O Jogo no Tabuleiro

- A Falcoeira -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

9.

Naquele lugar onde estávamos, conseguimos nos proteger dos ventos atrás de um enorme dente de pedra. Uma tempestade terrível zunia nas montanhas e só esperávamos Faiald para nos meter dentro dela e sair dali. Eu já estava farta do frio e do branco, do assovio constante do vento nos picos nevados mas aproveitei a parada para livrar-me da roupa molhada e vestir peças que os demais me emprestaram porque todo mundo as tinham duplas ou triplas. As peças molhadas ficaram por fora, a fim de congelarem de uma vez. Então, disse Bulbo, íamos sacudir o gelo delas e eu poderia voltar a usá-las.

Quando finalmente me senti um pouco mais aquecida, tomei coragem e me aproximei de Tharia, que observava a tempestade do outro lado do rochedo. Senti que ele precisava de solidão, mas não consegui me afastar. Saber que Faiald era de fato o Irmão da Terra, implicava num choque tremendo.

Nós éramos o fim de tudo o que ele conhecia.

– Será que nunca pára de nevar aqui? – ele indagou infeliz, adivinhando minha presença. Parecia sempre saber quando eu estava por perto.

– Posso ir embora, se quiser... – disse eu, constrangida.

– Não, por favor. Fique.

Depois sacudiu a cabeça.

– Desculpe. Na verdade, quero ficar sozinho.

Ficamos em silêncio um momento, e quando eu já ia me afastar, ele suspirou:

– Jamais pára de nevar.

Fiquei ao seu lado. Não podia ver-lhe o rosto, só ouvir o tom da voz, cheio de tristeza.

– Então eu não sou real? – indagou num desabafo. – Sou uma espécie de truque mágico?

Baixei a cabeça. O volume do búzio dentro do bolso do casaco enorme que César me emprestara fazia pressão contra minha cintura.

– Para mim você é tão real quanto essas montanhas, quanto essa tempestade de neve.

Ele riu baixinho.

– Isso é como dizer a mesma coisa.

Rumpelstinsky e Tom Tim Tot. A mesma coisa com outras palavras. Suspirei:

– Que importa o que eu pense ou deixe de pensar? Você devia voltar para casa, antes que aconteça mais alguma coisa.

– Me importa o que você pensa. E eu não posso voltar agora. Você sabe que não.

Segurei-lhe a mão. Eu sabia que ele não ia voltar, é lógico. Como alguém vive com a certeza de que deixou partir aqueles que destruirão seu mundo?

– Eu amo você – murmurou. – Se eu voltar, quem os ajudará a atravessar as montanhas? Crê que os Bins e as Filhas de Ninir são as únicas armadilhas das Rineve? Ou que esta tribo é a única? Como posso deixar a mulher que amo, sozinha neste lugar? E ao mesmo tempo não posso permitir que vençam o Jogo. Preciso impedir que vocês cheguem ao final do caminho, mas não sei como fazê-lo! Eu devia temer você, e odiar você, e assim ter forças para salvar aquilo que vocês chamam de Tabuleiro, mas eu a amo e não posso evitar. O que vai ser de mim agora que sei tudo isso? O que vai ser do meu mundo?

Fitou-me pela primeira vez.

– O que vai ser de nós, Cida?

Abracei-o com força, enterrando meu rosto em seu casaco peludo, sentindo a força de seus braços ao meu redor. Ficamos assim, até que Edula nos chamou. Então Tharia abaixou o rosto e me beijou com carinho.

Faiald voltara. Não disse uma palavra, sequer, quando nos viu juntos. Suas mãos tremiam quando puxou uma parte do casaco sobre a outra e cobriu-se com o capuz, detendo o movimento por um momento ao me ver. Seu rosto estava macilento. A neve cintilava fugazmente.

– Vamos enfrentar a tempestade? – perguntou César, falando alto para ser ouvido acima do rugido do vento.

– Não temos escolha. Os Bins são duros – disse Faiald, soturno. – Quando os que restaram se recuperarem do ataque, virão atrás de nós. Temos de ir agora.

– O que foi que fez com os gorilões? – indagou a Alquimista encostada no rochedo.

