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O Jogo no Tabuleiro - O Guerreiro Cinzento - |
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O Guerreiro Cinzento
Capítulo 2
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2. Cíntia, Edula e César estavam conversando baixinho. Faiald fitava tristemente as brasas da fogueira e Eneias e Lúcia estavam procurando coisas preciosas ou que pudessem ser úteis, numa arca que tinham conseguido arrombar. Bulbo estava sentado junto ao fogo e a fitava tristonho e inquieto. Cecília percebeu que seu coração batia enlouquecido, que tinha a boca seca. Bebeu um gole de água do cantil e dobrou o manto com o qual se tapara. O fato de fazer algo tão rotineiro quanto arrumar a mochila reconfortou-a, mas o sonho ainda estava muito próximo. Ainda podia ouvir o vento assoviando além das colunas, soando como a trompa de seu pesadelo, suave, distante, monótona. Lembrou das criaturas do sonho e estremeceu como se não tivesse sido apenas um devaneio. Ergueu-se com um gemido. Devia ter tirado as botas quando me deitei, pensou. A dor nos pés era lancinante. A ferida no pescoço também doía, ardendo como se tivesse sido feita naquele instante. Quando as dores diminuíram, ela cortou uma faixa de tecido púrpura que amarrou sobre o ferimento do pescoço, prendeu na tira que segurava o manto em sua cintura uma faca que Eneias tirara da arca e depois acrescentou outra mais, um pouco mais longa, com letras gravadas no meio da lâmina. Seus olhos descansaram sobre a lança que ainda sobressaía do corpo do burrico e o fio brilhou por um momento como as espadas com que sonhara. – Onde está Cezna? – perguntou, só por ter algo para dizer, mas o som metálico da própria voz fez com que os cabelos da nuca voltassem a ficar de pé. Bulbo não tirava os olhos dela. Tinha uma expressão assustada na carinha enrugada. – Acho que foi dar uma volta – respondeu Edula encolhendo os ombros. – Sozinho? Que saco, não tínhamos combinado que ninguém sairia sozinho? – reagiu César encarando-a. – Por que não nos avisou? – Era o que me faltava, ficar controlando os outros – replicou ela. – E depois, eu estava dormindo. Cida olhou de novo a lança do burrico, sentindo seu coração encher-se cada vez mais de apreensão e pressa. – Desde quando está soando essa trompa? – perguntou para Bulbo, que saltou imediatamente, alerta. – Desde que começou a soprar o vento – explicou César contrariado. – O vento passa por algum buraco nas ruínas e assovia como uma trompa. É uma questão de Física. – Não é verdade – retrucou a falcoeira, os olhos brilhando de maneira estranha. César devolveu-lhe o olhar. – Está ventando desde que chegamos à Drida e não soava como uma trompa até agora. – Nos acostumamos com o som... – murmurou o rapaz, esticando as pernas para o fogo aconchegante, disposto a não deixar ninguém interferir no seu raciocínio lógico. – O cérebro muitas vezes nos prega peças e... Interrompeu-se, contrariado. Cida estava tremendo, os olhos úmidos, mordendo os lábios com violência. Bem, ele pensou aborrecido, lá vamos nós outra vez! Que ideia a de Cezna de sair sozinho, sem avisar ninguém. Onde estará? – Acho que ela tem razão – observou Faiald. – Não parece que o vento tenha soado como uma trompa, até agora. Bulbo, de orelhas em pé, concordou com um movimento de cabeça. – Talvez ele apenas tenha mudado de direção, que coisa! Eu gostaria que vocês parassem com essa neurose! – reclamou o mago. Aperdou os lábios e olhou de novo para Cida Ergueu-se de um salto. – O que pensa que está fazendo? A falcoeira agachara-se e estava a improvisar uma mochila com o cobertor, e depois encheu o cantil até a borda com neve acumulada ao lado de uma coluna pouco protegida. Bulbo não perdeu nenhuma palavra e pôs-se a imitá-la, apressado. Seus gestos eram decididos e econômicos. – Pretendem ir à algum lugar? – perguntou Cíntia com uma nota aguda na voz. Talvez temesse, como César suspeitava, que a amiga estive