O Jogo no Tabuleiro

- O Nemthru -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capitulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

A Casa de Lícora

 

 

 

11. 

Próximo ao anoitecer, quando a tarde já perdia seu calor, os viajantes pisaram pela primeira vez na areia amarelada do deserto. O grupo parou em uníssono sobre a primeira duna suave e virgem, e contemplou o panorama desolador de Doshapp. Tudo era duas cores, tudo era o azul do céu e o dourado da areia. Tudo, com exceção das sombras onduladas que se alongavam à partir da base dos montes infinitos, infinitas sementes da noite.

– Teremos de nos manter muito alertas. Aqui há poços de areia movediça e outras gracinhas do gênero – adiantou Faiald, secamente. – Hoje, ainda, caminharemos com o que nos resta de luz, mas a partir de amanhã, descansaremos durante o dia e andaremos durante a noite. É mais fresco e não padeceremos de tanta sede.

– Como vamos nos guiar? – preocupou-se Cíntia.

– Pelas estrelas. Relaxe: será mais fácil do que está pensando.

Um suspiro percorreu suas bocas e o vento quente beijou-lhes os lábios. O ruivo farejou o ar.

– Espero que não tenhamos nenhum tipo de surpresinha desagradável para amanhã – sussurrou.

O anoitecer os encontrou longe de onde o deserto tocava o terra fértil dos campos. Apesar dos longos dias de caminhada, em breve sentiram câimbras percorrendo os músculos das pernas, causadas pelo esforço de avançar sobre a superfície arenosa que brilhava quase tanto quanto o sol. Aproveitaram parte da noite para caminhar e finalmente, quando a menor das As-ein nasceu, redonda e cheia, pararam e aproveitaram a luz das luas para armar um parco acampamento com os cobertores. Fez bastante frio, mas perto da madrugada a temperatura subiu sensivelmente. Cíntia, no turno de guarda depois de César, espreguiçou-se, aliviada por parar de tremer.

Pouco antes do amanhecer, um sopro mais forte balançou as tendas, fazendo estalar as pontas soltas, e Eneias, que vigiava o sono dos demais olhou ao redor. No horizonte, à direita, vinda do sul, uma estranha nuvem baixa e cor de açafrão, mesclava céu e terra. Avançava rapidamente, recheada de relâmpagos, mas parecia disposta a passar longe do grupo. Quando o trovador se deu conta do que estava acontecendo, o sistema frontal da tempestade de areia já estava sobre eles com toda sua violência.

– Acordem! Faiald! – gritou o trovador sacudindo-o, mas o ruivo já estava meio desperto e o empurrou para longe.

– Arrumem tudo em trouxas, rápido, rápido!– comandou o Damin, passando um pano em torno da boca e do nariz. Obrigou Márcia a proteger-se assim também, e agarrou Cezna antes que o sopro o levasse para longe. Quando estavam todos juntos, comandou-os até o alto de uma duna.

– Estaremos muito expostos – protestou Edula.

– Deitem-se no chão! É perigoso ficar na depressão! Poderíamos ser soterrados antes de nos darmos conta!

Um trovão ecoou ponteando suas palavras. Não se via nada. O grupo arrastou-se de quatro e depois os viajantes deitaram-se, oferecendo ao sopro furioso, apenas suas cabeças envoltas em panos. Os cobertores já haviam desaparecido.

Durante várias horas, o grupo permaneceu à mercê do assovio imperioso do vento. Periodicamente, estimulados por Faiald, moviam-se, para livrar-se das pequenas dunas que iam se formando ao seu redor. Finalmente, o assovio do vento começou a diminuir e mais ou menos na metade da tarde a tempestade perdeu força e seguiu seu caminho.

O primeiro a sentar-se, sacudindo-se como um cachorro, foi Eneias. Cuspiu e espirrou continuamente.

– Acho que tenho areia dentro ouvido – resmungou Márcia.

– Não seria de se admirar.

– Meu Deus!

O grupo olhou para Edula, e depois seu espanto voltou-se para as paredes e o teto derruído de uma pequena construção que o vento desenterrara.

– O que é isso? – quis saber Cíntia aproximando-se cautelosa. Os outros avançaram devagar e rodearam a ruína. Era uma construção cilíndrica, quiçá parte de uma torre. Ao redor dela, algumas paredes de grandes blocos de pedra clara se deixavam ver aqui e ali. Cezna sobrevoou a ruína. Depois achou algo meio enterrado no solo e tentou puxá-lo para fora da areia. Os demais aproximaram-se e César e Faiald o ajudaram. Era uma corrente grossa e, o mago se deu conta em seguida, de ouro puro.

– Que maravilha, o que terá sido isso? – murmurou o mago, encantado.

– Tem uma entrada deste lado – anunciou Edula perto da construção.

O grupo alcançou-a sob uma abertura provocada pela queda de uma das paredes. Dentro estava escuro e os viajantes titubearam antes de se decidir.

– Eu não quero entrar aí – entoou Lúcia, medrosa.

– Vamos conseguir um pouco de luz e já veremos se vale a pena entrar – disse César ignorando-a e acendendo em suas mãos uma bola luminosa. A claridade desfez as sombras alegremente e os viajantes entraram atrás do mago, cheios de curiosidade. Lúcia ficou ganindo junto a abertura, mas a solidão do deserto lhe dava mais medo do que o risco acompanhado e terminou seguindo-os.

O interior da construção era composto por onze paredes retas que formavam um pequeno salão de teto alto. A décima-segunda era a parede ruída pela qual haviam entrado. O solo traiçoeiro era um funil de areia solta. Os grãos dourados se amontoavam junto às paredes e formavam uma pendente perigosa que levava ao centro da sala onde havia um buraco. Ninguém se atreveu à baixar até ele, porque a areia deslizava debaixo de seus pés, em direção ao pequeno poço ameaçando arrastá-los para a escuridão. O cheiro que vinha dali era seco e desagradável.

