O Jogo no Tabuleiro

- O Guerreiro Cinzento -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

 

O Guerreiro Cinzento

Capítulo 1

Capítulo 2
 

O Nemthru

 

1.

 

Foi somente naquela tarde que o grupo compreendeu as dimensões insanas que o jogo de Clara poderia assumir.

Era inegável: Faiald passara demasiado tempo nos territórios do Tabuleiro para defender seus nobres motivos com atos igualmente nobres. Popularmente se diria que ele não estava mais jogando limpo. Não estava mais disposto a isso.

O Damin viu quando Cida e Tharia se afastaram rumo à sala dourada. Os demais jogadores estavam distraídos com o mapa da cidadela e, num impulso, o ruivo resolveu seguir os dois. Esgueirou-se silenciosamente por trás deles, curioso para ver o que haviam encontrado.

O beijo de Cida e Tharia à beira do poço bizarro selou o destino do marceneiro. Uma onda de ciúme e asco invadiu o Damin afogando o que ainda restava de suas boas intenções. Ciúme, porque Cida era uma jogadora, e não um produto do Tabuleiro. Asco, pelos mesmos motivos. Se era verdade que Faiald frequentemente procurava a companhia das fadas, também era verdade que depois de cada encontro banhava-se demoradamente num ribeirão entre a Toca e a aldeia das beldades, tentado arrancar da pele o cheiro delas.  Além do mais, os sentimentos que uniam Cida e Tharia comprometiam a partida. Ele já vira isso acontecer antes. Não queria repetir o gambito.

Então, aproveitando-se da oportunidade, Faiald agiu. Quando Tharia aproximou-se do poço e Cida afastou-se dele, na direção das flores de ouro, o Damin aproximou-se do nativo em perfeito silêncio e puxou o punhal.

Cecília virou-se um momento antes do golpe à traição e gritou alarmada. Tharia levantou-se e se voltou um instante tarde demais. Faiald cravou-lhe a adaga no peito. Empurrado pelo golpe violento, o marceneiro girou sobre si mesmo na beirada do abismo, os braços se agitando em busca de equilíbrio. Chegou a tocar no ruivo, mas Faiald afastou-se, temendo ser arrastado junto.

O corpo de Tharia caiu pesadamente no chão dourado, as pernas balançando dentro da borda de mármore, sobre as estrelas e os mundos que flutuavam em ordem dentro do Caos, o sangue salpicando o chão imaculado. Cecília correu para ele, mas Faiald afastou-a brutalmente e, com um pé, empurrou o corpo ferido para dentro do vão. Tharia mergulhou no nada.

De início, a falcoeira não fez nenhum movimento. Estava tão chocada que não conseguia mover-se, olhando a borda do poço como se não compreendesse o que houvera. Um instante depois ela levantou-se e avançou contra o ruivo, disposta a acabar com ele.

– Miserável! Por que fez isso se lhe salvou a vida?! – gritou.

Faiald recuou um pouco.

– Traidor! Traidor miserável! – ela berrou rouca e jogou-se contra ele, mas o ruivo desviou-se ágil, sacando a espada da bainha.

– Pare com isso, Falcoeira – murmurou ele friamente. – Você sabe que Tharia não existia de fato. Era uma invenção de Clara. Uma armadilha para nos fazer perder o jogo. Creia-me, foi a melhor solução. Um dia, me agradecerá que o tenha feito, quando chegarmos ao fim e você não tiver nada para deixar atrás.

Ela riu, riu de raiva, de maldade, enquanto os olhos negros se desfaziam em lágrimas.

– E Bulbo? Ele também é uma criação de Clara!

– Se eu não confiasse nele, ele não estaria aqui.

– Tharia poderia tê-lo morto na ponte de gelo! Não o fez porque era piedoso. Porque decidiu nos dar uma chance. Ou talvez porque fosse covarde demais para matar um homem a sangue-frio. Mas não tão covarde quanto você! – rugiu ela.

