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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capítulo 2
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2. Seguiram pelo corredor estreito e escuro, deixando para trás o verde fulgor do Reflexo, entorpecidos de frio e horror de si mesmos. Seguiram porque não havia mais nada a fazer, porque não podiam simplesmente dizer “não quero mais jogar”. Seguiram porque o ar estava gelado. Seguiram. O túnel dobrou uma vez à esquerda e puderam ver, muito longe, uma luz que assinalava seu final. Andavam com as armas em punho, preparados para qualquer emergência que enfim, não chegou. Se tivesse vindo, apesar das armas os teria destruído, porque não sabiam mais por que lutar: que Faiald tivesse se revelado um traidor, era algo com o que podiam conviver, mas que um deles tivesse sido conivente com um assassinato, não. De qualquer maneira, a luz tornou-se mais difusa à medida em que aproximavam-se dela, apagando-se lentamente. Chegaram a pensar se não se trataria de uma nova armadilha para a qual eram atraídos como mariposas. Não obstante, a origem da luz era uma placa de gelo que recobria o final do túnel, banhada pelo sol poente do fim de tarde. O grupo trabalhou durante um bom tempo até conseguir abrir um buraco que lhes permitiu sair ao ar livre: o céu revelou suas claras estrelas na abóbada despojada de nuvens. Eles sentaram-se no solo frio e decidiram esperar pela manhã para sair da segurança que o túnel lhes proporcionava. Foi uma noite interminável. Não chegaram a ver nenhuma das três luas e o céu era um veludo profundo, repleto de distâncias impossíveis. Lúcia fitava o corredor de onde tinham saído e de vez em quando soluçava. Márcia e Cíntia, cada uma por seu lado, olhavam a escuridão com absoluta desconfiança. Cezna dormiu no capuz de Faiald, enrolado num pedaço do manto que, ironicamente, fora de Tharia. Edula descansou apoiada contra a parede, longe de todos. O ruivo quase não dormiu, olhando fixamente para a branca passagem que os levaria de manhã à, quem sabe, uma trilha que seguisse para longe dali. Estremecia de quando em quando. O dia fora terrível demais para que se permitisse o luxo de aventurar-se pelo mundo dos sonhos. César, exausto, foi o único a dormir profundamente e Eneias, sacudido por pesadelos, de vez em quando remexia-se e gemia, presa de algum perigo terrível. Todos tinham feridas mais ou menos profundas, que a escuridão impediu de tratar adequadamente. Foi uma larga sucessão de horas cansativas e cheias de pesar. Quando o dia nasceu, Faiald o recebeu com um suspiro de alívio. Estavam à oeste da cidadela e a luz do sol desenhou a sombra da montanha que ocultava Drida do passo branco contra a montanha do outro lado do vale que teriam de vencer. Comeram frugalmente alguns cereais do dia anterior e nacos de carne cozida que sobrara, e depois trataram das feridas como lhes foi possível. Finalmente, seguiram o caminho. Tiveram de descer uma ribanceira de gelo, pequena mas escorregadia, até o passo nevado propriamente dito. Uma vez lá, descobriram que era preciso andar com cuidado, pois de vez em quando profundas fendas se abriam quase sob seus pés, mostrando o interior azulado da neve. Quando finalmente chegaram ao solo firme da trilha nas rochas da montanha distante, puderam parar e descansar, alongando os olhares sobre os ombros na direção de Drida. Lá estava a pedra verde, protegida pela sombra da montanha da cidadela. Perdia rapidamente a placa de gelo que a cobria durante a noite, a medida em que o sol movia-se pelo céu, deslizando seus raios sobre sua superfície, aquecendo-a. Era como uma ferida verde na montanha e abaixo dela, o rochedo caía por uns bons seiscentos metros na vertical. Bulbo