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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capítulo 11
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11. Próximo ao anoitecer, quando a tarde já perdia seu calor, os viajantes pisaram pela primeira vez na areia amarelada do deserto. O grupo parou em uníssono sobre a primeira duna suave e virgem, e contemplou o panorama desolador de Doshapp. Tudo era duas cores, tudo era o azul do céu e o dourado da areia. Tudo, com exceção das sombras onduladas que se alongavam à partir da base dos montes infinitos, infinitas sementes da noite. – Teremos de nos manter muito alertas. Aqui há poços de areia movediça e outras gracinhas do gênero – adiantou Faiald, secamente. – Hoje, ainda, caminharemos com o que nos resta de luz, mas a partir de amanhã, descansaremos durante o dia e andaremos durante a noite. É mais fresco e não padeceremos de tanta sede. – Como vamos nos guiar? – preocupou-se Cíntia. – Pelas estrelas. Relaxe: será mais fácil do que está pensando. Um suspiro percorreu suas bocas e o vento quente beijou-lhes os lábios. O ruivo farejou o ar. – Espero que não tenhamos nenhum tipo de surpresinha desagradável para amanhã – sussurrou. O anoitecer os encontrou longe de onde o deserto tocava o terra fértil dos campos. Apesar dos longos dias de caminhada, em breve sentiram câimbras percorrendo os músculos das pernas, causadas pelo esforço de avançar sobre a superfície arenosa que brilhava quase tanto quanto o sol. Aproveitaram parte da noite para caminhar e finalmente, quando a menor das As-ein nasceu, redonda e cheia, pararam e aproveitaram a luz das luas para armar um parco acampamento com os cobertores. Fez bastante frio, mas perto da madrugada a temperatura subiu sensivelmente. Cíntia, no turno de guarda depois de César, espreguiçou-se, aliviada por parar de tremer. Pouco antes do amanhecer, um sopro mais forte balançou as tendas, fazendo estalar as pontas soltas, e Eneias, que vigiava o sono dos demais olhou ao redor. No horizonte, à direita, vinda do sul, uma estranha nuvem baixa e cor de açafrão, mesclava céu e terra. Avançava rapidamente, recheada de relâmpagos, mas parecia disposta a passar longe do grupo. Quando o trovador se deu conta do que estava acontecendo, o sistema frontal da tempestade de areia já estava sobre eles com toda sua violência. – Acordem! Faiald! – gritou o trovador sacudindo-o, mas o ruivo já estava meio desperto e o empurrou para longe. – Arrumem tudo em trouxas, rápido, rápido!– comandou o Damin, passando um pano em torno da boca e do nariz. Obrigou Márcia a proteger-se assim também, e agarrou Cezna antes que o sopro o levasse para longe. Quando estavam todos juntos, comandou-os até o alto de uma duna. – Estaremos muito expostos – protestou Edula. – Deitem-se no chão! É perigoso ficar na depressão! Poderíamos ser soterrados antes de nos darmos conta! Um trovão ecoou ponteando suas palavras. Não se via nada. O grupo arrastou-se de quatro e depois os viajantes deitaram-se, oferecendo ao sopro furioso, apenas suas cabeças envoltas em panos. Os cobertores já haviam desaparecido. Durante várias horas, o grupo permaneceu à mercê do assovio imperioso do vento. Periodicamente, estimulados por Faiald, moviam-se, para livrar-se das pequenas dunas que iam se formando ao seu redor. Finalmente, o assovio do vento começou a diminuir e mais ou menos na metade da tarde a tempestade perdeu força e seguiu seu caminho. O primeiro a sentar-se, sacudindo-se como um cachorro, foi Eneias. Cuspiu e espirrou continuamente. – Acho que tenho areia dentro ouvido – resmungou Márcia. – Não seria de se admirar. – Meu Deus! O grupo olhou para Edula, e depois seu espanto voltou-se para as paredes e o teto derruído de uma pequena construção que o vento