O Jogo no Tabuleiro

- O Nemthru -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capitulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

A Casa de Lícora

 

 

 

As jogadas até aqui: Após o desaparecimento de um amigo, um grupo de jovens se envolve com um jogo que, à princípio, parece ser de RPG. Contudo, logo o grupo descobre que foi arremessado a uma realidade paralela de onde só sairão se vencerem a partida que estão jogando. Depois de resgatar  Eneias, o trovador – o amigo desaparecido – e Lúcia, a alquimista, os jogadores se dedicam a buscar as Chaves do Destino que lhes faltam, peças que, uma vez reunidas no Portal das Eras, abrirão uma passagem para que possam voltar para casa. Uma dúvida, porém persegue o grupo composto por César, o mago, e sua irmã Márcia, Edula, a guerreira, Cíntia, a mercadora, Cezna, um jovem transformado num pequeno gárgula e Faiald, um jogador que vive no Tabuleiro e que alega estar tentando sair de lá para resgatar jogadores de partidas anteriores: agora que Cecília, uma das componentes originais do grupo, morreu em Drida, a lendária cidade das montanhas, quem levará o Búzio, a Chave do Destino que ela conquistou, até o Portal das Eras? E se não for ela a entregar a peça, algum deles poderá fazer isso em seu lugar? Ou a morte da amiga os condenará a se transformar em parte integrante do Jogo no Tabuleiro?

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1. 

Faiald rolou até a parede e bateu com força contra a pedra. Gemeu e, ainda aturdido pelo golpe, ergueu o olhar em busca da passagem, sabendo muito bem que ela não estava mais lá. Ignorando a dor que lhe dilacerava o dorso, o Damin galgou os degraus que o separavam da porta secreta e jogou-se contra as pedras e bateu nelas com força, gritando pela companheira que ficara do outro lado. Nem o eco lhe respondeu. O silêncio desceu ao seu redor e ele deixou-se cair no primeiro degrau da escada íngreme e suja, a espada inerte ao seu lado, o cansaço tomando conta dele. Enterrou o rosto nas mãos sujas. Nunca sentira-se mais exausto. Enfim, novamente Clara conseguira arrebatar-lhe a possibilidade de vencer o Jogo: Cecília era a única que poderia entregar a chave que conquistara na Casa da Sorte.

Ou não? Um jogador que já tivesse empunhado o Búzio antes, em outra partida, poderia apresentá-lo no final do jogo para cumprir a missão? Ou Clara estaria divertindo-se à suas custas, deixando justamente aquela chave, de todas as sete, ao seu alcance?

– Droga! – mastigou em voz baixa, atormentado pela frustração de ter feito uma má jogada. Se não tivesse matado Tharia, Cida ainda estaria com eles, buscando a saída. Mas o Damin sentira a indecisão do marceneiro na ponte. O tremor daquelas mãos... oh não, não se atreveria a confiar novamente no mestiço mesmo sabendo que nenhuma criação de sua irmã jamais ousara atentar contra sua vida. Às vezes o jogo era real demais para que ousasse provocar tanto a sorte.

– Faiald? – murmurou a voz abafada de Edula e ele levantou um pouco os olhos, mordendo os lábios com força. Como diria aquilo? Como eles reagiriam?

– Onde está Cida? – indagou a guerreira com os olhos enormes, cheios de angústia, cheios de lágrimas. – Cezna está lá embaixo aos prantos, gemendo e dizendo que ela... por quê não está aqui com você?

O ruivo estendeu o braço e deslizou a mão pelo rosto da guerreira, pela parte livre do pano que usava obstinadamente sobre a boca. Depois puxou-a de volta, como se tivesse tocado ferro quente. Procurou uma forma bonita para dizer o que considerava uma estupidez.

– Cida preferiu ficar com Tharia – disse, com a voz rouca. Edula franziu o rosto como se não tivesse compreendido.

– Com Tharia? Mas ele está morto... – ela balbuciou olhando para a parede onde estivera a porta.

– Sim. Ele estava entre os guerreiros mortos. Foi quem nos ajudou o tempo todo.

Calou-se, envergonhado. Traíra Tharia e o homem, ou criatura virtual, ou que quer que fosse, mesmo depois de morto, mesmo obrigado ao encanto a que fora submetido, os ajudara. Bem sabia que era por causa de Cecília: uma última tentativa desesperada – e bem sucedida – de Clara para evitar que a falcoeira seguisse com o grupo, mas, mesmo assim, ambos tinham lutado lado a lado e não fora uma vez que o braço cinzento tinha lhe salvado de uma estocada mais profunda. Traição dentro da traição: usara um modelo onde ele era o traidor que deve sua vida à vítima, fazendo dele duplamente um traidor. Já conhecia esse gambito.