– Ele não me matou porque não podia, Cida. Nenhum dos habitantes do Tabuleiro pode ferir-me o suficiente para me matar – respondeu o ruivo recuando.

– Então eu vou acabar com você! Vamos ver se Clara vai interferir! – ela continuou, avançando para ele.

– Já chega, Cida. Não quero machucá-la – avisou o ruivo, recuando novamente.

– É claro que não! Você precisa de mim por causa de minha chave para o Portal das Eras. Precisa de mim, maldito traidor!

– Tanto quanto você precisa de mim para voltar para casa – replicou ele, ainda recuando. Mas não poderia recuar para sempre.

– Casa? – zombou Cecília. – Minha casa está na loucura do Tabuleiro!

Súbito, a Falcoeira pulou para frente, na direção do ruivo. Faiald não esperava pela reação e recuou de qualquer jeito, tropeçou numa flor de ouro e caiu sobre o jardim, amassando uma parte dele e largando sua espada. A garota agarrou a arma e a ergueu sobre a cabeça, a ponta virada para o peito arfante debaixo dela. As mãos do ruivo se ergueram numa defesa vã.

– Vai condenar seus amigos a viverem aqui até o fim de seus dias? – ele gritou, fazendo com que ela hesitasse.

Por um instante.

No breve hiato de movimentos dela, Faiald conseguiu levantar-se e empurrá-la com brutalidade para junto do poço. Quase desequilibrada pelo golpe, Cida espiou sobre o ombro e olhou para baixo. As estrelas brilhavam convidativas, a borda estava escorregadia com o sangue de Tharia. Um pensamento louco assaltou-a, mas a imagem de Cezna surgiu em sua mente, clara, nítida e a impediu de concretizá-lo.

Ah, homem-pássaro, o quê, na verdade, ela não faria por você ?

A Falcoeira pulou para o lado, ainda com a espada de Faiald na mão. Não sabia manejá-la – a arma era muito grande e pesada feita sob medida para o Damin, que era uma cabeça mais alto que ela e bem mais forte. Sabendo disso, a moça avançou de qualquer jeito brandindo cegamente a lâmina ao seu redor. O fio encontrou resistência e a ponta conseguiu cortar o braço de Faiald, acendendo nele a fúria que até então conseguira controlar. O ruivo sacou uma adaga da bota e colocou-se em posição de ataque.

– Não me obrigue a fazê-lo – ele disse como se fosse uma praga.

– Fazer o quê? Vai me matar também? – gritou-lhe a Falcoeira.

– Tharia....

– Cale a boca! Não diga o nome dele! – vociferou ela, sublinhando cada palavra com uma estocada mais audaciosa. O último golpe fez com que a ponta da espada se enredasse no manto de penas que o Damin usava, e antes que ela conseguisse livrá-la, Faiald a puxou contra si, desarmando-a com um soco seco e dolorido na mão. A espada ressoou, fria, ao cair no chão de pedra polida. Quando deu-se conta, Cecília tinha a ponta da faca de Faiald, firme em seu pescoço.

– E então – ele murmurou, – o que tem para me dizer agora?

– Que você é um traidor, mil vezes maldito! – ela ofegou, furiosa. – Não pode me matar, Faiald, eu sou como você. Não pode me matar e eu repetirei traidor, traidor, até o último dos meus dias!

– Existem outros castigos além de matar – ele grunhiu deslizando a faca em seu pescoço com precisa frieza, fazendo um ferimento que ia da base do queixo até o começo de sua espádua, profundo e dolorido como o fogo. Disse um par de palavras estranhas e cuspiu sobre a ferida. 

– Esta dor nunca vai passar – resmungou ele jogando-a raivoso no chão. – E você nunca mais vai me chamar de traidor, pois cada vez que o fizer, o talho arderá com intensidade redobrada.

