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O Jogo no Tabuleiro - A Falcoeira - |
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A Falcoeira Capítulo 6
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6. Entrei novamente na fila indiana e marchei atrás de Cíntia sem uma palavra. A trilha se desenrolava entre dentes de pedra e neve. O gramado desaparecera, mas ela era suave, e não escorregávamos constantemente, como na subida. O ar era mais seco, embora nem por isso fosse mais agradável de respirar. Logo nos atacaram tonturas e enjoos, sintomas do mal de altitude. Era de espantar que não os tivéssemos sentido antes, mas eu estava confusa demais para me admirar com isso, naquele momento. Estava zangada com César e assustada comigo mesma. No meu capuz, Cezna parecia pesar uma tonelada – ele era tudo com o que eu não queria me comprometer naquele momento, o que me deixava mais zangada ainda. Mas nada disso se comparava com o que fervia logo abaixo da superfície quando olhava as costas largas de Tharia à minha frente. "Volte para a aldeia comigo!" ele dizia na minha lembrança e eu rebobinava o momento e voltava a ouvir-lhe a voz, a fitar-lhe os olhos a sentir a certeza daquele pedido um, duas, mil vezes. E depois, a medida em que compreendia o que estava acontecendo, tudo deu lugar para um pavor estranho, como se tivesse perdido a única oportunidade de ser feliz que a vida estava disposta a me dar. Felizmente o abrigo de Tharia não era longe dali e logo que chegamos, sentei-me na soleira, cansada. Edula e Cíntia me imitaram, e Márcia e César não tardaram. Tharia desapareceu no interior da gruta que naquele momento me pareceu pequena demais para abrigar aos animais e a nós. Entretanto, mal os dois irmãos tinham entrado pela abertura, o marceneiro surgiu com duas tochas acesas e outras tantas apagadas que lhe pendiam da cintura. Aquilo era apenas a entrada de um sistema de grutas interligadas. – Acompanhem-me – disse ele, me ajudando a levantar. Seguimos para dentro dos rochedos, sentindo o calor que vinha do interior da gruta, mantendo o frio do lado de fora. Pudemos acomodar-nos num recanto da segunda caverna, enquanto Tharia levava os animais para um terceiro grotão, certamente menos confortável do que aquele em que nos achávamos, com seis camas de madeira e nichos próprios para acender o fogo. O lugar estava limpo mas recendia a vários aromas, desde o fumo e a bebida, até suor e sangue. Compreendi que aquele era um refúgio comum usado pelos mercadores que se aventuravam nas montanhas e sentei-me sobre um catre, cansada. – Bem – disse Edula sentando-se ao meu lado e evitando cuidadosamente qualquer palavra sobre o que acontecera antes. – Pelo menos estaremos bem protegidos por esta noite. – Sem dúvida – disse César respirando aos arrancos e tirando Cezna de meu capuz. Vi suas mãos tremendo ao acomodá-lo em um pelego e não soube se de asco ou de medo pela vida do amigo. – E poderemos tratar bem desse rapaz aqui. – Acha que poderá curá-lo? – perguntou Tharia retornando. – Não sei, ele me parece bastante mal – murmurou o mago, ao examiná-lo. Fiquei observando-os meio zonza e bastante triste. Meus sentimentos pareciam o esquema de uma montanha-russa. – Seria melhor se tivéssemos algumas das ervas de Nesbex – observou Bulbo ao meu lado. – Talvez eu possa remediar a situação – volveu César. – Mas acho que precisaremos de ajuda... ou voltar a Arrelipe, de fato. – Quem sabe não encontramos a tal da alquimista... – sussurrou Cíntia. – Se a alquimista ainda estiver viva – ponderou nosso guia, dirigindo-se ao canto escuro do borralho – estará bastante longe. Fazem mais ou menos três semanas que Eneias passou por Arrelipe, então deve fazer mais de um mês que eles se separaram. – Eneias estava completamente louco, quando falou de nós – resmungou a mercadora encolhendo-se sob o manto. Puxou os pés para cima da cama e mergulhou no meio da pele grossa de seu casaco. Ignorei-a e ergui-me, cansada demais para ficar sentada, cansada