O Jogo no Tabuleiro

- O Nemthru -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capitulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

A Casa de Lícora

 

 

 

9. 

Quando despertou, estava escuro, novamente. Havia um silêncio pontilhado de gritos das aves noturnas e dos insetos que moravam no pântano ao seu redor. No céu, limpo de neblina, luziam brancas estrelas. A menor das As-Ein flutuava, quase cheia. O ar que entrava-lhe nos pulmões foi a coisa mais prazerosa daqueles primeiros momentos. Depois conseguiu sentar-se lentamente, sentindo a cabeça doer, os ombros em fogo, o corpo inteiro zumbindo dores. Olhou para a fogueira e viu o vulto de Lúcia, encolhida sob uma manta. Do outro lado, Cíntia e Márcia conversavam. Silencioso, Bulbo velava junto às brasas. Súbito, o gnomo olhou para o ele e soltou um grito de espanto. Lúcia virou-se e as duas moças ergueram a cabeça com os olhos brilhantes. Estavam pálidas, tinham olheiras, mas algo lhe dizia que tinham conseguido atravessar o transe, inteiras.

Márcia aproximou-se com o cantil e deu-lhe de beber.

– Como se sente? – indagou gentilmente.

– Vivo. Estão todos bem?

A irmã do mago sorriu.

– Sim. Eneias continua dormindo. Cezna está descansando e eu e Cíntia estávamos esperando que despertasse. Bulbo também está bem. Sente fome?

O Damin balançou a cabeça. Não lhe passara desapercebida a ausência de notícias sobre Edula e César.

– Não – disse, baixinho. Lúcia o olhava como se tivesse vindo do nada. – Muito obrigado por terem salvo minha vida.  

Márcia limitou-se a sorrir de novo e olhou sobre o ombro para Cíntia, que se aproximava. Faiald observou que tinha tirado os animais da bolha de seus corpos e dele mesmo.

– Ora, onde estão aquelas coisinhas horríveis? – indagou em tom de gracejo.

– Parece que eles não gostam muito de fogo – explicou Cíntia. – Soltam-se da pele no mesmo instante em que os aproximamos das brasas.

– Se não fosse por Cíntia, não teríamos conseguido salvá-lo – disse a irmã do mago.

– Se não fosse por você, tampouco. Quando cheguei no barco, não pensava com muita clareza. Aliás, não me lembro bem do que aconteceu... está tudo muito nebuloso na minha cabeça...

– Cezna foi na frente – murmurou Bulbo, aproximando-se com uma tijela cheia de ensopado e a estendeu para o ruivo. – E Márcia o seguiu com uma belbelita. Escorregou para dentro da areia com uma corda, encontrou-o, amarrou seus pulsos e o inseto os puxou. Não conheço muita gente que tivesse coragem para fazer isso.

Faiald olhou para a menina com admiração.

– Muito obrigado – disse, com sinceridade.

Márcia sorriu calma, em silêncio. Súbito, ela ergueu os olhos para algum lugar atrás de Faiald e levou a mão destramente à cintura, onde guardava a faca.

– Ei, isso não é uma sorte, minha gente? – gritou a voz alegre de César.

– Eu disse que essa fogueira no descampado só podia ser deles! – replicou Edula. Pelo visto, haviam passado o dia inteiro à turras, como sempre, e depois de trocarem abraços com os demais, levaram algum tempo contando suas desventuras entre poços de areia movediça, redes finíssimas de colônias de insetos e cobras gigantescas. Finalmente, satisfeitos, sentaram-se ao redor do fogo para aquecerem-se e tirar os sanguessugas de Edula e César. Riam mas não era a mesma alegria que tinham trazido consigo de fora do Tabuleiro. Seu olhar era duro, ao refletir o fogo. Quando ouviram o chiado profundo de alguma bolha em algum lugar do pântano, arrastando-se infindavelmente pela escuridão, entreolharam-se, subitamente sérios e silenciosos e César terminou cantando um feitiço para manter afastados os animais maiores ou que se moviam em grupos. Depois sorriu para os amigos.