Cecília engatinhou para longe dele e voltou-se, segurando o corte por onde o sangue corria em abundância mesmo através dos dedos. Seus olhos se encontraram cheios de ódio.

– Você não pode mudar o que é, traidor, e a maior ferida que me fez não se pode ver... traidor! – gemeu ela enfurecida, mas à segunda vez que proferiu a palavra, a dor abafou-lhe a voz. A brasa de seu olhar se afogou em lágrimas e ela se encolheu soluçando.

O grupo, precedido por Cezna, irrompeu no salão, esbaforido e preocupado com a desaparição dos três. Cíntia ficou horrorizada ao ver sangue por todos lados e Edula correu para ver se Faiald estava bem. De todos eles, só o homem-pássaro não pediu explicações, e de qualquer modo Cecília não respondeu à nenhuma pergunta. Conseguiu erguer-se, trôpega, deu as costas a todos e os deixou à sós com Faiald. Já não se importava se o caminho terminava ali mesmo, ou seguisse adiante, ou mesmo se voltasse sobre seus pés. Ela saiu do salão e atravessou a ala dos pilares sozinha, descendo as escadas aos cambaleios, arriscando-se a cair e quebrar o pescoço. Não importava mais. Ou pelo menos acreditava que não importava, até que tropeçou e quase mergulhou na altura que a separava do chão distante. Caiu de joelhos no degrau estragado, olhando para baixo. De novo estremeceu e de novo se levantou, agora com mais cuidado. À medida em que as lágrimas escorriam e os soluços lhe brotavam com mais força do peito, a vida voltava a ter valor. Cambaleou pelos vazios do térreo até chegar ao acampamento, onde ajoelhou-se no manto sobre o qual adormecera na noite anterior, ignorando as perguntas de Bulbo, que acompanhara a narrativa da pena mágica. Mas não toda história. Algo rompera o elo mágico entre Cida e pena e ele conhecia magia o bastante para saber que devia ter sido algo muito sério.

O olhos de Cecília recaíram sobre o manto que Tharia usara para aquecer-se pela noite. A peça era púrpura e prateada, o manto de um rei, todo enfeitado com símbolos que ela não conhecia. Sua mão pousou sobre ele, trêmula, como se ainda sentisse o corpo do amado debaixo do tecido, e ela deu-se conta do quanto estava exausta. Apenas quando a mão de Edula desceu sobre a sua, foi que compreendeu que parara de chorar.

– Você está ferida – sussurrou a Guerreira, preocupada.

– Ele o matou – balbuciou Cida.

– Quem? – respondeu Edula um pouco insegura. Cravou seus olhos brilhantes e exigentes nos de sua amiga. – Vocês foram atacados por alguma criatura? Onde está Tharia?

Cida olhou-a cheia de espanto, sem compreender o que dizia.

– O quê?

– Vocês foram atacados por algum ser, por algo que saiu do poço? – insistia a outra, limpando a ferida do pescoço da amiga com um pano que Bulbo lhe dera e água quente da panela. – Afinal, o que foi que houve? Faiald não disse uma palavra. César está cuidando dele. Está ferido por todo o corpo como se tivesse lutado com algo ou alguém. Não encontramos Tharia em lugar algum e...

– Mas... foi Faiald! Foi ele quem matou Tharia! – murmurou Cida.

