanhos no meio da estrada.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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