avaliou que devia ser praticamente impossível escalá-lo por causa do gelo e da inclemência dos rochedos afiados. Ninguém fez outro comentário. Seguiram para o norte, contornando pelo exterior a meia-lua de montanhas observada por Cecília dois dias antes. Depois, a senda se afastava dos precipícios e da paisagem maravilhosa das Rineve, mergulhando entre os passos montanhosos e finalmente começando à descer. Não viam muito adiante, contudo, e Faiald temia que tivessem pego um caminho que viesse a desembocar em algum vale interiorano. Mandaram Cezna como batedor e o rapaz desapareceu por alguns instantes à frente deles, satisfeito em ter alguma coisa útil com que distrair seus pensamentos sombrios. Logo voltou anunciando um pouco animado: – O caminho atravessa as montanhas e desce para uma planície fértil, cheia, repleta de verde e de rios! Há um lago mais além! – Graças a Deus – murmurou Cíntia. – Já estava começando a detestar o branco. De fato, o caminho prosseguia sempre descendo, entre as montanhas e logo puderam ver a planície ainda mais verde do que haviam imaginado. Os reflexos dos rios nascidos nas montanhas a fatiavam em grandes pedaços férteis, alguns mais escuros que outros. À esquerda, muito mais longe, viram a orla da mata, da Floresta de Ujier, uma sombra escura, e à frente, ainda além, uma faixa branco-amarelada. – É o deserto de Doshapp – disse Faiald apontando para a faixa. – Lá fica o Labirinto de Cristal, o Enigma de Ebadha. – Teremos de caminhar até lá? – perguntou Cíntia, torcendo o nariz e sentando-se numa pedra. – Olha, eu queria voltar para casa ainda este ano, sabia? Faiald sorriu com dificuldade. – Eu não sei se isso será possível sem Cida – disse. – Como assim? – perguntou a Mercadora. – Que sem Cida será inútil chegarmos ao Portal das Eras – murmurou César com um suspiro. – Sim, eu já tinha pensado nisso. – Tolice! Temos o búzio... além do mais, se isso é assim, por que estamos nesse maldito caminho? – irritou-se a moça, erguendo-se. – Vamos ter de discutir isso com calma. Mais adiante, na Planície, existe uma aldeia de pescadores – esclareceu Faiald. – Faremos uma parada por lá e então decidiremos o que fazer. Talvez seja melhor que vocês fiquem lá, esperando por mim. Poderão se estabelecer entre aquela gente, até que eu encontre novos jogadores. Eles não deverão demorar. – Esperar outro grupo de jogadores? – grunhiu César. – Por quanto tempo? Faiald abanou a cabeça, desalentado. – Não sei. – Então, de que nos adianta continuar... – insistiu Cíntia. – De que nos adianta ficar aqui nas montanhas? Não temos abrigos, não temos alimentos! – cortou o ruivo. – Na Aldeia da Lagoa vocês terão tudo o que necessitamos. – E você voltará sozinho ao começo do caminho? – perguntou Edula, os olhos brilhando de apreensão. – Sim. – Então eu voltarei com você – sentenciou ela. – Mas é bem estúpida! – resmungou Márcia. – Falaremos sobre isso quando estiverem instalados na Aldeia da Lagoa – replicou Faiald. – Até lá é melhor não discutir por tão pouco. Tomou a frente do grupo e pôs-se a andar na trilha. Um por um, os outros se puseram a andar também. O dia seguinte amanheceu tão belo quanto o anterior. A sombra das Rineve estendeu-se durante algum tempo na planície, mas desapareceu antes da metade da manhã. O grupo seguia em frente, sem desperdiçar palavra. Do vale subia um sopro quente com cheiro de flores e água, agradabilíssimo. Entretanto, à medida em que desciam, um outro cheiro, forte e desagradável, sobrepujou o primeiro. A trilha tornou-se mais agreste, as pedras escuras e chamuscadas. A ausência de neve não devia chamar a atenção, pois há muito tinham ultrapassado a linha das geleiras. Contudo, era um caminho estranho e de repente Bulbo, que caminhava mais