Edula parou no meio de um gesto e a fitou. Seus olhos eram uma chama só, uma chama de angústia e, só então a Falcoeira entendeu, de amor. Estivera tanto tempo encantada pelo Tabuleiro,  emersa nos próprios sentimentos, que esquecera de olhar ao redor. Nem se importara! Mas agora se dava conta: Edula estava sempre pendente do que Faiald dizia, sempre andando ao lado dele, como na trilha, quando quisera defendê-lo de Lúcia, mesmo sabendo que punha todo mundo em perigo. E Lúcia, permanentemente aterrorizada pela realidade que os cercava, Eneias singrando o mesmo rumo que ela. Márcia... pobre Márcia, arrastando todo mundo naquele resgate infeliz, só para descobrir que Eneias não era quem pensava que era. César, frio, ácido, incrédulo, sozinho como mais ninguém, o tempo todo. Cezna transformado numa coisa, um pobre coitado de quinze centímetros de altura, assustado, frágil, contando com ela, contando com que ela sempre estaria com ele, pelo menos até que Tharia surgira. Como devia odiar o louro! Cíntia, incapaz de compreender, desejando desesperadamente ir para casa, todo mundo desejando ir para casa, todo mundo menos ela, Cecília.

Ainda não queria, soube então. Puxou o tecido contra si, ciumenta.

– Diga-me o que aconteceu, diga de uma vez! – sussurrou a guerreira. – Os dois lutaram?

– Não houve luta alguma! Tharia estava junto ao poço e o Damin veio por trás... apunhalou-o... – Cida encarou a amiga. – Depois o empurrou para dentro do buraco... ele o matou!

Edula largou o pano e deu-lhe as costas. Bulbo fitava-a com uma mão na boca e os olhos enormes, cheios de lágrimas. Tomou o pano à sua vez e seguiu com o curativo.

– Está mentindo – disse a outra de súbito. – Se foi assim, quem feriu Faiald daquele jeito?

– Enlouqueceu Edula? Acha que eu mentiria? – argumentou Cecília. 

– Vocês não se entendem, vocês não se dão bem.... ele... ele não seria capaz de uma traição dessas. Não, Faiald. – balbuciou o gnomo, concordando com Edula.

– Você, melhor do que ninguém, sabe do que ele é capaz – replicou Cida mordaz. Bulbo encarou-a com raiva: – Querem ouvir outra verdade? Fui eu quem o acertou, cada arranhão! Fico feliz que tenha feito um estrago maior do que o que eu pensei que seria capaz de fazer, e frustrada por não ter completado o serviço!

– Faiald não mataria ninguém à traição. Ele é valente e se tem algum inimigo, não o eliminaria desse jeito, não mesmo! – gemeu Bulbo.

– E por acaso Tharia era algum inimigo? – vociferou a Falcoeira.

– Ela tem razão – suspirou Edula voltando-se para eles. Estava absolutamente controlada, dona de seus atos e pensamentos, mas havia uma tristeza infindável no seu olhar. – Faiald deve ter morto Tharia à traição. Não podia ser de outra maneira: Tharia não era um inimigo.

Ela suspirou.

– Temos de fazer alguma coisa – decidiu a guerreira. – Isso não pode ficar assim.

Bulbo olhava-as surpreso.

– E o que pretendem fazer? – murmurou a voz irônica do ruivo saindo das sombras. O resto do grupo retornara e Cezna pousou ao lado de Cida, olhando-a com uma crítica carinhosa. “Não seja boba, não sofra por isso”, dizia seu olhar. Bulbo correu até o ruivo e o olhou com apreensão.

– Você não matou Tharia sem uma luta limpa, não é ? Diga que não foi o que elas estão dizendo, diga Faiald – murmurou o gnomo aflito, sacudindo o gibão do rapaz. O Damin abaixou-se e encarou-o bem nos olhos. Depois sacudiu a cabeça negativamente.

– Não vou mentir para você Bulbo, e sabe muito bem disso. Cida disse a verdade – disse baixinho. O pequeno encarou-o por um instante e depois se afastou cabisbaixo. Faiald voltou a levantar-se e caminhou até a fogueira, onde sentou-se pesadamente, com uma careta. Por fim, depôs sua espada diante de Edula.

– Tudo o que eu fiz até agora foi para garantir a nossa sobrevivência e a nossa vitória – declarou. – Se usei meios sórdidos, menti, roubei, trapaceei, traí, foi apenas por isso.

