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O Jogo no Tabuleiro - A Falcoeira - |
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A Falcoeira Capítulo 7
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7. No outro dia, a tempestade de neve havia diminuído, mas não cessado. Cezna não melhorara e agora tinha febre e delirava. Sentada ao seu lado, eu fazia o que César me dissera para fazer enquanto o mago descansava, mas tudo parecia inútil. Márcia estava de vigia e os outros dormiam envoltos nas peles e nos casacos, apesar do calor da caverna. Às vezes eu fitava o rosto adormecido de Tharia e estremecia. Cezna me amava e eu sabia que teria sido muito fácil me envolver com ele, se ele tivesse dito uma única palavra algum dia... antes do Tabuleiro. Tantos lugares a que fomos juntos! Ele sempre mais velho, seguro, maduro, pajeando o grupo de adolescentes – e agora eu sabia porquê. Agora era tarde demais. Agora, havia Tharia. Mais tarde, quando estávamos todos despertos, depois de comer as sobras do jantar, sentamos numa roda para decidir o que faríamos. – Devíamos esperar pela cura de Cezna – opinou Cíntia com um ar abatido. – Cezna não ficará bom sozinho – respondeu o mago. – Temos de buscar ajuda. Meu voto é que voltemos à Arrelipe. – Depois desta borrasca, o caminho pelo qual viemos estará completamente fechado – opinou Tharia. – Para voltar à Arrelipe teríamos de dar um volta de mais de dez dias e isso não vai ajudar em nada o amigo de vocês. Mas conheço uma trilha que nos levará à uma aldeia de pescadores além das montanhas em menos de uma semana, cinco dias se formos com marcha forçada. Com um pouco de sorte, a alqumista pode estar por lá. Além do mais, estamos em território das Filhas de Ninir. Não é prudente continuar aqui. – Caminhamos – disse Edula, quando foi sua vez de dar o voto. – Atravessamos as montanhas. – Concordo com ela – disse Márcia em seu canto ao lado de Eneias. Ela olhou para ele com um sorriso cansado, mas o Trovador a ignorou completamente. – Vamos em frente – ele sussurrou mau-humorado, apertando as mãos e estalando as articulações, nervoso. – Estou de acordo. Se a tal de Alquimista estiver na estrada, está à nossa frente. Cezna precisa de ajuda e eu estou louca para pôr-me a caminho – comentei. – Vamos procurá-la. – Você é a única pessoa ansiosa em partir, com esse tempo miserável – replicou o trovador, aborrecido. – Vamos adiante – concordou Faiald. – Também acho que ficar aqui é uma temeridade. – Temeridade é toda essa confusão – argumentou Bulbo. – Trilhas cheias de neve que beiram abismos e territórios ocupados por essas feras... eu acho que deveríamos voltar. – A maioria vence, meu amigo – decidiu Faiald com um suspiro. – Vamos arrumar as coisas. Uma hora depois estávamos a caminho outra vez. Como Bulbo dissera, a trilha estava coberta de neve e cada vez havia mais. Deixamos atrás de nós um abrigo seguro e limpo para o próximo que se aventurasse por ali, mas foi com tristeza que o deixamos. O frio aumentava a cada hora, penetrando nos casacos e fazendo-nos tremer, mesmo por baixo de toda aquela pele e lã. Eu não queria nem pensar no que aconteceria se tivéssemos de passar a noite ao relento com aquele gelo ao nosso redor. Evitamos falar para não desperdiçar calor ou água, ou mesmo para expor ainda mais nossos rostos ao frio. Era indisfarçável que três de nós estavam gripados, mas ninguém queria dar o braço à torcer. Gripe não significava grande coisa em casa, e o que não percebíamos é que ali significava problemas. O pior mesmo era Bulbo, que tinha acessos de espirro de vez em quando. O pobre, com todo o narigão que tinha, chegava a perder o fôlego quando começava, tantos eram os que lhe acometiam de uma vez só. Como eu temia, passamos a noite ao relento, sob a guarda de um imenso rochedo coberto de neve. Acendemos uma fogueira que mantivemos acesa graças a pólvora de algumas das balas de Faiald e dos couros que tínhamos usado para vedar o chão, na planície. O cheiro era pestilento, mas o calor era necessário, mesmo que não fosse muito. Com o jogo aberto entre mim e Tharia, eu me refugiava nos braços dele sempre que