– Acabei com boa parte deles – respondeu o ruivo.

– Sozinho? – ela prosseguiu, incrédula.

– Cale a boca! – rosnou o ruivo afastando-se.

Ninguém imaginava o que nos esperava do lado de fora do abrigo. Nem o frio, nem a força do vento, ou o uivar constante em nossos ouvidos. Não enxergávamos muito além de um metro e em breve, nem isso. Tharia nos guiava como um cego. A estranha iridescência da neve mais prejudicava do que ajudava, atraindo-nos para as bordas traiçoeiras dos abismos que se abriam ao lado da trilha. Nos segurávamos pelas mãos mas, entorpecidos pelo frio, muitas vezes nos soltávamos sem o sentir. Caminhamos sem parar para descansar. Quando um de nós caía, o que vinha atrás se esforçava por auxiliá-lo a erguer-se. O último da fila era Faiald. Não tropeçou nenhuma vez.

Eu não compreendo como conseguimos atravessar a noite, vivos. Aliás, não me lembro de metade do que houve. Só sei que caminhávamos e esbarrávamos nos montes de neve, e que recuávamos bruscamente quando o chão a nossa frente cedia. Não houve um momento de alento e não foram poucas as vezes que as lágrimas de dor e medo se congelaram no meu rosto.

No entanto, depois da noite sempre vem o sol, e depois da tempestade, o bom tempo encontra uma brecha entre as nuvens. Já pelo meio da manhã seguinte, a neve cessou e a tempestade se foi tão depressa quanto se formara, deixando-nos entregues à mercê dos picos e da fome. Nos deitamos no caminho mesmo, ofegantes, abençoando o sol de todas as maneiras. Adormecemos sob o seu calor e por algumas horas tivemos o tão desejado descanso.

Acordamos bem tarde. Minhas pernas doíam como se eu tivesse levado uma surra e nossos estômagos roncavam de fome. Nos olhamos e nada dissemos, com exceção de Lúcia, que, na falta da droga que tinha inventado, chorava e gemia como uma condenada.

Seguindo Tharia, nos aproximamos de outra caverna ainda maior do que aquela em que tínhamos nos abrigado na primeira noite das montanhas. A sensação de calor, depois das últimas vinte e quatro horas, foi uma benção. Até Cezna se reanimou: despertou por algum tempo, sorriu e perguntou onde estávamos e o que havia acontecido, mas dormiu no meio do relato, abraçado à minha mão. Cíntia chorou um pouco e Lúcia calou-se finalmente, olhando-nos com grandes olhos famintos. Deixei o homem alado e deitei-me ao lado de Tharia, apoiando a cabeça em seu ombro, segurando o punho da espada que levava, sem deixar de vigiar a Alquimista. Não confiava nela. Tinha medo que resolvesse dar uma dentada em alguém. Mas o cansaço venceu-nos e adormecemos outra vez, mais aquecidos e um pouco confortáveis.

No dia seguinte, apesar das nuvens de neve voltarem a cobrir o céu, prosseguimos. Só o vento se fazia ouvir naqueles ermos perdidos e pensei que nunca mais voltaria a ouvir o som do canto dos pássaros ou da água correndo. Estávamos fracos, mas ainda não estávamos vencidos. As escarpas acima e abaixo de nós, de vez em quando deixavam escorregar pequenas avalanchas que soavam como silvos de serpentes e à distância se pareciam com quedas d'água. Entretanto, nada mais se movia e por isso, quando comecei a ouvir música de trompas, julguei que estava tendo alucinações, e resolvi ficar em silêncio.

– Ouçam – disse Márcia, de súbito. Cezna, desperto e acabrunhado, sentado no meu capuz, disse:

– Já ouvimos isso à pouco.

Olhei para ambos.

– Serão trompas? – indaguei. Tharia olhou para nós três e coçou o queixo.

– Existe uma lenda nas montanhas, que diz que os mercadores mantém uma fortaleza secreta chamada Drida, a Cidade Branca. É o seu refúgio de inverno e têm lá comida e lenha bastante para abastecer toda a Arrelipe durante o inverno mais rigoroso que houver.

