O Jogo no Tabuleiro

- A Falcoeira -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

8.

Duas horas mais tarde, depois de outra dose de chá de cheiro de couve-verde ser fervido para Cezna, ouvimos um alarido fora da caverna. Nos entreolhamos tensos e a própria Alquimista franziu o nariz como um cão que arreganha os dentes.

– Está na hora da festa – comentou. – Quando vamos sair daqui?

– Logo – murmurou César acomodando Cezna no capuz da irmã. – Logo.

– Gostaria de estar certo disso – comentou Tharia, entrando na caverna. Faiald pegou sua arma e engatilhou-a, apontado para ele.

– Acha que eu me passei para o lado deles? – murmurou o marceneiro estacando com um sorriso cínico.

– Acho.

– Francamente, já basta – interveio César arrancando a espingarda das mãos do ruivo. – O grupo deve permanecer unido. É nossa melhor arma. É a única coisa que importa.

Olhou-nos um por um.

– Não esqueçam do combinado: se a coisa esquentar, esperem que Faiald e eu façamos algo. Não tentem nada por iniciativa própria!

– Estou com medo – murmurou Márcia, olhando para o irmão. Sua principal tarefa seria proteger Cezna e manter-se longe da luta, se houvesse.

– Todos nós estamos – sorriu Bulbo. – Mas temos de ir em frente. Foi o caminho que escolhemos.

Então olhou para mim e seu sorriso alargou-se ainda mais.

– Como é, macacada? Se a gente demorar muito, eles vão acabar desconfiando, sabem? – insistiu Lúcia envergando o couro peludo que usava quando a encontráramos no caminho. Estava tão drogada que não conseguia pôr o pelego direito sobre as costas. Senti um frio na barriga. César agarrou-lhe o pulso, trêmulo, pálido.

– O que está dizendo?

– Que temos de ir à festa.

– Você não nos falou nada disso! – protestou Cíntia.

– Ué, vocês não perguntaram...

– Típico de você, não é, Lúcia? – explodiu Eneias.

– O quê?! O quê?!, bando de imbecis? Eu faço parte dessa comunidade, entendem? Se eu não aparecer ali fora em três minutos, eles vão entrar para me buscar! Já esqueceram? Além do mais vai ser a última oportunidade de comer uma refeição quente em, sabe se lá, quanto tempo!

– Nisso ela têm razão – observou Tharia.

– Me deixa em paz, quatro-olhos! – ela concluiu livrando-se de César. O Mago aproximou o rosto dela e murmurou:

– Não tente nenhuma gracinha, moça. Eu não estou com paciência para agüentar você.

– Juro que pagava pra ver o que você faz. Detesto gente que tem que ter sempre a última palavra – devolveu ela no mesmo tom de voz.

Saímos da caverna em duplas. Lúcia e César iam na frente. Eu e Tharia os seguíamos, Márcia e Eneias, Cíntia e Edula e finalmente, Bulbo e Faiald. A névoa sobre a aldeia era cinza escura e, sobre as duas fogueiras que ardiam, avermelhada. O calor era maior do que antes. Os Bins e as Filhas de Ninir estavam reunidos ao redor do fogo, assando os restos de uma de nossas cabras e um pedaço da carniça que víramos ao entrar. Eu me esforçava por não sentir fome, mas era impossível. Não comêramos nada desde o almoço e a caminhada tinha sido puxada.

Alguns Bins à nossa direita, junto das bocas das cavernas, tocavam tambores rústicos, de ossos cilíndricos de várias dimensões, alguns tão grandes que davam asas à imaginação. Soavam como marimbas, mas os sons eram agudos, ásperos, sem a menor sutileza. Outros “músicos”, ajoelhados, faziam um som com as bocas, reproduzindo o vento das montanhas. As mulheres riam e as crianças corriam umas atrás das outras, rolando pelo chão sob o olhar vigilante dos pais. Havia uma certa euforia no ar, que vibrava com o som dos instrumentos. Quase podia esquecer que eram perigosos, ao ver os pequenos observando-nos com grandes olhos curiosos. Entretanto, um deles abriu um sorriso de dentes pontiagudos e os outros o seguiram, e, ainda que seus sorrisos fossem inocentes, as agudas pontas brancas de que estavam munidos transformavam suas carinhas redondas em terríveis espectros de um futuro próximo.

Respirei, sentindo o suor gelado de medo correndo pelas minhas costas.

