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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capitulo 3
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3. A grota era uma abertura redonda, preta de fuligem, como o chão que pisavam. Avançaram lentamente, trocando um olhar. Faiald fez-lhes sinal para que esperassem um pouco e adiantou-se de gatinhas, espiando o interior. Nada aconteceu. Na verdade, o silêncio era tanto que já se tornava incômodo. O ruivo levantou-se e olhou seus companheiros. Abanou, confiante, e, de súbito, pulou para o meio da abertura, usando o punho polido de sua espada para refletir o sol dentro do buraco. – Mas que diabo de plano estúpido! – vociferou César. Ouviram um ronronar profundo, mais de aborrecimento do que de raiva e o ruivo gritou: – Moredhra! Saia daí! Novo resmungo no fundo da terra. O reflexo do sol no punho da espada continuava a varar a escuridão com irritante insistência. – Ele está louco! – praguejou Edula. – Talvez, mas eu tive uma ideia – cochichou César avançando. – Ouça, quando o bicho estiver do lado de fora leve-o para aquelas pedras, ouviu? Faça com que ele fique de frente para elas. Edula seguiu-lhe o gesto e concordou com a cabeça, intrigada. O mago desceu o restante da trilha e passou pelo limite do patamar, indo ocultar-se atrás das rochas que indicara, justo atrás de Faiald. – Moredhra, meu menino, não vai atender ao Nemthru? – gritou Faiald com um sorriso. – Vai se esconder até o anoitecer? Será que tem medo do sol? – Vá embora – rugiu uma voz quase ininteligível. – Estou cansado, minha despensa está cheia e eu quero dormir. – Vai acabar gordo e preguiçoso, Moredhra. Vão chamá-lo "O Porco que Voa" – observou o ruivo zombeteiramente. – Você é bem atrevido, mocinho. Não veio com os outros vinte, não é ? Edula e César engoliram em seco. Se de vinte homens fortes, havia sobrado dois tipos trêmulos no alto da trilha, eles três o que iam tentar? Suicídio coletivo? – Para falar a verdade, Porco que Voa – replicou Faiald procurando jogar mais luz para dentro da toca do bicho – não é de seu interesse saber de onde vim. Mas muito me admira o que disse: que havia vinte outros. – Hum, eu sou forte – resmungou o dragão com uma ponta de orgulho na voz rouca. – Sou muito grande e forte. E não me chame de "porco que voa". – Não são o seu tamanho e força, o que me espantam – continuou o ruivo no mesmo lugar. Parecia divertir-se com aquilo. – É que eu não sabia que os porcos sabiam contar. Uma fumarola ergueu-se do fundo da caverna, mas Faiald não se moveu, embora retesasse os músculos, pronto para saltar. – O que você quer, Nemthru? – rugiu o dragão aborrecido. – A ponta de sua cauda para pendurá-la sobre o leito da mulher que eu amo – respondeu o jovem. – Será que você vai poder atender ao meu pedido? – Estou ficando cheio de vocês, humanos – respondeu Moredhra num tom ainda mais baixo. – Um dia desses sairei daqui e não descansarei enquanto não tiver morto a todos. Faiald riu e cantarolou: – Nas bandas do morro pelado, Tinha um dragão de nome Moredhra. Tinha o nada por reinado, E a ponta do rabo amarela – Dourada! Dourada! – rugiu o dragão, furioso, e uma labareda saiu da caverna, obrigando Faiald a saltar para o lado. – Não é amarela, é dourada! Imediatamente após a labareda, surgiu a cabeçorra do bicho, vermelha e reluzente, os olhos brilhantes de fúria e fogo. Faiald recuou, obviamente surpreso com a rapidez dele e Edula saiu de onde estava para dar uma estocada funda no couro de sua barriga, cujo flanco ficara exposto. Moredhra deu a volta, todo fúria e calor, um calor estupendo