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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capítulo 5
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5. Os viajantes passaram a tarde descansando – o sono veio rápido e fácil para eles, quando sentiram a maciez dos colchões e o suave calor que entrava pelas janelas. Xernur, o estalajadeiro, manteve afastados os curiosos e providenciou um médico para Faiald, a fim de tratar devidamente de seus ferimentos. Ao entardecer, um alarido confuso cresceu nas ruas. Dimas, que ficara limpando a gruta do dragão, estava de volta e trazia consigo várias armas e objetos. A festa que se seguiu foi preparada em um piscar de olhos, tanto para comemorar os viajantes, quanto para festejar a morte do monstro. Mal a noite caiu e uma das praças ao norte da cidade se encheu de tochas e fogueiras, de gente cantando e do cheiro das flores, bebidas e comida. Todo mundo colaborou e as crianças, em sua maioria, ocuparam-se de espalhar a história que Baldrício e Dimas haviam lhes contado sobre a morte de Moredhra Assim, embora ainda se sentissem extenuados, os viajantes se viram obrigados a assistir à festa, já que parte dela era em sua homenagem. Não que a ideia fosse desagradável. Na verdade, e com exceção de Lúcia, ao ver todo aquele movimento, o grupo sentiu-se mais inclinado a descobrir o que acontecia, do que a ficar em seus aposentos. Logo que conseguiram alguém para guiá-los até os festejos, puseram-se a caminho. Atravessaram as ruas rodeados de curiosos, de gente que ria e gritava, despreocupados. A praça estendeu-se diante deles com inesperado espaço, abarrotada de gente, luzes e som. Assim que os viajantes chegaram, a massa abriu-se e um homem forte e alegre apresentou-se. Demorou para que reconhecessem Baldrício debaixo das roupas ricas que usava, um grande broche sobre o ombro esquerdo e uma estranha maquiagem verde no rosto. – Bem-vindos, Matadores do Dragão – saudou ele. O silêncio espalhou-se entre os sambarinos e todos se voltaram para os jovens que, constrangidos, aconchegaram-se uns aos outros. – Gostaríamos de proporcionar momentos de alegria e ventura e o descanso que merecem. Agora podemos ficar em paz, rir e nos alegrar, e acender nossas luzes pela noite. Moredhra está morto! – Viva! – gritaram todos. Súbito elevou-se um coro de vozes infantis que vinha abrindo caminho entre a massa de adultos. Cada uma delas trazia uma coroa de flores na cabeça, embora algumas já estivessem caindo e desmanchando-se. Vários dos maiorzinhos traziam velas nas mãos, outras sinos, com os quais se acompanhavam singelamente, espalhando o som da prata por todos os lugares. Os menorzinhos, seis deles, bronzeados, nus, traziam odres de água perfumada que iam espargindo diante do grupo, oferecendo flores para as moças que estavam na multidão e molhando as mãos estendidas dos rapazes. – Dentro em pouco – disse Baldrício aproximando-se do grupo – haverá uma representação dos acontecimentos que se passaram diante do Buraco do Dragão. Até lá, vamos comer, beber e nos alegrar. Alhueil! Alhueil! respondeu o povo alegremente. O grupo de crianças continuou pelas ruas, desaparecendo entre as casas, enquanto o som de suas campainhas e vozes ainda ecoava nas esquinas. Outros focos de música apareceram aqui e acolá, e, perto dos viajantes surgiram bailarinos rodopiando velozmente, rindo à valer. Pouco a pouco, os jogadores entraram na festa. Faiald arranjou fumo para seu cachimbo e acomodou-se satisfeito em um banco confortável, apreciando o baile. Edula, Cíntia e Márcia também observavam, marcando o compasso selvagem com os pés, sorvendo um líquido picante e doce, rosado, que lhes serviram em copos de vidro grosso. Apenas