– E o que estamos esperando para ir até lá? – indagou Cíntia.

– Sempre pensei nisso como uma lenda... – balbuciou o marceneiro, entre encantado e perdido.

– Bem, se chegarmos à Drida, poderemos ter certeza de terminar a jornada. Senão... não posso crer, não é ? – indagou Eneias baixinho.

– Eles têm razão – disse Bulbo puxando o casaco de Tharia para se fazer notar. – Precisamos de comida. Pelo menos isso.

Nosso guia nos olhou desconfiado.

– Está bem.

Voltamos a marchar. O caminho ia ficando cada vez mais estreito e terminava num precipício. Tivemos de voltar um trecho e escalar algumas formações geladas que víramos, escalando até uma plataforma de rocha. Daí prosseguimos, cada vez mais fracos, ouvindo as trompas de vez em quando, ora mais forte, ora mais distantes.

Súbito, no final da plataforma, surgiu sob o gelo uma escada de pedra muito antiga, que subia entre as fendas geladas. Tharia olhou-nos, avaliando nossas forças e decidiu seguir em frente. Eu olhei para cima, para uma ponta que se sobressaia de um pico e fiquei admirada com a simetria de suas formas, perpendiculares sobre o rochedo à pique,  suspensa sobre um degrau rochoso que dava para um vale ainda mais abaixo. Ali os picos formavam uma meia lua e aquela formação simétrica ficava justamente no início dela.

Depois que penetramos na fenda, naturalmente não víamos nada dos lados. O chão era escorregadio e caminhávamos patinando, avançando de maneira trôpega. Edula emprestou a espada de Cezna à Tharia, que a fincava no chão e a usava como gancho para içar-se e então, através de nossas mãos dadas, podíamos nos puxar. Cada movimento nos custava um esforço tremendo. Cíntia, Márcia e eu precisamos parar, vencidas pelo enjoo. Eneias desmaiou quando chegou no alto e Tharia o reanimou, esfregando neve na palma das mãos até derretê-la e então umedecendo seus lábios com ela. Bulbo, com um ar de desamparo total, tirou do bolso um rolo escuro que dividiu em pedaços iguais e deu um para cada um. Eram minúsculos e cheiravam mal, mas Faiald insistiu que os mastigássemos e a despeito da dormência na língua, fosse aquilo o que fosse, nos devolveu parte do ânimo.

Por fim a rampa de gelo deu lugar a uma plataforma pequena, onde mal cabíamos todos. Aquele quadrado abria-se para uma queda sombria, povoada de nuvens grossas e rochedos à pique, onde não havia tanta neve, o que nos levou a pensar que devia ser um lado mais protegido das tempestades. A meia lua que eu julgara ser composta pelos picos, era rompida ali por um segundo vale nevado, disforme em seu perímetro, de onde subia uma brisa gélida. À nossa esquerda, a escada prosseguia numa rampa não tão lisa quanto antes, mas muito mais íngreme e por isso Tharia, Faiald e Edula tomaram a frente do grupo e César esperou até que chegassem lá em cima para criar uma corda com gelo e magia. Subimos por ela e encontramos, lá no alto, à direita, entre uma alta plataforma e a montanha do outro lado do vale, um colossal arco de pedra que unia os dois lados do estreito montanhoso, debruçando-se sobre uma queda abismal de milhares de metros. A neve acumulara-se nas laterais, formando placas brancas que pareciam asas. Era como se a ponte flutuasse sobre o abismo.

Da plataforma, mais alta do que os picos vizinhos, se descortinava parte da cordilheira, num silêncio majestoso e branco. O sol já começava a vencer a segunda parte do hemisfério celeste e Tharia comentou que não gostaria de se ver pilhado pela noite naquele lugar desolado, onde não haveria abrigo para as tempestades e de onde poderíamos ser varridos por uma simples lufada de vento. Era muito alto, mesmo que já estivessemos habituados às dimensões monstruosas das montanhas. O altiplano no centro das montanhas tinha uma forma quase redonda e estava todo mergulhado nas sombras. À leste via-se os contrafortes das Rineve, de onde viéramos, e ao norte, a curva acentuada dos picos, dos quais grande parte estava oculta pelo dente de pedra à nossa frente. Sobre ele se levantava a formação simétrica que eu tinha visto e compreendi que eram os alicerces de uma torre que desciam por boa parte do rochedo inescalável. A torre ruíra há muitos anos.

