O Jogo no Tabuleiro

- A Falcoeira -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

4.

A tarde já ia bem adiantada quando partimos. Edula e Márcia vinham sobre a mesma cabra-de-sol e Eneias, que ficou espantado com os animais, caminhava ao lado delas.

Chegamos à estrada principal e continuamos rumo às montanhas Rineve, o mais rápido que podíamos. A ideia era chegar até o outro lado do rio, antes do sol se por entre as nuvens à oeste.

O curso d'água serpenteava pelo fundo do vale, entre charcos e pântanos esverdeados, repletos de vida. Não seria possível caminhar dois quilômetros sem encontrá-lo pelo menos duas vezes. A estrada se contorcia quase tanto quanto o próprio leito do rio, de modo que encontramos apenas uma ponte em nosso caminho, uma construção bem maior e mais sólida do que provavelmente fora a ponte da Ronda da Eternidade. Era composta de blocos escurecidos pelo tempo e pelo limo que se agarrava teimosamente por todos os cantos. Suas pontas quebradas e arestas carcomidas faziam pensar em construções magníficas e seres de sonho. Ali havia gravações nos blocos, letras tão velhas quanto as pedras, gravadas muito fundo para que o tempo jamais as pudesse apagar, a não ser que destruísse o monólito em que estavam inscritas.

– "Esta é a fronteira das Montanhas, viajantes," – leu Tharia. – "Daqui em diante, o mundo é aventura sobre aventura, e o perigo é o rei."

– Ah, tem mais, é? – interrompeu Cíntia, cínica. Faiald olhou-a com ares de deboche e prosseguiu a leitura:

– "Mas para aquele que tem os pés sobre o caminho, nada é empecilho e seu coração diz ao pulsar: não voltarei, não voltarei, não voltarei."

– É a máxima dos viajantes – disse Tharia, pensativo.

– Mas alguns viajantes voltaram – murmurei. – Não é?

– Lógico! – respondeu o ruivo, sorrindo. Ignorei-o, porque não falara com ele.

– Só que ao voltar – prosseguiu ele – já não se chamam viajantes. Os verdadeiro somos nós, que aqui passamos para nunca mais voltar. Nosso caminho vai lá para fora, ou não vai a lugar nenhum.

Ficamos em silêncio ao atravessar o resto da ponte. O som dos cascos nas pedras fazia eco ao rio que passava furioso entre os pilares grossos, quase tocando a estrada. À nossa frente erguia-se a cordilheira e, atrás de nós, a planície que deixaríamos no dia seguinte. A serra perdia-se nas nuvens que ainda encobriam o céu, mas que agora se entreabriam fugazmente sobre a crista verde do planalto. Súbito, lembrei-me de algo e olhei sobre o ombro esquerdo, vendo, enfim, a ilha rochosa onde Eneias ficara o tempo todo. Lá estavam as ruínas que eu vira em meu delírio no mirante de Arrelipe: um resto de construção cujas formas rotas ainda lembravam a beleza de outros tempos, um emaranhado etéreo de torres e telhados, e sacadas de onde certamente haviam se debruçado belas rainhas para admirar seus domínios, paredes cujas raízes se enterravam no solo em terríveis calabouços. Ali estava a Prisão de Kavaal, entre pequenos bancos de névoa que flutuavam suavemente ao sabor da brisa. Mal ouvia o rio que batia furioso nas pedras que margeavam a ilha e imaginei ouvir cantos e o relincho de cavalos e outros animais há muito mortos.

– Que história terá aquela ruína? – indaguei encantada, junto ao ouvido de Tharia. O rapaz olhou-a de soslaio e suspirou.

– A Prisão de Kavaal? Isso foi há muito tempo!

Fez uma pausa para recordar bem a história e prosseguiu:

– Foi na época em que Arrelipe era uma cidadela de magos, no início do Tempo, quando a Deusa criou a tudo e a todos, distribuindo a força entre os homens e transformando alguns em seus irmãos em poderes e sabedoria.

"Dizem que houve um homem chamado Kavaal, que desejava a força dos magos só para si. Ele os aprisionou num frasco por duzentos anos e durante esse tempo conseguiu a riqueza e o poder que tanto sonhara. O Usurpador, o chamavam. Era seu o ouro das minas dos anões, ao sul, a fertilidade das terras ao norte. Eram seus os dons de amadurecer as colheitas e de distribuir a fome e o frio."

