O Jogo no Tabuleiro

- A Falcoeira -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

5.

No terceiro dia depois daquele que encontramos Eneias, começamos a subida das Montanhas. A estrada se afinou, cada vez mais íngreme e cheia de pedras, até tornar-se uma simples vereda entre as rochas. A temperatura baixava à medida em que subíamos. Fomos obrigados a tirar os casacos de lã que Cíntia e Faiald tinham comprado em Arrelipe, de debaixo das selas. Estavam umedecidos e cheiravam a carneiro molhado mas, depois de algum tempo, o frio fez com isso não tivesse a menor importância.

Tive de desmontar em breve, devido à difícil ascensão. À esquerda da picada que seguíamos à sombra dos altos paredões, havia um riacho que aprofundava-se numa fenda reta e estreita que crescia a medida em que subíamos. Ouvíamos água murmurejar distante, o som trazido pelo eco, perdendo-se nos liquens presos às rochas, mas só havia neve nos picos distantes. Passamos a primeira noite num abrigo rochoso que encontramos um pouco acima e fora do caminho. Ninguém mais reclamava destes acampamentos improvisados, nem mesmo Cíntia, mas ela fazia questão de deixar bem claro que odiava tudo aquilo.  O espaço era apertado, mesmo com um de nós guardando o acampamento do lado de fora. Contudo, foi maravilhoso poder me aninhar nos braços de Tharia sem ter de inventar alguma desculpa para fazê-lo. Eu ainda me sentia um pouco constrangida pela rapidez com que os sentimentos vinham crescendo em meu coração mas essa sensação incômoda estava desaparecendo também rapidamente.  Tharia era quase perfeito para mim – e precisava ser, para os planos de Clara. Mesmo quando discordávamos, o que era raro, ou ele fazia ou dizia algo que não me agradava, mesmo isso fazia com que ele fosse ainda mais palpável, mais real – um sujeito real, por mais perfeito que seja, sempre tem alguma coisa que a gente não curte, porque, afinal de contas, é uma outra pessoa, com a sua própria história e a gente gosta dele apesar de tudo e não por causa de tudo, porque amor é uma coisa que não dá para explicar de um jeito racional. Mas hoje, eu suspeito que sei porque ele sempre foi quem foi e porque me conquistou de modo tão imediato. E, mesmo assim, não me importo. Eu o amo mesmo sabendo porque o achava tão ideal – e esse é o seu maior defeito, isso deveria ser o tabu que me afastasse dele, saber quem ele era e porque era assim. Provavelmente Faiald tem razão quando diz que isso é parte do jogo de Clara, que Tharia é uma armadilha.

Eu não dou a mínima para isso. E nem Tharia.

No dia seguinte continuamos a viagem. Pela manhã, vencemos uma muralha de pedra que interpunha-se entre nós e a visão da planície verde, que pudemos apreciar desde um mirante natural. Era uma das escarpas cinzentas ao lado direito da trilha, aberta até as montanhas propriamente ditas, bem à esquerda. Dali se via a campina com o rio e região da Ronda e, mais além, a serra com a estrada serpenteando íngreme no gramado. Era um dia quase sem nuvens. O vento as soprara para longe durante a noite anterior e a temperatura lá em baixo devia de ser bastante agradável. Nós, entretanto, estávamos na sombra de um pico e não nos atrevíamos a tirar os casacos.

Prosseguimos. Não voltaríamos, como dissera a máxima dos viajantes escrita na rocha da ponte. As cabras venciam com coragem a subida e nós seguíamos a pé, em duplas ou sozinhos, pois o caminho não permitia o avanço de mais de duas pessoas uma ao lado da outra. Ao final da tarde, com o sol oculto atrás de outro pico, encontramos a nascente do riacho que nos acompanhara, uma queda d'água saltitante entre rochedos de cinquenta ou cem metros de altura, caindo numa fenda quase tão profunda quanto as raízes da montanha. Espumante, o líquido tinha uma aparência fria e pura. Cezna tomou o cantil de Eneias e sobrevoou o vórtice, ensopando-se todo. Depois encheu os outros cantís vazios e finalmente veio se aquecer no meu regaço. Tiritava de fazer dó, mas tinha um sorriso imenso nos lábios e eu sabia porque. "Vira", como "vira" no mirante de Arrelipe, pelos olhos dele, e contemplara a fenda escura de onde subiam nuvens de vapor da água que se atirava nas rochas lá embaixo. Também sentia o frio dele e isso me levou a acomodá-lo no capuz de meu casaco, coberto com um cachecol de peles.

