O Jogo no Tabuleiro

- O Nemthru -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capitulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

A Casa de Lícora

 

 

 

10. 

Dois dias depois, foi a vez de Cezna encontrar sua Casa do Destino.

O homem-pássaro voara um pouco adiante dos companheiros, ansioso por saber se a névoa que os envolvia todas as manhãs não terminaria de uma vez. Cansado, resolveu parar sobre uma pedra e esperá-los. Na pedra estava gravada a letra da Casa do Destino.

Súbito, viu-se num lugar onde tudo era plano, até onde a vista se perdia. Não havia elevações ou curvaturas, só longas linhas no campo arado correndo até o infinito e de lá voltando para tocá-lo.

Cezna, imediatamente, não compreendeu onde estava, nem exatamente o que acontecera. Aos poucos deu-se conta de que aquela não era uma casa da sorte, pois ainda lembrava da desagradável recepção que tivera nas montanhas, um espaço cheio de espadas que se moviam ao seu redor, numa luta sem tréguas e sem guerreiros, até que sua imaginação conseguira criar a arma que Edula levava à cintura. Ali  onde estava agora havia paz, muita paz. Nada para incomodá-lo durante milênios. Poderia morrer e renascer tantas vezes quanto desejasse, e nada teria se alterado, jamais. Aquela era a terra, a mais primitiva de todas as forças, a mais irracional de todas as concepções, o mais velho de todos os deuses.

Não houvera ali, perguntou-se como um canto monótono de mantras hindus, não houvera um outro antes dele?

De repente, olhou para seus pés e percebeu que criava raízes. Apavorou-se. Sentiu-se perdendo a liberdade de voar. Bateu as asas de bronze, mas elas só fizeram com que esticasse cruelmente os tendões arrancando-lhe um grito de dor. Tão pouco tempo ficara sobre a terra e já criara raízes, já era seu prisioneiro!

Olhou para o alto. Lá havia um céu profundo, cheio de estrelas e ele via os planetas flutuando sobre ele, tudo aquilo que deveria lhe pertencer mas que não teria jamais, por ser um prisioneiro da Terra, doce prisão, bela, a mais bela de todas, mas sempre uma prisão. Ergueu os braços e seus dedos roçaram o éter macio que o chamava com um apelo inigualável. Mas as raízes o puxaram para baixo com força e ele caiu no solo, chorando.

Agora percebia que o plano não ia mais até o Infinito. Não. Agora encurvava-se rapidamente, tornando-se cada vez menor. Cezna olhava para o céu em busca de ajuda. Deveria haver um outro lugar para ir... uma maneira de se libertar...

Algo dentro dele se rebelou e o homem-pássaro voltou seus olhos para o chão, agora árido e farelento. Sentiu toda a força da terra dentro de si e apiedou-se do solo que morria debaixo dele, por sua causa, por causa de sua ânsia em partir. Baixou as mãos e imaginou-se entregando sua força à Terra. Sentiu, cheio de emoção, que ela a recebia como um bálsamo. Aos seus olhos afloraram lágrimas, lágrimas suficientes para encher todos os mares, pensou. Dele brotaram os rios que alimentaram a Terra e então ele riu e seu riso fecundou-a e suas raízes se espalharam sob o campo, devolvendo-a à vida e ao Infinito.

Súbito, estava voando entre os planetas e as estrelas que desejara. E depois estava na névoa outra vez, flutuando com uma coisa nas mãos. Não muito distante, o vulto do último de seus companheiros se perdia no lusco-fusco: o grupo passara pela pedra, sem vê-la. Cezna olhou para as mãos e calou a custo o grito de felicidade.

Segurava um cubo perfeito e impossível dentro do qual, dispostos em outros quatro cubos, estavam os elementos da Natureza: a terra, o ar, o fogo e a água. O homem-pássaro sorriu e voou atrás de seus amigos.

Dois dias ainda prosseguiram na estrada até a neblina começar a escassear. Os pântanos estavam ficando para trás, substituídos por um gramado viçoso e por colinas ondulantes. Mais três jornadas e começaram a ver o luzir vigoroso do deserto, brilhando sob o sol. A temperatura subiu bastante, obrigando-os a usarem a menor quantidade de roupa possível. A neblina se foi de todo. Quando paravam para descansar, era frequente que admirassem a linha das Rineve, cada vez mais distantes e mais azuladas. O caminho prosseguia sem novidades o que os deixava aliviados, mas atentos. Não estavam dispostos a terminar vítimas de outra armadilha. À esquerda, crescendo à medida que se afastavam das montanhas, viam uma muralha de árvores se espalhando verde, bela. Era a Floresta de Ujier. Faiald a contemplava com um ar sonhador, mas disse, ao pararem para descansar em certo anoitecer:

– Espero não ter de entrar na mata.