a guerreira, com um turbante novo envolvendo a cabeça e parte do rosto, nada bebia. Mas quando um dos bailarinos a puxou de leve para dentro do bulício, não se fez de rogada. Em seu canto, o ruivo a apreciava com indisfarçável admiração no olhar. O verde-cinza da roupa da moça, enfeitado com gregas vermelho sangue, rodopiava e saltitava a sua frente, aquecido por seus grandes olhos azuis. Seus braços eram longos, suas pernas delineadas transpareciam debaixo dos cortes da saia, visões fugazes de agilidade e beleza. Faiald deixou os olhos morando naquele corpo, desejando-a mais do que a qualquer fada que conhecera, ou a qualquer viajante com quem compartilhara a estrada. Mesmo aquela a quem entregara seus carinhos nos jardins do Palácios de Kavaal, há muito éons, mesmo essa criatura doce e não obstante tão amarga, sequer se comparava com a beleza que seus olhos viam em Edula, ou com a desejo que seu corpo inteiro sentia poder despertar nela. Aquele momento tão breve valeu uma vida inteira. Eneias sentia-se deslocado, como com tudo o que se relacionava com o Tabuleiro. Lembrou-se da viola que haviam lhe dado junto à toca de Moredhra, e arrependeu-se de tê-la deixado no quarto. Mas não ficou sozinho e logo descobriu liras agrupadas num canto, cantando quando eram tocadas pelos músicos. As liras eram animais, aves de caudas cheias de plumas finas. Quando as plumas eram tocadas pelos músicos as aves cantavam, tão suave que o observador não saberia dizer de onde vinha tão estranho e delicioso som. Mas, depois, maravilhado, teria sempre a lembrança daquele milagre musical. O Trovador sentou-se ao pé dos músicos e ali ficou até que a madrugada o envolveu nos braços do sono. Muito se cantou naquela festa: feitos de coragem, proezas dos audazes que tinham tentado vencer o dragão antes dos viajantes chegarem. Depois abriu-se um amplo círculo sobre o chão amarelado e as crianças entraram na roda para representar o fim do réptil. Cinco delas vinham sob uma colcha vermelho-dourada de riquíssima confecção. Edula foi representada por uma menina de olhar risonho e César por um garoto alto e magro. Faiald, era um rapazote com penas de lira amarradas à franja para imitar-lhe o topete. A representação foi curta e divertida com os pequenos imitando gesto e dizeres. Para representar a foamite, jogaram sobre a colcha um balde de penas brancas, cortadas em picadinhos, mas as plumas eram muito leves e flutuaram ao redor do "dragão" em vez de bombardearam-no. Nem por isso o "bicho" remexeu-se pouco e tossiu menos! Finalmente, as crianças que representavam os outros viajantes e os dois homens que restavam, abriram caminho entre a multidão e alguns de seus companheiros, de gatinhas, representaram as pedras. "Moredhra", sem abismo para onde fugir, foi enterrado por seus amigos e terminou estrebuchando loucamente sob o riso e o aplauso de todos. Edula sentou-se ao lado de Faiald, sorrindo. Depois do teatro, as crianças ganharam copos de suco de frutas e tigelas de doces, com os quais desapareceram com rapidez. Os adultos voltavam a circular, as melodias principiavam a ganhar espaço de novo. Havia tanta paz ali, pensou ela e, de súbito, lembrou-se de alguma coisa. Chamou Dimas, que estava por perto e perguntou-lhe: – Vocês não eram vinte? Não foram vinte de vocês que subiram a montanha? Não foram só dois os que voltaram? Dimas fitou-a por um momento, e ao ruivo, que também o olhava com um ar de interrogação. – Sim – disse afinal, baixando a cabeça. – Só dois de nós voltaram quando pensávamos que talvez nenhum voltasse. Quando eu atravessei a ponte rumo as montanhas, pensei que era a última vez que estava fazendo tal coisa. Entretanto, cá estou e apesar de amar os