Junto ao banco de pedra que a Matriarca ocupava, havia um espaço reservado para sentarmos, um espaço meticulosamente limpo. Apesar da sujeira da caverna de Lúcia, as criaturas não pareciam compartilhar de seus gostos e mantinham certa ordem e limpeza.

Sentamos a medida em que fomos chegando, de modo que César e a Alquimista estavam justo ao lado da Matriarca, uma robusta Filha da Ninir, alta, com os olhos brancos e atentos. Sua pupila era diminuta, quase completamente ausente, e nunca sabíamos exatamente para onde olhava. Parecia míope, pois sempre que pegava alguma coisa, examinava-a bem de perto antes de comentar algum grunhido com a Alquimista, que a ignorava completamente.

Estávamos de costas para a cascata, mergulhada nas sombras a não ser pelos reflexos da água, sempre em silencioso movimento sobre as bacias calcárias. Mais além abria-se o discreto corredor que levava à saída, coberto por alguma coisa alva. A princípio eu pensei que era neve, mas depois Edula observou que se tratava de objetos roliços e pontiagudos. Deduzimos que eram os ossos de alguma criatura extravagante.

De vez em quando, Lúcia grunhia alguma coisa para a matriarca, mas, então, era a Filha de Ninir que fingia, muito dignamente, que não a via. Imaginei que a Alquimista era vista como uma espécie de receptáculo sagrado vivo, com o qual não se podia trocar palavras diretas.

Súbito, dois Bins ergueram-se e eu pulei de susto. Tharia apertou minha mão e olhei para ele em busca de segurança, mas meu coração tornou-se ainda mais dolorido dentro do peito. Aqueles olhos que sempre tinham o céu aberto e o sol... agora tinham noite e terror inscritos nele. E aquela boca de lábios finos parecia-se demais com a dos outros Bins, envolta que estava na barba loura. O sangue deles era mais forte do que o dos moradores de Arrelipe. O sorriso que me abriu devia ser de conforto, mas pareceu-se aos das criaturas, faminto, carnívoro, e tive de me controlar para não gritar.

Em todo caso, os dois nativos não tinham se erguido para nos agredir. Eles reverenciaram sua chefe e a todos nós e começaram a simular uma luta que ficava entre a mímica, a dança e o ato real. Era uma exibição fascinante, se estivesse em posição de achar alguma coisa fascinante. Naquele momento, eu achava tudo muito assustador. O som dos xilofones de ossos cessou e o cantar também, e por um momento só se ouviu o som dos corpos se movendo e se atracando, a respiração resfolegante dos dois adversários. De seus pelos exalava um odor penetrante e almiscarado, algo parecido com o cheiro dos zoológicos no verão. Seus movimento eram fortes, porém refinados como os de um animal caçando. Imaginei se não seria uma tradição muito antiga e muito corrompida pelo tempo, pelas privações e pelo modo de vida a que estavam submetidos.

Quando eles terminaram, outra vez os xilofones se fizeram ouvir. Agora a carne estava quase pronta e o cheiro da gordura derretida espicaçava os ânimos. Dois outros lutadores se puseram a simular uma refrega e depois deles outros e mais outros, de modo que nos acostumamos a vê-los erguendo-se e movendo-se de maneira suspeita. Se não fosse a desconfiança de Faiald e o instinto de Tharia, os selvagens teriam nos pego inteiramente de surpresa.

Os dois últimos lutadores tinham acabado de sentar-se e os xilofones principiaram a soar. Súbito, três deles se ergueram ao mesmo tempo, dois com machados e pedras e o terceiro com um osso pontiagudo em forma de lança. Até então, nenhum deles tinha usado nenhuma arma, mas pensamos que também se tratava de mais uma simulação, até que mais três se ergueram e a Matriarca levantou-se ameaçadora, sobre nós.

– Atenção ! – gritou Faiald sacando sua faca, no que poderia ter sido um erro, se aquilo não fosse uma cilada. Desprevenida, rolei para trás, ao mesmo tempo em que um Bin tombava em meu lugar, atingido pela adaga de Tharia, cravada no meio da testa.