Dormimos outra vez ao relento, protegidos por rochas um pouco maiores do que aquela sob a qual passáramos a noite anterior, mas ainda assim, desagradavelmente aberta. César poderia ter nos proporcionado um outro abrigo, mas queríamos poupá-lo ao máximo para quando fosse estritamente necessário.

Ao meio-dia do nosso terceiro dia nas montanhas, contornamos um pico elevado, atravessando a trilha que percorria o fundo de um abismo. Lá embaixo o sol não tocava o solo há muito tempo, de modo que as paredes estavam cobertas de gelo. Quando saímos dali, deparamos com uma paisagem que será difícil de esquecer pelo resto de minha vida.

Emergimos num platô de relva, ocupado em sua maioria por um lago cristalino, de água tão pura que víamos claramente as pedras do fundo, retas, anavalhadas, com pontas perigosas. Além dele ficavam as verdadeiras Montanhas Rineve, a cordilheira branco azulada pelo o sol da tarde, cheia de picos e cristas que ensombreciam vales suspensos e cobertos de neve. Era silencioso como deve ser a Lua. Não via nada que se movesse, nada que gritasse, que ondulasse. Até o vento desaparecera, embora o frio fosse cada vez mais cruel.

A nossa esquerda erguiam-se dois picos imensos. Acho que eram aqueles que tinha avistado desde o Planalto. Lá em cima, o vento levantava mantos de neve fina, deixando os cumes inacessíveis com um ar de fantasia e mistério.

– Teremos uma tempestade antes da meia-noite – predisse Tharia contemplando-os.

– Hum – resmunguei, torcendo o nariz. Meu turno de guarda era da meia-noite à uma da manhã, se é que o relógio de César funcionava bem naquele lugar.

– Será demorada? – perguntou Faiald.

– Um ou dois dias, no máximo – respondeu Tharia. – Mas não será muito forte e poderemos prosseguir, mesmo com ela.

– Tem certeza? – perguntou César desconfiado. Observava com atenção a trilha que seguia além do platô e mergulhava atrás dos dois picos à nossa direita.

– Tanta, quanto você tem dos seus poderes – respondeu nosso guia. Seu burrico aproximara-se a água e bebia, imitado pelas cabras. Os animais não pareciam ressentir-se com o frio.

– Vamos acampar aqui? – perguntou Cíntia.

– Acho que será melhor – decidiu Faiald.

– Mais adiante há um abrigo mais seguro em uma gruta – replicou Tharia puxando seu burrico pelas rédeas.

– Espero que seja melhor do que o da noite passada – queixou-se Eneias. – Quase não consegui dormir de tantas pedras que havia.

Tharia olhou para nós e sorriu.

– Então não sei quem foi que roncou a noite toda no meu ouvido. Mas não se preocupem, será muito mais confortável – assegurou. Eneias enrubesceu e resmungou:

– Aposto que foi Cida. Eu não ronco.

– Ronca, sim – concordou Edula com um sorriso maroto nos olhos. Márcia começou a rir e Cezna voou sobre nós gritando:

– Eneias ronca! Eneias ronca!

– Mentira! – bradou ele encaixando na fila que formávamos. – Mentira! E mesmo que roncasse, roncaria tão melodiosamente que não pareceria um ronco! Pareceria uma canção!

Nossas vaias ecoaram pelas rochas ainda com um alegre toque de verão, enquanto seguíamos a trilha uns atrás dos outros. Fiquei mais na retaguarda dessa vez, apreciando a paisagem majestosa. A medida que nos afastávamos do platô, nos aproximávamos da borda de um abismo, descobrindo a profunda depressão que havia entre as montanhas.

Súbito, ouvi um grito. Parei, temendo alguma tragédia. Cíntia sentara-se numa pedra e apontava para outra, quase histérica.

– Ele tocou numa pedra! – gritava ela. – Cezna vinha voando e tocou numa pedra! Aí sumiu! Sumiu!

Edula correu para ela e agarrou-lhe o braço com força!

– Pare de gritar! Cale-se! Droga, Cíntia, você já entrou numa dessas, será que não vai se acostumar?

– Nunca vou me acostumar! Nunca, está ouvindo? Quero voltar para casa! – berrou a mercadora aos prantos. – Este lugar é horrível! Detesto alturas, detesto o frio! Detesto o Tabuleiro! Detesto aquela louca da Clara! Detesto!