Traíra Nacin e ele o seguira até as montanhas, e ficara ali, esperando por sua volta, até o fim, um fim solitário e frio. Sem ninguém para ajudar, e sem nada que lhe garantisse que os jogadores que morriam no Tabuleiro, sobreviviam, de alguma maneira, ao transe. Por isso ele esperara. Por isso ele ainda não tivera coragem de se matar. Porque no fundo, nenhum deles sabia o que acontecia depois.

Faiald esfregou o rosto com as duas mãos e pegou o Búzio com os dedos trêmulos, piscando, confuso.

Por que, de todas as setes chaves, justo aquele maldito objeto tinha vindo para ele?

Fitou a parede longamente, ignorando Edula. Ironia do destino, pensou. Talvez haja um poder maior que o de Clara atuando neste lugar. Lembrou a promessa que a falcoeira lhe fizera, lembrou de suas próprias dúvidas sobre a morte dos jogadores. Quiçá fosse a prova de que, de fato, ele não morriam. Quiçá.... quiçá significasse que enquanto ela fosse mais um dos espectros de Drida, o Búzio continuaria a pertencer-lhe. Isso significaria voltar à Drida num futuro próximo, destruir seu espectro, ou libertá-lo, ou fazer o que fosse necessário... Teria de descobrir, mas não agora. Sabia que descobrir como agir fazia parte do jogo, mas também sabia que tinha chegado ao limite para aquele dia. E que ainda teria de enfrentar o grupo.

Pôs o caramujo nas mãos alvas e frias de Edula. Ela chorava em silêncio.

– E agora? – murmurou Edula. – Quem vai entregá-lo no final?

– Eu não sei – murmurou o ruivo. – Já não sei se haverá um final para nós. De qualquer forma, o fato de que o Candeeiro continua em nossas mãos, talvez signifique que temos alguma chance de recuperá-la.

Beijou de leve a face molhada da guerreira e levantou-se descendo com ela sob a luz mortiça do Reflexo Verde apressando-se para encontrar os demais jogadores.

A escada, muito reta, quase à pique, descia um longo espaço até a base da pedra verde, onde quebrava à direita, e de cujo túnel vinha o murmúrio de vozes. A temperatura era baixa e havia, junto à gema esmeraldina, pontas de gelo que tinham se formado com o lento passar dos anos. Além da curva encontraram aos outros, feridos, cansados, trêmulos de frio e ansiosos na espera dos companheiros. Cezna, no meio deles, soluçava, enquanto era consolado por Bulbo. Cíntia foi a primeira a vê-los e correu para Faiald com os olhos arregalados.

– Onde está? Onde está ela? – exigiu. César e Eneias ergueram a mirada para o ruivo e Edula. Lúcia, escorada em um canto, tremendo de frio, nem sequer levantou a cabeça.

– Ela ficou... – murmurou Faiald, tentando parecer não muito abalado. – Ela preferiu ficar com Tharia.

– O quê? – gemeu Márcia debaixo do casacão.

– Tharia era o fantasma que estava nos ajudando. No final, quando estávamos só ela, Tharia e eu, Cida me empurrou para dentro da passagem e atirou o búzio para nós. Aí a porta se fechou.... eu não pude fazer mais nada.

Cíntia apertou os olhos e pôs as mãos na cintura.

– Cida nunca nos abandonaria! Aposto que você se acovardou e a atirou para os leões a fim de salvar a própria pele, não foi assim?

Faiald empertigou-se. Já sabia o bastante sobre si mesmo para que aquela menina viesse dizer mais.

– Não seja tola... – começou, mas Márcia se uniu à mercadora.

– Acha que vamos acreditar numa bobagem dessas? A Cida se deixando matar? Por que faria isso? Você a matou, seu desgraçado, matou porque ela estava chamando você de nemthru!

Num movimento arrancou a faca que ainda pendia na mão de Lúcia e avançou para ele, os olhos brilhando de raiva. Edula saltou entre eles e ergueu a espada lilás, pálida.

– Chega! Nem mais um passo – sussurrou a moça.

Márcia encarou-a desagradavelmente surpresa, depois riu maldosa.

– Eu devo ter andado desligada, mesmo! – disse, cortante. – A guerreira defende o nemthru, já que anda caidinha por ele. Se isso significa matar a irmã do mago porque ela deseja livrar a todos de um assassino, pouco lhe importa. Meu Deus, Edula, eu não sabia que você ficaria tão perigosa só por se apaixonar por alguém.

Edula segurava a espada com os nós dos dedos brancos, de tanto esforço. Estava corada de raiva e vergonha quando ameaçou, em voz baixa:

– Cale a boca, Márcia, pelo amor de Deus, ou vou esquecer quem você é.

– Como ela anda! – debochou a outra, deslizando para o lado, saltitando como se não tivesse outro objetivo senão ridicularizar a amiga. No entanto, ainda segurava a faca.