que irradiava de seu corpo em movimento. O dorso era vermelho-sangue e a barriga amarelo-limão e pesaria, tranqüilamente, várias toneladas. Suas asas, imensas e fortes, também eram vermelhas, mas com raias douradas e negras, movendo-se com estrépito ao seu redor. – Que vergonha! – replicou Faiald atacando-o pelo outro lado, escapando por pouco do enorme pé e das unhas negras que rasgavam o chão. – Você está tão gordo, Moredhra, que já não pode sequer virar a volta dentro de sua própria casa. O dragão rugiu e voltou-se para ele, despejando o bafo vulcânico sobre o rapaz, mas Faiald, espertamente, escapuliu-se para baixo do corpo enorme, ferindo-o muitas e muito profundas vezes na barriga. Um grito de raiva e dor partiu da goela imensa do monstro. Ele voltava o pescoço rapidamente de um lado para o outro, com mais rapidez do que desejariam os dois guerreiros. Além disso, havia a cauda. Era dourada, com efeito, o dourado quente das chamas, vivo como brasas e aço fundindo. Era bela e brilhava sob sol, movendo-se de um lado para o outro ameaçando cair sobre os dois guerreiros a qualquer momento. Súbito, Edula parou diretamente à frente do dragão, de costas para onde ocultara-se César. A criatura voltou-se para ela. – Essa é a mulher que você ama? Me parece muito misteriosa para ter a ponta do meu rabo sobre sua cama e muito pequena, também – rugiu o monstro, abrindo a boca para lançar sobre ela uma torrente de fogo. O coração de Faiald encolheu-se dentro do peito e ele empalideceu. Esqueceu do perigo que o ameaçava e quis gritar, mas a voz de César se sobrepôs, firme: – Para o chão, Edula! A guerreira obedeceu e de trás dela saiu um raio branco que, à princípio, pareceu-lhe ser gelo. Mas o dragão, que facilmente lidaria com quaisquer porções de gelo, recuou engasgado e começou a revirar-se em agonia. De sua boca começou a escorrer uma espuma grossa e branca. – O que você fez? – interessou-se Faiald escapando da cauda que se movia espasmodicamente. César ergueu-se sorrindo de trás das pedras. – Vocês já ouviram falar numa coisa chamada "foamite" ? – indagou, sorrindo. – "Foa", o quê ? – Foamite, uma espécie de espuma feita à base de bicarbonato de sódio, sulfato de alumínio e água, usada para apagar o fogo nos depósitos de petróleo – esclareceu o mago. Moredhra, de seu lado, tossia, cuspia, espirrava, rugia, mas de fogo, nem sinal. Fez a tolice de olhar para César outra vez de boca aberta. Outro jorro de foamite nasceu das mãos do mago e atingiu-o bem no alvo. – Argh! – fez o bicho, e correu para dentro do túnel, espremendo-se nele. Sem dúvida, a menos que mais adiante houvesse uma sala bem ampla, não seria capaz de fazer a volta, nem que sua vida dependesse disso. – Sigam-no! – gritou Faiald, dando ação às palavras. Os três seguiram Moredhra terra a dentro, correndo atrás do cintilar constante de seu rabo. Faiald, que ia mais à frente, ergueu a espada e com duas estocadas, cortou a ponta dele fora. O dragão parou e gritou, rouco, engasgado... e começou a dar marcha-ré. – Corram – gritou Faiald – corram que agora a coisa vai ficar séria. – E já não estava? – admirou-se Edula, correndo para fora. Mal chegaram do lado de fora e as paredes de pedras explodiram para dar passagem ao corpanzil enorme e vermelho. A cabeça do bicho, porém, ainda estava dentro da caverna e Edula pulou para junto dela golpeando-lhe o pescoço com força. Moredhra emergiu da caverna e encarou-os furioso, ferido e terrível. Rugiu engasgado, pois a espuma que o empapava impedia que sua voz saísse de todo, mas seus olhos fuzilantes gritaram por ele. Sua enorme pata