Revirei os olhos aborrecida com a histeria dela e aproximei-me de Bulbo e César, que examinavam as pedras em busca de um sinal que indicasse a casa em que Cezna entrara.

– Aqui – disse Márcia traindo a calma do rosto na angústia da voz. – Uma Casa da Sorte.

Suspiramos de alívio, em meio aos soluços de Cíntia. Eneias também estava pálido e eu achei que ele também não tinha se acostumado ainda, que nunca se acostumaria. Sentamos perto da pedra e esperamos. O tempo passava e as nuvens começavam a contornar os picos com serena força, aglomerando-se, atestando a previsão de Tharia.

Olhávamos a paisagem, tentando compreender sua vastidão e beleza. De repente, Faiald afastou-se do grupo, encaminhando-se para uma fenda, de onde voltou poucos instantes mais tarde, o rosto lívido e consternado.

– Encontrou a cabana? – perguntou Tharia ao ruivo. O Damin ergueu os olhos, navalhas sempre prontas para cortar, e encarou-o.

– A casa de Nacim? Encontrei – respondeu, soturno. – O que fizeram com o corpo?

– O que tradicionalmente fazemos com os mortos: rezamos por ele e o cremamos, jogando suas cinzas na terra. De volta à Mãe.

Faiald enrubesceu e crispou as mãos angustiado.

– Malditos sejam! – vociferou e deu-nos as costas.

– Não sabiam que cremavam seus mortos – observei, sem perder Faiald de vista.

– Os costumes contam que quando a Deusa andava entre os homens, ensinou-lhes que o corpo é um produto do meio em que vive e que o maior tributo que podemos dar-lhe é entregar nossas cinzas de volta à ela, depois que nossos pecados foram purificados pelo fogo.

– Quando se trata de um habitante de Arrelipe, sim! – observou o Damin voltando-se, o rosto cheio de amargura. – Mas, quando se trata de um estrangeiro, é abominável. Não sabem o que podem ter feito com esse homem...

– O conhecíamos há tanto tempo que era como se fosse um de nós... – comentou Tharia placidamente. A reação de Faiald foi imediata e violenta. Saltou sobre o mestiço e os dois rolaram pelo chão. Faiald terminou por cima do outro, torcendo-lhe o colarinho com ferocidade.

– Não somos como vocês, entende? Nenhum de nós! Nem Nacim, nem Cida, nenhum de nós! Somos diferentes. Somos superiores! Somos da raça da Deusa e não consinto que profanem o corpo de um dos nossos! Compreendeu?

Tharia não esperou que terminasse. Acertou-lhe um safanão e o ruivo voou para os braços de César. Eneias e eu nos interpusemos entre os dois, impedindo que voltassem a engalfinhar-se.

– Está bem, está bem, não vou fazer nada – ofegou o marceneiro levantando as mãos em sinal de paz. Parecia gigantesco e uma raiva surda brilhava em seus olhos.

– Vocês o mataram! O mataram por segunda vez! Malditos! Mil vezes malditos!

– Acalme-se, Faiald – grunhia Bulbo em seu ombro. – Pare com isso!

– Moço, eu não sei quem você é – gruniu Tharia, ameaçador – mas estou certo de que está louco.

– Comedor de carniça – vociferou o ruivo livrando-se de César. Tharia empalideceu violentamente. Mordeu os lábios com força e empertigou-se.

– Cuidado – rosnou. – Pode ser que eu esteja guardando a sua para comer primeiro.

Ajuntou as luvas que tinham caído do seu bolso e nos fitou quase com desprezo.

– Não sei o que vocês procuram, mas se continuarem com ele, está na cara que terminarão todos mortos em algum mercado ou presos em uma masmorra asquerosa – disse em voz baixa. – Vou voltar para Arrelipe. Agora.

E então me fitou e seus olhos se abrandaram até a ternura.

– Volte para a aldeia comigo – pediu.

Fiquei um instante incrédula, ouvindo o pedido ecoar, ainda nos meus ouvidos. Depois olhei ao redor e com um alívio de quem estava apenas esperando por aquilo, peguei a luva que levava na cintura e a entreguei para Edula, que me olhava sem acreditar. Faiald deu um grito e segurou meu braço com força. Tharia agarrou o pulso dele com a manopla forte e o obrigou a soltar-me.

– Não! Pelo amor de Deus! Pense no que está fazendo! – suplicou o ruivo. Eu sorri.