– Quer dizer que além de tudo o que já vimos, ainda há mais? – perguntou Cíntia, sentando-se ao lado de Cida.

– Sim – ele disse com simplicidade.

Eles ficaram olhando-o, surpresos com a franqueza.

– Estou lutando para vencer o Tabuleiro desde que perdi o primeiro jogo. Tentei até convencer aos jerons para serem meus companheiros. Mas eles recusaram todas as minhas ofertas. Tenho jogado limpo desde o início e não consegui nada. Comerciei com mercadores, fiz alianças com jogadores, tudo direitinho. Tudo inútil. O caminho é muito longo, muito perigoso e Clara sempre tem mais tempo para conhecer os jogadores do que eu, e então sabe onde estão seus pontos fracos, enquanto eu nunca chego a descobrir onde eles têm seus pontos fortes. Quando Eneias me falou de vocês, compreendi que era a única forma de reunir um grupo do exterior por conta própria, sem que ela tivesse tempo para experimentá-los. Seria a primeira vez que jogaríamos em pé de igualdade, partindo da mesma ignorância. Então atraí vocês. Já não jogo limpo, é claro que não! Vencer é só o que me importa. Farei qualquer coisa, certa ou errada, para libertar meus amigos antes que eles morram de pavor e loucura, onde quer que estejam, e se já não estiverem mortos. Se quiserem me condenar, estejam à vontade. Mas não me arrependerei do que fiz. Tharia não era real e isto é apenas um jogo. Não vou abandonar tudo pelo que lutei e não vou trair meus amigos!

Ergueu os olhos para Cida. Ela baixou os seus, indiferente à sua defesa. Um silêncio terrível pesou sobre o grupo.

– Que discursinho besta! Você não vale nada, mesmo! – murmurou Lúcia com um sorriso.

– Cale a boca! – gritou Edula de súbito, agarrando-a pelo colarinho e levantando-a com força inusitada até a altura de seus olhos. – Cale essa boca ou a fecharei eu mesma!

– Calma! – interveio Cezna. – Já basta de discussão!

– Deixe, Edula – murmurou Faiald. – A opinião de cada um cabe apenas a ele mesmo. As palavras dela não vão modificar nada.

– E cale a boca você também – ela volveu, atirando Lúcia no chão como um trapo. A Alquimista arrastou-se ganindo para seu canto. – A última coisa de que precisamos agora é dos seus ditados!

A Guerreira sentou-se furiosa. Apesar de tudo, não podia negar que Faiald tinha uma certa razão. O ruivo era mesmo responsável por muita gente. Tinha a obrigação de manter-se vivo, por eles e por seus amigos. E Tharia estava condenado de qualquer maneira. Desapareceria quando chegassem ao fim do Jogo, não era assim? Então, não tinha sido melhor assim?

– Muito bem, o que vai ser? – perguntou Márcia no meio do silêncio.

– Eu cortaria as mãos desse tipo. Igualzinho ao que se fazia com os ladrões nas histórias das mil-e-uma-noites – opinou Lúcia, olhando para Edula, cheia de veneno.

– E quem vai me cortar as minhas mãos? Você, Alquimista? – revidou o ruivo, pálido. – Eneias, que me deve a vida? César, Márcia? Cíntia, você seria capaz? Talvez Cezna, ou quem sabe, Cida?

A Falcoeira virou-lhe o rosto enojada.

– Edula? – ele perguntou. Mas não obteve resposta e sabia que não a teria.

– Eu o farei – murmurou Bulbo, finalmente. Tirou da bainha sua espada, que era do tamanho de uma adaga, feita do bom aço dos anões. – Se esta for a decisão do grupo... ou pensa que eu não seria capaz?

Faiald engoliu em seco e perguntou:

– Será este o meu destino, então?

– Chega! – resmungou César com uma careta. – Ei, minha gente, será que somos nós mesmos? Somos nós que estamos aqui sentados e isso é real, esqueceram?