aterrissou no lugar onde estivera a guerreira, porém Edula já estava mais adiante. Faiald atacou-o por sua vez, ferindo-lhe na pata. O golpe que desferiu deveria ser o bastante para cortar-lhe fundo, mas as escamas eram muito duras e não deixaram que o fio da espada penetrasse muito na carne. – Empurrem-no para o abismo! – gritou César. – Que idiotice! Ele tem asas – gritou Edula, por sua vez. – Pode voar! – Façam o que eu digo! – replicou o mago, erguendo um escudo de energia diante dos dois companheiros, bem a tempo, antes que o que restava do rabo, de onde escorria um líquido grosso e esverdeado, os atingisse. Faiald saltou para a direita e Edula permaneceu com suas estocadas à esquerda, mas Moredhra não tinha a mínima intenção de recuar até o ar, a menos que fosse absolutamente indispensável. Faiald tinha razão: estava muito gordo e uma vez no ar, já não tinha a mesma agilidade de décadas passadas. De qualquer modo, embora não estivesse enfrentando inimigos à sua altura – para ele, os aventureiros à sua frente não passavam de amadores – sentia falta da ponta incandescente da cauda, de cuja ferida escapava sangue suficiente para enfraquecê-lo. Estava furioso, e um dragão furioso é muito mais assustador do que astuto. Avançou a cabeçorra novamente na direção de Edula e o simples bafo foi o bastante para atordoá-la. Abriu a boca para abocanhá-la, mas Faiald correu para debaixo de sua barriga e o feriu o mais fundo que pode. O dragão revirou-se como uma cobra a procura dele, dando à guerreira tempo para se refazer e acertar-lhe a orelha que ficara pendente à sua frente. O bicho berrou outra vez e agora o grito saiu-lhe mais firme. Não se voltou para Edula. Em vez disso, desceu a garra contra Faiald, colhendo-o de cheio. Apertou-o no solo, queimando, esmagando-o, arrancando-lhe um grito angustiado de dor. Edula teria feito algo, se pudesse, mas outra vez Moredhra lhe lançou o bafo, agora acompanhado de alguma fumaça, obrigando-a a recuar. – Ele está se refazendo! – tossiu ela, engasgada. – Ele está matando Faiald! – replicou César, jogando mais foamite. Mas dessa vez errou o alvo. Faiald lutava para libertar-se. Tinha o braço da espada livre e com ele golpeava a pata que o apertava no chão, mas pouco a pouco ia perdendo as forças e a consciência. Que maneira estúpida de perder o jogo! ele pensou e sentiu o frio do ar condicionado fazer um contraste inesperado com o calor da gigantesca criatura. Ouviu o ronronado do aparelho e pensou, um pouco aborrecido “não demora a estragar de novo” e então lutou desesperadamente. Não podia deixar os outros logo agora, em plena refrega com um monstro mítico – e que monstro mítico! O monstro mítico por excelência, aquele pelo qual esperara por anos a fio! Fez um esforço tremendo e abriu os olhos para ver Edula aproximar-se dele, lutando com uma das patas do monstro. Mas um dos golpes foi mal executado e o monstro a atirou ao solo. A espada voou de sua mão e Moredhra interpôs a cauda grossa entre ela e a arma. – Essa não... – sussurrou a guerreira. Correu para Faiald e tirou a espada da mão dele. Não viu, portanto, a bocarra que se abriu por trás, pronta para engoli-la. Não viu, apenas sentiu o calor e viu o olhar desesperado de Faiald. Jogou-se no chão e virou-se, cravando a espada na boca do monstro. Moredhra ergueu a cabeça, arrancando a arma e a pele das mãos da guerreira, atirando-a longe, nas distantes veredas de água que corriam nas montanhas. Apertou ainda mais Faiald contra o solo e voltou-se de novo para os dois, agora lado a lado, incapazes de defenderem-se. Tinha-os onde queria. Cuidaria