– Sabe o que está fazendo? – indagou em tom de brincadeira. – Está sendo cúmplice de um assassinato.

– Por que você não fecha o bico? – pediu Faiald, aborrecido.

– Porque conheço Cida – disse Márcia. – Ela não ia se suicidar.

– Não, ela não fazia o tipo – completou César, exausto.

– Não, de fato! Fazia só o tipo estúpido de romântica capaz de ficar cega para a realidade! – explodiu Faiald. – Ela não se matou, simplesmente, ela traiu todos nós porque não foi capaz de ver o que Clara estava fazendo com ela!

Edula baixou a espada mas continuou a vigiar Márcia.

– Como Clara poderia saber? – murmurou. – Nem nós sabíamos que era tão sério o que ela sentia por Tharia!

– Eu sabia – soluçou Cezna.

Os outros o olharam e até mesmo Márcia parou para fitá-lo.

– Como? – indagou Cíntia.

– Eu e ela temos... tínhamos... um elo telepático desde que chegamos ao Tabuleiro. Será que ninguém notou nada? – indagou ele erguendo vôo para ficar à altura dos olhos dos companheiros.

– Você bem sabe, Edula, você mesma chegou a ver alguma coisa estranha no dia em que encontrou a Ampulheta. E hoje... enquanto ela sonhava... bem, eu não saí sozinho, entendem? Ela me acompanhou, até que encontramos os reis silenciosos. Aí ela voltou para si e me deixou sozinho. Mas é porque não sabia disso, senão não teria me abandonado. E agora... no final... no final ela compreendeu. Mas era tarde demais.

– Quer dizer que você pode ler os pensamentos? – indagou Cíntia, abismada.

– Não de todos, só os dela... nós já tínhamos uma espécie de afinidade Lá Fora. Acho que se não fosse o Tabuleiro... se não fosse Tharia... oh, meu Deus, vou ter de dizer tudo, bando de mané?! Eu a amo! Estou apaixonado por ela! Acham que eu andava com vocês porque gosto de garotada? Queria ficar perto dela, queria ter uma oportunidade! Estava só esperando a hora certa! A hora que nunca chegou...  que eu nunca vi chegar... ninguém mais do que eu queria que ela estivesse aqui... não junto de nós, mas junto de mim. De mim, entendem?!

Marcia baixou o braço que sustentava a faca, surpresa.

– Você nos disse que ela estava perdida – murmurou distante. – Você nos disse...

– É claro que disse – ele gritou em resposta. – Eu sabia o que se passava... quando a encontramos no salão do poço, depois de Faiald fazer... vocês sabem o quê.

O ruivo desviou o olhar, irritado.

– Eu sabia o que estava acontecendo... quando Tharia caiu pelo poço. Eu sabia! Estava junto da mente dela!

Houve um silêncio medonho.

– Que droga, Cezna, por que não nos avisou? – sussurrou Edula, horrorizada. – Podíamos ter feito algo, salvado Tharia!

O homem-pássaro voltou-se para ela numa careta.

– Adivinha só, Edula, adivinha só porque eu não disse nada! Adivinha porquê eu só avisei vocês quando tudo estava acabado, porquê eu só guiei vocês até o jardim de ouro quando Faiald começou a machucar ela de verdade!

Ninguém respondeu logo, só César, depois de algum tempo:

– Você estava com ciúmes.

– Eu queria que Tharia se ferrasse! – berrou o pequeno. – Olha para mim! Olha bem! Ela estava me vendo como um brinquedo, como um pobre coitado. Nunca mais ia olhar para mim se o loiro continuasse com a gente! Além do mais, Faiald estava certo, ele era só uma invenção de Clara! Que diferença faria o que ia lhe acontecer?

– Eu não sei, Cezna, responde você – retrucou Edula, gélida. – Estaríamos todos aqui, talvez?

No silêncio que se seguiu, de repente, a Alquimista começou a rir de um jeito insano, grotesco que a sacudia por inteiro, como um boneco de pano.

– Querem saber? Ninguém aqui é melhor do que eu – ela disse entre o riso. – Nenhum de vocês, nem mesmo essa uma que nos deixou na mão!

– Cale-se – sussurrou César, cansado. Mas ela não obedeceu. Cuspiu para o lado e resmungou:

– Pelo menos a guria foi coerente. Se gostava tanto do sujeito e deste lugar... se chegasse ao final com a gente ia ter de destruir o Tabuleiro, ia ter de matar o loiro... ela o teria morto.

– Sim. E por isso, também, ela se foi. Ela saiba disso, sabia o tempo todo... e não ia suportar – replicou Cezna. – Há um silêncio aqui dentro. Não voltará, para nós,  Deus, não voltará para mim!

Pousou no chão, as asas caídas ao seu redor, e disse baixinho, com a voz embargada:

– É meu castigo. Não voltará, não voltará, não voltará.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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