Edula puxou a espada lilás cujo fio brilhou branco como um diamante – e talvez fosse isso mesmo pois, com uma passada apenas, ceifou o braço do atacante mais próximo, garantindo que Márcia escapasse ilesa rumo à passagem que dava para o exterior. Uma Filha de Ninir correu em minha direção e eu fiz a coisa mais estúpida de minha vida: fechei os olhos. Entretanto, meu braço assumiu o controle da situação e sacou a espada de Edula, impulsionando-se para frente. A criatura jogou seu corpo sobre mim, a boca aberta na direção do meu pescoço e a espada, num golpe de sorte, perfurou-lhe a jugular. O sangue quente jorrou sobre mim. Afastei-me gritando, enquanto ela despencava aos meus pés, afogando-se.

Ao vê-la ali, perdi precisos segundos chocada comigo mesma. Contudo, meus companheiros tinham conseguido chegar à passagem e desobstruíram-na. Corri para eles com as criaturas no meu encalço. Quando estava quase ao alcance da fenda, olhei para trás e parei estarrecida.

Encurralada perto da cascata, Cíntia chorava e gania, agitando os braços em desespero. Eu não podia deixá-la para trás. Meus companheiros já não estavam à vista, e provavelmente dariam por sua falta quando já fosse tarde demais. O que eu fiz, não tem nada a ver com coragem. Eu estava morta de medo! Apenas fiz o que tinha de fazer. Gritei por Edula e Tharia, armei-me com um osso pontiagudo jogado no chão ali perto, dei meia volta e comecei a cobrir o caminho que me separava de minha amiga.

– Agüente firme, já estou chegando! – gritei, fincando o osso aqui e ali, chutando o que via pela frente, fossem canelas, pés enormes ou caras cheias de dentes. Num instante eu estava ao lado dela e acho que gritava tão desesperadamente por meus companheiros, quando ela.

Entretanto, minha presença pareceu devolver-lhe ânimo. Os Bins seguiam nos atacando, mas apesar de seus corpos serem muito duros, os olhos eram alvos macios e ficavam próximos o bastante de seus centros nervosos para que uma estocada funda e firme os tirasse de ação no mesmo momento. Cíntia muniu-se de um machado que fora perdido por um dos monstros e atracou-se com um deles, usando a malícia em vez da força que não tinha. Entretanto, apesar de tudo, foi impossível abrir caminho até a fenda e, dentro de pouco tempo, permanecer onde estávamos. Até então, nenhum de nossos amigos tinha dado mostra de ter ouvido meu chamado e fomos obrigadas a recuar cascata acima, tateando com os pés dentro das bacias de calcário. Imaginei que eles tinham ouvido mas não eram loucos o suficiente para vir nos resgatar. Depois pensei que essa era a maior bobagem que já tinha me passado pela cabeça. Eles tinham de vir!

A água quente pinicava nossa pele, encharcando nossas roupas. Tropecei num murinho de calcário, mas felizmente, ele quebrou-se sob meu peso e não caí. Continuei recuando e subindo, com os Bins a nossa frente.

– Você acha que temos alguma chance? – indagou Cíntia, brandindo o machado furiosamente.

– Não sei. Talvez se conseguirmos chegar lá em cima. Podemos atravessar em direção da trilha.

– Não – ela disse, friamente. – Vamos passar por cima das bacias e descer do outro lado, perto da fenda.

Quase ao mesmo tempo, a mercadora deu as costas para nossos atacantes e correu na direção que indicara.

Seguia-a, não só porque seu argumento tinha mais sentido do que o meu, mas também porque minha arma acabara de ser atirada para longe por uma patada da Matriarca. Pude ver bem de perto seus olhos brancos, com aquele pingo de negrume que deveria torná-la mais humana e, no entanto, era tão terrível quando um abismo. Tinha os dentes pontiagudos na face desfigurada pela fúria, o bafo fétido. Virei-me e corri o mais depressa que pude, no encalço de minha amiga.

Os Bins nos seguiram imediatamente e subiam pela cascata, adivinhando nossas intenções. Instinto, suponho. Corremos até chegar sobre as pequenas muralhas coloridas, até chegar perto do outro lado, quando um do maiores machos conseguiu alcançar ao nosso patamar. Cíntia e eu o atacamos como pudemos, mas aquelas alturas dos acontecimentos, a verdade é que meus chutes não eram de grande valia. Por isso, puxei o machado que ele levava na mão e em seguida pulei para longe, de modo que ele acertou a própria perna num corte profundo que o fez urrar de dor. Cíntia gritou e saltou mais adiante, a dois pulos da fenda. Eu quis segui-la, mas algo me deteve.