– É mesmo? Eu pensei que era apenas um jogo – murmurou Cida, cheia de rancor. – Uma brincadeira que Clara inventou, um troço virtual, onde as pessoas não são reais... pelo menos parece que acabo de ouvir que Tharia era de faz-de-conta!

– Será que vamos dar ouvidos à uma estúpida que vivia lendo histórias em quadrinhos? – replicou o mago, ignorando-a.

– O que é que há? – reclamou Lúcia. – Diz logo que o problema eram os baseados que eu fumava, diz! Também tenho opinião sobre as coisas, sabia?

– Pra dizer o que você diz, podia ficar de boca fechada – replicou Edula. Olhou seus companheiros por um longo instante depois deixou que seu olhar descansasse no fio da adaga de Bulbo, cujos olhos brilhavam, mais verdes do que nunca.

– Por que não deixamos isso de lado? – perguntou baixinho.

A Falcoeira olhou-a demoradamente, embora a guerreira não a enfrentasse. Cíntia começou a soluçar e Márcia também enxugou os olhos. Ninguém ia tomar uma decisão daquelas, portanto César sussurrou:

– Guarde essa coisa, Bulbo, ninguém mais vai ferir ninguém, por aqui.

– Nem esquecer – murmurou Cida, olhando para o ruivo. – Esquecer, jamais.

Bulbo guardou sua arma lentamente, aliviado e melancólico.

– Agora você é nemthru, o traidor da culpa perdoada – disse ele para o ruivo. – Mas sempre um traidor, sempre em dívida com aqueles que o perdoaram.

Nemthru – murmurou Cida, aprendendo a nova palavra com um brilho de satisfação no olhar ao ver que Faiald não gostava dela. E até o final, não o chamou por outro nome.

Aos poucos os jogadores se dispersaram, mergulhados em silêncio. Ninguém ignorava que perdoar Faiald era por-se nas mãos de um guia que acabara de confessar que estava disposto à qualquer coisa para alcançar seus objetivos, e havia um temor surdo em cada um de que os piores significados de suas palavras poderiam se voltar contra eles mesmos. A única voz que se ouvia era a de Márcia, comentando alguma coisa, baixinho, com o irmão. Bulbo voltou-se para o caldeirão cozinhando furiosamente, como uma matrona enlouquecida e de vez em quando a água do ensopado caia chiando sobre as pedras que sustentavam a panela sobre o fogo. A Falcoeira, enrolou-se no manto de Tharia, enterrando o rosto nele. O cheiro do marceneiro ainda estava ali, uma mescla de suor e madeira, algo de sol e neve, como se Tharia vagasse pelo acampamento, como se nada tivesse acontecido. Ela estremeceu.  “Que droga, Ehtel”, pensou relaxando no tecido quente, “por que não me escutou?” Pouco à pouco, caiu num estranho estado de torpor, próximo ao sono.

Para expressar de alguma maneira, Cida sonhava. Sonhava que dormia agarrada ao manto púrpura, enquanto os outros se entregavam aos seus próprios pensamentos. Sonhava que se erguia leve, como se voasse, e que se afastava do acampamento, entre os pilares, vagueando por algum tempo entre as colunas toscas, até que elas deram lugar, na escuridão quase absoluta, a duas colunas muito antigas. Parou lentamente, porque não tinham visitado aquela parte das ruínas antes e o desenho do mapa que lembrava não estava muito claro em sua memória. “Mas que mapa?” ela se perguntou confusa.

Então, algo chamou sua atenção. Um brilho fugaz e curvo no escuro frio e aveludado das ruínas.

Algo movera-se na escuridão.

Cida olhou para baixo, um temor crescendo irracionalmente dentro de si.

O chão inteiro movia-se agora, negro, duro, pequenos estalidos quebrando o silêncio, como se placas duras se chocassem entre si.