– Por que não? – replicou Bulbo, de maneira impertinente. – Vocês não têm todas as chaves.

– Ujier é muito perigosa – sussurrou Faiald.

O gnomo aspirou o perfume que vinha da região da floresta e ensombresceu a fisionomia.

– Encantos demais – sussurrou concordando. Depois, completou: – Haverá briga de foices hoje, no céu. As duas irmãs pequenas serão minguantes. Esta é uma noite para fadas...

Os olhos verde-escuros do pequeno tornaram-se muito tristes e ele se calou.

– Do que ele está falando? – interessou-se Cíntia.

– As duas luas menores estarão na fase minguante, hoje, e deverão coincidir sozinhas no céu – explicou o Damin.

Naquela noite acamparam cedo, e adormeceram logo. Nuvens brancas e gordas passeavam a caminho do leste, com majestosa morosidade. Num quadrante mais baixo, as duas luas minguantes se encontraram e suas formas lembravam realmente delgadas foices de prata. Sua luz iluminava as ricas terras do Tabuleiro como um presságio. A noite era fresca e perfumada.

Eneias ouviu as vozes no meio dos sonhos, bordando o remate de seus pesadelos e tornando-os um pouco mais amenos. Despertou suavemente pela primeira vez desde que chegara ao Tabuleiro, abrindo apenas os olhos e não a boca para um grito de horror que nunca lhe vencia os lábios. Sentou-se, olhando ao redor. Bulbo estava de guarda, a mirada perdida no vulto distante de Ujier, os olhos mais brilhantes do que as estrelas. Pareciam lanternas verdes contra o prateado do luar e o rubro clarão das brasas.

– O está havendo? – indagou o Trovador, descobrindo que o cantar que ouvira nos sonhos se repetia ali, ainda mais belo no ar da noite enluarada, mais belo, mas não mais claro do que em seu sonho.

– Silfos – murmurou Bublo. – Não sei o que estão fazendo aqui, tão longe de suas casas.

Eneias estremeceu como se sentisse frio e encolheu-se sob o cobertor. Mas o cantar era belo demais e demasiado acolhedor. Relaxou um pouco, murmurando:

– Como cantam bem... o que dizem suas canções?

– Oh, que mais podem cantar os silfos? Coisas das plantas e do correr das águas. Das brisas e dos tornados. Falam de alegria, mas com profunda tristeza. Por que haveriam de cantar sobre outra coisa? Que outra coisa pode haver, digna de ser cantada?

– Que bobagem! Existem milhares de coisas dignas de serem cantadas – replicou Eneias, sentindo a alegria deles vibrando no ar.

– Ah, eles cantam tudo o que brota do chão e cresce. E depois que Faiald tiver ganhado o jogo, então terão coisas verdadeiras para fazer crescer e estaremos livres desta prisão que é o Tabuleiro, onde nada floresce sem o consentimento de Clara. Iremos Lá Fora, pois somos imortais e não morreremos, nem mesmo quando o Tabuleiro se perder no Limbo.

Eneias encarou Bulbo surpreso.

– Realmente acredita nisso? – murmurou depois de um silêncio.

O gnomo baixou a cabeça, profundamente infeliz:

– Não – disse.

O trovador abriu a boca para perguntar por que diabos, então, acompanhava Faiald, quando viu um grupo de seres diáfanos, vestidos de raios de lua e teias de aranhas, tendo às costas asas de libélulas e nas gargantas as vozes dos rios e dos mares, de vento em árvores e sol nas flores. Eles vinham pela estrada, cantarolando. Eram muito belos, com os lábios finos quase invisíveis, os narizes pequenos e grandes olhos amendoados. Dentro das íris puras, suas almas cintilavam como chamas de velas nos altares. Seus gestos eram de lento e leve dançar e seus pés não tocavam o chão.

– O que se passa? – indagou de súbito uma linda figurinha, destacando-se dos demais. – Viajantes adormecidos na longa estrada em noite de prata e lua?

– Salve, belas senhoras – disse Bulbo, erguendo-se. Eneias espantou-se um pouco com a cortesia dele, mas não se atreveu a mover-se.

– Salve, Bulbo Nariz de Tulipa! – saudou outra sílfide, aproximando-se. Não havia ali, naquele olhar, naquele modo altivo, naquele sorriso triste e brando, a leveza, a luz que Eneias vira em Cecília e que a fizera parecer uma estranha quando a reencontrara às margens da Ronda da Enternidade?