desenterrara. – O que é isso? – quis saber Cíntia aproximando-se cautelosa. Os outros avançaram devagar e rodearam a ruína. Era uma construção cilíndrica, quiçá parte de uma torre. Ao redor dela, algumas paredes de grandes blocos de pedra clara se deixavam ver aqui e ali. Cezna sobrevoou a ruína. Depois achou algo meio enterrado no solo e tentou puxá-lo para fora da areia. Os demais aproximaram-se e César e Faiald o ajudaram. Era uma corrente grossa e, o mago se deu conta em seguida, de ouro puro. – Que maravilha, o que terá sido isso? – murmurou o mago, encantado. – Tem uma entrada deste lado – anunciou Edula perto da construção. O grupo alcançou-a sob uma abertura provocada pela queda de uma das paredes. Dentro estava escuro e os viajantes titubearam antes de se decidir. – Eu não quero entrar aí – entoou Lúcia, medrosa. – Vamos conseguir um pouco de luz e já veremos se vale a pena entrar – disse César ignorando-a e acendendo em suas mãos uma bola luminosa. A claridade desfez as sombras alegremente e os viajantes entraram atrás do mago, cheios de curiosidade. Lúcia ficou ganindo junto a abertura, mas a solidão do deserto lhe dava mais medo do que o risco acompanhado e terminou seguindo-os. O interior da construção era composto por onze paredes retas que formavam um pequeno salão de teto alto. A décima-segunda era a parede ruída pela qual haviam entrado. O solo traiçoeiro era um funil de areia solta. Os grãos dourados se amontoavam junto às paredes e formavam uma pendente perigosa que levava ao centro da sala onde havia um buraco. Ninguém se atreveu à baixar até ele, porque a areia deslizava debaixo de seus pés, em direção ao pequeno poço ameaçando arrastá-los para a escuridão. O cheiro que vinha dali era seco e desagradável. – Será que há algum "morador" aí? – gaguejou Cíntia. – Talvez. Faremos uma vistoria rápida e sairemos em seguida. Esse lugar não me inspira a menor confiança – comentou Faiald. – Vejam isto! – chamou César, examinando uma das paredes. Havia grandes afrescos em branco, negro e vermelho em todas elas. Os demais se reuniam em torno do mago e viram, sob a luz mortiça da bola luminosa que levava nas mãos, um grupo de figuras das quais pelo menos uma era perfeitamente reconhecível. – É você, Faiald! – admirou-se Edula. Olhou para o teto oval, cuja confecção parecia perder-se no tempo. – Quantos anos tem este lugar? Voltou-se para ele, surpresa. – Quantos anos você tem? Faiald sorriu sem humor e não respondeu. Seus olhos voltaram-se para o afresco novamente, e sua mão acariciou de leve a superfície de gesso e fibra animal. – O trabalho é de Nacin. Eneias, diante da pintura, estremeceu. – Esse que devia ter sido nosso guia nas montanhas? – O mesmo. – Pois eu acho que não desenhava tão bem assim – resmungou Márcia torcendo o nariz para as obras onde o artista praticamente não utilizara a perspectiva. – Parece um afresco que vi no Museu do Prado, no ano passado – interpôs Cíntia. – Provavelmente, aproveitando o material que tinha a mão e tudo o mais, Nacin resolveu fazer um afresco como os das igrejas pré-românicas – opinou Faiald. – É magnífico! A primeira figura mostrava um grupo, liderado por um homem de óculos. Faiald vinha a seguir, com seu indisfarçável topete ruivo, e ao seu lado caminhava uma bela e diáfana figura vestida com um manto claro. Atrás vinham um guerreiro, outra rapariga, um tipo com uma túnica comprida e por último, o próprio artista, caminhando com uma espécie de tábua, onde ia desenhando um pássaro que voava sobre todos. O trabalho da segunda parede estava muito deteriorado, mas parecia ser que o grupo chegava à uma grande fortaleza no fundo de um vale. Mais adiante, surgia Faiald levando uma tocha e liderando inumeráveis guerreiros através de um túnel que ligava a fortaleza