Ou não, não era o chão que se movia, era algo que corria sobre ele, algo movido por patas articuladas e dorsos quase brilhantes. Cida recuou aflita, zunindo para longe daquele lugar ermo e prenhe de vultos. Seu corpo tremia, o vento cantando nos seus ouvidos, uivando neles. Os caminhos eram todos iguais. Quando deu por si, estava perdida. Parou confusa, depois avançou, medrosa. O ar era frio, o medo, ainda mais gelado.

De repente, deu-se conta de que estava junto ao Reflexo Verde.

Suspirou de alívio. Agora, com aquele ponto de referência, achou que seria fácil voltar ao acampamento e avisar os companheiros do delírio que vira. Mas o corpo que possuía no sonho, um corpo pequeno que tornava tudo maior e mais ameaçador, voou para junto da escada espiral, agindo por instinto, como se pressagiasse alguma coisa ainda mais aterradora.

Chegou à escada e olhou para cima. Ouvira um rangido. Alguém havia esquecido de fechar a porta ao final da escada, ponderou com a clareza de quem está desperto, e o vento a faz balançar e ranger funestamente, espalhando esse barulho de coisas estalando por toda Drida.

Ou seria o ruído das patas, se aproximando?

Lá em cima a porta esculpida moveu-se lentamente, gemeu nas dobradiças velhas e frias.

Ora, subir até lá com asas era um pulo só, uma linha reta pelo meio da espiral perfeita. Entretanto, o medo tolhia seus movimentos e seus olhos não se afastavam da porta. Agora, mais atenta ao que se passava ao redor, ouvia claramente o som de asas sustentando-a no ar e podia ver o reflexo das pontas de bronze. Parecia-lhe que tinha a mesma compleição de Cezna. Seus olhos ainda estavam presos no alto e ainda não se atrevia a subir.

É preciso tomar uma decisão, pensou. Ou volto e aviso que há coisas movendo-se na escuridão, ou subo e fecho a porta, e acabo com tudo isso.

Ah, a lógica dos pesadelos!

Suas asas ganharam mais força e a impulsionaram para o alto, rumo à folha de madeira. O vento cresceu e tornou-se um estranho. Seu cantar era diferente. Cida parou de novo, pairando no ar.

O patamar distante pareceu oscilar. Ela franziu as sobrancelhas, tentando ver além da luz ofuscante que entrava pela boca da montanha, muito além.

Havia uma forma no patamar. Era translúcida e opalina, e estava parada junto à porta, segurando uma trompa circular junto aos lábios. O vento soou de novo em seus ouvidos.

Não era o vento. Nunca o fora.

Era o som da trompa.

Os cabelos de sua nuca se puseram em pé ao ouvir aquela nota. A figura azulada soprou mais uma vez seu instrumento, perpassada de luz, quase transparente.

A porta se abriu por completo, então e de seu bojo vazio e empoeirado, eles começaram a sair. Eram brancos e cinzentos, translúcidos, movidos por pés invisíveis, vestidos de rotas mortalhas que esvoaçavam ao seu redor, levando sobre suas cabeças elmos e coroas de formas bizarras. O brilho de muitos tesouros descansava sobre as franjas de seus mantos e o fio de suas espadas reluzia quando a luz insidia sobre eles. Mas o que mais assustava era o silêncio com que se moviam, a rapidez com que desciam e, pior de tudo, o cintilar cinzento que emanava da concavidade medonha de seus olhos.

Cida sentiu as asas ao seu redor perderem o equilíbrio e o corpo que tinha caiu pelo centro da espiral, rumo ao primeiro andar. Mas, claro, não precisaria voar até o acampamento para estar em segurança! Bastaria abrir os olhos.... Assim!

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados

Fale com a gente!

 

Apresentação

O Afilhado das Fadas

Próximo capítulo

Capítulo anterior

Início