companheiros que se foram, agora é hora de comemorar a vida. "Moredhra destruiu a parte sul de nossa cidade. Sabem como queimam as nossas casas? Ardem como uma tocha. Muita gente morreu. Muitos mais do que os dezoito que não voltaram. Mas agora isso não vai mais acontecer e é isso que estamos comemorando. Amanhã, quando o sol surgir, aí vamos chorar nossos amigos. Até lá, entretanto, há muito que comemorar. Sobretudo porque a morte deles não foi em vão." Edula ficou olhando para o homem com o copo de cerveja na mão por algum tempo até que baixou o rosto, murmurando: – Compreendo. Sim, agora compreendo. – Compreende, o quê ? – indagou Faiald gentilmente. – Cida. Agora compreendo que a... partida dela... não foi em vão. – Edula ergueu os olhos para as Rineve. Duas das As-Ein, a menor e a de tamanho médio, flutuavam juntas sobre eles, duas foices minguantes. – Agora compreendo. Vou parar de achar que foi uma estúpida idiota. Estava ferida e já nos tinha dado uma saída. Quem sabe se teria sobrevivido até aqui? E se não fosse seu amor por ela, Tharia no teria atacado como qualquer um dos reis. Ela pagou sua dívida. Nossa dívida. – Não deve pensar nisso como uma dívida – disse Faiald. Tirou um botão de flor amarelo de uma bacia cheia de flores e o prendeu no turbante dela. A guerreira nada disse. Aconchegou-se nos braços dele e intimamente sentiu-se grata por estar viva. De algum lugar surgiu uma música suave que ergueu-se acima deles e perdeu-se no céu estrelado. De madrugada, antes do nascer do sol, os viajantes foram levados, cambaleando de sono, aos seus quartos. Os pequenos, Cezna e Bulbo, foram acomodados em cestas. Faiald e Edula, cochilando um nos braços do outro, sorriram quando Baldrício os veio chamar e ela não protestou quando o ruivo entrou em seu quarto na estalagem. Eneias, que ainda ouvia a música das liras, espreguiçou-se, bocejou longamente, abanou para Márcia e andou ao lado do homem que lhe servia de guia, assoviando calmamente. A irmã do mago chorou com amargura antes de dormir. Depois que eles saíram de cena, rapidamente a praça foi limpa e ao amanhecer, depois de alguns minutos de silêncio ouviu-se um canto fúnebre. A canção era suave e dolorida e nas casas dos amigos e parentes dos mortos se acenderam velas e se queimaram ervas cheirosas. A música triste penetrou no sono do homem-pássaro, deitado na cesta sobre a cama de seu quarto e depois levou para longe de sua consciência. Ou o caso foi que sua consciência, apaziguada por aquele choro cantado, navegou para longe de canção. Ele sonhou que estava voando sobre as brancas cordilheiras, com o frio a picar-lhe o corpo inteiro. Havia paz em sua alma, paz e satisfação com a liberdade que sentia, a despeito do desconforto da temperatura. Quase sorria. A neve debaixo dele brilhava tanto quanto as duas luas, penduradas como pingentes fluorescentes no céu. Viu então a cidadela e agitou-se com um gemido. Sabia que era Drida, ainda que não se parecesse à cidade real. Seu coração se apertou dentro do peito cruelmente. Não queria ir até lá, mas suas asas haviam adquirido vontade própria, como as vezes ocorre nos sonhos, e o levaram contra seu comando. Ele flutuou sobre uma sacada ricamente esculpida e seus pés afundaram na neve sobre ela. Mas depois a neve desapareceu e estava no braço de Cida outra vez, branca e diáfana como o luar. Atrás dela alguém aguardava paciente junto à porta, a brisa balançando a capa que o envolvia, criando formas de poema noturno. Cezna agitou-se, sacudiu a cabeça e tremeu de frio, tristeza e culpa. – Você está viva? – perguntou e logo repreendeu-se: – Bolas, isso é só um sonho. Cida riu, e pareceu o som de gotas d'água sobre rochas finas de calcário em cavernas