O Jogo no Tabuleiro

- O Nemthru -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capitulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

A Casa de Lícora

 

 

 

4. 

Horas depois, Baldrício e Dimas os dois sobreviventes do ataque da Aldeia da Lagoa a Moredhra armaram um precário acampamento diante da caverna do dragão. Tiraram tudo o que havia dentro da gruta e deitaram os objetos ao sol, como em um ritual. Encontraram elmos e armaduras, espadas, arcos, lanças, armas de todos os tipos e tamanhos, correntes de ouro, joias, baús cheios de moedas e pedras preciosas. Moredhra, ao longo de sua fumegante vida, tinha empilhado tesouros suficientes para comprar um reino inteiro.

Deitado sobre seu manto sujo, o ruivo observava o ir e vir dos dois homens, enquanto Edula limpava a queimadura que o monstro deixara no peito do rapaz. De repente, ele ergueu o torso com um gemido, observando uma maleta de couro negro.

– O que é isso ? – indagou com a voz trêmula. Edula sacudiu-se num calafrio. Dentro da bolsa havia vários instrumentos médicos modernos.

– Isso? – murmurou Dimas. – Um presente que um viajante deixou para nosso mago quando passou pela Aldeia, como pagamento pelos animais e mantimentos de que necessitava para continuar sua viagem. Ele e um rapazote metido à poeta.

Faiald fechou os olhos e sorriu, controlando ferrenhamente as lágrimas que estavam prestes à rolar de seus olhos.

– Você sabe o nome desse homem? – indagou, a voz embargada.

– Não, não me lembro – Dimas coçou a cabeça pensativo.

– Sabe para onde foi?– a voz era só um sussurro.

– Para o Deserto de Doshapp – murmurou o homenzinho voltando a movimentar-se com admirável agilidade para alguém que possuía a barriga do tamanho da sua, redonda e cheia de cerveja.

– Era meu tio – suspirou Faiald, relaxando nos braços de Edula. – Ele conseguiu sobreviver no Tabuleiro, talvez sozinho. Quem sabe se não tem a chave que falta? Então poderemos chegar ao final... ao Portal das Eras... voltar para casa...

Seu rosto se retorceu numa careta cruel e ele virou-se para o colo da guerreira, soluçando. Edula ficou um instante imóvel, antes de acariciar-lhe os cabelos com carinho.

Depois de uma refeição frugal, Baldrício se dispôs a levar os viajantes até a Aldeia da Lagoa. Dimas, que estava menos ferido, ficaria com a tarefa de terminar de limpar a toca do dragão e transformá-la num abrigo para viajantes.

Mesmo mancando, Baldrício tinha pressa em chegar logo à Aldeia. Sabia que tinha uma história de primeira para contar: a de como havia ajudado a vencer Moredhra, o Porco que Voava. Isso ia lhe valer algumas rodadas de cerveja por um bom tempo e além do mais estava ansioso por rever sua família.

Começaram a descer as Rineve com o sol ainda no meio do céu. O silêncio agora era leve e uma aragem fresca lhes movia os cabelos. César caminhava apoiado num bordão negro com a ponta de prata que tinha pertencido ao mago da aldeia, vítima de sua própria ambição. Aparentemente, o homem lera em algum lugar que dragões possuem uma imensa gema preciosa no lugar do cérebro, o que o levara a arranjar alguns ajudantes para matar a fera e conquistar o fabuloso tesouro. O resultado foi que Moredhra, cuja ausência datava de mais de uma geração, acabou com o grupo e voltou-se para a aldeia com fogo e desejo de vingança. Desde então os corajosos da localidade tinham tentado matá-lo de uma vez por todas. O bordão que César usava era uma peça bonita e forte, feita para servir de apoio. O mago sentia-se muito cansado, mas, ao mesmo tempo, satisfeito. Vez por outra ria consigo mesmo ao lembrar a careta da criatura quando lhe lançara a foamite na garganta.