com o exterior. Abaixo dos muros, e muito próximos a eles, havia um acampamento militar deserto. A seguir, os viajantes apareciam cruzando um passo baixo das montanhas Rineve. Era reconhecível o recorte abrupto e afiado dos picos mais altos. A cena era noturna e no canto de baixo, à esquerda, a fortaleza que aparecia no segundo gomo da sala, ardia em espetaculares labaredas. A quinta parede era a mais bem conservada. Nela, a mão hábil de Nacin retratara, numa linguagem ingênua e poética, os portões de Drida. Diante deles, bastante desproporcionais, o grupo de viajantes era recebidos pelo povo da cidadela com grandes festejos. Havia músicos e malabaristas, uns quantos sacerdotes estendendo as mãos numa benção e várias oferendas em forma de arcas repletas de tesouros. A alegria da chegada contrastava violentamente com a imagem seguinte: o grupo, agora liderado por Faiald, fugia de Drida, que estava sendo coberta por uma impressionante nevada. Nas janelas das construções, cenas de lutas sangrentas. O homem que havia liderado o grupo, até então, vinha por último, vertendo lágrimas em abundância. O sétimo painel era uma idílica cena de campo: o grupo comia sobre uma colina, rodeados de flores. O afresco era uma pequena relação da biologia do Tabuleiro. Cíntia conseguiu contar até cinqüenta animaizinhos, entre insetos, aves e pequenos quadrúpedes. Faiald, sorridente, aparecia no meio do grupo segurando o Búzio, e o homem de óculos voltava-lhe ostensivamente as costas. Na imagem seguinte, os sete viajantes chegavam à um monastério, onde eram recebidos por uma sacerdotisa. Neste, quem ia à frente era a figura feminina clara e diáfana que aparecia à direita de Faiald em todos os outros painéis. Desta vez, o Damin surgia à destra da mulher. Do alto do "céu ", pendia uma pedra magnificamente lapidada, suspensa por uma grossa corrente de ouro. De todos, aquele era o único afresco que possuía uma moldura de motivos vegetais, que ressaltava sua importância. A seguir, o grupo aparecia numa cidade enorme, no meio do deserto, rodeada de um cinturão de oásis. No décimo painel, viam-se pobres barracas ao pé de algo imenso e majestoso, que ninguém alcançou compreender o que era e Faiald não esclareceu. O grupo mergulhava no que parecia ser uma parede e dessa vez o último da fila era o desenhista, que se retrasava para traçar um desenho dentro do desenho, mas este já fora devorado pelo tempo. O próximo afresco mostrava o grupo diante de um imenso arco à beira de um abismo. O homem de óculos colocava alguma coisa na própria construção, mas não se via o que era, porque aquela parte da parede estava derruída. Ao pé do desenho se via uma mesa repleta de comida e um regato cristalino. O décimo-segundo afresco havia desaparecido. Através dele podiam ver o horizonte bicolor do deserto do Tabuleiro, um enigma dourado e azul, mudo e implacável. Ao contemplar o deserto, Edula encolheu-se. Pela primeira vez desde que o jogo começara, teve medo de chegar ao final. – Não sabia que o seu grupo era tão grande – comentou Márcia. – Fiquei com a impressão de que era menos gente, quando nos contou a sua história. Faiald voltou-se para ela rapidamente, e a areia deslizou com um chiado para dentro do buraco. – Tínhamos apenas o número suficiente para recolher as chaves do Destino. Foi uma partida muito arriscada. – Entretanto, se vê que todos chegaram ao final sãos e salvos, e com as respectivas chaves – observou César levando o globo de luz para ver melhor o último afresco. – Isso aqui é o Portal das Eras, não é? E a sua chave era o Búzio que Cida encontrou. – Sim, isso mesmo – respondeu Faiald, absorto. – E o que havia no afresco desaparecido? O que aconteceu depois? O ruivo fitou-os quase com raiva e bateu com uma pedra no meio da última obra