possível e me aliviava profundamente o calor e a proteção que ele me dava. O problema era escapar dos olhares irritados de meus amigos mas isso também era fácil de solucionar: bastava fechar os olhos. Desafio maior foi escapar das goteiras da neve degelada à pouco mais de um metro acima de nossas cabeças. Por volta da meia noite, durante meu turno, a tempestade cessou, ainda que as nuvens continuassem vagando, gordas, no céu. Na manhã seguinte o cenário sofrera tal mudança que perdemos alguns minutos contemplando-o. As nuvens tinham baixado logo além da trilha e estendendo-se diante de nós como se estivéssemos à beira de um lago nebuloso de ondas diáfanas. Os cumes altos e nevados eram as ilhas, brilhantes, douradas e azuis sob o sol da manhãzinha, tão gelados quanto o ar que nos rodeava. As lufadas de vento que vinham dos vales não conseguiam romper a camada de nuvens. Imaginei que abaixo de nós a tempestade continuava com a mesma intensidade e fiquei satisfeita que tivéssemos conseguido subir a trilha sem nenhum empecilho. Depois seguimos caminho. Cezna parara de delirar, mas passava a maior parte do dia dormindo. De vez em quando ele abria os olhos e pedia água ou simplesmente olhava ao redor e voltava à sonolenta fuga que empreendera. Caminhamos boa parte da manhã pela trilha gelada, longe dos precipícios, até que, depois de contornar um rochedo, vimos que ela se estreitava à beira deles. Não podíamos ver o fundo dos vales suspensos, pois as nuvens os ocultavam de nós, mas ouvíamos o assovio do vento e o som vazio e compreendemos que qualquer deslize podia ser fatal. Faiald amarrou-nos numa corda, fazendo com que nos sentíssemos mais seguros. Bulbo foi promovido, e o pusemos na garupa de uma das cabras-de-sol, à fim de não perdê-lo de vista. Em dado momento Edula louvou o sol e o bom tempo. Havíamos avançado quase o dobro da distância do dia anterior o que nos punha de muito bom-humor, realmente. O Damin, no entanto, replicou, fitando as encostas que nos margeavam à direita: – Tempo bom, tempo de caça. – Você tem um jeito todo especial de levantar nossa moral – reclamou ela. Faiald olhou-a e sorriu-lhe luminosamente. – Desculpe. Eu só queria que vocês se mantivessem alertas. – Ele tem razão – suspirou Tharia. – Esse é um ditado muito conhecido por aqui. – Bobagem – decidiu Cíntia baixando seu capuz e balançando os cabelos. – Num dia tão lindo como esse, nada de mal pode acontecer à ninguém. A paisagem tornou-se mais agreste. Rochas pontudas e lisas sobressaíam dos montes de neve e das paredes de pedra, fugindo à suavidade dos contornos gelados. A forma cônica das montanhas deu lugar a vários blocos de gelo e fendas profundas. Havíamos subido e nem sequer sentíramos, tal a inclinação da senda. Caminhamos algum tempo com um sentimento de segurança, até que Tharia parou de repente, e disse à meia-voz, olhando as nuvens nos vales, como se apreciasse a paisagem: – Tem alguma coisa se movendo há uns quinze metros diante de nós, no meio daquelas formas de gelo. Creio que estão nos vigiando há uns vinte minutos. Meu coração deu um salto dolorido e tive de esforçar-me para não olhar para aquele lado. – O que vamos fazer? – perguntou César molhando os lábios. – Prosseguimos. Estejam preparados para qualquer ataque dentro de poucos minutos. Se isso acontecer, tratem de proteger as costas contra as rochas. De maneira nenhuma fiquem de costas para o abismo, entendidos? E me fitou, preocupado. Balancei uma confirmação. – Crê que nos vão atacar? – perguntei com o estômago tão frio quanto os rochedos ao nosso redor. – Sem dúvida nenhuma – respondeu o guia. Seus olhos brilharam com o sol dentro deles, dentro dos azuis de suas íris. – Mas você não deve se preocupar. Continuamos andando, agora tensos com a situação. Eu prestei mais atenção nas formações de gelo e percebi os vultos de que Tharia falara, esgueirando-se na neve. Estavam cobertos de peles brancas e pareciam parte da paisagem quando paravam imóveis. É estranho como nosso senso de observação cresce à medida em que nos vemos ameaçados por algo que se oculta e vigia, como a gente passa a distinguir os detalhes. Não lembrava de