Os viajantes desciam a trilha árida com o coração leve, com exceção, talvez, de Eneias e Lúcia. O trovador recebera de um dos homens uma viola de forma estranha e de som mais estranho ainda, mas nem isso modificara seu estado de espírito. Sonhava com a cidade de onde tinha vindo. Ouvia o som das baterias e guitarras, o ronco dos aviões no céu, e sentia o gosto de cachorros-quentes, sorvetes de morango e chocolate adoçados artificialmente, o calor do capô do carro de seu irmão depois de uma tarde no sol como uma carícia na pele fria depois do banho de piscina. Não olhava para os lados, mas para o chão, para o solo crestado pelo fogo durante tanto tempo. Seu coração não tinha rumo e sua mente se perdia pouco a pouco no inexplicável pavor que o invadia quando fitava os horizontes do Tabuleiro. Não tinha mais a esperança de que a companhia dos amigos pudesse salvá-lo daquele horror e a presença constante de Márcia o angustiava. Depois do encontro com a alquimista, ela simplesmente o ignorava. Ainda se fosse apenas isso, poderia suportar. A verdade é que Márcia estava diferente, como se tudo e todos pudessem ser modificados pela grotesca magia daquele lugar. O mundo não era mais o mesmo, as pessoas não eram mais as mesmas e ele próprio tornava-se um desconhecido.

A tarde foi de nuvens brancas e céu azul. Embora a terra fosse árida e a trilha estivesse mal cuidada, o tagarelar constante de Baldrício conseguiu distraí-los. Ele falou do ataque que Moredhra empreendera semana após semana, matando, destruindo, queimando tudo o que estava a seu alcance em Sambara dos Pescadores, que assim se chamava a aldeia.

– Vocês terão comida, bebida e descanso à vontade – afirmava o homem, entusiasmado. – Diversão de todos os tipos. Não há lugar melhor no mundo para se descansar do que Sambara dos Pescadores, nem mesmo os reinos dos Silfos, à nordeste, perto do mar.

Edula olhou para o vale ansiando pelo cumprimento da promessa – comida e bebida de verdade – depois de tantos dias de frio e medo nas montanhas.

– Seria ótimo – disse Faiald, que caminhava lentamente, pálido de dor. Mesmo os bálsamos que lhe aplicara Dimas não conseguiam arrefecer de todo a ardência da ferida. Veio à sua mente uma fugaz lembrança rubra: um fio de sangue de Cecília escorrendo na ponta de sua adaga. Estremeceu.

– Contudo, temos pressa. Quero chegar o quanto antes ao Labirinto de Cristal em Doshapp. Ao invés de pedir-lhes descanso e calor humano, pediremos montarias e mantimentos para a viagem.

– Pensei que íamos ficar por aqui por algum tempo – disse Cíntia contrariada.

– Certo – disse o ruivo num ofego. – Mas isso foi antes de sabermos que meu tio passou por Sambara. Agora existe a possibilidade dele poder entregar o Búzio no lugar de Cida. Afinal de contas, quatro entre nós ainda não entraram numa casa do Destino: Edula, César, Cezna e eu. Precisamos encontrar Daniel. Talvez algum de nós ainda possa resolver a questão da Chave de Cecília.

– Acho que você não está levando as regras à sério – murmurou Bulbo saltitando de pedra em pedra, ao lado do caminho. – Só há um Búzio em jogo e sua portadora não está aqui. Então a partida está perdida.

– Se a partida estivesse perdida, o Búzio teria desaparecido. Ele está aqui, com a gente. Então deve haver outra pessoa que possa entregá-lo! – replicou o ruivo, irritado.

– Acho que vocês deveriam conversar sobre isso depois de estarem descansados – opinou Baldrício, que ouvira a discussão calado, sem compreendê-la. – Estão que é só osso e pele! Admira-me que ainda andem!

Márcia sorriu.

– Ele tem toda razão do mundo – concluiu com um aceno, encerrando o assunto.

Sambara dos Pescadores era realmente muito agradável. Ficava a meio dia de caminhada do sopé das montanhas, de modo que eles dormiram ainda aquela noite ao relento. Devido à sua localização, alguns quilômetros à sudoeste do caminho original, a caminhada até a aldeia obrigou-os a fazer um pequeno desvio, afastando-os do centro da planície, muito mais pantanosa do que tinham pensado à princípio.

Sambara era uma aldeia lacustre de bom tamanho e melhor infraestrutura. Erguia-se sobre as águas do lago que se nutria dos inúmeros rios e riachos que nasciam dos degelos da neve das montanhas e dos pântanos altos, cheio de flores coloridas e cheirosas. O lago, Espelho Florido, era imenso. Limitava-se com as Rineve à leste, norte e oeste. Ao sul se diluía em juncais, de onde vinha o vime com o qual os habitantes da aldeia construíam a maioria de seus móveis e divisórias internas.

