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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capítulo 8
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8. – Tire isso de miiiiim! – berrou Lúcia pela quarta ou quinta vez, dentro do ouvido de Márcia, enquanto Faiald forçava sua belbelita a acompanhar o ritmo do animal de Cíntia. Ele procurava não ouvir o berreiro do barquinho que arrastava atrás de si, e ignorava conscientemente seu próprio estado, coberto de vermes escuros que sugavam seu sangue e engordando à olhos vistos. Podia senti-los perfurando sua pele e aumentando de peso, o que o levou a perguntar-se se eles não se multiplicariam assim como os monstrinhos de um filme que vira há muito tempo na companhia da irmã. Sacudiu a cabeça, aborrecido, tentando enxergar mais além, mas era inútil. A cada momento, Cíntia se afastava mais, transformando-se num sombra borrada. – Pare essa coisa, nemthru! – gritou Márcia, também assustada, mas não tanto quanto sua companheira. – De que adianta encontrarmos Cíntia e não achar meu irmão ? O Damin virou-se e procurou o vulto que deveria estar logo atrás, mas não havia nada além da neblina e a claridade cinza-mortiça que se fechava atrás deles. – Direto para uma Casa Cinzenta – resmungou ele sem dar trégua à sua belbelita. Naquele momento, arrependeu-se de ter deixado a Floresta dos Espinheiros, por ter arrastado Bulbo consigo e de ter deixado os braços sedosos e seguros das ninfas de sua irmã. Não existiam apenas para agradar-lhe? Praguejou em voz baixa e então o vulto da borboleta de Cíntia cresceu e tomou cor, bem à sua frente. Estava parado junto a um gramado que se estendia além, dentro do nevoeiro, mas não havia sinal da moça em lugar nenhum. – Bulbo, veja se consegue manter a belbelita aqui – ordenou o ruivo, saltando para a terra com a arma em punho. – Eu vou com você! – gritou Márcia, erguendo-se. – Não senhora, eu preciso de alguém mais ou menos são para tomar conta do barco e desses dois idiotas que têm consigo – respondeu ele de maus modos. Dois passos mais adiante, Faiald abaixou-se, procurando sinais no solo encharcado. Não tardou em descobri-los, correndo para dentro do nevoeiro. – Fiquem aí! – ordenou, enveredando naquela direção a contragosto. – Cezna pode tomar conta do barco – gritou a menina ao vê-lo afastar-se. – Não me deixe sozinha! – Você não está sozinha. Tem Cezna e Bulbo para fazer-lhe companhia – replicou Faiald, acenando. – Volto assim que a encontrar. Mas então já era só uma sombra e Márcia não viu para que lado dirigiu-se. Cezna ergueu vôo e deslizou até a belbelita de Cíntia, sentando-se junto às antenas sensíveis do bicho, acalmando-o. – Não vá embora, você também! – choramingou Márcia. – Não tenho a mínima intenção de fazê-lo – replicou o homem-pássaro. – Só espero que ele encontre o caminho de volta – murmurou Bulbo. Dentro do barco, Lúcia continuava ganindo e esperneando. Márcia sentou-se num canto, enterrou o rosto nas mãos e começou a chorar em silêncio. – Cida tinha de estar aqui – murmurou Cezna. – Ela saberia o que fazer. Bulbo acenou a cabeça. – Ela o saberia, melhor do que Faiald – concordou. *** Faiald avançou, seguindo as pegadas de Cíntia. Sua mente trabalhava em ritmo acelerado, tentando descobrir a chave para aquela casa, ansioso para sair dali. Preocupava-o a sanidade mental dos companheiros. Não seria a primeira vez que veria alguém enlouquecer naquele lugar, e a Planície dos Caminhos de Água já estava tocando os limites de sua paciência. Seguindo a trilha bem definida, Faiald trotava sem prestar muita atenção onde punha os pés. Tinha pressa de encontrar Cíntia, pressa de reencontrar César, pressa de encontrar Edula (Deus, por que, de todos eles, fora perder-se justamente dela?), de sair daquele labirinto, rever o sol e os horizontes. Súbito, escorregou. Tentou equilibrar-se, mas só encontrou mais espaço e lama, tão lisa quanto sabão. Quando deu por si, estava atolado até a metade das pernas num poço de areia movediça. Prendeu a respiração por alguns segundos e fechou os olhos, procurando manter a calma. A areia era densa e não o tragava com muita rapidez, mas era implacável e ele sabia disso. Ergueu os braços e olhou ao redor em desespero, furioso com seu próprio descuido. Não havia nada a que pudesse agarrar-se, nem galhos, arbustos, nada para usar como ponto de apoio. A lama o engolia inexorável, puxando-o mais e mais para baixo. Os barrancos ao redor eram lisos e escorregadios, desolados demais, molhados demais. Passou-lhe pela mente a ideia de que ali nem mesmo sua irmã poderia ajudá-lo, ainda que ele fosse o Irmão da Terra. Ali era um daqueles lugares esquecidos pelos deuses e pelos demônios, onde a solidão cultivava seus próprios pesadelos. Não havia nada senão o vazio e a neblina que jamais se erguia. Ali o Damin poderia morrer e sua própria matadora não se daria