quase nada sobre os componentes da Colônia, a não ser que eram aranhas. Agora, eu seria quase capaz de dizer a cor dos olhos daquelas criaturas. A trilha deu a volta e começou a penetrar numa garganta entre dois picos. Era um lugar ideal para uma emboscada, pensei, apertando os punhos dentro dos bolsos e lembrando-me que não tinha nenhuma arma comigo. Não estava disposta a ser a garotinha indefesa a quem os outros protegiam, não mesmo! Virei-me para Edula que vinha logo atrás de mim e murmurei: – Dê-me sua faca. – Viu alguma coisa? – indagou ela apreensiva. – Não, mas não me agrada ficar desarmada – expliquei. Edula hesitou um pouco antes de tirar o cinto de onde pendia sua espada e estendê-lo para mim. Fiquei olhando para a arma de boca aberta e com uma cara realmente imbecil. – A faca, Edula, não a espada. Eu não sei lidar com isso! – reclamei. – Nem com uma faca, tanto quanto me consta – ela disse alegremente. – A espada é mais longa e talvez mantenha o perigo mais longe. – E você? – murmurei tentando amarrar o cinto por cima do casacão. – Tenho a espada que Cezna trouxe da Casa da Sorte. Voltei-me e continuei andando, pensativamente, agora com o cinturão apertado sobre meu casaco. Cada passo que dávamos dentro da garganta me punha mais nervosa, mas não aconteceu nada. Não, até que saímos dali. Do outro lado da fenda, a trilha continuava por um caminho ainda mais acidentado. Agora não tinha mais de um metro e meio de largura e mergulhava sob uma espécie de concavidade das montanhas, formando sobre nós um telhado de rocha e neve grossa. Do lado esquerdo havia uma queda livre de uns oitocentos metros de altura, que terminava num vale nevado. Tive de controlar um impulso tolo de me pôr de quatro, à fim de ter mais equilíbrio. Meus pés me pareciam pouco e o gemido de Márcia e o jeito como olhou para a trilha me assegurou que pensava da mesma forma que eu. Nunca antes tínhamos encontrado um precipício tão reto, tão alto. O vento que navegava nos espaços abertos da cordilheira, soprava a neve leve dos picos acima de nós, fazendo suaves cascatas brancas. Do outro lado do abismo, nuvens se agrupavam ao redor de uma montanha, tingindo-a rapidamente de branco. Súbito, Tharia, que ia na frente, parou. Imitamo-lo e eu olhei nervosamente para trás. Haviam duas criaturas paradas na boca da fenda que atravessáramos, empunhando armas rústicas. Tinham um aspecto feroz, cobertas com longos pelos brancos, e exibiam olhos animalescos. Suas mãos tinham longas unhas escuras e suas pernas eram musculosas. Um cheiro ruim emanava delas e das duas outras que estavam paradas diante do caminho, impedindo nossa passagem. – O que é isso? – indagou Eneias num sussurro. – Bins – respondeu Faiald, mais aborrecido do que tenso. – E o que fazemos? – perguntou César movendo as mãos ao lado do corpo, conjurando as forças do seu saber. Tharia tocou-lhe o braço numa advertência, sem tirar os olhos das criaturas. – Esperamos – disse. – Esperamos? – gemeu Cíntia à beira do choro. – O quê ? – O que eles vão fazer – respondeu Bulbo. – Você deve estar brincando! – exclamou Edula, incrédula. – Nunca falei tão sério em toda minha vida. Um movimento nosso, atrairá a atenção do resto do grupo... – replicou Tharia, molhando os lábios. – Como estamos no início do inverno, é bastante provável que levem somente nossas montarias. Mas nunca se sabe... – Falô, gostosão. Com esses caras, nunca se sabe... – disse uma voz arrastada, por trás dos dois Bins diante de nós. Eneias franziu a testa e forçou a vista. – Não pode ser – murmurou entre dentes. – Mas é, mané – disse a voz. Um vulto arrastou-se entre os pelos longos dos Bins e surgiu uma moça enrolada num pelego semelhante ao dos monstros. – Oi, roqueiro, como vai essa força toda? Olhei para Eneias. Aliás, todos nós olhamos para Eneias. – Oi, Alquimista. Como vai você ? – ele respondeu sem expressão. – Muito melhor do que vocês – respondeu ela. Lúcia, a Alquimista, era baixa, com os olhos muito brilhantes no meio dos pelos brancos que a cobriam. Apoiava-se numa bengala igualmente branca que lembrava um osso e a pele das mãos e do rosto estava encardida de sujeira. Não