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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capítulo 7
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7. Faiald e César avançavam o mais rápido que podiam na direção dos gritos de Eneias, temendo perder o rumo. Logo que partiram na perseguição do amigo, mergulharam até a cintura na água que rodeava a ilhota do acampamento. Mais adiante, contudo, o solo emergia numa pequena elevação verde e úmida que os levou até um platô raso que havia passado desapercebida no dia anterior. Do outro lado dele, começava uma série de baixios onde cresciam arbustos nus, com galhos desfolhados saindo como dedos monstruosos do meio da bruma. Os gritos de Eneias pareciam vir da direita, mas quando rumaram naquela direção, acabaram mergulhando num canal fundo e lodoso, do qual se safaram a muito custo. – Ele não pode ter vindo por aqui – ofegou Faiald, sentando-se na grama e ajudando César a sair da lama. – Não veio. Eneias é um péssimo nadador – concluiu o mago, tossindo. Não perdera os óculos por pouco e os pôs aliviado sobre o nariz. A lente esquerda estava toda arranhada, ele tinha a impressão de ver através de uma névoa fixa naquela direção. – Então vamos para o outro lado. Os dois voltaram a embrenhar-se no lodo, avançando na direção oposta àquela que tinham vindo, percorrendo de volta uma boa parte do caminho e virando um pouco para a esquerda. Daquele lado, os arbustos eram mais cerrados do que do outro, amontoando-se em verdadeiras florestas de galhos finos. Os gritos agora eram mais distantes ou, talvez, apenas mais fracos, era impossível determiná-lo. Entretanto, o caminho que Eneias fizera ao entrar, quebrando ramos e arrancando plantas do solo molhado era bastante visível. Os dois rapazes seguiram a trilha naquela direção, e afinal tiveram seus esforços premiados quando encontraram o Trovador semiconsciente, balbuciando palavras desconexas, caído contra um arbusto maior. Ali a vegetação era mais bruta, os galhos mais grossos e compridos e o próprio lodo do fundo, diferente. Adivinhavam-se movimentos de ondas, embora a neblina não deixasse ver o que os provocava. – Vamos, vamos, este lugar me dá arrepios – suplicou César, pegando o amigo por um braço. Faiald concordou, olhando preocupado para um galho grosso que boiava junto à um tronco. Súbito, o ramo deu uma volta e deslizou para dentro d'água. – Não era um galho – sussurrou o ruivo, ajudando o mago. – O quê ? – indagou César, confuso. – Uma coisa que pensei que vi. – Se você viu, pode ter certeza de que era algo – replicou ele. – Firme, aí? – Firme. Agora é só achar o acampamento. – Isso pode ser um pouco difícil – César comentou, observando preocupado o rosto pálido e sujo do trovador. – Tem alguma ideia? – A mais simples: grite! Os dois puseram-se a gritar, mas tudo o que ouviram de volta foi um assustado bater de asas, bem próximo deles. Um silvo esquisito saiu da água a seus pés e Faiald estremeceu. – Não podemos estar tão longe – admirou-se César. – Não andamos tanto! – Nessa névoa é difícil dizer o quanto andamos e, para falar a verdade, em qual direção. – Por que não voltamos até o ponto onde começa a trilha aberta por esse pateta? Eu não gostaria de continuar aqui parado, com a água chegando até a cintura.. – Certo – concordou o ruivo, que tampouco gostava da ideia de continuar onde estavam. O silvo da água se fora, mas a lama sob seus pés parecia cada vez mais mole. Era possível que houvesse poços de areia movediça naqueles ermos. Puseram-se a caminho, seguindo a trilha de Eneias, até que afloraram bem perto do acampamento, onde apareceram sem aviso, saindo da névoa. Márcia deu um grito e ficou parada por um instante, antes de correr para o irmão. Os dois rapazes puseram o Trovador no chão o mais delicadamente que puderam e Márcia ficou olhando para ele com fundas olheiras sob os olhos, um ar altivo no rosto. – Ele está... – Está vivo – garantiu o mago, examinando-o. – Está só desacordado, mas não faço a menor ideia do quanto essa história toda está afetando seu juízo. O juízo de todos nós, aliás – concluiu, olhando seus companheiros. – Será melhor que durma. – Bem, estamos quase prontos para partir – anunciou Edula, junto das bagagens. – Quem vai viajar na belbelita de Eneias ? Não podemos deixá-la para trás. Quando acordar, é capaz de querer ela de volta. César ajeitou os óculos. – Márcia, receio que terá de ser você – murmurou. – Não e não! Não posso! – gritou a menina dando-lhes as costas. César aproximou-se dela e fez com que o encarasse, os olhos tristes e quase tão perturbados quanto os de Eneias ou Lúcia. – Alguém tem de fazê-lo. Acho melhor deixar para trás essa estupidez... – Espere – pediu Faiald erguendo-se. – Podemos deixar os três no barco e passar toda a carga para a belbelita que sobrar. Eu a rebocarei. César olhou para a irmã com uma raiva súbita e sem sentido, odiando a fragilidade dela, e em seguida abraçou-a com um soluço, beijando-lhe os cachos negros com afeição. – Meu Deus, esse lugar está acabando com a gente! – gemeu. – Só temos quatro belbelitas – anunciou Cíntia, aproximando-se dos demais. – Fui olhar como estavam e descobri que uma delas fugiu com a ventania. Faiald chutou um tufo de grama, aborrecido. – Isso põe fim à discussão. Mas teremos de deixar algumas coisas por aqui, a começar pelos cobertores. Não precisamos de mais do que um par deles por pessoa para onde vamos. Os viajantes trocaram olhares de desagrado, mas ninguém protestou. Livraram-se rapidamente das coisas supérfluas e acomodaram o equipamento que restara nas borboletas gigantes que, assustadas e indóceis, corcoveavam tão logo punham a carga sobre seus lombos veludosos. Algumas horas depois, com a paciência por um fio, colocaram Eneias no barco junto com as duas meninas e se prepararam para partir. Desta vez, Faiald ia diante do grupo, com Cíntia na retaguarda. Antes de partirem de fato, o ruivo perguntou à Márcia, sem, contudo chegar muito perto dela com o inseto: – Não ouviram quando gritamos para saber em que direção estava o acampamento? – Não – ela respondeu com um gesto de surpresa. – Talvez não o tenham feito suficientemente alto. – Vocês nos chamaram? – surpreendeu-se Edula. Faiald a encarou, estupefato. – Eu gostaria de estar longe daqui – murmurou, umedecendo os lábios. Seu coração saltava dolorido no peito e as mãos estavam desagradavelmente secas. Súbito, um silvo perturbador, semelhante aquele que tinham ouvido no meio do pântano espalhou-se longínquo sobre a água, arrepiando o pelo das belbelitas. – Vamos embora – ele ordenou. – Sigam-me. – Espere – grunhiu Edula, imóvel. – Acho que ouvi alguma coisa... – Ouviu o sinal de cair fora. – Olhem! O que é aquilo? – gritou Márcia apontando para junto do gramado que tinham deixado. Os outros olharam naquela direção mas só viram o que devia ser um pedaço da cauda de alguma criatura que entrara sorrateira e silenciosa na água. Deixara atrás de si um vinco de gosma branca sobre a ilhota, onde as gotas de umidade condensavam num delicado mosaico. – Vamos.... – suplicou o ruivo interrompendo-se em seguida. O chapinhar mole da água impôs-se e de repente o líquido sob os pés de seu inseto deu lugar a uma coisa imensa, lamacenta e bulbosa. Cíntia gritou e fez sua montaria recuar, César ergueu a mão buscando uma magia qualquer e em seguida o chiado voltou com força desigual e a coisa explodiu como uma bolha, desfazendo-se em centenas de pequenos corpos que caíram sobre os viajantes e as borboletas, aderindo-se à sua pele, instaurando pânico generalizado entre eles. – O que é isso? – gritou Cíntia enojada, perdendo o controle de sua borboleta, que disparou, enlouquecida, dentro da água. – Não se dispersem! – berrou Faiald seguindo-a assustado com o ataque, mas ainda mais apavorado com a ideia de se perderem uns dos outros. Edula seguiu-o à custo e César também o fez, mas alguns metros adiante o mago e a guerreira viram-se sozinhos e tudo o que ouviam eram os gritos dos companheiros, cada vez mais distantes. Depois, só os piados lúgubres do pássaros e, finalmente, só o silêncio e o chapinhar infindável da água que envolvia toda a névoa. Os dois pararam numa ilhota alta e apearam para tentarem livrar-se dos pequenos vermes presos à pele. – O que é isso? – perguntou Edula, olhando para a mão onde havia três deles. Sentia-se nauseada. – Hum, diga-me Edula, você tem medo de sanguessugas? A guerreira arregalou os olhos, torceu o nariz, depois conseguiu sorrir. – Sei lá, nunca vi um antes... César sorriu aliviado: – Então olhe bem para a sua mão, porque esses bichos são sanguessugas, ou um parente próximo deles. – Suponho que você saiba de alguma maneira genial de livrar-nos deles – ela resmungou puxando um dos bichos pelo corpo gordo, tentando não ouvir o silêncio que os envolvia. O animalzinho explodiu em seus dedos e ela tratou logo de lavar a mão com uma careta. – Estou pensando – respondeu ele, sentando-se na grama úmida. – Pense logo, então! – comentou ela, enquanto fazia uma vistoria geral pelos braços e pernas, descobrindo que havia muitos mais vermes do que vira à primeira olhada. – Eu gostaria de saber como é que o pobre Faiald está se virando – murmurou o mago com um sorriso cínico, erguendo as mangas do manto e invocando as forças sob seu comando.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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