visível. O estuque seco rachou e alguns pedaços desprenderam-se. – Foi o final do jogo. Uma batalha. Nós perdemos. Nos rendemos. Fim da partida – ele resmungou, irritado e saiu do salão. Os demais se entreolharam preocupados, com exceção de Lúcia, que tinha voltado a agachar-se e ganir como um cachorro faminto. – Por que fico com essa sensação desagradável de que não está dizendo tudo o que sabe? – comentou Edula, inquieta. – É óbvio que no final aconteceu alguma coisa que ele não quer nos contar – deduziu César. – Daria minha mão direita para poder ver o último afresco. Aposto que ia nos esclarecer muitas coisas. – Essas pinturas daqui fazem menção à história que Tharia contou à Cida quando cruzávamos o vale antes das Rineve, não é ? – fez Márcia, apontando para as três paredes onde aparecia a grande fortaleza. – Parece que sim – analisou César. – Vocês acham que Faiald teve alguma coisa que ver com o que passou em na Prisão de Kavaal? E isso aqui em Drida, o que será? César e Edula balançaram a cabeça. – Parece que ele teve um papel importante nos dois episódios, pelas lágrimas do tipo de óculos e porque depois ele dá as costas a Faiald, como se estivessem de mal, um com o outro – concluiu Cezna. – Mas isso não pode ser verdade! A Prisão de Kavaal e Drida eram lendas do povo de Tharia! A História leva muito tempo para transformar-se em lendas e mitos. Além disso, Drida... vocês viram como estava! Se tudo isso aconteceu, quantos séculos terão se passado? Quantos anos tem Faiald? – argumentou a guerreira. – Drida? Olhe bem para o lugar onde estamos, Edula. Veja esse afresco com moldura! A corrente de ouro bem poderia ser a que Cezna encontrou lá fora. E a torre sobre a entrada do monastério... – murmurou César. – Crê que estamos ali? Quero dizer que esse lugar é parte do monastério e que o demais ainda está enterrado na areia? – indagou Eneias, com um estremecimento. – Sim. – Mas isso tudo tem que ter sido feito depois do final do jogo, senão Nacin não poderia saber o que aconteceu diante do Portal das Eras... essa história está muito confusa! – gemeu Cíntia. – Acho que depois do final do primeiro jogo houve alguma coisa terrível... – murmurou César ajeitando os óculos sobre o nariz. – Uma grande modificação no Tabuleiro, e talvez no jogo em si mesmo. Talvez Clara tenha utilizado a oportunidade para melhorá-lo desde o seu ponto de vista, ou para programar outras armadilhas... Em todo o caso, algumas coisas devem ter ficado como eram. Talvez o monastério fosse um desses lugares, quem sabe? Sem a última parede perdemos a mais valiosa das informações que esse lugar poderia nos oferecer. É lamentável. César baixou o globo de luz e as sombras percorreram seu rosto grave. – O nemthru torce os fatos a seu favor – continuou. – Não nos contou a verdadeira história da primeira partida e não quer que perguntemos sobre o primeiro jogo. Talvez ele se culpe pela derrota do grupo. Edula olhou para o chão envergonhada. César a fitou, penalizado. – Inclusive, se quer saber minha opinião, Edula, você não é primeira que se apaixona por ele. Olhe bem os afrescos. Em apenas um deles Faiald não tem ao seu lado direito a mesma mulher. E nesse único, é ele quem aparece do lado direito dela. Pode ser que ele use a mesma tática da irmã: enamorar para conseguir aliados. Exatamente como Clara fez com Cida! – Essa mulher parece levar a roupa de Nesbex – continuou Cíntia. – Se fosse amarelada, e se ela levasse leques, poderia ser a própria Nesbex. Inclusive tem o cabelo penteado como o dela. Os viajantes voltaram-se novamente para o afresco que ela apontava e Cezna concordou: – Cíntia tem razão. Nesse caso... por que Nesbex tratou Faiald tão mal, quando estivemos ali? Por que levava os leques sobre o rosto? Deveria ter ficado feliz de vê-lo, não