"Então, certo dia, uma criada chamada Ninir rompeu o frasco onde estavam os magos e eles puderam fugir. Reuniram seus poderes e lutaram contra Kavaal. Houve muita fome e desgraças, até que o Usurpador foi derrotado e desterrado para a planície. Fecharam-lhe o acesso ao Planalto das Colinas, exilando-o. Kavaal jurou vingar-se, nem que para isso fosse preciso esperar que todos os dias da eternidade se consumissem. Ninir foi amaldiçoada: sua prole dali em diante seria sempre mulheres e elas jamais seriam bem-vindas em qualquer lugar que fossem."

Ao nosso redor, a brisa gelada soprava com insuspeitada inocência e percebi que todo o grupo escutava, atentamente, as palavras do guia.

– O Usurpador reuniu os mercadores, que naqueles dias eram nômades sem razão nem lei, a não ser a de caçar e correr livres pelos campos, do Mar até o Fim das Terras Conhecidas, à oeste. Kavaal ensinou-lhes a erigir construções, obrigando-os a levantar o Palácio da Ilha, uma fortaleza inexpugnável. E, finalmente, para realizar sua vingança, foi até a cidade disfarçado de mercador e raptou a filha dos magos, uma mulher chamada Brilho, que levou para seu palácio com a intenção de transformá-la numa escrava para todo seus caprichos, desde os mais cruéis até os mais sutis.

"Mas, contam as histórias, aquela que deveria ser sua escrava, tornou-se a senhora de seu coração e gerou para ele dez filhos e dez filhas, homens e mulheres de bela estatura e fogo nos olhos. Por isso se diz que o coração trai a vontade do coração. Foi nessa época, conta-se, que o Irmão da Terra surgiu pela primeira vez entre nós."

Olhei para César numa careta e ele empalideceu confuso.

– Os príncipes da Planície o chamavam de irmão e o Irmão da Terra viveu algum tempo entre eles, aprendendo a arte da guerra, na qual os filhos de Kavaal eram mestres absolutos, e a da sedução, que não tinha nenhum segredo para suas filhas. Dizem também, mas aí os estudiosos se dividem, que havia um grupo de pessoas junto com ele. Seria um Andarilho, uma Feiticeira, dois Guerreiros e um Mercador, e eles estariam procurando, como vocês, o Portal das Eras. Mas muitos historiadores acham que isso é um chamariz que as pessoas usam para que a seita dos Peregrinos adquira uma antiguidade que não possuí. Os estudiosos dizem que isso só serviria para que as pessoas se pusessem a perambular pelas estradas e a enriquecer os taberneiros que, como vocês podem imaginar, afirmam que esta é a única versão verdadeira e contam-na para qualquer estrangeiro que a queira ouvir.

Olhei disfarçadamente sobre o ombro para o rosto de Faiald, subitamente envelhecido e macilento sob a claridade fria da tarde. Se o "irmão da Terra" da história de Tharia era o Damin, que idade teria? Quem haviam sido seus companheiros? De um átimo lembrei-me de sua expressão quando soubera da morte do velho Nacim e o vulto luminoso de Nesbex surgiu à minha frente com fria nitidez. Estremeci e voltei-me para as costas de Tharia.

– E depois? – perguntei.

– Um dia, o Palácio da Ilha amanheceu cercado de mil guerreiros a que os magos chamavam Bins. Aquilo não aborreceu Kavaal, pois ele tinha uma passagem secreta que se abria a muitos quilômetros à leste, por baixo do leito do rio, e através do qual podia escoar, numa noite, um exército inteiro para dentro da ilha, ao mesmo tempo em que o mesmo número de homens saíam. Enfim, o estado de sítio poderia durar quase que indefinidamente sem que se desse por vencido.

"Porém em um determinado momento, o exército inimigo descobriu onde ficava a passagem secreta. Os magos invadiram o palácio e levaram Brilho de volta a aldeia. Aprisionaram os filhos de Kavaal e a ele mesmo no castelo, fechando a passagem secreta e encantando as águas do rio. A única passagem que havia para a planície era uma ponte, cujos alicerces vimos, guardada noite e dia por cem guerreiros. O cerco durou tanto quanto viveram os magos. Quando o último deles desapareceu, Brilho deu a liberdade para os Bins, instituiu o principio da democracia em Arrelipe e finalmente, quando sentiu que não deixara nada por fazer, correu de volta às ruínas de seu palácio, de volta ao amor de seus filhos e aos braços de seu bem amado."