conta disso, senão quando fosse tarde demais. Seus lábios tremeram. Estava acostumado a ideia de que jamais poderia acontecer-lhe alguma coisa que realmente terminasse mal. Apenas Moredhra, até então, tinha conseguido tocá-lo. O marcara, e embora pudesse tê-lo morto, não o fizera. Agora o pântano o engolia. Não adiantava nem mesmo recorrer às forças que comandava: eram soldados da morte, não mãos salvadoras. Perder o jogo desta maneira, era mais do que ter de voltar ao início da partida: era defrontar-se ao mistério absoluto do Tabuleiro. Faiald não sabia o que acontecia quando um jogador era eliminado do jogo – e não estava preparado para descobrir. – Seria muito engraçado, Clara, que você conseguisse me destruir agora que cheguei tão longe – vociferou ele, jogando seu ódio inutilmente contra a matéria inanimada. Depois mordeu os lábios, pensativo. Tentou parar imóvel, o que deveria fazer com que afundasse mais devagar. Gritou. Terminou desesperando-se. Baixou a cabeça e deixou as lágrimas de auto-piedade e exaustão correrem pelo rosto e pingarem na lama. – Faiald? Ele ergueu o rosto surpreso e viu Cíntia parada oscilante na beira do barranco. – Não chegue mais perto! – gritou ele, assustado com a possibilidade de que também ela caísse no poço. – Cíntia, você tem que me ajudar a sair daqui. Volte até a margem e peça para alguém trazer uma das belbelitas para mim, depressa! Olhou ao redor, sentindo a areia apertar seu tórax, sugando-o como um bebê ao seu bico predileto. – Eles... eles estão por todas partes... – balbuciou a moça, movendo-se na neblina. O ruivo franziu a testa, tentando compreender sobre o que ela falava. – Esqueça esses bichos e peça ajuda, ande de uma vez – ralhou. – Não sei como poderia... – ela disse, mais concentrada na realidade que a rodeava, mas com voz incerta. – Volte por onde veio. Está marcado no chão bem claramente – replicou ele com a esperança por um fio. – Mas ande depressa, senão não estarei aqui quando voltar. – E para onde irá? – ela murmurou. – Irei desta para melhor. Ande de uma vez! A mercadora oscilou perigosamente na borda do barranco e depois desapareceu no nevoeiro. O tempo escoou-se lentamente e a areia continuava a tragar o ruivo. Logo Faiald se viu com a lama pelo pescoço. Ergueu o queixo, tentando não pensar em nada, não lembrar do rosto de Tharia quando o apunhalara, não pensar nas mãos fortes dele segurando-o enquanto ajudava Edula na Ponte de Drida. Tentou não pensar no final do primeiro jogo. Fechou os olhos e respirou bem devagar. Obrigou-se a pensar no sol, no céu e nos olhos que refariam todo o mundo de novo, que o levariam a um lugar onde não havia pântanos, nem monstros de neve: os olhos de Edula. A areia chegou-lhe ao queixo e ele apertou os lábios com determinação. "Edula e eu... Edula e eu junto a um córrego, perfume de amoras e morangos no ar. Uma música distante, o sol e o verde! Não pense em nada mais!" suplicou a si mesmo. Súbito, a mulher em sua imaginação não era mais Edula. Tinha olhos grandes, um cabelo longo, fino e negro. Estavam no palácio de Kavaal, na Ronda da Eternidade, e a doce feiticeira o envolvia com braços leves e serenos. Ainda tinha o rosto perfeito. Ainda não o ocultava atrás de leques dourados. Um soluço ardeu no peito do ruivo. Cíntia... Cíntia estava demorando tanto! Clara! Irmãzinha! Como pode fazer isso comigo? Como?! A areia ameaçava tapar-lhe as narinas, agora. Fechou os olhos e inspirou profundamente, segurando o fôlego, disposto a resistir até o último momento. Que tudo lhe faltasse, força, oportunidade, mas jamais a vontade de seguir! Ergueu os braços o mais alto que pode e começou a tremer. O peso da lama apertava-lhe os pulmões e tapava-lhe o rosto completamente. Logo, só se via um pedaço da cabeleira e os braços. Logo, os braços. Depois, apenas as mãos crispadas. E então, só a escuridão
e um cheiro muito seu conhecido que penetrou nas narinas junto com a areia molhada. Álcool e éter. Faiald debateu-se, mais assustado com o cheiro do que com a areia movediça. seus membros se retorcendo numa agonia indescritível e ele lembrou, ah, como lembrou!, o que seria abrir os olhos fora do Tabuleiro. lembrou como seria a luz das lâmpadas, a cor das paredes, o número de tábuas do teto. chegou a ouvir o metrônomo implacável do bip que atestava que apesar de tudo, seu coração ainda batia regular como a força de um hábito. ele continuava vivo. vivo! meu Deus... e então, para seu alívio, alívio absoluto, ouviu
vozes. Vozes, vindas de longe, mergulhando na lama e na inconsciência. O ar quase lhe estourava os pulmões de pressão e medo, mas ele se recusava a desistir. Alguma coisa áspera roçou seus dedos e passou-lhe um laço firme nos pulsos. Então alguém o puxou. Faiald parou de lutar e desmaiou.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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