Sim! Agora compreendia porque Bulbo a chamara de "élfide", às vezes.

– O que faz tão longe de casa? – perguntaram as criaturas ao gnomo, enquanto se acercavam do grupo.

– Pingo de Prata – respondeu este – essa é uma longa história e eu não tenho coração para contá-la agora.

– Um gnomo que não tem coração para contar histórias? – comentaram elas entre si. – Que outras surpresas as foices de prata nos estarão reservando?

Reuniram-se, então, ao redor de Eneias, cheias de curiosidade. O rapaz encolheu-se embaixo do manto.

– O que temos aqui? Um caracol? – riu um dos silfos.

– É só um humano – resmungou Bulbo. – Seu nome é Eneias. É um trovador.

– Olá, Eneias – saudou um dos seres, estendendo a mão e tocando-o de leve no centro da fronte. – Hum! Você é dos bons! Uma rebeca em suas mãos e poderá fazer com que as névoas se dissipem e o solo se abra em fontes. A menos, é claro, que estejam indo ao Deserto de Doshapp. Lá, nada cresce, nem mesmo com bênçãos. É para lá que vocês vão? Por que esta é a estrada que leva ao deserto, você sabe...

De súbito, não havia mais nada para se preocupar – nem para temer, ou chorar. Eneias riu, e sua voz saiu estrangulada. Silenciou e riu de novo.

Agora sim! Havia tanta clareza em seu riso que podia ouvir através dele, os cantos da noite. As neblinas distantes, sobre a Planície das Águas estremeceram e se esgarçaram. Ora, pipocas, pensou ele aborrecido, como é que eu não percebi isso? Teríamos saído de lá dois dias antes e já estaríamos muito adiante no nosso caminho!

– Olá – disse, afastando os pensamentos que ameaçavam tornar-se fonte de culpa. Olhou para o silfos com redobrada curiosidade. – Nós vamos ao deserto. Vocês, de onde vêm? E para onde irão?

– Viemos da floresta de Ujier – disse Pingo de Prata aproximando-se dele. – Nosso maior tesouro foi roubado. Dizem que o Irmão da Terra caminha entre nós e não temos nenhuma dádiva da Deusa para guardar. Por isso andamos pelos campos que as luas iluminam, e esperamos o momento em que poderemos sair daqui e visitar outros mundos. Você está sozinho, Bulbo?

O gnomo negou com a cabeça, perturbado:

– Oh, não. Tenho acompanhado o grupo em sua viagem.

Os silfos se surpreenderam.             

– Não vejo em quê umas criaturas que dormem como pedras em uma noite como esta, podem lhe ser agradáveis, se me permite a intromissão – murmurou uma pequena sílfide, cuja voz tinha o som da prata.

– É Faiald – explicou o pequeno – ele é meu afilhado.

– Um afilhado das fadas! – exultou a sílfide. – Isso é maravilhoso! São cada dia mais raros!

Pingo de Prata olhou para o vulto de Faiald, depois para Bulbo e seus olhos de chama o vararam inquisidoramente.

– Não perguntarei – disse afinal. – Não, não corre na nossa conta de importância saber quem é esse seu afilhado. Mas vejo, Bulbo, e vejo muito bem, você sabe, que já ficou tempo demais junto a eles. Sua tristeza está estampada na ponta do seu nariz, se me permite dizê-lo. Vamos indo. As luas são nossas guias e o luar nossa melodia. Você, Bulbo Nariz de Tulipa, você quer vir junto com nossa comitiva? Vamos por aqui e acolá, e chegaremos ao Salão do Olmo Azul em alguns dias. Você será muito bem-vindo entre nós.

O gnomo hesitou. As As-Ein brilhavam frias no céu. Já haviam se separado e o auge de sua luminescência se apagara. O Salão do Olmo Azul! Oh, sim, depois de tudo, não se importaria de vê-lo ainda uma vez, mesmo que isso lhe custasse a vida. A sensação de que voltara para casa o tinha perseguido o dia inteiro e agora era tangível. Era também uma espécie de armadilha, assim como Tharia fora para Cida, comprometendo a expedição. E como ela, Bulbo não tinha forças para fugir. Pois ele era a própria armadilha, seu coração era a isca e o prisioneiro. Estremeceu. Como resistir à própria alma?

– Eu vou – disse num sopro, e Eneias o olhou triste, mas não surpreso. – Adeus!

Saltou de junto do fogo, os olhos cheios de lágrimas.

– Na verdade, eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde – murmurou para o trovador. – Sinto muito, não posso evitar.

– Certo... – sussurrou Eneias, mas tudo se turvara outra vez.