Olhei para onde vira as ruínas, mas já tínhamos descido da ponte e só pude ver o rio a espumar em volta das pedras ocultas pela névoa.

– E os encontrou? – murmurou Edula, que se aproximara interessada.

– Não – murmurou o marceneiro, balançando a cabeça. – Nem ele, nem seus filhos, nem ninguém. Algumas lendas dizem que ao ver o lar de sua felicidade destruído e vazio, Brilho , enlouquecida de dor, correu para leste, até que lhe faltaram as forças. Então sentou-se junto à falda de uma serra e chorou até se transformar numa sombra, e o vento e a chuva transformaram a sombra em pedra. Mas o pranto e a dor eram tão fortes que um dia a pedra quebrou e dali nasceu um regato que deu origem ao principal afluente do rio que cerca o palácio. De fato, cheguei a visitar a Rocha Mãe. É um formidável granito cinzento, quebrado ao meio por algum cataclismo, de onde brota uma fonte de água, que é considerada a nascente do Alto-Burto. Outras histórias contam que Brilho errou pela campina durante cem anos e que ainda se ouve o eco de seus gritos no vento da planície. Depois, ela reencontrou a razão e voltou ao palácio de seus pais, onde estudou as artes mágicas e as ciências ocultas. Dizem que ainda vive lá, recitando velhas fórmulas sob os pórticos quebrados, de onde se vê, vagamente, a ilha. Dizem que dá a poção do amor para quem tem coragem de ir procurá-la. Dizem que é tão velha que já não lembra por quê chora e que por isso é preciso manter viva a lenda que é a sua memória.

– E essa névoa.... É natural ? – insistiu Edula.

– Todas as vezes que passei aqui, parte da ilha estava envolta de neblina – comentou Tharia encolhendo os ombros. – O que me diz, Eneias ?

– É...– resmungou ele, pensativo. – Existem bacias de lama quente e um buraco de onde saí uma fumaça constante. Acho que a névoa se forma quando esse calor entra em contato com a umidade do rio.

– E a luz que vi quando sobrevoei o rio, em Arrelipe? – indagou Cezna.

– Conta a história que Kavaal mantinha um poço de fogo aceso dia e noite no centro do palácio, porque durante o sítio nunca podia prever quando os magos iam lhe mandar uma tempestade de neve. Além do mais o calor e as brasas aqueciam a comida, a forja dos ferreiros e armadores e os banhos públicos.

– Não encontrei nada parecido – disse Eneias apreensivo. – Aquela ilha é esquisita e de noite a coisa fica assombrada de verdade, podem crer. Quando o vento sopra naquelas pedras, imita direitinho a voz humana.

– Era o choro de Brilho. Em todo o caso, dizem que os filhos de Kavaal continuam lá, treinando depois do pôr do sol, criando novas formas de sedução, pondo lenha no poço e mantendo o fogo aceso porque um dia eles serão chamados pelo Irmão da Terra para combater os Bins. E então eles estarão preparados – concluiu Tharia e sorriu para Faiald, que fez-se de desentendido. Parecia mergulhado em uma lembrança nem de todo alegre, nem de todo amarga. Que diferença faria se ele fosse o Irmão da Terra e tivesse mil anos de idade?

Um bocado de diferença, é claro. Podia custar-nos a vida.

Percebi que Faiald me fitava, do fundo de seus olhos cinzentos, frios e duros. Seria verdade?

– Você conta histórias muito bem, Tharia, você e sua avó – disse o ruivo friamente. Senti as costas do marceneiro enrijecer sob minha face.

Acampamos um pouco depois, numa elevação mais seca, pois havia recomeçado a chover. César fez outra cabana de terra sobre nós – para surpresa de Eneias – e nos sentamos sobre a metade dos couros que tínhamos, com a fogueira crepitando diante de nós.

Jantamos mais uma das sopas de ervas e legumes de Bulbo. Pensei que um refrigerante podia vir bem numa ocasião dessas, mas ao mesmo tempo sabia que não me fazia falta. Comemos em silêncio. Duvido que eu voltasse a provar a comida de Bulbo se estivesse fora do Tabuleiro, francamente. Mas dizem e eu comprovo: a fome é a melhor de todas as cozinheiras.No dia seguinte, ganhamos a estrada mais tarde do que de costume. Aproveitamos a manhã, quando choveu torrencialmente outra vez, para descansar. Cíntia passou um bom tempo tentando nos convencer de que as pedras na descida de Arrelipe eram os monstros míticos que tínhamos de enfrentar e que pelo menos essa parte do jogo já tínhamos passado.