parecia real. Ela aproximou-se de nossas cabras e os animais recuaram um pouco, confusos e medrosos com o cheiro dela. De fato, o pelego sobre ela era pele de Bin e fiquei pensando onde o teria conseguido. O couro não estava curtido e mesmo naquele frio cheirava à podridão, com manchas cor de ferrugem nos pelos e na pele da moça, como se tivesse aderido à ela. – Bem gordinhos, apesar da caminhada – ela murmurou apertando as pernas dos bichos. – Não vamos ter problemas com comida por muito tempo... Olhou para nós com um ar estranho, quase faminto, que me deixou de cabelos em pé, e sorriu. Ferozmente. – Se são os animais que quer, Alquimista, pode levá-los. Só nos deixe passar, sim? – pediu Faiald, tão arrogante quando um herói de histórias em quadrinhos. Fiquei com vontade de chutar-lhe a canela para lembrá-lo que não estávamos confortavelmente instalados na poltrona de casa, mas a garota tomou-me a frente. – Chhh, chhhh! Ei, eu acho que já vi a sua cara em algum lugar, bonitão, será que estou enganada? – sibilou ela, aproximando-se do Damin à cambalear. Estendeu a garra tão rapineira quanto as dos Bins e apertou o queixo de Faiald. Ele torceu o nariz e tentou livrar o rosto, mas ela riu e apertou ainda mais as unhas na pele dele. Gotas de sangue brotaram vermelhas e quentes e os quatro monstros agitaram-se, grunhindo. – Tire a mão dele – disse Edula, com tanto gelo na voz, quanto o tinham as rochas ao nosso redor. A Alquimista riu e apertou ainda mais a garra de rapina. – De onde o conheço, ruivo? – ela perguntou piscando os olhos lentamente, tentando lembrar-se. – Será que foi de algum barzinho onde se conseguia aqueles baseados naquele Outro Lugar? Ou será que foi de algum programa que eu tenha feito? Sabe que não me lembro? Aquele Outro Lugar... ele existiu mesmo? Vocês são de lá, não são ? Enquanto ela falava no que parecia ser um monólogo distraído, Edula infiltrou a mão no casaco, na direção da espada que trazia na cintura. Estremeci de ânsia, imaginando o que viria à seguir: gritos, ruídos de luta, muito sangue espalhado pelo chão, criaturas sendo atiradas pelo precipício. Suava frio. A mão da guerreira avançava firme e discreta para o volume. Súbito, Lúcia deu um salto para trás, largando Faiald e empunhando a bengala como uma arma com a mão esquerda, enquanto lambia os dedos ensanguentados da direita. – Se fizer um movimento, empacota – advertiu a Alquimista com a boca cheia de saliva, como uma criança que lambe o glacê de um bolo. Engoli em seco. Faiald apertou os lábios e passou as mãos nas feridas. Olhei para Edula e ela torceu o nariz. Tirou a mão devagar de dentro do casaco e ergueu-a num gesto de paz. – Tudo bem – murmurou – tudo bem. Desculpe, não vou tentar mais nada, falou? Lúcia olhou-a por um instante com os olhos injetados e sorriu de repente,fugazmente. – Acho bom não tentar nada, menina, acho bom mesmo. Porque quem manda aqui sou eu e se não fosse eu esses carinhas aí atrás já tinham devorado vocês à muito tempo, entendeu? Comido, nhac, nhac, percebeu? – ela disse imitando um movimento que ilustrava a fala de uma maneira completamente desnecessária. – Pelo amor de Deus – gemeu Cíntia, apertando os lábios com as mãos. – Ora, ora, você nunca comeu churrasquinho de gente? – criticou a outra. – Olhe, não é dos piores. – O que você quer de nós? – perguntou Tharia interrompendo-a. – Sei lá. Convidados para o jantar – respondeu Lúcia apoiando-se de novo na bengala. – Convidados para o jantar, ou para servir de jantar? – zombou Edula. – Menina esperta – murmurou a outra, sorrindo de leve, admirada. – Muito esperta. Você vai longe, ouviu, beduína? – Meu nome é Edula – respondeu minha amiga. – E o meu Lúcia. Mas pode me chamar de Alquimista, que eu gosto mais, sacou? – Vai nos deixar passar, ou prefere ficar aqui conversando até a noite? – interrompeu Eneias, nervoso com a proximidade dos Bins e da própria ex-companheira. Lúcia deu sorriso torto. – Sempre preocupado com o futuro quando é tarde demais, não é? – observou a Alquimista, divertindo-se com o Trovador. – Eu já cheguei lá, meu querido. Já estou no futuro e não tenho que me preocupar com mais