louca. Cecília parou com o que fazia, fitou-a com olhos enormes. Depois voltou-se para suas coisas e, impulsionada por uma pressa aterrorizada, passou um laço em torno da mochila que improvisava. – Bulbo tinha razão – comentou. – É melhor uma tempestade de neve do que passar mais uma noite nessas ruínas. Se eu fosse vocês, me prepararia para partir imediatamente. – Quer nos contar o que houve? – reclamou Lúcia, o olhar fixo na lança do burrico. – Tenho um pressentimento. Um terrível pressentimento – murmurou Cecília, calando-se me seguida. – Um pressentimento! – rugiu César irônico. – A coisa vai bem, Cida, vai muito bem, desse jeito. – Instinto, se prefere – ela murmurou, reunindo tudo finalmente. Fechou a trouxa com um nó corrediço, depois andou até o burrico e arrancou com esforço a lança da carcaça congelada, atirando-a no meio do acampamento. – Sei tanto quanto vocês sobre este lugar – disse – mas sabemos que não foram os Bins ou das Filhas de Ninir, e muito menos os mercadores que atacaram a caravana de quem estamos herdando esses mantos. Os Bins não teriam deixado o burrico, o teriam levado para comer. E os mercadores não teriam deixado os baús e tudo o mais. Certo, nemthru? Os outros a olharam desconfiados. Faiald concordou, carrancudo por causa do apelido. – Em que está pensando? – perguntou. – O que quer que tenha atacado a caravana, provém daqui de Drida e que essas... coisas ainda estão perambulando por aí – ela murmurou aproximando-se deles. – Se não quisermos herdar o destino da caravana junto com o acampamento, é melhor que nos apressemos a deixar este lugar. César cravou nela uns olhos gélidos e por um momento sorriu, pouco à vontade: – Você está perturbada pelos acontecimentos das últimas horas, Cida, só isso... A falcoeira fez uma careta e voltou-se para ajudar Bulbo a fechar outra bolsa. Cíntia saltou de seu canto e começou a arrumar suas coisas frenéticamente. – Querem parar com isso? – berrou o mago perdendo a paciência. – Se ela for embora, eu também vou! – gritou a ruiva, em resposta. – Graças a Deus, os encontrei! – gritou Cezna surgindo como um jato da escuridão. – Quem foi que mandou você sair por aí sozinho, pode se saber? – vociferou César, sem deixar que ele falasse. Mas Cezna, apesar de ofegante, gemeu alto o bastante para se fazer ouvir através dos gritos do mago: – A Horda dos Silenciosos! O Horror Silencioso.... vem vindo... depressa, vamos embora! – Do que ele está falando? – gemeu Edula levantando-se. – De um exército de espectros! Reis e guerreiros e coisas parecidas! – gemeu o homem-pássaro outra vez e Cida gemeu junto, tão pálida quanto ele. – Saíram do salão dos pilares e vem descendo as escadas em nossa direção! Eles não têm pressa, mas são rápidos e não demorarão para estar em cima da gente! Súbito, no silêncio que seguiu suas palavras, a trompa deixou de soar e ele se encolheu. Cida colocou o casaco e olhou para os amigos. – Como é ? – insistiu. – Vamos esperar para ver se eles são mocinhos e nós os bandidos do Fim-do-Mundo? – Cida, você e Bulbo, que já estão prontos, cortem alguns nacos do burrico – comandou Faiald, pondo-se a ajuntar suas coisas com pressa. – Os outros, mexam-se! Vamos, depressa! O grupo reagiu com rapidez e eficiência. Cida não tinha sido tão afetada pela perda de Tharia a ponto de esquecer a ideia de conjunto e avançou para o burrico, fitando as sombras com desconfiança. Cortava os nacos grandes e os atirava para junto de Bulbo, que os punha dentro de um saco de couro encontrado na arca que Eneias e a Alquimista tinham revirado. O coração batia-lhe como um tambor. Seus olhos percorriam as sombras, alertas, até que se detiveram sobre luzes cinzas, meio azuladas, que deslizavam em direção do acampamento. – Eles chegaram! – gritou ela, recuando rapidamente, com mais dois pedaços nas mãos. Enfiou-os dentro do saco de couro e Bulbo fechou-o com força. Estavam quase prontos agora e César terminava de fechar seu casaco. – Adiante, pessoal! – disse