– Eu estarei bem. Todos nós estaremos. Diga isso a Faiald. Faça com que creia. Não diga nada sobre o Salão do Olmo Azul ou ele vai querer voltar ao início.

– Voltar? Não! Não quero voltar! – mas Eneias não sabia se conseguiria acreditar em si mesmo pela manhã.

– Diga-lhe que o amo.

– Vamos – chamou Pingo de Prata. O grupo já se afastava novamente, confundindo-se com o luar e as sombras. Um canto esplendido e sublime pairou no ar, depois desvaneceu-se. Eneias, sozinho, deixou-se abater de novo e, com um soluço de quem perdeu a infância para sempre, adormeceu.

A manhã foi clara e límpida, um reflexo da noite anterior. Leves nuvens de algodão flutuavam, impelidas por fortes ventos que soprava rumo ao norte. Eneias foi o último a despertar.

– Você viu Bulbo? – indagou Faiald, tão logo o viu sentado.

– Como poderia? Acabo de acordar – replicou o trovador, ríspido. Porém a lembrança doce do toque dos silfos o engolfou e ele sorriu sem querer, lembrando, não sabia o quê, sentindo uma felicidade inexplicável.

– O que aconteceu, afinal? – interessou-se, quando viu que todos o fitavam, admirados.

– Bulbo desapareceu durante seu turno de guarda – murmurou Faiald, examinando de longe a estranha marca prateada na fronte do viajante. – Aconteceu alguma coisa com você que deveríamos saber?

– Não, acho que só tive um sonho feliz – replicou o rapaz.

– Bem, então vamos procurar por Bulbo – decidiu o ruivo, depois de encará-lo por um longo instante. – E vamos procurar até encontrar.

– A menos que muito me engane, os gnomos não deixam pegadas e vai ser meio difícil encontrá-lo no meio desse mato e de todas essas moitas floridas – protestou Cíntia aborrecida. – Além do mais, eu ainda não comi nada...

– E nem vai comer, enquanto Bulbo não aparecer! – gritou Faiald, zangado. – Será que vocês só conseguem pensar em si mesmos? E se ele estiver em perigo? E se...

– Eu me lembro de uma música – interrompeu Eneias, absorto em seus pensamentos. O tom de sua voz alertou os companheiros e todos prestaram muita atenção. – Era linda e muito alegre. Lindas vozes, eles têm...

Faiald, pálido, mordeu os lábios.

– Silfos? Foram os silfos que vieram à noite e o levaram? – indagou com a voz trêmula.

– Talvez. Não tenho certeza. Não me lembro direito – confessou Eneias.

– Vamos esperar – decidiu o Damin, teimoso. – Ele tem de aparecer!

Os outros viajantes se entreolharam por um longo instante e terminaram concordando, aliviados com aquele descanso depois de uma semana de marcha forçada. Aguardaram a manhã inteira e depois toda a tarde e toda a noite. Antes de amanhecer, Faiald os despertou.

– Vamos embora – falou ajuntando suas coisas. Sua voz tinha um timbre duro e depois que estavam prontos ficou um longo tempo olhando para o caminho onde os silfos haviam desaparecido, como se soubesse que haviam passado por ali. Seus olhos ardiam secos como sua alma.

– Ele me disse que o amava – disse Eneias de repente, sem pensar. – Disse que ia estar bem, que todos iam estar bem. Que você tinha de crer nisso.

– Ele também disse que ia ao Salão do Olmo Azul, o gnomo idiota? Que todos os silfos que passeiam em noite de Foices de Prata terminam no Palácio dos Gnomos para o banquente, mais cedo ou mais tarde? – Faiald cuspiu entre dentes. Eneias arregalou os olhos de susto.

– Não! Não! – gemeu. – De qualquer maneira, eu não vou voltar com você, pouco me importa o que aconteça!

Faiald o fitou sem uma palavra, depois deu-lhe as costas e começou a andar. Ao primeiro raio de sol, o grupo estava caminhando apressado para o oeste. Ninguém voltou a tocar no nome de Bulbo, nem perguntaram a Faiald o que lhe ia pelo coração. A maioria deles já não se interessava pelo que o nemthru de Drida sentia. Mas medida em que o sol subia no horizonte e a sombra diminuía sob seus pés, a música que Eneias trauteava baixinho lhes aliviou a apreensão e contagiou-os com sua alegre suavidade. Só Faiald se negou a cantarolá-la com os demais.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados

 

Fale com a gente!

 

 

Apresentação

 

O Afilhado das Fadas

 

A Falcoeira

 

Próximo capítulo

Capítulo anterior

 

Início