demais para ouvir as queixas dela. Aproximei-me de Tharia, que introduzia um bastão de pedra na abertura de uma placa rochosa, usando-o como alavanca para fazer deslizar a pedra. Imediatamente revelou-se um veio de lava incandescente, quase insuportavelmente brilhante e quente. Um cheiro estranho encheu a caverna imediatamente. Tharia olhou para meu rosto espantado e disse, num sorriso: – Num instante teremos um calor bem gostoso, aqui. – Tenho alguns galhos de lhaira – anunciou Bulbo remexendo em sua bolsa. – Isso será muito bom – concordou o marceneiro. O gnomo arrancou das entranhas da sacola um galho de folhas amarelas, e depositou-as numa pedra ao lado da lava. O calor fervente afetou as folhas que fumegaram um pouco, deixando escapar um silvo. – Onde está Márcia? – perguntou Edula de repente, e o chão quis fugir de meus pés. – Está esperando os outros na entrada da caverna – explicou César absorto nos curativos que fazia em Cezna. Sentei-me, tonta, e fiquei olhando para as folhas. Permanecer no Tabuleiro. A vertigem daquele instante me tomou novamente: a possibilidade de permanecer, de desistir do jogo até que viessem outros jogadores e o vencessem por nós, e nos aliviassem da carga que significava destruir aquele mundo, destruir o homem alto e loiro, de sorriso fácil e olhos profundos ao meu lado. Destruir a floresta e as lendas, quem somos nós para carregar semelhante peso na alma? Eu não podia – eu não posso – conviver com isso. Agora que as perspectivas mudaram de novo, sei que não poderei fazer isso. Mas não sei qual será a solução! Naquela tarde me vi baixando a trilha de volta a Arrelipe, atravessando o vale, me vi entrando na casa de Tharia, abrindo as janelas da minha própria morada, sorrindo ao sol, me vi feliz como sabia que nunca seria, me vi com a alma salva. Escutei o vento sussurrando no telhado, crianças rindo e a água saltitando na fonte branca até que essa canção de sonho e redenção se transformou em vozes conhecidas. Olhei para a entrada da gruta, subitamente sólida e geométrica, e por ela entraram os três componentes que faltavam ao grupo, já sem os casacos. Senti que suava, mas não recordei a transição da temperatura. – Como está gostoso aqui dentro! – murmurou Eneias sentando-se pesadamente. – E que cheiro bom. Olhei para Márcia e vi seu nariz vermelho e os olhos congestionados. Ela me encarou duramente e tirou o casaco comentando: – Já está nevando lá fora. Desviei o olhar. – Que horas são? – perguntei para César. – Oito horas. Você dormiu como uma criança. Espero que tenha servido para pôr suas ideias no lugar. Ignorei-o completamente e tirei o casacão. O suor aliviou, mas eu me sentia com os ossos moídos. – O que está acontecendo aqui? – insistiu o Trovador. – Cida e Márcia sempre foram unha e carne... agora nem se falam direito. – Não há nenhum mistério, Eneias – resmungou Faiald. – Como você bem sabe, a estrada sempre revela a verdadeira face das amizades. Frequentemente não são tão sólidas como parecem... – Você não sabe nada sobre amizade, Faiald – resmunguei. – Claro que não sei, mas a élfide saberá! – ironizou ele. Tharia fixou-lhe um olhar de advertência mas o ruivo o ignorou. – Quem nos ia deixar no meio do caminho, com uma mão na frente e a outra atrás, quando bem sabe que necessitamos de todos para chegar ao final do Jogo? – Se vai haver outra discussão, que seja lá fora – repreendeu-nos César. – Cezna precisa dormir. Calei-me e me sentei o mais longe possível do ruivo e de Márcia. Estava me sentindo uma encrenqueira e, aborrecida, voltei a vestir o casaco. – Vou ficar com o primeiro turno da guarda, hoje – anunciei saindo da caverna. – Depois eu como. Afastei-me deles e fui me sentar na porta da gruta que dava para o exterior, sentindo o frio cortante tocar meu rosto com pequenas agulhas geladas. Não havia nada para ver do lado de fora, mas flocos de neve daquele tamanho seriam visíveis até num mundo sem luz. Eram grandes e caíam cada vez mais pesadamente, acumulando um