nada. Fitou-nos demoradamente e sorriu: – Venham à minha casa para o jantar. Eu adoro receber, vocês sabem. Trata-se da única atividade social por aqui, receber para o jantar. Vocês vão achar o máximo. Quem sabe eu consiga transar com alguém normal para variar um pouco? Você ia querer repetir Eneias? Você gostou daquela vez, na boate. Estremeci por baixo do casacão, com vontade de empurrá-la pelo precipício atrás dela. Ninguém olhou para Eneias. Márcia fitava o chão à frente dela, enrubescida, os lábios apertados numa linha pálida. Entrementes, Lúcia deu-nos as costas e passou pelos Bins, tomando a frente. Não pudemos fazer mais nada, senão segui-la. Nos desviamos do caminho antes de chegar à um lugar mais aberto. Os Bins nos levaram por entre novas formações de gelo, através de fendas e lugares estreitos. À certa altura, achei que não haveria espaço para passarmos, tão estreita era a brecha por onde Lúcia se metia mas já estava escurecendo e eu calculara mal. Depois daquela curva fechada, saímos no refúgio de nossos captores. Do chão erguiam-se nuvens de fumaça que se condensavam pouco acima de nós, ocultando-nos o céu. À esquerda, terraços de calcário se sobrepunham em bacias coletoras de onde derramavam-se as benções de água quente, de origem vulcânica. Ali não havia neve devido a umidade e a temperatura do ar, e a tribo dos Bins e Filhas de Ninir viviam em cavernas diante da cascata calcária, ou ao lado dela, em estado quase selvagem. Crianças desprovidas de pelagem, brincavam na lama das bacias de pedra, dando gritinhos de alegria quando entravam em contato com o líquido quente, mas pararam imediatamente quando nos viram. Tinham uma aparência forte e feroz, com dentes pontiagudos aparecendo através dos lábios. As mulheres que estavam sentadas à beira de uma das grutas, deixaram de tagarelar nalgum desconhecido dialeto de grunhidos e rosnados e alguns Bins empunharam suas armas ostensivamente. No meio do pátio, entre as cavernas, um corpo esfolado pendia de um gancho. Faltavam-lhe pedaços das pernas. Recusei-me a imaginar o que havia acontecido com ele e desviei o rosto imediatamente. Seguimos a Alquimista sem uma palavra. Como a caverna em que havíamos passado a primeira noite nas montanhas, aquela que Lúcia ocupava estava dividida em três partes. A diferença era que estava suja e mal preservada, com cheiro nauseabundo emanando das paredes. – Vão sentando – disse a dona da casa, jogando-se sobre um catre torto. Respirava com dificuldade, não soube dizer se era pela caminhada, ou pelo fato de enfrentar-se aos nativos. Logo, porém, levantou-se e murmurou: – Já volto, não saiam daqui. Nossos animais haviam sido levados para uma das cavernas e eu ouvia os balidos confusos e medrosos deles. A Alquimista deixara cair seu manto de pele, revelando o corpo magro e sujo, cheio de equimoses e feridas. Desapareceu num dos buracos que havia na parede. Tharia abaixou-se e levantou o pelego com a ponta dos dedos e uma expressão de desagrado nos olhos. No mesmo instante Márcia voltou-se para Eneias, pálida de raiva: – Você transou com essa aí? – perguntou num grito. O trovador se encolheu. – Desculpe, eu... – Você transou com ela, Lá Fora! Fora do Tabuleiro! – continuou a morena avançando. Ninguém se moveu quando ela descarregou uma bofetada na cara dele, com toda força. – E eu que fiquei com você em todas as festas a que fomos! Eu estava a fim de você! Eu que vim... que trouxe todo mundo... até aqui... por você! – ela rosnou e deu-lhe as costas. Correu para César e sumiu no seu abraço aos soluços. Eneias olhou para nós, envergonhado e deu de ombros enquanto esfregava a bochecha ardida: – Eu não queria magoar ninguém. Sério! – Deixa pra lá. Teríamos vindo te buscar assim mesmo – disse Edula batendo no ombro dele. – Teríamos? – indagou Cíntia cheia de desprezo. – Talvez, se fosse uma mulher e não um farrapo... – Talvez – disse César deixando Márcia nos braços de Edula e voltando-se para Cezna. – Entretanto, tenho certeza de que se alguém pode nos ajudar a curar Cezna, esse alguém é justamente esse farrapo chamado Lúcia. – Ela não passa de uma aberração! – explodiu Eneias, jogando-se