à frente do que de costume, parou, pálido. – Esperem um momento – disse, olhando ao redor. – Faiald, tem ideia de onde estamos? O ruivo franziu o sobrecenho e coçou a cabeça. – Nalguma trilha em direção à planície, espero – respondeu. – Você já ouviu falar em Moredhra? – indagou o pequenino, baixando a voz. Como se fizesse eco às palavras dele, um grito agudo e mau saiu das pedras sob seus pés, e mais adiante ergueu-se uma coluna cinzenta de fumaça. – Gêiser ou vulcão? – perguntou César ajeitando os óculos sobre o nariz, com uma aparência profissional. – Dragão – respondeu Faiald olhando o fumo, pálido, falando consigo mesmo. – Era só o que nos faltava: o animal mítico! A partida poderia ser um pouco mais fácil, não? Márcia começou a rir. – Vocês não estão falando de dragões que soltam fogo pela boca, estão ?– perguntou. – Parece maluquice? – replicou Eneias acompanhando-a no riso nervoso. – Acho que maluquice seria não haver dragões aqui, não é ? – Estaremos perto...? – murmurou Faiald olhando em torno de si. Um segundo grito, mais alto e mais forte do que o primeiro, cortou o ar da manhã. – Não sei – sussurrou Bulbo, apavorado. – Mas eu preferia não ter de descobrir... Desta vez os gritos que o interromperam eram humanos. Gritos de pânico. Faiald puxou a espada e Edula o imitou. – E agora? – ela quis saber. – Não sei – ele respondeu, tenso. Súbito, galgando a trilha como desvairados, quatro homens surgiram à frente, alguns cobertos de queimaduras, outros pretos de fuligem. Ao verem os viajantes, pararam estupefatos e um deles virou-se, voltando a descer a trilha pelo mesmo caminho que tinha vindo. Outro homem tentou impedi-lo, mas foi tarde e ouviram-lhe o berro de horror, misturado ao urro do dragão, agora mais próximo. De onde viera o brado ergueu-se outra coluna de fumaça. – Moredhra – sussurrou um dos três que haviam escapado, olhando para baixo. Depois voltou-se para os viajantes e gritou: – Vão embora, salvem suas vidas! – É a primeira pessoa que diz alguma coisa sensata – murmurou Eneias, à surdina. Bulbo tremia aos pés de Edula, paralisado de terror e concordou com um aceno. – Não há mais para onde ir, Baldrício – disse o homem, que estava mais abaixo. – O melhor é ficar e lutar. – Lutar com o quê, homem? – gritou aquele que devia ser Baldrício. – Com pedras? Ou você prefere usar as mãos? – Nós temos armas, e entre nós há um mago – ofereceu Faiald. Os homens, voltaram-se surpresos. César ergueu as sobrancelhas e olhou para ele. – Aquele monstro devorou nosso mago há três meses – reagiu o primeiro. – Vão embora de uma vez. Enquanto o homem falava, atrás dele uma cabeçorra de escamas vermelhas emergiu de uma depressão, observando-o com os olhos dourados divididos por pupilas verticais. “Um clássico”, pensou César imobilizando-se. A criatura tinha orelhas imensas, com um focinho estranho e grandes bigodes que lhe pendiam sobre as narinas cavernosas. Sua bocarra exibia dentes agudos, venenosos e seu hálito lembrava o cheiro de uma fábrica de celulose. A cabeça erguia-se sobre um pescoço viperino, cheio de detalhes dourados e pretos sobre as escamas vermelhas. Era tão aterrador, que por um instante ninguém se mexeu. A criatura deu o bote e abocanhou o homem mais próximo antes de desaparecer. Ouviram um gemido de surpresa e depois o som dos ossos sendo quebrados. – O que era aquilo? – balbuciou Márcia. – Frare! Frare! – berrou Baldrício chamando pelo homem desaparecido com voz medonha. Ameaçou correr na direção do monstro, mas Faiald saltou para junto dele e segurou-o. – Não! Fique aqui! Seu amigo está morto e você está desarmado! Deixe que nós iremos. – Nós? – indagou Cíntia segurando a pedra que pendia de seu pescoço, como se fosse uma espécie de bote salva-vidas. – Eu