ele, ajeitando os óculos, fitando as colunas obscuras. A pouca luz do dia que chegavam a ver desaparecia rapidamente. – Teremos de passar pela frente deles? – gemeu Cíntia trêmula, olhando para a pilha de escombros que nos protegia do vento ululante e gelado. Cida empurrou uma de suas facas na mão dela e disse, friamente: – Prefere ficar aqui? – Vamos – disse Faiald tomando a frente com sua trouxa presa nas costas e a espada em punho. Lúcia olhou-os debaixo dos pêlos malcheirosos dos Bins e sussurrou tremendo: – Não tenho com o que me defender. Cida franziu os lábios e entregou-lhe a faca de lâmina adornada, embora não gostasse da ideia de vê-la armada. Ajuntou a lança do chão e voltou-se para os demais. Partiram imediatamente, sem nem mesmo apagar o fogo. A horda de fantasmas já estava perto o bastante para que, ao deixarem o abrigo, pudessem ver as faces pálidas, iluminadas por um cintilar sobrenatural. Havia reis de rosto nobre e feroz, guerreiros com capacetes pontiagudos, criaturas que não eram humanas, todos mortos, todos com aquele fulgor frio de seus olhos de névoa. Márcia gritou e Edula, perto de Cecília, gemeu como se tivesse visto o próprio Inferno. Aliás, seria muito diferente? – Não entrem em pânico! – gritou Cezna, tomando a frente. O grupo passou diante do exército, procurando o caminho através das pilastras e os reis mortos se voltaram no encalço deles, silenciosos, ainda mais terríveis por causa de seu silêncio. – Por aqui! – continuou Cezna à frente como um arauto da salvação, guiando-os. Porém, quando já estavam vendo os ladrilhos nevados sob o crepúsculo lá fora, Márcia gritou, saltou para o lado e deu um estocada funda na escuridão. – Há coisas, aqui! – gritou ela e Cida lembrou-se com um arrepio das formas na escuridão de seu sonho. Ouviu – ou pensou que ouviu? – o ruído de patas arranhando o chão de pedras. – Oh, meu Deus – murmurou para si mesma. – Pode ver o que é ? – perguntou Cíntia olhando ao redor sem ver nada. – Não! Mas são duros e não morrem com facilidade! – berrou a irmã do mago. Na semi-obscuridade, tinham de se esforçar para ver adiante e não se perderem uns dos outros. – Estão ao nosso redor! – berrou César. – Precisamos de luz! – gritou Eneias em pânico. – Ainda não! – respondeu Faiald atrás de Cida, arquejando. – Temos que poupar nossas forças para quando for necessário! – Me parece que agora é necessário – observou Cezna sobrevoando-os. Alguma coisa roçou a perna da Falcoeira, dura, fria e áspera. Se não fosse o couro duro da bota que usava, teria cortado seus músculos em fatias. Ela não hesitou e, arrepiada de medo e nojo, empurrou a lança contra a escuridão, sentindo-a encontrar resistência e depois abrir caminho à custo. A coisa que tinha acertado tentou voltar-se para fugir, mas o movimento abriu-lhe uma ferida ainda maior. Um cheiro asqueroso encheu o ar, e Cida gritou de júbilo. – Acertei um! – Recuem! – gritou César, mais adiante. – Está brincando? – respondeu Edula olhando para trás e vendo os guerreiros fulgentes vindo em sua direção. – Estão por todas partes! – gritou Lúcia, horrorizada, desferindo estocada por todos os lados. – Cuidado aí! – berrou Cíntia por sua vez. – Olhe onde enfia essa faca, ou terminará acertando um de nós! – Precisamos de luz – gritou Cida. – À esquerda não há nada – avisou Bulbo. Tateavam na escuridão, andando devagar para a esquerda, flanqueados pelos animais à direita e seguidos pelos espectros. – Bem, não vou fugir das sombras – resmungou Edula em determinado momento, com uma calma irritação. Não parecia mais estar com medo. Avançou para o exército fantasmagórico com um ar decidido. – Na minha terra, os fantasmas se diluem no ar! Um dos espectros avançou para ela e recebeu o golpe da espada de fio diamantino com um escudo branco onde se via, claramente, o selo que havia em todo o tesouro que tinham encontrado. O fantasma rebateu o ataque dela com um golpe vigoroso e os dois atracaram-se