sobre um banco de pedra. – Viram os olhos dela? Vai terminar devorando a gente! – Cale a boca! – murmurou Márcia com os olhos imensos. – Pelo menos não fale mal dela. Edula, com os olhos brilhando, não parecia intimidada nem pela situação, nem pelo cheiro do lugar, filtrado pelo tecido diante do nariz. Ela aproximou-se de Faiald e examinou-lhe as feridas do rosto. Não pude deixar de observar o carinho com que o fazia. – Penso que devemos ir embora – ela murmurou quando terminou o exame. – Ficar aqui é uma idiotice. – E perder a festa? Você está maluca? – replicou a Alquimista voltando mais disposta, com os olhos quase fechados. – Vamos ter um verdadeiro festival de comilanças hoje à noite. Muito legal. – Não pretendo fazer parte do cardápio – replicou Edula. – E não fará. A carne dos animais do planalto é muito mais apreciada pelas tribos e muito mas festejada. Afinal, é mais rara que outra... Olhei ao redor, completamente desamparada. Aproximei-me de Tharia em busca do céu azul de seus olhos, mas eles estavam voltados para César, que ajeitou os óculos sobre o nariz e indagou para Lúcia: – Será que poderíamos falar profissionalmente? – Claro, meu bem, eu adoro homens de óculos, sabe? Eles tem, assim, um ar de fragilidade que me fascina – sorriu Lúcia, entorpecida. Olhei para Edula e ela abafou um sorriso. César, vermelho como um semáforo fechado, empurrou a moça delicadamente, obrigando-a a sentar-se no catre. – Ouça: meu amigo com asas feriu-se quando entrou em uma das casas da sorte... – começou ele. – Casa da Sorte, Casa do Azar, que diferença faz? Ela tenta destruir você. Por que não esquecem essa bobagem de jogo e ficam aqui comigo? A vida não é tão ruim, sabem, estamos em plena época de caça... as caravanas vêm e vão, vocês sabem... – Escute – insistiu César. – Ele precisa de alguma coisa que baixe a febre e combata o entorpecimento, entende? Lúcia fitou César e por um instante uma fagulha de medo, de um medo louco e frenético passou em seu olhar. – Deixem ele dormir. Para que despertá-lo? – murmurou titubeante. Entreolhamo-nos e por um instante todo o terror que ela havia passado entre os Bins envolveu-nos e fez com que compreendêssemos o pavor que flutuava em sua mente encharcada de droga. E de repente, Lúcia começou a rir como uma insana. – Palavra, que cara engraçada que vocês têm ! – ela soluçava entre o riso. – Vai nos ajudar, ou não? – insistiu César sacudindo-a de leve. Lúcia parou de rir e nos encarou com o rosto macilento, marcado pela ausência constante. – Eu já estou ajudando, imbecil. Será que não consegue ver isso? – rosnou, furiosa. – Eu não tenho paciência com ela – desistiu o mago, largando-a com raiva. – Mas ela tem razão – interveio Edula. – Está nos ajudando. Se não fosse ela, não seguiríamos vivos. – É isso aí – engrolou a outra com um sorriso estúpido nos lábios. – Vamos lá, Alquimista, por que não nos dá outra mãozinha? – insistiu a guerreira sentando-se nos calcanhares, diante de Lúcia. – Você acha que tudo é de graça nesse mundo? – indagou Lúcia. – Tudo tem seu preço, boneca, tudo. Ficar vivo entre os Bins, viajar com mercadores... tudo. – E o que você quer? – continuou Edula, paciente. – Companhia. – Mentirosa. Você quer que a gente fique aqui para que os Bins tenham outros com quem se divertir até o fim do inverno. Quem sabe desse modo esquecem um pouco de você, não é assim? Lúcia estremeceu e desviou o olhar. – Vou te oferecer outra coisa, Alquimista – ofereceu minha amiga. – Saia daqui com a gente. Olhamos para Edula assombrados. A guerreira nos encarou tranquilamente. – Não estavam pensando e deixá-la aqui, não é mesmo? Já chega que deixamos Nesbex para trás – resmungou à queima-roupa. – Sair daqui... Lúcia nos fitou desconfiada por um momento. – Vocês não são como safado do Teodoro, não é ? – Quem? – perguntou César mais interessado. – O poeta – esclareceu Eneias, que, de braços cruzados, esperava o final do diálogo encostado contra a parede. – O Teodoro me deixou no meio do caminho sozinha. Queria perambular pelas estradas só por prazer. Nem se preocupava em encontrar o Portal das Eras. Eu... eu só queria voltar para casa... Baixou