ecoantes. – Nem eu estou viva, nem você está apenas sonhando – disse ela. – Como pode rir? – indagou ele apressado, sentindo que era hora de voltar outra vez para casa. – Como pode ser feliz assim? Você morreu! – Cada um dos que perecem em Drida, recebem por túmulo um dos pilares do terceiro andar – ela disse suavemente. – Aqueles pilares são infinitos, meu amigo, e muito mais velhos que a cidade. Porém como Tharia não teve seu sangue derramado pelos guerreiros da cidadela, ele é senhor de seus passos quando a primeira das As-Ein nasce. Então ele me busca em minha coluna e por causa de nosso amor e por sua presença, fico livre da minha prisão até que a última das luas desaparece. E assim aprendemos a amar o luar, como alhures se ama o sol, e os montes brancos, como os prados verdes. E como não somos mais de carne não temos frio, nem fome, e podemos dançar entre os flocos de neve e flutuar sobre os abismos, embora prefiramos o aconchego da biblioteca e a cúpula dourada, que à noite é toda de prata. Somos felizes a nossa maneira, que os vivos não podem compreender, e somos livres enquanto brilham as luas. Guardamos o silêncio do dia que antecede aquele da ausência da Terceira Lua, quando todos os mortos de Drida podem descansar. Aguardamos. "Aguardamos o último dos dias, quando a batalha entre os reis mortos será real, e quando aqueles que nela perecerem conhecerão o descanso e aqueles que dela resultarem vencedores serão cobertos de glória, ainda que por pouco tempo. Mas eu e Tharia, estaremos juntos e saltaremos no Poço do Universo, pois é sabido que nesse dia, aqueles que tiverem coragem de fazê-lo, poderão ir onde desejarem e viver como quiserem." Cezna sentiu-se empurrado para o abismo por um vento gelado que lhe cortava a carne. – Pare de chorar por mim – disse a figura branca enquanto ele caía pesadamente. – Suas lágrimas me doem como punhaladas, Cezna. – Você me perdoou? – gritou ele, mas então estava em seu quarto e o sol entrava pela janela. Lá fora a manhã silenciosa ainda se encontrava sob os efeitos da festa e dos cantos fúnebres. O rapaz sentou-se e olhou para a janela. Além das casas, erguendo-se como dentes arreganhados, as Rineve, azul-escuras pela penumbra do sol, alinhavadas por nuvens, completavam o cenário. Cezna sentiu os olhos enxerem-se de lágrimas, mas não soube porquê e só lembrou-se de poucas partes do sonho. – Ah, Cida, que falta você me faz – soluçou. *** Apesar da pressa que movia Faiald, os viajantes ficaram ainda quatro dias em Sambara dos Pescadores porque a queimadura no peito do ruivo ameaçou infeccionar e ele caiu de cama com febre. No segundo dia, ao entardecer, depois que as ervas e unguentos do médico de Sambara conseguiram estancar a alta temperatura e vencer o processo infeccioso, o grupo se reuniu no quarto de Edula para discutir a jornada. A guerreira colocou o Búzio no centro da roda, para que ninguém esquecesse do que se tratava. Depois, para indignação de todos, foi sentar-se ao lado do Irmão da Terra, que repousava na cama meio imerso nas almofadas. – E então, o que vamos fazer? – indagou este, suspirando. – Podemos ir em frente, levando o Búzio, na esperança de que algum de nós possa introduzi-lo no Portal. Olhou para o objeto, pensativo por um instante, antes de acrescentar com a voz rouca: – Ele era a minha chave, na primeira partida, então, talvez, eu o possa fazer outra vez, quando chegarmos lá. Também temos a chance de encontrar meu tio pelo caminho e, quem sabe, talvez esse seja o seu papel nesta partida. Ou, então, eu volto para a Floresta dos Espinheiros e espero outros viajantes enquanto vocês me aguardam aqui. São três opções, e isso é muito mais do que estou acostumado a ter. – Mas, afinal, qual é o problema? Parece que estamos sempre repetindo as coisas!