Magia. Ondas de magia emanavam da terra e penetravam no meu sistema nervoso, produzindo eletricidade estática ao meu redor. O ar era seco, grosso e eu abri a boca para sorvê-lo. Parecia que o mundo todo passara para a câmara lenta. Os gritos dos selvagens ao meu redor eram altos e agudos, mas eu não os ouvia direito. O chão parecia pastoso como um pântano. Não, não, aquilo era água, lembrei-me e tentei pular atrás de Cíntia, mas meus pés embaraçaram-se e caí de bruços no líquido quente. A bacia era pouco funda e machuquei as mãos ao tentar me amparar num pedregulho ao lado, que desfez-se com a violência do golpe que lhe dei. A queda parecia não ter fim, mas quando teve, foi como estivesse nadando em caldo de pêssego. Eu quase podia ver as ondas da corrente me puxando, assim como via a Filha de Ninir tão perto de mim que ia me tocar com suas mão felpudas e enormes. Gritei com todas as forças que tinha, mas não ouvi meu próprio grito.

Lá estava ela!

Uma pedra gravada com uma letra da Casa de Licora, ao alcance da minha mão. Não hesitei. Havia uma chance em mil, mas aquilo poderia dar tempo aos meus amigos para que chegassem ao ponto onde estava e me regatassem. Ou, talvez, tempo para que chegassem e fossem vencidos. Rezei para que fosse apenas o bastante.

Minha mão atravessou a cortina de água que me separava da pedra marcada e toquei-a antes que a Filha de Ninir pudesse por as garras em mim.

A mudança foi tão brusca que por alguns momentos ainda meus ouvidos ficaram zunindo com os berros dos Bins e das fêmeas e dos meus próprios, pois eu gritara de medo e raiva no último momento, gritara de dor, porque fui sugada pela força que emanava da pedra e meu corpo foi distorcido para poder entrar ali.

Era um lugar semelhante à uma grande porção de espuma de sabão, uma nuvem composta de minúsculas bolhas, muito mais resistentes que o ar. Eu estava encerrada dentro de uma delas, e podia ver partes de mim mesma encerradas nas demais. Eram lembranças. O momento em que vira Tharia pela primeira vez, os momentos mais doces que passara ao lado de meus amigos, cada recordação tinha seu lugar particular, minhas grandes e pequenas tristezas, minhas amarguras, minhas alegrias. Tudo isolado, fechado e si mesmo. Estagnado. A bolha era inquebrável, e quanto mais golpeava, mais forte ela se tornava. Não podia sair.

Súbito, percebi que uma lembrança encerrada numa das bolhas, segurava algo em suas mãos. Eu era uma menina muito, muito pequena, e estava à beira do mar. Era a primeira vez que o via. Tão grande, meu Deus! Minhas mãos eram minúsculas e por isso, a concha que levantaram da areia parecia muito maior do que deveria ser na realidade. Minha lembrança não sabia o que fazer com ela. "Ouça-a!" – gritei. "– Ponha no ouvido."

A menina aproximou a concha do ouvido e então uma voz saiu de dentro dela:

– Diga as suas palavras mágicas.

E essa?! Que palavras mágicas? Eu não sabia nenhuma palavra mágica!

– Abracadabra! – gritei, e em algum lugar um sonho pequenino desapareceu para sempre. Não haveria percebido, se não fosse o súbito silêncio em minha alma. Estremeci. O que estava acontecendo?

– Não – replicou a voz maternalmente. Era Clara! Agora podia reconhecê-la perfeitamente. – Você tem mais duas chances!

– Abre-te sésamo!

Uma tristeza, em algum lugar, arrancou-se de mim e desapareceu na imensidão. Foi suficientemente grande para que eu tivesse de apoiar-me na bolha.

– Não, não. Tente outra vez.

– Alakazam!

Algo desapareceu. Estava ali e logo não estava mais e então eu já não sabia o que era. Clara estava apagando minhas memórias, como se fossem arquivos em um computador! A cada resposta errada ela me privava coisas que eram partes de mim mesma. Eu quase podia imaginá-la com o dedo sobre a tecla do "deletar", a outra mão apoiando a cabeça enquanto eu agarrava meus cabelos em pânico.

E se ela apagasse as minhas lembranças de casa? Com poderia voltar? O que significaria voltar para um mundo do qual eu não lembrava? Seria como entrar outra vez no jogo, só que um jogo sem fim!