a cabeça e deixou escapar uma vozinha infantil. – Encontrei uma tribo de mercadores. Boa gente, sabem? É verdade que às vezes bebiam e abusavam um pouco de mim, mas pelo menos tinham me prometido levar até o Portal... – Nenhum nativo jamais faria isso – observou Faiald. – É, eu logo vi – prosseguiu ela. – O chefe deles se chamava Erh-Fa. Era meio bruto, mas me deixava mexer nos potes de ervas, experimentando misturas dos mais diversos tipos. Consegui formar drogas que poriam o LSD no bolso. Bom material, muito bom mesmo. Ajuda a enfrentar o frio e a fome e esse lugar maluco. Isso porque a gente começa a ver coisas ainda mais malucas do que normalmente. Ela levantou-se, remexeu nos potes e cheirou alguns deles, enquanto eu me perguntava, realmente curiosa, de onde ela e César tiravam o conhecimento que aplicavam naquele lugar. Lúcia escolheu uma tigela e voltou para a chaleira que repousava sobre um fogareiro de lava, semelhante àquele que víramos no abrigo. Jogou um punhado do conteúdo do pote dentro dela e acrescentou gotas de um líquido marrou escuro. Pôs a mistura para ferver e depois de algum tempo jogou dentro da fervura uma bolinha de metal. Fechou a tampa e sentou-se no chão, incapaz de manter-se sobre os pés. – Erh-fa era legal. Estávamos pensando em comercializar minha descoberta. Ele me forçava a ir com ele para a cama todas as noites, mas me deixava bebericar a mistura. Troço poderoso! Era só molhar os lábios e eu podia ver os demônios e os anjos saindo de dentro dele como se fosse um galinheiro aberto no meio da noite. Ah, ah! Também podia ver a terra se mexendo debaixo de nossos pés. Não era a gente que andava sobre ela, era ela que se mexia e fazia a gente andar. E nos olhava. Nos olhava com uns olhos imensos....A gente olhava para ela e eu mandava ela ir dormir, para parar de olhar para mim, mas ela não parava. Lúcia bateu com o pé no chão, soluçando um pouco. – Ela olhava, olhava mesmo quando eu estava dormindo. Eu sabia que estava me olhando. Ela queria me olhar, olhar dentro de mim, me aprender como se aprende matemática na escola, mas não, eu disse, comigo não, minha nega, você não vai ficar sabendo nada de mim. César ouvia com atenção, mas Eneias remexia-se inquieto ao seu lado. – Palavra de honra, essa droga é melhor do que qualquer uma daquelas que provamos lá na boate, Trovador. Você não vai querer experimentar essa também? Ih, cara, cadê o seu violão? Olhamos para Eneias, que enrubesceu envergonhado e desviou os olhos. – Aí, um dia em que estávamos bem no meio da trilha aqui das montanhas, um bando desses macacos peludos nos atacou. Não trazíamos animais, pois não queríamos atrasos maiores do que aqueles que já tínhamos tido. As montanhas nos olhavam de um modo muito íntimo naquele dia. Depois elas vomitaram os peludões e eles saltaram sobre nós. Ela tirou a chaleira do fogo e a pôs ao lado, para esfriar. – Acho que eles estavam com fome, sabem? Eu nunca tinha visto ninguém com tanta fome. Um deles chegou para mim disse "guarr". "Guarr", vocês podem imaginar? Ofereci um frasco da droga. Ele pegou e bebeu tudo. Caramba, o cara era do tamanho de um elefante, mas de repente caiu duro no chão, que nem um nenezinho. Os outros ficaram olhando por um momento e depois pularam em cima dele. Estavam mesmo com fome, palavra! Cíntia pôs a mão na boca e gemeu. – Vocês imaginam o que aconteceu? A droga era tão forte que ficou todo mundo meio gambá. Ficaram cambaleando de um lado para o outro. Acho que um deles até caiu da trilha, não me lembro bem, porque eu tomei o restinho do que havia no frasco, sabem? Não é muito fácil aguentar os peludões, não mesmo. A Alquimista lambeu os lábios e sorriu. – Aí eles começaram a me tratar como se fosse muito importante. Me trouxeram para cá, junto com o que havia sobrado da caravana. Me apresentaram para um peludão, o maior que eu já tinha visto, e ele me apresentou para a mulher dele. Ela me olhou com uma carinha de gula e mesmo com toda a droga correndo nas veias eu pensei, agora estou frita mesmo. Mas como eu estava tão mole que mal conseguia me por de pé, isso fazia pouca diferença. Fiquei encostada numa