– Espero que você esteja errada, mercadora, –  cortou Faiald. – Se as pedras foram o monstro mítico desta partida, teremos de voltar e acabar com todas elas.

Cíntia piscou assustada.

– Por quê? – soprou.

– Porque não as matamos. Lembre-se o que diz a regra do livro de Bulbo: precisamos matar o monstro mítico –  explicou ele.

– Ah, o livro de regras era de Bulbo, e não seu, afinal de contas? Não foi você quem o escreveu de fato? –  ela disparou um instante depois. Faiald a encarou através da fumaça do inseparável cachimbo e não respondeu.

No silêncio desconfortável que se seguiu, Eneias, nervoso como se soubesse de que livro estávamos falando, perguntou à Edula porque usava o turbante, e terminamos por contar-lhe todas nossas aventuras, inclusive o encontro com a Grande Dama. Tharia ouviu em silêncio, o rosto consternado, a boca reduzida à uma linha fina e pálida. Finalmente, ele começava a compreender e isso, apesar do perigoso que podia ser para Faiald e para todos nós por extensão, era melhor do que vê-lo divertindo-se com a ilusão de que éramos mais um bando de viajantes malucos.

Depois do almoço, a chuva parou; o céu carregado, porém, ameaçava-nos com uma nova borrasca a qualquer minuto e um vento frio soprava as nuvens na direção do mar. Ficamos dois dias ainda, andando pela estrada no fundo do vale, antes de atingirmos as Montanhas. Tharia começou a me fazer perguntas sobre como era o mundo fora do Tabuleiro. Tentei explicar-lhe. Para dizer a verdade, comecei até a contar como era o nosso dia-a-dia, mas em seguida calei-me. Que lugar era aquele que eu pensava que conhecia? Haveria mesmo um céu com apenas uma lua, onde não existiam cabras-de-sol? Que graça vira eu alguma vez em sentar-me diante de uma caixa colorida e permitir-lhe que falasse o tempo todo, instigando meu comportamento, vivendo por mim? Além do Tabuleiro existia uma raça descontente consigo mesma que inventava mil maneiras de sonhar para não precisar viver. Fiquei em silêncio, sem perceber que o fizera, sacolejando na garupa do marceneiro, agarrada em sua cintura que bem poderia ser a única coisa sólida em todo Universo.

– Você está quieta – disse ele, de repente. Pisquei. Quanto tempo estávamos no Tabuleiro? A luva de couro que usava na cintura bem poderia ter estado ali a vida inteira, sem que eu a tivesse visto.

– Há alguma coisa errada? – perguntou Tharia terno. Sacudi a cabeça, mas ele estava de costas e não me viu. As montanhas já se erguiam sobre nós, sobranceiras, e a medida em que nos aproximávamos delas, iam revelando vales e escarpas que antes não tínhamos visto.

– Não – murmurei, abrançando sua cintura com mais força. – Não ainda.

– Pressente algum perigo? – perguntou o rapaz, olhando rapidamente para os lados, talvez crendo em algum inimigo oculto que eu estivesse adivinhando. Acho que se nos revelássemos criaturas de terríveis poderes não se espantaria nem um pouco.

– Não pressinto perigo algum, Tharia – murmurei – mas sei das despedidas.

– Talvez elas não aconteçam – ele disse e naquele momento eu soube, soube no fundo do meu coração, que o amava demais. Não houve nenhum som de sinos badalando. Era um fato consumado, um fato que nada, nem ninguém, a não ser Tharia, poderia mudar. Ele era especial para mim. Estar em sua garupa, tê-lo ao meu lado no jantar, ouvi-lo falar ou cantarolar, eram coisas como o ar e a luz. Eu poderia estar com ele em qualquer lugar e estaria bem – e agora eu sabia o que significava dizer qualquer lugar. Não me sentia tola, nem grande ou pequena. Já não precisava invejar a beleza de Márcia, a leveza de Nesbex ou a coragem de Edula. Bastava com ser eu mesma.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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