vou sozinho, se ninguém me acompanhar – replicou o ruivo. – A regra é dar cabo do animal mítico e... – Quem garante... que esse aí... é que é o animal mítico... da partida? – Cíntia indagou, a voz saindo aos arrancos. Seu queixo batia como se ainda estivessem entre os gelos da montanha. O ruivo balançou a cabeça desalentado. – Olha, se não dermos um fim no bicho, podem apostar que não chegaremos ao pé da montanha. Ele virá atrás de nós, como o unicórnio que tivemos de matar da outra vez. Negar a realidade não vai ajudar em nada... – resmungou ele largando a mochila com suprimentos. – "Negar a realidade"! Essa foi boa – murmurou Lúcia, soturna. – Vocês mataram um unicórnio? – gemeu Baldrício com franco horror. – Nós não... ele! – acusou Cíntia apontando para o ruivo. – Já chega! – disse Edula, interrompendo a discussão. – Vamos, antes que o sujeito aí decida que matadores de unicórnios são piores do que dragões vermelhos. César soltou a mochila de suas costas, esfregou os braços com força e disse: – Estou pronto. – Não senhor! Não mesmo! – gritou Márcia refazendo-se do terror que a assaltara. Agarrou o braço dele com a força do medo. – Você não vai a lugar algum! César suspirou aborrecido. – Por que você não vai ver se eu estou na esquina? – resmungou. – Estamos perdendo tempo – avisou o ruivo. – Eneias, é melhor você cuidar dela. O Trovador enrubesceu e segurou o braço da menina, obrigando-a a soltar César. – Não deixe ele ir, não! Pelo amor de Deus, alguém faça alguma coisa – soluçou ela com violência. Lúcia olhou para os três que se afastavam pela trilha, cuidadosamente. Encolheu os ombros e murmurou: – Já estão parecendo o outro pessoal. Primeiro um ficou biruta, depois aqueles dois tontos ficaram esperando o ônibus... quero só ver quem desses é que vai sobrar. Eneias controlou-se a muito custo e obrigou-se a sentar no solo, apertando Márcia contra o peito e murmurando mais para si do que para ela: – Vai dar tudo certo, daqui a pouco eles estão de volta, você vai ver. Vai dar tudo certo. – É – sussurrou Cíntia, sentando-se ao seu lado. – Vai dar tudo certo. Na manhã clara, Bulbo e Cezna se entreolharam desanimados. Sentado em uma pedra, Baldrício chorava em silêncio. Descendo rapidamente, porém com cuidado, Faiald, Edula e César avançaram pela estradinha que fazia uma volta para a esquerda e depois caía novamente para a direita. O solo e as pedras estavam cada vez mais secos, alguns cobertos por fuligem grossa e rachaduras de calor. O fogo do monstro atingia temperaturas tão altas que algumas pedras estavam amareladas, corroídas pelas chamas. – Você tem algum plano? – cochichou Edula, pálida. – Tenho – disse Faiald, parando. A pouco mais de vinte metros, sobre um pequeno patamar, se abria a boca da caverna de Moredhra. – Vou atraí-lo para fora. Se deixarmos que fique dentro da toca, estará protegido pelos flancos. – Mas se ele sair, terá a cauda solta – ponderou César. Depois duvidou: – Bem... ele tem uma, não tem? Faiald olhou-o detidamente e sorriu absorto. – Sim, ele tem uma cauda, como todos os dragões. Mas você está certo, embora não tenhamos outra escolha. Se não conseguirmos desentocá-lo, dificilmente poderemos dar cabo dele. Edula olhou ao redor em busca de outra trilha qualquer que pudessem seguir e que passasse longe do buraco. Desconsolada, só viu pedras escurecidas, solo seco e tocos de árvores que temerosamente resistiam, apesar de já estarem mortos há muito tempo. – E então ? – perguntou Faiald. – Que remédio temos? – resmungou César. Aproximaram-se silenciosamente. Da caverna emergia um cheiro abominável, impossível de identificar. Cheiro de dragão.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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