– replicou Eneias. – Temos o Búzio, não temos? – Isso não basta – cortou Bulbo, sacudindo a cabeça. – Supõe-se que quem deve entregar a Chave é o mesmo jogador que a resgatou da Casa do Destino. Essas são as regras. Nunca ouvimos falar de um mesmo jogador que tenha empunhado duas vezes, a mesma chave. – Mas, também, até onde sabemos, nenhum outro grupo chegou duas vezes ao final do jogo para que isso pudesse acontecer, não é? – intrometeu-se Márcia. Bulbo aquieceu: – É verdade. O trovador franziu o cenho. – Maldita Cecília – rosnou. – Como é ? – provocou Cezna erguendo-se irritado. – Não estamos aqui para discutir as ações de Cecília – interrompeu Faiald, imediatamente. – Isso pode ficar para outro dia. – Você nos disse que da outra vez que jogou, perdeu – raciocinou César. – O que aconteceu com as Chaves dos que... morreram durante a viagem? O ruivo sacudiu a cabeça: – Perdemos junto ao Portal – resmungou ele. – Nenhum componente do meu grupo morreu durante a travessia. Em todos o caso, à medida em que íamos depondo as armas, as chaves desapareciam. A regra parece ser a mesma para os jogadores que morrem. – Como podem ter perdido junto ao Portal?! – lamentou Cíntia. – Houve uma batalha... – começou Faiald cauteloso. – Nos rendemos. – Isso quer dizer que se o Búzio ainda não desapareceu é porque, de alguma maneira, Cida voltará no final! – exclamou Cezna com uma expressão radiante. – Ou que algum de nós será capaz de assumir o lugar dela diante de Clara – corrigiu César. – Procure não tirar conclusões extravagantes, Cezna. – Tolice – resmungou o homem-pássaro amuado. – Isso é uma excelente tolice. Tudo não passa de um jogo! César o fitou com irritada paciência e Edula disse pausadamente: – Têm razão, isso é apenas um jogo. As regras precisam ser respeitadas. Então se, de fato, nenhum de nós tivesse o dom de entregar o Búzio no final, ele já teria desaparecido. Mas quem será? Os outros se entreolharam e piscaram. – Então, seguimos a diante? – continuou ela. – Ou, então, fazemos o que Faiald sugeriu quando encontramos Baldrício: vocês ficam aqui em Sambara e eu e ele voltamos ao início da estrada, para esperar novos jogadores. – Por que não fica aqui com a gente, Edula? – provocou César, cínico. A guerreira sacudiu a cabeça. – Negativo. O caminho é muito perigoso. Se Faiald optar por voltar, eu volto com ele. – Faiald viveu sozinho aqui durante mais tempo do que você duraria na cama dele, no Tabuleiro ou fora dele, Edula. Ele sabe se virar. Todos os olhos se voltaram surpresos para Márcia, que levantara o rosto e encarava os dois namorados, tranquila. – Agora, ouça aqui, sua pirralha... – começou a guerreira, erguendo-se com os punhos fechados. César também levantou-se e Faiald estendeu puxou a moça para trás. – Está bem, chega – resmungou Cíntia. Voltou-se para a irmã do mago aborrecida. – Todos nós sabemos, Márcia, que você está doida de raiva porque o nosso Eneias aqui é um galinha, e morta de inveja, porque Edula e Faiald andam bancando o Romeu e Julieta, quando você achava que isso ia acontecer com você e o trovador! Só não desconte em nós! Ninguém aqui está satisfeito com esse situação. Se alguma coisa acontecer a Faiald ou a mais algum de nós, todos ficaremos presos nesta casa de doidos e isso é a última coisa que eu quero que aconteça. A cama de Edula não está em discussão! César encarou a marcadora por um instante, depois soltou uma gargalhada estridente. – Desta vez eu vou concordar com você, Cíntia! Olhou para os amigos, tirou os óculos e os limpou na manga. Depois continuou, interrompendo os protestos resmungados de Eneias. – Na verdade, acho que se Faiald