monturo gelado nas rochas da entrada. De vez em quando eu me erguia e empurrava os montes que se formavam, a fim de me movimentar e deixar a entrada livre. O vento assoviava nos cumes, fazendo com que soassem como flautas gigantescas e mal afinadas, melodias inumanas que não contribuíam em nada para melhorar meu estado de espírito. A hora passou rapidamente e Faiald veio me substituir. Ele tocou em meu ombro, pois o rugido do vento, que agora transformava os sombrios assovios em uivos, não me permitira ouvir sua aproximação. Além do mais, eu já sabia que não seria capaz de ouvi-lo se desejasse ser furtivo. Fez um sinal para que entrasse na caverna e assim o fiz. Já ia passando por ele, quando tocou meu braço e murmurou algo. Voltei-me, sentindo a pele arrepiada de asco. – O que foi que disse? – Que quero falar um pouco com você. Ao nosso redor o frio ainda era tangível, mas estávamos suficientemente isolados para conversar em particular. A brasa do cachimbo pendurado em seus lábios era a única coisa que iluminava um pouco a escuridão. – Não posso acreditar que estivesse disposta a partir com Tharia sabendo o que é o Tabuleiro. Sabendo o que é Tharia – ele prosseguiu como se eu não tivesse dito nada. – O que é Tharia?! – Uma coisa virtual, uma criação de Clara. Ele não existe, entende Cida? Eu sorri e balancei a cabeça. – E quem me garante que nós somos reais? Quem me garante que não somos personagens de uma história maluca que alguém inventou? E então, que diferença faria a natureza de Tharia? Ele ficou em silêncio, me fitando com uma expressão cansada. – Acho que seria muito pomposo se eu disser que estou apaixonada, não é? – eu continuei, um pouco mais baixo. Faiald agarrou-me os braços e me sacudiu de leve. – Cida, pelo amor de Deus. É uma armadilha! Você não está vendo? Clara está tratando de dividir o grupo. Isso já aconteceu antes... na primeira partida. Se você decidir abandonar o caminho, teremos de começar tudo de novo, entende? Você está disposta a condenar seus amigos a passar, Deus sabe quanto tempo aqui, sem a menor possibilidade de voltar para casa? Está disposta a obrigar Cezna, que a ama tanto, a continuar o resto da vida transformado num gárgula minúsculo? E a obrigar Cíntia a ficar nesse lugar que não compreende, que lhe dá tanto medo? Ou que Eneias... Eu me livrei dele com um gesto interrompendo-o. Não tinha escutado uma parte do que ele dissera. – Que história é essa de Cezna? – eu sussurrei, surpresa. Ele balançou a cabeça desaprovadoramente. – O que você não entendeu? – irritou-se. – Por que ele pediu para ser um gárgula em vez de um cavaleiro andante? Pois para falar a verdade, nem eu! Por mais que eu estivesse a fim de uma garota, com certeza teria pensado melhor antes de pedir uma coisa doida como essa! Ele inclinou-se um bocado irritado. – Mas você mesma sabe que quando estamos "apaixonados" as idéias ficam um tanto confusas, não? Abri a boca e a fechei de novo. Cezna era um dos meus melhores amigos. Era óbvio que ele me amava. Os amigos se amam, não é? Certo. Então eu estava condenando um grande amigo a viver como um gárgula para o resto da vida. “– O que você gostaria de ser? Uma guerreira, uma ladra, uma caminhante?” disse a lembrança de Clara para mim. Minha lembrança respondeu: “Eu gostaria de ser uma falcoeira”. E depois Cezna dissera, sorrindo para mim, que gostaria de ser alguém com asas, o dissera sem saber o que o esperava, o dissera porque queria me acompanhar no jogo, queria jogar comigo, estar ao meu lado, o tempo todo. A falcoeira e seu falcão. Meus olhos se encheram de lágrimas. Meu Deus, por que ele nunca me dissera nada? Eu tinha querido tantas vezes um beijo, um carinho, tantas vezes! Tantas vezes, antes! Agora não mais. Agora eu tinha Tharia. Por mais que quisesse bem a Cezna, não podia mudar isso. E nem queria fazê-lo. Faiald entendeu mal a minha expressão. – Cida, eu sei que é difícil. Mas, por favor, lhe suplico que faça um esforço para ver as coisas como são, como realmente são, e