De proporções bastante respeitáveis apesar do título de “aldeia’, Sambara estava assentada sobre velhas arcadas de pedra, de onde pendiam musgos floridos. Ocupava pouco menos da metade do lago. Suas casas eram quase todas de madeira e vime, térreas, com raríssimas construções de dois andares. Havia jardins magníficos em canteiros artificiais cuja terra era renovada todos os anos numa grande festa que, infelizmente, segundo Baldrício, já havia passado. Nessa ocasião as mulheres teciam finos panos e os ornamentavam com as flores colhidas dias antes, untavam os corpos morenos com perfumes especiais, e dançavam a noite inteira ao luar, atirando-se nas águas escuras do Espelho quando amanhecia. As crianças promoviam guerras de lodo – ainda que o fizessem durante o ano inteiro, naquela ocasião eram "oficiais". Não estava permitido trabalhar, pois os dias dos Cio da Terra eram dias de canções, de poesia, e de amar.

Foi com admiração que os viajantes pisaram no chão ladrilhado das ruas. Seus passos ecoaram ao sabor da brisa, atraindo crianças e curiosos que ouviram de imediato a síntese do que seria o relato de Baldrício, a história que seria aumentada com fatos reais e alguns fictícios mais tarde, diante de uma caneca de cerveja e ao lado da fogueira. As comemorações começaram ali mesmo, nas ruas. Edula, Faiald e César foram aclamados pelos aldeões e de algum lugar surgiu uma carroça puxada pela versão pantaneira das cabras-de-sol. Os viajantes subiram nela, foram levados à estalagem.

Como as demais construções, a estalagem não possuía segundo andar. Era um edifício baixo e comprido, situada longe dos limites da água, rodeada de grandes vasos. Algumas árvores lançavam sombra sobre seu telhado de palha e, ao entrar, os viajantes descobriram um interior despojado, o chão e as paredes revestidos com esteiras de vime. Nos quartos, as camas eram enormes e os colchões macios estavam recobertos de mantas coloridas, mas não havia estrados. Largas portas de correr, também confeccionadas em vime e recapadas com finas placas de madeira cheirosa, separavam os aposentos. Dentro dos quartos, biombos de papel pintado ou finos panos bordados escondiam a entrada dos banheiros. Havia mais vasos com flores e jardineiras, nas janelas e nos cantos abrigando, sem exceção à regra, folhagens bem cuidadas e viçosas.

Não havia muitos adornos nas paredes. Em geral, apenas os biombos serviam de decoração, embora no quarto que foi destinado à Edula houvesse um tapete azul preso ao teto, e no quarto de Cíntia, a um canto, uma lança repousasse com a ponta profundamente enterrada no chão. A loura nem tentou movê-la. Nos banheiros, encontraram uma banheira com água quente, bacias com jarros de porcelana, e espelhos de corpo inteiro emoldurados com ébano esculpido. Só então puderam ver o que o caminho tinha feito deles, emagrecendo-os, tirando-lhes o viço dos cabelos, e concedendo-lhes olheiras de exaustão. Entretanto, para alguns, os olhos tinham ganhado mais brilho e cor, e em todos o sol e o vento frio haviam bronzeado suas peles. Cíntia se achou perfeita, com vários quilos a menos pela primeira vez em anos, e Márcia descobriu o quanto crescera. Edula, com os lábios recolhidos, ficou diante do espelho pensativamente. Cezna, que pela primeira vez se via por inteiro, com as asas, refletiu um momento antes de sorrir mansinho com inesperada e grata surpresa. César, muito magro e alquebrado, aplicou uma técnica que descobrira no fundo das memórias de magia que tinham sido injetadas em sua mente ao chegar no Tabuleiro e viu além da matéria enfraquecida: sua força aumentava dia após dia, revelando-se numa sombra informe que se erguia por detrás da imagem refletida.

Eneias cobriu o vidro com uma grande toalha. Não olhou seu reflexo. Tinha medo de descobrir alguma coisa insana espiando-o lá do fundo. Lúcia ficou meia hora diante do objeto, mas não se deteve em seu próprio reflexo. Ou não o viu. Ou, se viu, não conseguiu se reconhecer.

Faiald não se deteve em sua imagem, a não ser nas feridas de seu peito. A marca da pata de Moredhra não tinha uma aparência muito boa, mas se tudo corresse bem, em breve só haveria algumas cicatrizes. Despiu-se e mergulhou na banheira com um suspiro de dor que logo se transformou em alívio.