– Que boba, Falcoeira, você não está pensando! Logo você! Dizendo lugares comuns! Diga as suas palavras mágicas, não é tão difícil! Vamos tentar outra vez. Você têm três chances.

– Oh, Deus!

Uma lembrança desapareceu.

– Está perdendo seu tempo. De novo...

Claro que ela tinha razão. Além de eu estar vendo minha vida desaparecer, ainda por cima perdia tempo para meus amigos. O que estaria passando lá fora? Tinha de voltar depressa! Meu repertório de literatura infantil era muito pequeno e estava a ponto de terminar.

– Pimpinela!

Algo se rompeu dentro de mim e comecei a chorar, mas já não sabia porquê. Havia se perdido. A voz de Clara continuou, implacável.

– Isso é um navio. Seria a mesma coisa que dissesse "Pequod". Não valem.

– Merda! Merda! – berrei, sem deter-me para saber o que perdera agora.

– Você me decepciona, jogadora. Tentaremos novamente. Você têm três chances: diga as suas palavras mágicas.

Parei de me agitar. Não conseguia compreender o que se passava... até onde Clara estava disposta a ir? Até que eu não tivesse nada mais à perder? Nem mesmo tempo?

– Rumpelstinsky.

Uma vez eu tive um cachorro com esse nome. No momento em que a palavra terminou de soar, já não lembrava de como ele era.

– Um anão idiota. Cantando vitória antes de obtê-la... se parece a certos tipos que conheço. Mas não, não, Falcoeira, suas palavras mágicas não se resumem a Rumpelstinsky.

– Tom Tit Tot!

Algo desapareceu e a voz de Clara soou quase enfadada:

– Está repetindo nomes, pequena. "Tom Tit Tot" ou “Rumpelstinskyi", é a mesma coisa.

– Como quer que saiba? Isso é o mesmo que roubar no jogo! O mesmo! Não faz parte das regras!

Algo desapareceu. Tão grande que caí, tonta. Mas não sei, não posso lembrar o que era. Oh, meu Deus, daqui a pouco ela vai apagar Tharia da minha memória! Não quero! Não posso deixar que faça isso!

– Falcoeira, não sei porque a confundem com uma élfide. Você não entende nada do Tabuleiro. Nem sequer presta atenção no que lhe digo! Não me importa seguir com isso indefinidamente, mas detesto me decepcionar! Você tem três chances: diga as suas palavras mágicas!

A voz ainda rugia nos meus ouvidos, quando finalmente compreendi o que ela queria. Levantei-me enfraquecida, olhei para cima (mas poderia ter olhado para baixo, ou para os lados, dava exatamente igual) e sussurrei:

– "Para longe prossegue a estrada,/ da porta de onde brotou./ Para longe prossegue a estrada,/ e segui-la, se puder, eu vou./ Vou segui-la com os pés machucados,/ até em via maior se fazer./ Onde muitas sendas e caminhos são mesclados,/ onde vou? Não sei dizer."*

Palavras mágicas. As minhas palavras mágicas. Aquelas a que se recorre quando já não há nada a dizer, quando tudo acabou. Podia ser uma oração, uma frase lida num livro, um poema ouvido por acaso, como o que acabara de recitar. Reservas de força, para quando já não há reserva alguma: estas são as palavras mágicas de cada um. E essas eram minhas e não podiam ser de mais ninguém.

Senti como se penetrasse num funil, como se todas as bolhas mergulhasse em mim em uma velocidade vertiginosa e de repente estava outra vez de volta à cascata, segurando um búzio exatamente igual ao que segurara entre as mãos quando pequena, e exatamente do mesmo tamanho exagerado de que lembrava. De sua fenda espalhava-se uma luz suave que iluminou tudo ao meu redor. Uma Filha de Ninir parou espantada com minha aparição, gritando. Edula, que estava do outro lado, passou por mim e fendeu-a ao meio com a espada lilás.

– Puxa, finalmente! – gritou ela para mim. Pôs os dois dedos na boca e assoviou. Pensei, com um sorriso, que tinha esquecido como fazer aquilo. – Vamos embora!

E para mim, no mesmo tom:

– Pare de rir e mexa-se!

– Espere! Pegaram Faiald! – gritou Tharia por sua vez.

Edula empalideceu e deu dois passos na direção do ruivo, que atracara-se com vários Bins e Filhas de Ninir de uma vez só. Qualquer um diria que já estava morto.