não como aparentam ser. – E como é que elas são, Damin? Responda-me, por favor, porque eu não posso ver – eu disse suavemente, me sentindo desmanchar por dentro. O ruivo nada disse. Franziu o cenho, confuso e até fez menção de falar alguma coisa, mas eu o interrompi, querendo desviar meu pensamento daquela dor pungente que me assolara de súbito. “Cezna, que a ama tanto”. – O que foi que aconteceu, de fato, na Ronda da Eternidade, quando você salvou Eneias? – perguntei. Ele suspirou. – Não adianta, não é assim? Nada do que eu diga poderá fazer com que me escute. – Por que não experimenta me contar a verdade? – A verdade? – ele parecia sorrir tristemente. – Sim, a história que não nos contou quando chegamos. Ele soltou uma baforada. – É que às vezes eu me confundo... – começou, mas eu o interrompi com um gesto. – Eu acho que você, simplesmente, mentiu. Por que você não recebeu o grupo de Eneias? Não estava esperando os jogadores? Não digo que estivesse fazendo plantão naquele cogumelo onde o encontramos, mas me pergunto o que poderia estar fazendo tão longe do início do jogo alguém que deseja mais do que nada encontrar companheiros que o ajudem a sair daqui. O que estava fazendo na campina? Ele não respondeu. Eu continuei, mansamente: – Acho que estava tentando recrutar um grupo próprio, um grupo que Clara não esperasse. Talvez tentasse convencer os próprios habitantes de Arrelipe a ajudá-lo, não sei. Queria jogar sem que ela se desse conta, sem que tivesse tempo para conhecer as fraquezas dos jogadores. Por isso Eneias e os seus foram convidados pela Mestra do Jogo e nós não. Por isso utilizou a lágrima de vento para entrar em contato com a gente em separado e mandou Bulbo nos atrair desde o começo da trilha, até onde você estava. Não quer dar à Clara tempo para conhecer nossas fraquezas, não é assim? Está obrigando-a a ir tateando a estratégia, a descobrir-nos aos poucos. Está tentando desesperadamente ganhar tempo e terreno. Mas não me venha com essa história de “eu me confundi”. Estou a tempo suficiente aqui no Tabuleiro para saber que você não se confundiria com uma coisa dessas. Acho que você se faz de bobo, às vezes, porque no fundo, no fundo, não confia completamente em Bulbo. Pode ser que ame o gnomo, que deva sua vida a ele. Mas ele continua sendo uma criatura de Clara. – Por algo será que ele a chama “élfide”... – suspirou o ruivo com um sorriso depois de um curto silêncio. – Só posso dizer-lhe que este grupo é o primeiro que chegou tão longe com a mesma formação do início. Creio... creio que temos mais chances do que nenhum outro até agora. – Diga-me o que aconteceu na ponte – pedi em voz baixa. – Diga-me que tipos de poderes tem, até onde está disposto a chegar para ganhar o Jogo. Ele ficou um instante em silêncio, e pensei que não ia me responder. Mas ao final sussurrou: – Estou disposto a chegar até onde seja preciso e fazer o que for necessário para vencer, Cida. – Isso não esclarece nada. Não chego a entender porque faz tanto segredo. – Não chego a entender porque tem tanta pressa por descobrir. Eu sorri, triste. Que dupla de manipulares, Faiald e Clara! E eu tinha caído direitinho na cilada que tinham armado para mim! O coração é o traidor do coração, dissera Tharia, ou algo assim. Tharia, oh, meu Deus, Tharia e Cezna! O que vou fazer? – Por favor Cida, não tome a decisão errada. Tenha as coisas claras, lhe suplico – ele murmurou. – Pense nos seus amigos. – Pensarei. – Jure-me. Eu ri sem humor. – Vamos, não seja dramático. – Jure-me – insistiu com veemência. Engoli em seco e perdi a paciência, exagerando como ele: – Nada me impedirá de levar meus amigos de volta para casa. Nem o amor. Nem a morte. Eu juro. Satisfeito? Só a brasa do cachimbo respondeu e eu lhe dei as costas odiando-o do fundo do meu coração. Eram apenas palavras, pensei. Mas sabia de alguma maneira que comprometera minha alma imortal.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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