– Vamos andando – sussurrei com súbita apreensão. – É quase noite.

– Adiante? – indagou Cíntia olhando ao redor. – Por onde?

– Você precisa de óculos? – indagou Márcia apontando para a crista rochosa da ponte por onde serpenteavam sinistras geleiras escorregadias.

– Vocês estão loucas! De que nos adianta seguir esse caminho até aquela montanha? – replicou ela. A Alquimista parou bem na beirada do caminho e sacudiu a cabeça.

– Eu não quero passar aí – murmurou.

– Então vai ficar a noite aqui, sozinha. – respondeu Eneias de maus modos, pondo o pé no primeiro monte de neve do arco. Parte do material caiu pelo precipício numa cascata de gelo. – Se essa torre aí for tudo o que sobrou na famosa Drida, então é melhor seguirmos adiante, seja como seja.

– Eu não quero ficar sozinha aqui – choramingou Lúcia.

– Cale-se! – murmurei, passando por ela e seguindo Eneias.

O passo no alto do arco que unia a plataforma à montanha era mais estreito que imagináramos, mas o que o fazia longo era o fato do tempo ter corroído as balaustradas e nos apresentar apenas o caminho de pedras agrestes, nu. Em alguns pontos a estrada ruíra deixando à mostra buracos profundos na construção e, pelo menos uma vez, o abismo abaixo de nós. Nestes trechos havia só uma estreita passagem de um lado para outro. De vez em quando a ponte estava coberta por placas de gelo e tínhamos de avançar com muito cuidado. Eu pouco sentia minhas mãos. Tampouco sentia onde tinha os pés. Meus dedos, dentro das botas, coçavam de maneira diabólica, e quando os roçava contra o tecido de lã que os envolvia, uma dor horrível corria por minhas pernas. Estava começando a me perguntar o que veria quando tirasse as botas.

Súbito, enquanto atravessávamos uma daquelas placas de gelo sem proteção, ouvi uma exclamação de assombro atrás de mim. Virei-me devagar, temendo fazer um movimento a mais que fosse.

Edula perdera o ponto de apoio em que se segurava e caíra de bruços, escorregando lentamente pela lateral gelada na direção do abismo. Ela não disse nada, apenas ergueu os olhos, ergueu-os para que eu visse o pavor que lhe ia pela alma. Mas não consegui voltar para estender-lhe o braço, como fizera com Cíntia, na aldeia. Estava fraca e estava apavorada. Não pude dar a volta, não ali, com um pé no vazio e outro na segurança, com meu corpo dolorido avançando sobre uma queda interminável, sustentado por um braço enfraquecido. Faiald, que vinha logo atrás, gritou:

– Não se mexa! Fique completamente imóvel!

Edula obedeceu. Não moveu nem mais um músculo do corpo, senão os olhos que voltaram-se enormes para o ruivo. Acho que nem sequer respirava.

E por incrível que pareça, o escorregar cessou também.

– Muito bem – disse o ruivo, que não ficara inativo. Tirou o casaco a muito custo, pois também ele estava num lugar pouco seguro, e sorriu para ela:

– Não tenha medo, tudo vai acabar bem, você vai ver.

Edula engoliu em seco, os dedos crispados no gelo. O ruivo umedeceu os lábios, nervoso, e espichou o braço comprido, atirando o casaco de modo que as mangas caíram à cinco centímetros das mãos dela.

– Pegue! – sussurrou Faiald entredentes. – Pegue de uma vez!

Edula mirou e saltou para cima, agarrando a manga do casaco com força. Mas enfraquecida, seus dedos abriram-se um pouco, de modo que escorregou mais um pouco.

Um suor frio, já muito meu conhecido, desceu pela espinha, enquanto eu mordia os lábios com força. O sol já era apenas um ponto rubro-amarelado, tingindo as pedras de lilás e cinza. Abaixo de nós, no vale nevado, já era noite. Eu tremia de frio, medo e fome. Então, ouvi Eneias clamar baixinho por Deus. Olhei para onde ele olhava e vi uma enorme rachadura na placa de gelo sobre a que estava Edula, estremecendo e estalando de leve.