– Daqui por diante, só os mosquitos irão nos atrapalhar – observou Edula, coçando a mão onde fora picada. Faiald a admirava longamente. O alívio de vê-la ao alcance de seus braços era tamanho que mesmo o pavor de morrer asfixiado de horas antes desaparecera numa espécie de gratidão. Desde seu cobertor, Eneias abriu os olhos e os fitou. Não viu seus velhos amigos. Viu gente perigosa, que não conhecia, quem a muito não via. Eram piratas? Aventureiros? Andarilhos? Por que tinham aquele sorriso firme e forte, quando tudo parecia tão adverso? Estavam perdidos, longe de casa, longe da segurança. Depois duvidou que eles precisassem de segurança. O mundo parecia ser sua casa. Mas qual mundo? Não havia o cheiro da fumaça, nem o ruído do elevador ao lado do seu quarto... depois decidiu que eles não estavam ali. Deitou-se e fechou os olhos, a imagem da morena do outro lado do fogo, com olhos de vida e morte, gravada em sua mente.

O dia amanheceu enevoado, como temiam, a neblina baixa, mal lhes permitia manter a linha frágil das Rineve como ponto de referência.

– Desviamos alguns quilômetros para o sul – observou Faiald, fitando as montanhas. Seus picos enevoados recortavam-se contra o céu azul, debruados pelo dourado do sol que vinha por trás deles. O resto era uma sombra azul que se lançava pelas encostas com suaves nuances.

– É melhor irmos andando. Tenho a impressão de que quando o sol subir, a neblina se levantará outra vez – murmurou Edula, saboreando uma fruta seca. – Por enquanto, Cezna pode ajudar-nos a manter o rumo.

– Concordo – disse o rapaz, juntando as coisas leves dentro de uma mochila. – Quanto antes sairmos daqui, melhor.

– Nunca se disse uma coisa tão inteligente nessa viagem – resmungou Bulbo, apressado.

Dentro de poucos minutos estavam prontos e voavam rumo ao noroeste, outra vez. Perto do meio-dia o nevoeiro se fez tão espesso quanto no dia anterior e Cezna voltou ao seio do grupo. Acamparam em uma ilhota e esperaram. No dia seguinte, levantaram ainda mais cedo e puderam avançar vários quilômetros antes de se verem obrigados, novamente, a esperar. Somente no quarto dia conseguiram alcançar a estrada e os altios secos. Ali despediram-se das belbelitas e deixaram-nas soltas, certos de que encontrariam sozinhas o caminho de volta à seus donos.

– Adeus – disse Cíntia, tirando a rédea de sua borboleta. – Você foi a coisa mais bela que eu vi aqui e a única que sentirei falta quando o Tabuleiro se for.

O inseto pairou um instante sobre ela, como se tivesse compreendido o carinho da moça e hesitasse em partir. Depois ergueu-se acima da névoa e afastou-se depressa em companhia das outras belbelitas.

– Oxalá, cheguem bem – desejou a mercadora segurando a Pedra de Mil Cores em seu pescoço.

– Em frente, pessoal, o deserto ainda está longe – disse Faiald ajeitando a mochila nas costas.

O grupo suspirou em uníssono e pôs-se em marcha.

O resto do dia, ainda andaram na névoa, mas avançavam rapidamente pela estrada, decididos a deixar bons quilômetros entre eles e o ponto onde haviam voltado ao caminho, antes que chegasse o crepúsculo. Pouco descansaram, apesar dos choramingos de Lúcia, obrigada a levar também uma mochila. Eneias despertara de seu sono tão logo tinham pisado em terra firme. Caminhava tristonho e cabisbaixo, e só falava quando lhe dirigiam a palavra. Isso deixava seus companheiros entre aliviados e aflitos. Aflitos, pois ele parecia encolher à olhos vistos, e aliviados porque os poupava de lamentos semelhantes aos de Lúcia. Era de cortar o coração, mas ao mesmo tempo, os seis sabiam que não podiam fazer nada, nem por ele, nem pela alquimista.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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