enquanto os demais deslocavam-se lentamente para a esquerda, tentando não deixá-la só e chegar até as colunas do exterior ao mesmo tempo. As criaturas os empurravam cada vez mais para dentro da cidade em ruínas. Finalmente, Edula recuou para junto do grupo, ofegando, e observou irônica: – Bem, pelo menos agora sabemos que os fantasmas de lá e os daqui são levemente diferentes. – E agora sabemos o que aconteceu com a caravana que levava o tesouro que encontramos – murmurou Cezna pairando sobre Cida. Os jogadores não conseguiam abrir caminho entre os animais que os cercavam e foram obrigados a recuar para dentro da cidade. Podiam sentir o cheiro do suor e do medo no ar, carregado com a pestilência dos animais. – Precisamos de luz – insistiu Cecília. – Precisamos é de umas bolas explosivas! – considerou Edula. César disse alguma coisa e de súbito um globo de fogo brilhou na escuridão, girando com um chiado entre os animais que acossavam o grupo, revelando coisas parecidas a besouros, com antenas imensas, largas e achatadas, terminadas com olhos cegos. Eram altos como cães fila e tantos que não se via um pedaço de solo a descoberto. Amontoavam-se em torno dos pilares e suas patas arqueadas e quebradiças fazendo um ruído desagradável de gravetos secos crepitando ao fogo. – Ai, meu Deus do Céu – gruniu Edula. Cida apertou os lábios para não gritar. Súbito, surgiu um fulgor à frente deles, surpreendendo-os com sua cor de musgo. – Essa não, já estamos no Reflexo Verde! – disse Eneias. – Recuamos tanto assim? – assustou-se Márcia. Cíntia olhou na direção em que julgava estar a saída e tremeu ao vê-la longe. Outra bola explosiva de César caiu entre os besouros mas, apesar de tê-los feito hesitar um pouco, não os afastou por muito tempo. Finalmente, Bulbo sentiu um degrau atrás de si e equilibrou-se rapidamente para não cair. Olhou para cima e viu a figura do arauto da trompa junto à porta, aguardando o fim da batalha. A visão da criatura pôs-lhe a pele esverdeada toda arrepiada de pavor e asco. Lembrou-se de coisas que preferia esquecer. Coisas que aprendera quando era jovem. Coisas de que mesmo as fadas falavam à meia voz... coisas transloucadas, atrozes. Os gnomos conhecem boas razões para ter medo. Disse, com a voz hirta: – Aqui há uma escada. – Temos de nos impôr ou nos farão recuar até lá em cima! – gritou Faiald. – Alguém tem alguma ideia? – berrou César. – Não devíamos ter recuado! – insistiu Edula. O mago cravou nela uns olhos furiosos: – Eu devia ter dito "alguém tem alguma ideia produtiva"? – resmungou. Silenciou em seguida porque ouviu grunhidos aterrorizados. – O que é isso, agora? – É Lúcia – murmurou Márcia aborrecida. Os besouros tinham parado a alguma distância da escada e lá permaneciam, como demonstravam vez por outra as bolas explosivas do mago. Houve uma curta trégua. – Todos bem? – perguntou Faiald junto à Cida. O ferimento no pescoço da falcoeira sangrava, e ele sabia que doía terrivelmente, tanto mais próximo estivesse dela. – Todos! – gritou César, fazendo explodir mais uma bola de fogo. Estava pálido e tinha fundas olheiras. – Não disperdice suas forças – recomendou Bulbo. Cezna, sobre Cida, soube no mesmo instante em que ela os viiu. – A horda dos silênciosos vem para cá – sussurraram os dois ao mesmo tempo. O exército irrompeu o círculo de besouros e os atacou antes mesmo das palavras terem terminado de ecoar. Caíram sobre eles com tanta força e tão selvagemente que desbarataram o grupo e obrigaram os jogadores a tomar a decisão mais difícil de até então: ou recuavam todos juntos, escada acima, ou separavam-se, defendendo-se como podiam. Cida voltou-se para subir, mas Faiald a puxou contra si sacudindo uma negativa: – Se chegarmos até a portal, lá em cima, teremos de lutar com todos eles, um por um. Vão nos vencer no cansaço! Não podemos recuar mais! – Além do mais, seja lá o que houver além daquela porta e do demônio que a guarda, eu não quero entrar vivo por ela – rosnou Bulbo entredentes. – A morte será uma boa amiga perto do que nos espera lá. – Como sabe disso? – indagou Cida a, voz distorcida pela dor que a proximidade de Faiald lhe infligia. Ele voltou-se para ela e fez uma mesura respeitosa. – Porque eu sou um gnomo, filho do Tabuleiro. E você, élfide, você não passa de uma jogadora! E no mesmo movimento, voltou-se para a horda dos reis mortos e atirou-se no meio deles. Com um grito selvagem, Edula o seguiu. Num instante, o grupo saltou da escada e separou-se. O rosto dos fantasmas eram terríveis, mas era seu hálito que gelava os viajantes e envenenava sua respiração. Cíntia começou a lacrimejar. Não conseguia ver nenhum companheiro e apenas ouvia suas exclamações e o bramar de suas armas. Cezna era o único que não tinha sido encurralado, voando sobre os tenebrosos, atacando-os na nuca com uma adaga velha e arrancando elmos, capuzes e as couraças que lhes ocultavam as faces, fazendo com simplesmente se diluíssem como uma ilusão mal feita. A falcoeira conseguira manter os guerreiros cinzentos na ponta de sua lança, o que lhe deu certo sentimento de segurança. Então um escaravelho aproximou-se por trás e atingiu-lhe a barriga da perna esquerda com uma das pinças afiadas, desta vez cortando o couro que a protegia e penetrando fundo na carne. Cecília gritou e caiu de joelhos, certa de que seria presa fácil para o inseto monstruoso, mas rodopiou e caiu de frente para ele e assim pôde vê-lo, graças à luz fria que emanava dos reis. Na cabeça do besouro havia um tufo aveludado de aparência macia. Cida não teve dúvidas: empurrou a lança naquela direção e ergueu-se apoiada nela, desviando-se por um triz de uma espada que vinha na direção de seu ombro. O animal estremeceu e imobilizou-se, e Cida refugiou-se atrás dele, usando-o como barreira entre ela e os inimigos. Queria ver o ferimento, que parecia um risco de fogo no interior da panturrilha, mas pelo menos a fazia esquecer a dor que sentia os pés e no pescoço. A espada de que tinha se desviado conseguira acerta-la, abrindo um corte ao longo do antebraço. Não percebeu logo o que tinha acontecido, por causa do ardor da luta, e só compreendeu que estava ferida, quando trocou a lança de mão e o rasgão na carne arrancou-lhe um grito. Caiu de novo, entre os mortos que avançaram contra ela com machados e espadas. A falcoeira sabia agora que não conseguiria resistir por muito tempo. Continuava lutando, esgrimindo a lança para os lados mas suas forças se esvaíam. As palavras que a haviam tirado da casa do destino vieram subitamente à sua mente e sua voz tomou um novo tom ao bradá-las outra vez, e seu olhar luziu com fúria. À direita e à esquerda, mortos tombaram e desfizeram-se em pó, mas a massa avançava implacável em sua direção. Aos poucos, à sua esquerda, a muito custo, uma clareira abriu-se. Ela olhou de soslaio, não se atrevendo a desviar a atenção dos espectros que vinham sobre sua direita, mas em breve havia um espaço livre ao seu redor e não conseguiu perceber, imediatamente, por quê. Ouviu um grito de júbilo de Cezna e um súbito alento percorreu seu coração. Conseguiu parar e olhar ao redor. Ficou imóvel, chocada, perdendo preciosos instantes, que poderiam ter lhe custado a vida. Um dos vultos cintilantes impedia o avanço dos demais, lutando bravamente com vários inimigos ao mesmo tempo, tão rápido que não conseguia seguir-lhe os movimentos. A moça sacudiu a cabeça, livrando-se do susto e cambaleou em seu auxílio. Fosse quem fosse, não podia deixá-lo sozinho. Seu braço ergueu-se com vigor e a lança zuniu na direção dos inimigos. Em pouco tempo ambos, humana e criatura, tinham chegado a outro centro de ação. No fogo cruzado estava Edula, travando um combate desesperado. Seu olhar acendeu-se quando viu a amiga e seu braço ganhou mais vigor. Juntas, conseguiram reunir-se à Márcia e à Cintia, que lutavam lado à lado. Eneias estava ali próximo. Em meio à batalha, Cida perdeu seu defensor de