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O Jogo no Tabuleiro - A Falcoeira - |
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A Falcoeira Capítulo 11
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11. Que falta nos fazia um descanso! Não pensei que seria capaz de dormir tanto, e tão profundamente! Fui a última a despertar. Todo mundo riu de mim e me chamaram de dorminhoca. Apesar da fogueira, o chão de pedra é gelado e o frio transpassa os cobertores que usamos como isolamento. Bulbo anda preocupado com meus pés. Ele e Tharia os examinaram e voltaram a friccioná-los com o unguento verde que encontramos ontem, mas voltaram a coçar. Sempre tive problemas de pés frios, embora isso já seja um exagero! Os outros estão bem, com exceção de Lúcia, que está num canto, resmungando e gemendo. Nos olha com loucura sob as sobrancelhas e chama-nos de malucos. Depois estremece. – Você vem com a gente? – pergunta-me Cíntia. – AOnde? – Cida deveria manter os pés aquecidos e em repouso – observa Tharia preocupado. – Vamos dar uma olhada por aí. Nada de interessante, só vamos ver um monte de pedras ruídas... – diz Edula vestindo o casacão. – Eles vão provocar a sorte outra vez – replica Bulbo mau-humorado. – Pare de dizer isso – pede Márcia, que parece bem mais animada. O sono lhe fez bem. – Eu não vou! – protesta Lúcia. Olha o fogo com uma expressão desvairada. – Esse lugar me deixa louca de medo. Queria ter um cigarro. Só um, droga! – Vou junto – decido levantando-me rapidamente. Não vou ficar aqui e aguentar essa doida, não mesmo! Quando ponho os pés dentro das botas, tenho de me esforçar para não gritar. O que está havendo comigo? Visto o casacão devagar, pensando se não devia obedecer Tharia, mas a tentação é grande demais e eu me deixo levar. Bem, afinal, não creio que iremos muito longe. Quando pego a mão dele, um sentimento estranho me invade, um pressentimento. Não, que tola, não é um pressentimento. É pura emoção. Ele é real, diga o que diga Faiald. Mesmo assim, hesito. Preferia que não fôssemos a lugar nenhum. – Vamos? – chama o ruivo de longe. – Vamos. Caminhamos entre os pilares, na direção oposta aquela por onde viemos ontem. Às vezes há pedaços enormes de teto ruído e, a medida em que nos afastamos da entrada a luz que penetra neles é menor, de modo que podemos acreditar que estamos mergulhando cada vez mais no seio da montanha. Será que a mágica da pena que César encantou vai diminuindo com a distância? Quero só ver quando voltar. De repente, na escuridão, um fulgor verde. Estremecemos à um só tempo, como um único corpo. Curiosos, mas cautelosos, nos consultamos com um olhar que é o bastante. Vamos nos aproximar disto e nossos corações estão saltando como o pistão de um motor à vapor. ......................................................................... Alguns passos são o bastante para vermos de que se trata. É uma grande falha na rocha que foi fechada com material verde e embaciado pelo tempo e pela neve que se acumula em suas bordas. Por ali a luz entra, suave, misteriosa. Sustentamos o fôlego, embevecidos. A voz de Tharia soa sob a penumbra esmeraldina, encantada: – Mas eu sempre achei que isso fosse só lenda! O Reflexo Verde das Rineve! Sua mão toca a superfície fria, trêmula de emoção. – "Quando o verde se precipita nos abismos, a neve se oculta atrás dos picos./ Verão, verão, prenuncia o brilho entre as tempestades./ E não longe está o sol./ E não longe está o céu azul./ Alento, camaradas, o inverno terá seu fim!" A voz é de Faiald. Uma estranha música nesse lugar. – O Reflexo Verde das Rineve é um dos temas prediletos das canções dos mercadores – explica quando os ecos se calam. – Você é tão entendido em mercadores – replica Tharia, tocando a testa com o Gesto, zombeteiramente, desfazendo a mágica. – Deve ser por isso que conseguiu exterminar um grupo inteiro deles. – Por que você simplesmente não cala a boca? – indaga o ruivo, irritado. Aperto a mão de Tharia, suplicando-lhe com o olhar que não o provoque mais. Não quero ver de novo a maldita face da força que ele comanda. Não, nunca mais. Perto daqui se encontra uma escada espiral ciclópica, de formas absolutamente perfeitas. Ela mergulha no teto e, parando-se no primeiro degrau, podemos ver como serpenteia, vertiginosa! Olhamo-nos. César bota o pé na escada e começa a subir. ............................................................................ O primeiro e o segundo andares estão constituídos de salas e salões – pinturas quase apagadas, faixas decorativas – animais fantásticos, plantas – um lindo unicórnio branco no teto de um salão cheio de arcos impossíveis – ouro nas paredes – baixo relevo bizarro: um cão com asas? – mais baixos relevos: sapos alados e horríveis escaravelhos de dez patas, com olhos nas antenas – uma serpente com plumas – mais ouro – indícios de fogo e explosões. César disse que podem ter sido recentes. De quando seria o acampamento? – há demasiado vento e frio. Voltamos à escada. ............................................................ Resolvemos subir. Espero poder colocar em ordem essas notas e lembrar-me de tudo. Ao voltarmos para a escada, deu para ver que no final dela, lá em cima, há uma abertura por onde jorra a luz. Acreditamos que dê para ver toda a paisagem lá de cima. Deve ser magnífica. Certamente poderemos ver uma boa parte da cordilheira. Oh, meus pés, como coçam! Meu Deus, deviam parar com isso, afinal estou andando, o sangue devia estar circulando não é ? ............................................................ Chegamos a um patamar pequeno, onde mal cabemos todos. É impossível seguir adiante: a escada esta arruinada e cheia de gelo e a abertura está fora do nosso alcance. Abaixo de nós há um abismo escuro e circular que evito à toda custa por causa da vertigem. Eu já deveria estar acostumada, pipocas! Na pedra da própria montanha há uma porta de madeira, magnificamente esculpida e inquietantemente bem conservada. César toca a maçaneta de cobre vermelho e a folha se move com suavidade e silêncio. Entramos em fila, agarrados nas mãos uns dos outros. Tenho de me controlar para não soltar uma risadinha baixa e histérica que faz cócegas na minha barriga. Avançamos. O imenso salão está obscurecido pela falta de iluminação adequada. Passamos por grossas colunas espiraladas, como devem ter sido as colunas originais do térreo, cheias de algo parecido com teias de aranha. Oh, não, por favor, aranhas, de novo, não, ok, Clara? Há poeira e entulho por todas partes. Um vento fantasma balança grossas cortinas de veludo, tão velhas e sujas que parecem capazes de se desmanchar ao menor toque. Elas dividem os espaços, fazendo com que percebamos, pelo eco e pela brisa fria, que cheira à pedras velhas e mofo, que o salão deve ser muito mais alto e amplo do que o que vemos. É simplesmente fantástico. Uma luz! O clarão de uma fogueira! Que susto levamos. Nos aproximamos apreensivos. Onde há fogo, mais do que fumaça, há alguém para alimentá-lo. Em que encrenca nos metemos agora? ......................................................... Cortinas leves nos separam da luz direta da fogueira. Afastamos uma ponta delas, junto a um pilar, espiando para dentro. Meu Deus! É uma.... uma espécie de biblioteca! Está completamente vazia. A "fogueira" era um desses recipiente de lava, que se encontra dentro de uma lareira esculpida com a forma da boca aberta de uma carranca imensa. Ocupa toda a parede. Entramos no recinto. Está cheio de estantes com livros antigos e manuscritos. Mesas antiquíssimas, creio que são de carvalho. Outras são negras e têm pregos de bronze. Estão cheias de livros, de plumas caídas, como se os consultantes tivessem sido pegos de surpresa e não tivessem tido tempo para guardá-las antes de sair. Espero que a pena de César esteja funcionando! – Bem, não há ninguém por aqui – conclui o mago. Seus olhos correm pelas prateleiras com um misto de encanto e raiva, por não reconhecer sequer uma letra do alfabeto que enfeita de títulos as capas de couro. Sobre a mesa, meus amigos encontram um mapa detalhado da cidadela, e vejo como Cezna se debruça sobre o papel, estudando-o com atenção. César e Edula se aproximam interessados, e os três discutem animados a geografia do andar térreo. Os livros não atraem minha atenção, mas sim uma cortina que deixa escapar uma estranha claridade dourada. Puxo Tharia pela mão e nos aproximamos. Ele afasta o tecido e pára imóvel, consciente de que estou coberta de amarelo-ouro. É uma ogiva de arcos monumentais, e tudo que vemos é dourado. O solo está recoberto por um jardim de flores em ouro. São reproduções perfeitas! Refletem a luz que emana do teto, das paredes de mármore com veios dourados. No meio da sala há um poço, perfeitamente redondo, perfeitamente negro. O círculo que o rodeia está coberto de símbolos, forjados no metal amarelo, polido e engastados no mármore. O poço está exatamente embaixo do pico da ogiva. Nem a claridade da sala, sequer um reflexo, perturba sua perfeita escuridão. Não quero me aproximar, mas Tharia avança, curioso. Estou trêmula, emocionada. Nossos pés se refletem no mármore e nós refletimos a luz como criaturas de luz. Sinto... sinto que chegamos ao mais paradoxal de todos os lugares desta terra! A cada passo, podemos ver mais para dentro do círculo. Não há paredes que o sustentem. Não é um tubo de rocha mergulhando na montanha. Não. Dentro do poço só há vácuo, o vácuo livre do espaço, o éter da noite. Pisco meus olhos aturdida e vejo que dentro dele, brilhantes como apenas elas sabem ser, pulsam estrelas, flutuando no véu de hidrogênio intransponível. Paramos. Tharia me olha e deixo-me enlevar pela batida enlouquecida de meu coração. Meus lábios se unem aos dele. Nos olhamos longamente e mil juras secretas e silenciosas são feitas e quebradas entre nós enquanto estrelas nascem em galáxias distantes. Já não poderei voltar. O que se faz sob a mirada estranha do Universo é mais sagrado do que as bênçãos ou as maldições. Não haverá mais distâncias entre nós, nunca mais, mesmo que não haja mais alento em nossas bocas, mesmo que sejamos apenas lembranças na memória de nossos filhos. Ele sorri e se afasta um pouco. Solto sua mão devagar e me aproximo das flores e toco suas pétalas delicadas ao mesmo tempo em que ele se abaixa-se para tocar as inscrições ao redor do poço. NÃO! Afaste-se dele Faiald! Oh, meu Deus! Tharia, Tharia! Clara! Ajude-me, Clara! Ah! Minha mão! Minha mão, Tharia! Miserável! Por que fez isso, se lhe salvou a vida?
(AQUI TERMINA O RELATO DE CECÍLIA NO TABULEIRO)
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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