– Você ficou louca, Cida? – soluçou Cíntia.

Faiald me encarou de boca aberta e recuou dois passos. Tharia pareceu satisfeito com a distância e voltou-se para seu burrico. Começou a baixar parte da carga dele para o solo, guardando apenas dois pedaços de couro e um alforje cheio de comida.

– Cida, nós... eu acho que vamos precisar de você... – gaguejou Eneias assustado. – Não pode ir, não podemos sair daqui sem você...

– Não seja dramático. É só encontrar uma jogadora para pôr no meu lugar – murmurei. – Faiald já fez isso antes, pelo que entendi e tem mais gente lá de fora zanzando pelo Tabuleiro, não tem?

O ruivo me encarava com ódio e Bulbo, a seus pés sacudia a cabeça tristemente.

– É preciso que nos mantenhamos unidos – dizia. – A união é a única forma de sair daqui. Eu não quero ficar quando tudo se desfizer no nada.

– E como você espera sair daqui, Bulbo? – respondi sentido pena dele. Eu, francamente, não queria ser dura com o gnomo. – Você é virtual, não é real. Não tem escolha: ou desaparece quando tudo se desfizer no nada, ou desaparece quando atravessar para o nosso mundo.

– Sou tão real quanto a Grande Dama. Sou tão real quanto Tharia e Arrelipe – ele replicou, soturno. Eu estremeci, depois concordei.

– É verdade.

– Então Tharia não é real – continuou Faiald, agarrando o fio da meada. O loiro voltou-se para ele, mas o ruivo continuou, com raiva desesperada: – Você vai viver uma mentira dentro de uma mentira para o resto de sua vida. É isso o que deseja?

– Você acha que eu sou uma mentira? Quer experimentar mais um pouco da irrealidade do meu punho no seu queixo para ver o quanto de mentira há em mim? – ameaçou Tharia, avançando. Eu fiquei entre eles.

– Chega de discussão! Eu já me...

Um grito no céu me interrompeu:

– Saiam de baixo! Ela é muito pesada!

Olhei para cima.

Uma espada imensa caía em minha direção, a ponta cintilando mortalmente. César avançou numa corrida, empurrou-me e me jogou no chão. A espada passou por mim e cravou-se na rocha nua do caminho a milímetros do nariz do mago.

Foi por um triz.

Ergui a cabeça devagar. Cezna estava sentado no punho da arma, um punho forjado nalgum metal lilás, suave e puro. A lâmina devia ser de ferro ou aço, mas o fio era uma película brilhante e branca, refulgindo ao sol.

Estávamos de boca aberta. Aquela coisa era linda, e estava enterrada até a metade no solo de rocha.

– Agora você me deve uma Cecília. – resmungou César, seco, levantando-se e limpando as mãos. – E quero ver como vamos tirar isso daí.

– Quero ver é eu carregá-la – reclamou Cezna atraindo nossa atenção. Ele estava todo ferido e uma asa pendia-lhe quebrada num ângulo estranho.

– Alguém pode dar-me uma ajuda? Cida? – ele indagou e despencou do punho. César ajuntou-o rapidamente e o acomodou o melhor que pode no meu capuz. Depois me olhou fixamente e murmurou:

– Agora ele está no seu lugar. O único lugar do mundo em que desejaria estar. Você sabe disso, não sabe, Cida?

Depois olhou para Tharia, que permanecia parado, os olhos fixos nele, as mãos se abrindo e fechando com força.

– Onde está o abrigo? Pelo menos nos leve até lá. Depois pode fazer o que quiser. Não queremos que nos acompanhe contra sua vontade. É um caminho longo e perigoso. Você tem todo o direito de ter medo e querer voltar para casa.

O marceneiro piscou, surpreso. Ficou um longo momento em silêncio, até finalmente lamentar, com a voz rouca:

– Com uma você faz chantagem e o ao outro chama de covarde. Que espécie de amigos são vocês?

Voltou a carregar o burrico em silêncio, agarrou a rédea e começou a andar na direção das montanhas. César enrubesceu e baixou a cabeça, passando as mãos no rosto. Vi quando Márcia pegou uma delas e sorriu corajosamente. Faiald passou por mim sem me olhar.

– Vão andando. Eneias e eu vamos tirar a espada da rocha – disse ele.

– Eu? – perguntou o Trovador assustado.

– É, você – resmungou o ruivo, fazendo força para arrancar a arma do chão. – Ande rapaz, não temos todo o tempo do mundo, sabe?

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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