vista. Seu coração batia enlouquecido. Adivinhação, presságio, o que fosse: sabia quem era o vulto! Era preciso que ele fosse quem pensava que era, pensou, as lágrimas escorrendo, misturando-se com o suor, a alegria e o terror a inundando ao mesmo tempo. De repente, quando ergueu o braço mais uma vez para atacar, a ponta da lança brilhou azul como o céu da manhãzinha. A falcoeira ficou imóvel, ofegando diante do vulto encapuzado que por pouco não golpeara, depois recuou, a lança ainda em posição de ataque. Suas amigas lutavam ao seu redor e Cezna as sobrevoava. O vulto sob o capuz a fitou desde sua escuridão. Baixou a arma. Era um interlúdio, uma melodia suave em meio à batalha. Cida estendeu a mão, com a intenção de erguer a fazenda acinzentada, mas ele recuou de um salto e tornou a enfrentar os espectros. – Reúnam-se! – gritou Edula ao seu lado, defendendo-se de um rei que saltou em sua direção. – Tive uma ideia! Vamos para o Reflexo Verde! Eneias ouviu-a e logo estava ao seu lado, a respiração entrecortada de soluços. – Onde está Lúcia? – gritou com o rosto molhado de choro. – Como vou saber? – vociferou Cíntia. – Por mim, pode ficar onde está. – Ela e o nemthru – completou Cida, o vigor renovado. Lágrimas toldavam-lhe a visão, distorcendo tudo. O ferimento na garganta ardeu com força. – É bom saber que pensa assim – disse o Damin juntando-se ao grupo. – Estou bem do seu lado. – Não me provoque – murmurou ela baixando a lança para a altura do estômago dele. – Parem com isso, vocês dois! – gritou Cíntia passando por ambos. De repente, viram uma bola de fogo, um pouco mais para o meio da refrega. – É César ! – gritou Márcia, feliz por sabê-lo vivo. – Vamos buscá-lo! – disse Edula. Ela e a irmã do mago puseram-se a caminho, seguidas de Faiald, que lhes cobria a retaguarda. Cida, Eneias, Cíntia, Cezna e o guerreiro cinzento, ficaram onde estavam, defendendo o melhor que podiam sua posição junto ao Reflexo, sem chamar bravura, o que os fazia surtir golpes corajosos, nem de coragem o que seus companheiros se empenhavam em fazer. Mas o cansaço já lhes pesava nos ombros. Iam ser separados outra vez. Se isso acontecesse, seria o fim. – Juntos! – gritou Faiald, surgindo subitamente ao lado de Cida e Eneias. – Fiquem juntos! A força de sua voz pareceu dar-lhes novo ânimo. – Estamos todos aqui? – perguntou Edula. Cida olhou ao redor. Bulbo estava aos seus pés. César e Lúcia haviam sido resgatados, ambos feridos e ele, muito cansado, apoiava-se na irmã. Mas estavam todos vivos. – Ótimo, vamos para o Reflexo Verde – gritou Edula, tomando a frente. O fantasma cinzento ao seu lado abriu caminho e aos poucos conseguiram avançar até cristal. Quando lá chegaram, viram-se cercados por todos os lados, embora contassem com a retaguarda protegida pela grande janela esmeraldina. – Encurralados! – gritou Cida. – E agora? – Aqui há uma porta, em algum lugar! Lembrei do mapa que encontramos na biblioteca! Deve ser uma porta secreta – gritou a Guerreira de volta. – E como pensa abrí-la, Edula? – gritou Cíntia, desesperada. – Esperava que César pudesse nos dar uma mãozinha! – Ele mal pode se manter de pé ! – protestou Márcia. – Se ele não puder nos ajudar, estaremos perdidos – replicou Faiald. César afastou-se da irmã, cambaleante e murmurou: – Preciso de espaço. Depois calmamente voltou a costas para a luta e abriu os braços com uma careta de dor, invocando um feitiço qualquer. Os alto-relevos da parede brilharam unissonamente por longos momentos. Depois o cintilar apagou-se sem pressa e apenas um retângulo manteve-se visível. Enquanto César abria a passagem, a fúria dos reis mortos redobrou. Faiald e Edula se juntaram ao vulto cinzento, que lutava como ninguém para garantir um mínimo de segurança para o grupo. Cida, Márcia, Eneias e Cíntia, também se uniaram a eles, mas seus golpes surtiam menos efeito. Cezna, entusiasmado com a sorte que tivera até então, mantinha-se sobre a luta, vencendo a linha entre os