pedra, ouvindo eles fofocando entre si. Lúcia mexeu a chaleira, aspirando a fumaça que tinha cheiro de couve verde. – Então ela me pegou, mordeu o meu pescoço e sugou meu sangue. Sabem, que nem aquele vampiro da história. Estremeci. Cada palavra que saia da boca daquela criatura, tinha o poder de me fazer paralisar o pensamento. Me encostei em Tharia e o senti tenso como madeira. Olhei para ele e então percebi que não era nenhum de nós o mais afetado pela história de Lúcia. Era ele. Abracei sua cintura e encostei a cabeça em seu ombro, tentando lhe dar conforto. Ele piscou os olhos, sorriu sem graça para mim e me abraçou. – Desde então, de vez em quando a chefe do bando vem até mim e suga um pouquinho, que nem um sanguessuga. Se tenho teor de droga suficiente para ela entrar em órbita, me dão de comer. Se não tenho, apanho. Ficou em silêncio, por um momento e depois sussurrou aterrorizada. – Deus meu, nunca pensei que fosse capaz de dizê-lo em voz alta. Ficamos em silêncio esperando que se controlasse. – De quem é a carcaça ali fora? – perguntou Tharia de repente. Falou aos arrancos, sem medir as palavras, como se quisesse provar alguma coisa para si mesmo. A Alquimista despejou o conteúdo da chaleira numa xícara branca que era, provavelmente, de osso, parecendo não ouvir a pergunta dele. Depois encolheu os ombros e sacudiu a cabeça. – Quando comecei a entender um pouco o que eles dizem, me contaram uma história mais ou menos assim: o chefe dos gorilões e a chefe das gorilonas se enfrentaram. A matriarca ganhou e tornou-se líder de ambas tribos. Mas ignoro o porquê disso tudo. – Muito antes de você chegar? – prosseguiu Tharia, em dar ouvidos ao ruivo. – Antes deles tirarem os pedaços da carcaça e me dar de comer – respondeu Lúcia. Engoli em seco. Cíntia gemeu de novo e olhou ao redor em busca de uma saída, uma janela, qualquer coisa. – Temos que sair daqui – disse César para si mesmo. – É mesmo? – ironizou Márcia. – Imagine, essa ideia não havia passado pela cabeça de ninguém, aqui. Em todo o caso, parece que vai ser muito fácil. É só matar uma tribo inteira de homens-gigantes-canibais e sair daqui sem um só fio de cabelo fora do lugar. – Podíamos aproveitar a festa... – opinou o mago. – Não sei se vocês se dão conta: isso não é a turminha da pesada da sétima série – replicou a Alquimista. – Não se pode sair daqui. Não temos a mínima chance! Estamos falando de uns tipos que conhecem estas montanhas como a palma da mão! – Não, estamos falando de uma única oportunidade – replicou César. – Durante a festa estarão suficientemente distraídos para que possamos tentar alguma coisa. – Se nos pegarem, é o fim – gaguejou a Alquimista. – Se ficarmos é o fim, também – interrompeu Faiald. – Creio que será uma boa ideia. Eu... disponho de certas ajudas, se podemos chamá-las assim. Tenho certeza de que dará tudo certo. – Ah, espere aí! – gritou Lúcia dando um salto na direção do ruivo. – Lembrei! Eu nunca esqueceria aquele olhar! Você é Felipe, o irmão de Clara! Foi para você que ela criou o Tabuleiro! Ninguém foi bastante rápido para impedir que ela o dissesse. Senti Tharia segurar a respiração e mordi os lábios, olhando para ele. Ficamos um instante em silêncio, esperando a reação dele e compreendi que todos nós havíamos guardado o segredo do Irmão da Terra, com medo do que viria depois. O marceneiro fitava furiosamente o chão à sua frente. Depois, levantou os olhos e sorriu. – Claro, só podia ser... o Irmão da Terra. E a Grande Dama, e o Portal das Eras, e o Outro Lugar... Livrou-se gentilmente de meus braços, e saiu da sala. – O que está acontecendo com esse cara? – perguntou Lúcia. E depois, mais aflita. – Vão me tirar daqui? Mesmo? Acham que vamos conseguir? – Vamos sair daqui, Alquimista. Eu prometo – jurou o Damin desapaixonadamente. – Vindo de você, isso deve ser uma promessa e tanto! – Creia-me, irmazinha, o é. O grande sorriso de Lúcia desapareceu lentamente, consumido pela frieza do olhar dele. Deu uma volta sobre si mesma e apressou-se em dar o chá fumegante para Cezna.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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