optar por voltar, todos nós o deveríamos acompanhar. As Rineve não são uma travessia fácil e desta vez não teremos um guia. – Mas Faiald não precisa atravessar as Rineve para voltar para casa – argumentou Bulbo. O mago olhou para baixo, confuso e o ruivo encarou o gnomo friamente. O pequeno deu de ombros e continuou: – Se formos até o Enigma de Ebadha, poderemos chegar à qualquer lugar do Tabuleiro. – Como assim? – interessou-se Edula. – O Enigma de Ebadha fica no centro do Deserto de Doshapp, – explicou Bulbo. – Dentro dele há uma miniatura do Tabuleiro e se alguém tocar em algum lugar dela será instantaneamente enviado para aquele ponto do caminho. Então poderíamos ir até Ebadha, e voltar ao início através da miniatura. – O deserto não é exatamente um piquenique, Bulbo, e para conseguir fazer o mapa aflorar, é preciso entrar em uma Casa de Lícora e conquistar uma das chaves – resmungou Faiald mau-humorado. Olhou para os demais. – É a única Casa do Destino cuja localização é conhecida. Houve um instante de silêncio. – Então poderíamos continuar nosso caminho, ter a vantagem de talvez encontrar seu tio e depois voltar para o início e esperar a próxima equipe? – resumiu Eneias num murmúrio. Faiald dedicou-lhe um sorriso irônico. – Ora, sim! Podemos encontrar guerreiros elfos na passagem pelos limites da Floresta Ujier, ser tragados por alguma tempestade de areia, devorados por algum monstro imbecil de Doshapp, nos perder e morrer de sede e fome, mas tirando tudo isso, eu diria que poderíamos ter alguma vantagem, sim. Olhou para os demais. – Pelo menos vocês já conhecem as condições que a travessia das montanhas impõe – completou numa última tentativa. – Deus, então eu prefiro o deserto. Prefiro mil vezes o desconhecido, porque nada pode ser pior do que aquele pesadelo gelado – sussurrou Cíntia. Olhou para César em busca de ajuda e o mago sorriu de volta. – Eu também acho. Não quero ver os Bins de novo. Vamos para o deserto – declarou. Virou-se para Cezna, que, sentado na janela, fitava as montanha com a expressão quebrada pela dor e pela saudade. – Não quero ver Drida outra vez – sussurrou o homem-pássaro, quando viu que os amigos o encaravam. – Nem eu – suspirou Edula. – Então vamos em frente – disse Márcia. Eneias fungou. – Mas no deserto faz calor, não faz? – perguntou. – Viajaremos à noite e descansaremos durante o dia – opinou Bulbo dando de ombros. – Isso põe fim à questão – decidiu Edula com um suspiro. – Partimos em breve? – Eu ainda preciso de cuidados médicos – disse o Damin sorrindo. – Quero sair daqui o mais depressa possível – afirmou Márcia levantando-se enojada. – Você nos pôs nessa, então veja se consegue curar logo essas queimaduras. – É, e foi ele quem tocou a campainha, na casa de Clara – ironizou Edula. As duas se encararam por um longo instante e César aproveitou para interferir, passando o braço no ombro da irmã e a puxando na direção da porta. – Partiremos quando Faiald puder seguir viagem – concluiu ele. – E a alquimista? – perguntou Cíntia. – A levamos conosco ou a deixamos aqui? – E se for ela quem tiver de empunhar o Búzio, no final? – argumentou Bulbo. – Não podemos correr esse risco. – É o fim da picada! – explodiu Eneias. – Não vou servir de babá para aquela imbecil! – "Aquela imbecil" nos salvou dos Bins – lembrou Edula. – E passou por maus bocados. Não temos o direito de deixá-la para trás. Para falar francamente, pelo que ela nos disse lá nas montanhas, você menos do que ninguém tem o direito de deixá-la para trás. Mas se ninguém cuidar dela, eu me ocupo disso. Eneias fechou a cara e olhou para a janela.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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