oponentes sem o menor cuidado. Foi com um grito mais de surpresa do que de dor que voou contra Lúcia, atingido de raspão por uma maça. Cida gritou ao mesmo tempo, dobrando-se sobre os joelhos, sentindo no próprio corpo o eco do golpe contra ele. – Quer tomar mais cuidado, seu aprendiz de periquito? – ela gemeu, erguendo-se, tonta. Cezna quase riu, mas o riso se transformou num grito estrangulado, quando viu o que ela não via: um gigante ao seu lado, o machado erguido sobre sua cabeça. Cezna disparou feito um bóido contra a criatura batendo com força em seu nariz. O gigante vacilou, bateu nele com força, arremessando-o de volta para o grupo e tornou a voltar-se contra Cida. A falcoeira atingiu-o sem muita força na coxa e o gigante avançou, berrando e brandindo o machado com violência sobre-humana.. A espada do guerreiro cinzento apareceu de súbito entre os dois, amparando o golpe que vinha certeiro e mortal na direção da falcoeira. O encapuzado colocou-se entre os dois e golpeou sem trégua, respondendo na mesma medida a violência e a ferocidade do oponente. O gigante foi obrigado a recuar. Foi então que um rangido envelhecido de pedra sobre pedra somou-se aos gritos dos lutadores. Edula voltou-se bem a tempo de ver o mago desabar sobre os joelhos, ofegando, encarando a porta que se abrira na muralha: uma passagem estreita que revelava uma escada descendente ao lado da pedra verde. – A passagem secreta! – gritou ela, entusiasmada. – Vamos! Os jogadores obedeceram, um por um, desaparecendo no buraco. Em breve apenas Cida, Faiald, Edula e o guerreiro cinzento mantinham a defesa da passagem. Depois Edula baixou os degraus, embora tivesse insistido para que Cida fosse primeiro. A falcoeira desfalecia. Já não tinha forças, estava muito ferida e perdera muito sangue. – Vai ficar aí a vida toda? Entre de uma vez, Cida! O encantamento de César vai durar enquanto eu estiver deste lado da porta e eu não vou aguentar para sempre! – ordenou o ruivo subitamente. A moça hesitou e olhou para o vulto cinzento. O guerreiro baixou a espada e deu as costas para os inimigos, displicentemente. Tinham um instante, apenas, e Faiald lutou com bravura e altruísmo para concedê-lo, Cida teve de reconhecer. O Damin estava pálido, lágrimas queimavam-lhe a face e ela adivinhou que ele também sabia quem era o vulto e que lutava agora com o coração cheio de vergonha. Cecília estendeu a mão para o capuz cinzento e desta vez o guerreiro não se desviou. A fazenda desapareceu entre seus dedos e revelou a face querida de Tharia, branca como a de seus inimigos. Seus olhos tinham aquela névoa gelada que perpassava a alma dos mortais com uma eternidade de danação. Para aqueles que morriam em Drida, não havia descanso, apenas a batalha eterna. – Tharia – soluçou ela, cheia de gratidão e de amor, e quis ficar ali, ao seu lado, para sempre. Isso dançou em seus olhos e o espectro o viu. Pôs os dedos gelados e incorpóreos sobre a boca dela, sacudindo a cabeça negativamente. – Não? – ela sussurrou sem convicção alguma. “Não”, significava "nunca mais". "Não" significava aceitar que Tharia era somente um sonho na mente de alguém. Entre o sopro da negativa e o ato que consumou sua decisão, não houve mais do que um piscar de olhos. Ela virou-se, jogou o búzio através da porta e empurrou Faiald brutalmente para além dela. A fenda cerrou-se entre eles. Quando ela se voltou, Tharia encarou-a com respeito. Talvez ele nunca tivesse acreditado de fato que Cecília cumpriria sua promessa de permanecer no Tabuleiro. Ele sorriu, ainda que seu seus olhos gelados se tomassem por terríveis. Cida também sorriu, mas cambaleou, as forças além de sua resistência. O espectro adiantou-se, rápido, e amparou. Beijou-a, e se os lábios eram gelados, o sentimento além deles ardia intocado. Os reis mortos lhes deram um instante de paz. E depois os atacaram.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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