é ? Poderia ter se juntado ao nosso grupo! – São incógnitas demais, mas, em todo o caso, a resposta não parece ser das mais animadoras – queixou-se César. – Vamos. Todos para fora que manter a luz acesa esta começando a me cansar. – Quero ficar aqui. É fresco – discordou Lúcia. O mago olhou para ela e mordeu as bochechas antes de dizer, entredentes: – Para quem não queria nem entrar... – Ela tem razão! – protestou Márcia. – Se vamos passar todo o dia no deserto, descansando, como disse Faiald, o mais lógico é que aproveitemos a sombra. – Logo que o sol se mover, teremos um pilar de sombra fora daqui. Vamos embora – insistiu o mago, com mais irritação. Súbito, algo escuro e sinuoso saiu do poço e sem maiores delongas, agarrou Lúcia pelo pescoço. A alquimista emitiu um grasnido, quando a coisa levantou-a sobre a cabeça dos demais e sacudiu-a até que o corpo pendeu inerte. Depois puxou-a com violência para dentro do buraco, deixando nas bordas afiadas um pouco da pele dela. Um grito uníssono levantou-se do grupo. Edula jogou-se de bruços no funil de areia, tentando inutilmente alcançar o corpo da Alquimista, mesmo sabendo que já devia estar morta. César a seguiu, atirando para dentro do buraco uma das bolas de fogo. As labaredas explodiram iluminando o interior da abertura por um momento, e os dois recuaram rapidamente, aterrorizados. – Fora! Fora daqui! – berrou a guerreira para o grupo que titubeava entre a sombra e a luz da entrada. Faiald apareceu na abertura. – O que houve? O mago e a moça se fitaram através do vazio sobre o buraco e então ouviram um gorgolejar insano que vinha da escuridão e algo cuspiu a cabeça de Lúcia para longe. O crânio ensangnentado bateu nas paredes como uma bola de pingue-pongue e o Cíntia começou a gritar como uma possessa. – Saiam daí! – ordenou Faiald, puxando a loira para fora da torre. Márcia e Eneias seguiram-na aos tropeços e quando Edula se moveu para imitá-los, um punhado de finos tentáculos emergiu do funil. Vários deles tinham coisas que se pareciam a olhos que se moveram em diferentes direções, demorando-se no mago. – A maldita da sua irmã lia demasiada literatura de terror barato para o meu gosto! – gritou ele para Faiald. Edula sacou a espada e com uma passada limpa, decepou os tentáculos, que esguicharam um líquido verde e malcheiroso. A coisa mergulhou no poço, emitindo um grunhido, que logo se transformou em um guincho. César atirou outra bola de fogo para dentro do buraco. Edula correu para a porta e tropeçou em algo. Olhou para baixo e fitou os olhos aterrorizados do que fora Lúcia. A cabeça fora arrancada do corpo. – Saia, Edula! Fora daqui! – berrou o mago, empurrando-a. Os dois rolaram sobre Faiald e os três afastaram-se o mais que puderam da abertura. Outro punhado de tentáculos, maiores e mais ágeis, emergiu do buraco e dois deles se enterraram no lugar onde estivera Edula. Outros começaram a deslizar pela abertura da saída. César estirou a mão trêmula para a base da torre e o edifício tremeluziu um instante antes de implodir com um ruído vago. Uma nuvem de poeira levantou-se e os três puderam sentiram uma vibração a qual seguiu um som agudo e furioso, logo abaixo deles. – O que era aquilo? – gemeu o ruivo. Edula e César se entreolharam. – Acha que vai conseguir sair? Era enorme! – Pode ter outros buracos além desse. Se tiver, pode ter certeza de que os usará. Não viu os... os... Cristo! Patas, pés, eu que sei o que era aquilo? Olhou para moça pálido. – Vamos embora! – gritou Faiald para os outros três. Márcia, Cíntia e Eneias agarraram as mochilas mais próximas e apressaram-se a pô-las sobre os ombros. A areia abaixo de Edula começou a vibrar com mais força. – Vamos! Vamos! – ela gritou, levantando-se de imediato. Os dois rapazes a seguiram e em poucos