– Para trás! – gritou ele. – Em seguida estarei com vocês.

– Não! – gritou Edula enfrentando-se a um dos monstros. Tharia mordeu os lábios.

– Ande, Edula, ele sabe o que faz! – gritou César na entrada da fenda.

– Não podemos deixá-lo, droga, eu não posso! – ela gritou em resposta, dando um safanão no marceneiro, que parecia mais preocupado com ela, nesse momento, do que comigo.

– Tire elas daqui, Tharia! Leve-as, agora! – ele ordenou e voltou-se para seus atacantes largando a espada. Uniu as mãos em prece diante de si, mas que seu rosto não tinha nada de beatífico. Havia, antes, um sorriso sádico bailando em seus lábios. Olhei para minhas próprias mãos.

O búzio apagou-se subitamente.

– Então vocês querem a mim? – ouvi sua voz soando através da abertura marinha. – Venham pegar-me, criaturas de minha irmã. Venham tocar o meu corpo sagrado...

Voltei-lhe os olhos, atraída pelo terror, pelo poder que emanava da voz dele. Vi que descrevia um grande círculo com os braços e dele nasceram miasmas brancos, fantasmagóricos, horripilantes. Estremeci. Os miasmas cresceram e os selvagens recuaram um pouco, agora completamente esquecidos de nós. Eu tremia, apertando o búzio com força suficiente para quebrá-lo, se fosse feito de simples cálcio. Meu coração vibrava. E as nuvens disformes começaram se condensar.

– Filhos de Kavaal! Eu, o Irmão da Terra, os chamo! Vinde cumprir vosso destino e deixai que a Deusa mostre toda sua força!

Um dos seres tomou subitamente, forma. Era branco, do branco incômodo das cinzas, e erguia-se sobre duas pernas e tinha dois braços esqueléticos que terminavam em garras com três dedos. Sobre o pescoço que mais parecia o corpo de uma serpente, havia uma cabeça calva e branca, os olhos de uma névoa indistinta e um focinho que se projetava numa bocarra com dentes imensos que ficavam de fora quando estava fechada. A criatura ergueu a cabeça e deu um berro terrível, que ecoou nas montanhas e fez os Bins guincharem de pavor. A cauda de coisa tinha um aguilhão ósseo que brandia de um lado para outro, atingindo os Bins mais dispersos. Outras formas se condensaram ao redor daquele com rapidez vertiginosa. Guerreiros medonhos e monstruosos como o primeiro. Formas femininas de voluptuosidade demoníaca. Tharia empurrou Edula, que também contemplava as criaturas infernais, bem no momento em que ela atirou-se para nós e abocanhou uma Filha de Ninir com um som horrível de ossos partidos e carne dilacerada.

– Mexa-se! Mexa-se! – gritou o marceneiro, empurrando Edula aos trancos, obrigando-a a avançar até a passagem. Agarrou minha cintura e correu, o olhar tresloucado de medo. Obrigou-nos a seguir a trilha de César, impedindo Edula que agora soluçava alto, horrorizada, de continuar olhando para trás. O frio, fora do acampamento, mordia tanto quanto o fogo. Tharia me colocou no chão e eu puxei o capuz para frente, seguindo as pegadas de César, até que vi seu vulto no caminho, em companhia de outros três grandes corpos que se destacavam na neve alva, acompanhados de um menorzinho.

– Graças à Deus! – gritou Cíntia correndo em minha direção. – Quando vi que tinha sumido, corri para avisar os outros! Foi uma ótima jogada!

Olhei para ela, a alma me caindo aos pés. Por um momento, nada teve importância, nem o que acontecia atrás de nós, nem o frio que congelava rapidamente minhas roupas molhadas. Sim, minha salvação não passara de uma jogada dentro do Grande Jogo que disputávamos com Clara. E daquela vez fora uma ótima jogada, realmente. Olhei para o búzio, incapaz de acreditar que fora apenas isso.

– Que te pareceu? – segredou-me, curiosa. Fitei-a.

– Verdadeiro – respondi sem expressão. Ela sorriu, satisfeita.

– Sim!

Independente da natureza do Jogo, algo tão maravilhoso quanto saber palavras mágicas em algum lugar do Universo, merecia ser verdade.

 

* J.R.R. Tolkien - "O Senhor dos Anéis" - "A Terra Mágica" - Editora Artenova S.A, 1979, Rio de Janeiro Trad. Luiz Alberto Monjardim

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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