– Vai cair, vai cair! – gritei para Faiald. Ele me olhou assustado e em seguida viu a fenda. Do outro lado da plataforma havia outra exatamente igual.

– Agüente firme, não largue a manga! – gritou o ruivo, batendo os dentes. – Bulbo!

O gnomo deu um salto para cima da rocha, mas quem estendeu as mãos e agarrou o cinturão do Damin, deixando-lhe as duas mãos livres para trabalhar, foi Tharia, logo atrás dele. O ruivo voltou-se para ele.

– Você agüenta o peso?

– Sim, mas ande depressa – pediu o marceneiro. Estava segurando o peso de Faiald e Edula com as pernas enfiadas num buraco entre as rochas.

Apertando os lábios, o ruivo debruçou-se ainda mais sobre o gelo crepitante e agarrou a mão de Edula. Fez um esforço e com a outra, largando o casaco, pegou o colarinho dela puxando-a. Num instante, conseguiu pegá-la pela cintura.

E no instante seguinte a placa de gelo estalou violentamente e precipitou-se no abismo. A ponte toda estremeceu e as pernas de Edula balançaram no vazio. Gritamos. Faiald a puxou contra si e num último esforço, ela conseguiu escalar as pedras. A guerreira sentou-se um instante, retorcendo a boca desdentada de onde escorregara o pano, tentando não chorar e Faiald beijou-lhe o rosto, aliviado.

– Venha – disse-lhe estendendo minha mão. Ela aceitou de bom grado a ajuda e Faiald pode finalmente vestir-se e aliviar Tharia de sua carga.

Naquele momento em que Edula passava para a segurança dos meus braços e Faiald punha o casaco com estudada displicência, Tharia poderia tê-lo morto. Poderia tê-lo soltado no vazio, ou, se não pudesse conviver com semelhante crime, poderia ter agarrado-o e atirado-se com ele no abismo, acabando com nossas chances de voltar para casa e salvando seu mundo da destruição. Mas então Faiald voltou-se-lhe e disse com a voz sincera:

– Obrigado, Tharia.

– Vamos embora de uma vez – resmungou o marceneiro e eu vi que não podia fazê-lo.

A essa altura, o sol já desaparecera e só seus raios alaranjados nos iluminavam. Do outro lado, a grande lua acabara de nascer com seu quarto minguante, uma passageira na ilusão de luz e luar que a iridescência da neve. Não havia sinal de tempestade. Até o vento parecia ter detido seu sopro irrequieto.

Quando chegamos do outro lado, finalmente, reunimo-nos exaustos ao pé do pico enorme que protegia a trilha. Éramos incapazes de seguir adiante. O caminho era promissor, mas a torre semi-destruída, do outro lado da ponte, diminuíra nossas esperanças de encontrar a cidade dos mercadores. Acomodei-me no regaço de Tharia, olhando para o arco fulgente e branco que tínhamos atravessado, que se tornava mais belo e irreal à medida que o dia dava lugar à noite. Havia silêncio. Paz. Beleza. Estremeci e olhei Tharia. Seus olhos azuis tinham assumido um tom diferente sob o luar, um tom de olhos de lobo. Poderia ter ficado assustada, se não sentisse os braços ao meu redor, firmes. Lembrei do que ele fizera na ponte, salvando a vida de Faiald e Edula e beijei-o de leve, sorrindo orgulhosa. Ele não disse nada, apenas me olhou.

– Quando chegarmos ao fim, se chegarmos ao fim, entregarei minha chave à Clara, mas lhe pedirei que me deixe ficar. Você acha que se eu pedir isso ela manterá o Tabuleiro intacto?

Ele não respondeu. Apertou-me forte, com os olhos úmidos de lágrimas. Tremia por baixo do casaco. De qualquer forma, eu não acreditava que conseguiríamos sobreviver ao dia seguinte. Estava muito frio e estávamos enfraquecidos demais. Em nenhum mundo, as montanhas conhecem a piedade.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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