Bulbo entrou logo depois, sem bater. Sentou-se num banquinho, perto do vaso de flores, sem preocupar-se com superfícies vítreas: um bom gnomo não pode se ver refletido.

– É um belo lugar, não? – indagou empinando o grande nariz no ar. – Imagine, eu, Bulbo, um gnomo da família dos Amigos das Pedras, com um quarto só para mim, em uma estalagem de luxo!

Faiald riu gostosamente.

– Bulbo Nariz de Tulipa, dizendo isso? No palácio do Olmo Azul você tinha um andar quase inteiro só para você!

– Ah, isso foi nos velhos tempos. Quando eu ainda era considerado da família, você sabe – divagou o homenzinho movendo as orelhas pontudas. – Puxa, o vinho do velho conde Zarzanelo...

– As fofocas da comadre Flor de Robínia... – volveu Faiald divertido.

– Icc! – fez o pequenino com uma careta cômica. – Não me lembre daquela peste! Por causa dela Meliloto e Tamarino por pouco não desmancharam o casamento há apenas dois dias da festa! Ela é um desastre ambulante!

Faiald sorriu e deixou que o silêncio se alongasse. Era quase como estar em casa, novamente, ele pensou. A floresta, as festas dos gnomos, as fadas, ficar deitado nas cascatas, deixando que a água simplesmente passasse por ele, tingindo-o com o verde vivo da floresta ao seu redor...

Súbito, lembrou-se que a Floresta dos Espinheiros estava muito longe, há pelo menos vinte dias de marcha. "Quanto será isso no mundo normal?" perguntou-se. Podia contar duzentos quilômetros? Gemeu de cansaço.

– O que houve? – indagou Bulbo que o observava atentamente.

– Nada – resmungou o ruivo. – Só que às vezes penso que meus ossos nunca mais vão parar de doer.

Ficaram em silêncio de novo.

– Ainda está zangado comigo, Bulbo?

O gnomo, voltou-se para a janela do quarto principal por alguns instantes.

– Não sei se quero falar sobre Drida, agora – murmurou.

– Não sei se haverá melhor momento para falarmos sobre Drida, só nós dois – tornou o rapaz. – Pensei que você fosse abandonar o grupo.

– E deveria, não deveria? – redarguiu o pequeno, com mágoa na voz. – Você agiu muito mal. Não foi isso que lhe ensinamos, Faiald. Dever e honra, isso foi o que tentamos plantar em seu coração. Mas, depois de tudo, era tarde demais para mim.

O rapaz torceu o nariz, repentinamente aborrecido por ter tocado no assunto.

– Você não respondeu à minha pergunta – observou.

– Talvez eu não devesse respondê-la – disse Bulbo voltando-se para ele e permanecendo em silêncio alguns instantes. – Você sabe o que fazemos com os traidores. Não há perdão. Há o exílio ou a morte. Eu gostaria de poder voltar ao Salão do Olmo Azul, mas escolhi o Jogo e os jogadores. Eu escolhi você. Traí minha gente por você. Não espero ver meu pai outra vez, a menos que seja para morrer. Então, eu gostaria que você tentasse me provar que fiz a escolha certa.

O ruivo olhou para as mãos e reviu, mesmo sem querer, o corpo de Tharia despencando para o vazio. Bateu na água com violência e praguejou baixinho, apertando os lábios. Seria possível que o tivesse vencido em uma luta digna? Ou, se tivesse poupado a vida do homem, poderia, de igual maneira, voltar a confiar nele?

Torceu o nariz para si mesmo: o que está feito não pode ser mudado, pensou. Além do mais, Tharia era só um pedaço de ilusão. Uma criação da Mestra do Jogo. Não era real. Não era verdadeiro.

Fitou a água com vergonha e tristeza, sentindo que pouco importava o que seu cérebro dissesse a esse respeito: seu coração jamais se enganaria. Ainda que Tharia fosse um produto da imaginação de sua irmã, salvara-lhe a vida mais de uma vez. Ter tal dívida perdoada era ainda pior do que ser castigado. Além do mais, confiava em Bulbo, não era assim?

Nemthru, murmurou para si mesmo, lembrando-se que fora assim que se identificara a Moredhra. O Traidor da Culpa Esquecida.

Como observara Bulbo, sempre um traidor.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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