do mago depois. Edula ergueu os dois punhos cerrado num movimento vão para proteger-se, pronta para bater com eles no focinho do monstro e mesmo furioso por causa da dor que sentia, Moredhra sorriu diante aquele gesto: – Morram, humanos! – rugiu, com infinito desprezo. A Guerreira não conseguiu reagir. Ficou olhando a bocarra avançar na sua direção e apesar do impulso instintivo de fugir, sabia que não havia para onde. Ouviu o estrépito de pedras rolando, rolando sem parar, mas não eram pedras, era o seu coração batendo enlouquecido, perto do colapso total. Então deu-se conta de que o dragão não mais olhava para ela, mas, sim, para cima, pasmo. Sentiu as pernas afrouxarem. O alívio começou a tomá-la, mas o som das pedras não a abandonava. Olhou em torno e arregalou os olhos, gratificada. Enquanto os dois guerreiros e o mago atacavam o dragão, Márcia, Eneias, Cíntia, Cezna e os dois homens que tinham sobrevivido ao ataque, haviam juntado pedras sobre a caverna do monstro, e agora as faziam rolar sobre ele com um terrível fragor. Parecia que cavalos imensos corriam com suas patas morro abaixo, prontos para esmagar qualquer um que se interpusesse no caminho da avalanche. O monstro recuou um pouco, incomodado, tentando desviar-se. Edula virou-se, ágil, tirou da mochila a Ampulheta que trazia consigo, sacou da cabeça o turbante que ocultava-lhe o rosto e amarrou o relógio de areia enfeitiçado à pata do bicho. Então virou o vidro de modo que a areia lhe comesse os dias e depois afastou-se, trêmula. Moredhra sentiu as coisas alterando-se nele. Sentiu que o tempo desaparecia, célere, levando-o à destruição natural de todas as coisas, mesmo os dragões vermelho-dourados. Com um movimento desengonçado, largou Faiald e correu para o abismo, buscando voar para lugares mais calmos, pelo menos até que tivesse curado suas feridas. Depois voltaria e então todos veriam a força de sua ira, pensou. Mas a Ampulheta lhe roubava a força e Moredhra já não era tão jovem. Suas asas, em pleno ar, começaram a perder a sustentação. Depois, por mais que se esforçasse, não conseguia manter-se flutuando. Olhou para o platô e viu César, um joelho no chão, a mão direita na cabeça, a esquerda estirada para ele. E finalmente caiu como uma pedra rumo ao solo. Um baque surdo ecoou pelos vales e montanhas, e o grito de agonia da criatura se calou silvando entre as pedras. Aos poucos se achegaram a paz e o silêncio, enquanto César baixava os braços e caía sentado e ofegante na terra queimada e remexida. Márcia correu para ele e Edula, que tentava ajudar Faiald a erguer-se, o encarava com uma expressão intrigada. – Sei que a Ampulheta é perigosa e que tem muito poder – disse – mas mesmo ela não poderia fazer aquele lagarto crescido cair tão depressa. O mago a encarou e sorriu fracamente. – Às vezes me pergunto como é que você passou nas provas do vestibular. Ninguém no mundo pode voar quando não tem a sustentação do ar sob suas asas. Tudo o que fiz foi criar um vácuo ao redor dele. Depois a gravidade fez o resto, numa razão de velocidade final, menos velocidade inicial, sobre tempo. Edula revirou os olhos e o mago sorriu de novo: – Ele caiu porque não tinha ar para circular em torno de suas asas. E como não era um mago, não sabia dobrar a Física a seu favor. – E você sabe, é claro – ironizou Cíntia batendo no seu manto para tirar a poeira. César sacudiu a cabeça de leve. – Só o que Clara deixar eu saber – observou e estremeceu olhando o corpo do dragão no fundo do vale.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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