minutos, o grupo se afastava apressadamente das ruínas. Caminharam durante um bom tempo, avançando o mais depressa que conseguiam sobre a areia macia, observando constantemente o deserto atrás deles, até que Faiald concordou em parar um pouco. O mago e a guerreira caíram sentados lado a lado, ofegando. – O que havia dentro do buraco? – quis saber Márcia. Edula sacudiu uma negativa com força, os olhos muito arregalados. – Não posso... não posso dizer o que era. Era abominável. Quando fecho os olhos... meu Deus! – Também o vê? – sorriu César, maldoso. – E Lúcia? – gaguejou Cíntia. – Como pudemos fazer isso? Como pudemos deixá-la lá? Edula virou-se para ela, pálida de raiva e asco. – E o que esperava que fizéssemos? Que costurássemos sua cabeça de volta ao corpo? Cíntia encolheu-se com um gemido. – O que vamos fazer agora? – choramingou Márcia. – E se era ela quem devia entregar o Búzio, no final? E como vamos recolher as chaves que faltam? Começou a chorar, assustada. Eneias tentou abraçá-la, mas ela o empurrou para longe. Faiald suspirou e olhou ao redor. Tinha perdido o rumo, claro, mas qualquer direção era boa se punha terra entre eles e a coisa da torre. Quando a noite caísse com todas suas estrelas, poderia dizer com exatidão onde estavam e para onde deviam ir. Resolveu que acampariam ali até o anoitecer. – Nem tudo está perdido – murmurou. – Enquanto vocês estavam dentro da torre encontrei uma mensagem pintada num dos muros. Era do meu tio. Nós ainda tivemos sorte: de acordo com o que ele escreveu, seu grupo perdeu vários homens no mesmo lugar, antes de seguir para o Enigma de Ebadha. Ele e Teodoro levam duas das chaves. Pode ser que ainda tenhamos uma chance. Os viajantes encararam o ruivo em silêncio. – Quem é Teodoro? – indagou César por fim. – Um dos componentes do meu grupo – informou Eneias. – Era o poeta. O Damin levantou-se com um suspiro aliviado. – Alegrem-se, falta somente uma chave para o portal! – anunciou ele. César sentiu o sangue ferver. Levantou-se com ferocidade e golpeou o jovem com violência, derrubando aos seus pés. – Como pode dizer uma coisa dessas? – berrou sacudindo o outro pelo colarinho, golpeando com o punho fechado. – Lúcia foi despedaçada diante dos nossos olhos! Aquela coisa a comeu, entende? Meteu o corpo dela dentro de uma boca enorme e arrancou-lhe cabeça fora como se fosse uma boneca de pano! Entendeu agora? Entendeu? O mago levantou a mão direita envolta em uma aura de fogo e poder. Cíntia começou a ganir e Márcia atirou-se sobre o irmão. – Deixe-o, César! – sussurrou no ouvido dele. – Não faça nada que a gente vá se arrepender depois! O rapaz baixou a mão, o rosto congestionado, umedecido por um suor frio e pegajoso. Lentamente baixou a mão e a cintilância desapareceu de seu punho. – Você é que devia ter estado ali! Você não leva nenhuma chave! Não nos serve de nada! – grunhiu ele para Faiald. O ruivo levantou-se surpreso, e tentou secar o sangue que corria do roso ferido. – Você não se dá conta, não é verdade? – grunhiu, entredentes. – NÃO SABEMOS SE OS JOGADORES MORREM! Pode ser que o que vocês viram não era mais do que um modelo virtual de Lúcia! Será que vou ter de repetir sempre a mesma coisa? Além do mais, eu já empunhei o Búzio em uma partida. Talvez ele ainda esteja com a gente porque talvez eu o possa empunhar de novo, no final! César conseguiu livrar-se dos demais e encarou o ruivo com fúria: – E talvez você esteja errado. Pode ser que você não faça diferença alguma. Pode ser que as mortes sejam reais. Pode ser que quando o jogo acabe nos deparemos com uma casa cheia de cadáveres. O ruivo fungou irritado. A tarde desfazia-se nos tons rosados do crepúsculo.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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