– Será que há algum "morador" aí? – gaguejou Cíntia.

– Talvez. Faremos uma vistoria rápida e sairemos em seguida. Esse lugar não me inspira a menor confiança – comentou Faiald.

– Vejam isto! – chamou César, examinando uma das paredes. Havia grandes afrescos em branco, negro e vermelho em todas elas. Os demais se reuniam em torno do mago e viram, sob a luz mortiça da bola luminosa que levava nas mãos, um grupo de figuras das quais pelo menos uma era perfeitamente reconhecível.

– É você, Faiald! – admirou-se Edula. Olhou para o teto oval, cuja confecção parecia perder-se no tempo. – Quantos anos tem este lugar?

Voltou-se para ele, surpresa.

– Quantos anos você tem?

Faiald sorriu sem humor e não respondeu. Seus olhos voltaram-se para o afresco novamente, e sua mão acariciou de leve a superfície de gesso e fibra animal.

– O trabalho é de Nacin.

Eneias, diante da pintura, estremeceu.

– Esse que devia ter sido nosso guia nas montanhas?

– O mesmo.

– Pois eu acho que não desenhava tão bem assim – resmungou Márcia torcendo o nariz para as obras onde o artista praticamente não utilizara a perspectiva.

– Parece um afresco que vi no Museu do Prado, no ano passado – interpôs Cíntia.

– Provavelmente, aproveitando o material que tinha a mão e tudo o mais, Nacin resolveu fazer um afresco como os das igrejas pré-românicas – opinou Faiald. – É magnífico!

A primeira figura mostrava um grupo, liderado por um homem de óculos. Faiald vinha a seguir, com seu indisfarçável topete ruivo, e ao seu lado caminhava uma bela e diáfana figura vestida com um manto claro. Atrás vinham um guerreiro, outra rapariga, um tipo com uma túnica comprida e por último, o próprio artista, caminhando com uma espécie de tábua, onde ia desenhando um pássaro que voava sobre todos.

O trabalho da segunda parede estava muito deteriorado, mas parecia ser que o grupo chegava à uma grande fortaleza no fundo de um vale. Mais adiante, surgia Faiald levando uma tocha e liderando inumeráveis guerreiros através de um túnel que ligava a fortaleza com o exterior. Abaixo dos muros, e muito próximos a eles, havia um acampamento militar deserto. A seguir, os viajantes apareciam cruzando um passo baixo das montanhas Rineve. Era reconhecível o recorte abrupto e afiado dos picos mais altos. A cena era noturna e no canto de baixo, à esquerda, a fortaleza que aparecia no segundo gomo da sala, ardia em espetaculares labaredas.

A quinta parede era a mais bem conservada. Nela, a mão hábil de Nacin retratara, numa linguagem ingênua e poética, os portões de Drida. Diante deles, bastante desproporcionais, o grupo de viajantes era recebidos pelo povo da cidadela com grandes festejos. Havia músicos e malabaristas, uns quantos sacerdotes estendendo as mãos numa benção e várias oferendas em forma de arcas repletas de tesouros. A alegria da chegada contrastava violentamente com a imagem seguinte: o grupo, agora liderado por Faiald, fugia de Drida, que estava sendo coberta por uma impressionante nevada. Nas janelas das construções, cenas de lutas sangrentas. O homem que havia liderado o grupo, até então, vinha por último, vertendo lágrimas em abundância.

O sétimo painel era uma idílica cena de campo: o grupo comia sobre uma colina, rodeados de flores. O afresco era uma pequena relação da biologia do Tabuleiro. Cíntia conseguiu contar até cinqüenta animaizinhos, entre insetos, aves e pequenos quadrúpedes. Faiald, sorridente, aparecia no meio do grupo segurando o Búzio, e o homem de óculos voltava-lhe ostensivamente as costas.

Na imagem seguinte, os sete viajantes chegavam à um monastério, onde eram recebidos por uma sacerdotisa. Neste, quem ia à frente era a figura feminina clara e diáfana que aparecia à direita de Faiald em todos os outros painéis. Desta vez, o Damin surgia à destra da mulher. Do alto do "céu ", pendia uma pedra magnificamente lapidada, suspensa por uma grossa corrente de ouro. De todos, aquele era o único afresco que possuía uma moldura de motivos vegetais, que ressaltava sua importância. A seguir, o grupo aparecia numa cidade enorme, no meio do deserto, rodeada de um cinturão de oásis. No décimo painel, viam-se pobres barracas ao pé de algo imenso e majestoso, que ninguém alcançou compreender o que era e Faiald não esclareceu. O grupo mergulhava no que parecia ser uma parede e dessa vez o último da fila era o desenhista, que se retrasava para traçar um desenho dentro do desenho, mas este já fora devorado pelo tempo. O próximo afresco mostrava o grupo diante de um imenso arco à beira de um abismo. O homem de óculos colocava alguma coisa na própria construção, mas não se via o que era, porque aquela parte da parede estava derruída. Ao pé do desenho se via uma mesa repleta de comida e um regato cristalino.

O décimo-segundo afresco havia desaparecido. Através dele podiam ver o horizonte bicolor do deserto do Tabuleiro, um enigma dourado e azul, mudo e implacável.

Ao contemplar o deserto, Edula encolheu-se. Pela primeira vez desde que o jogo começara, teve medo de chegar ao final.

– Não sabia que o seu grupo era tão grande – comentou Márcia. – Fiquei com a impressão de que era menos gente, quando nos contou a sua história.

Faiald voltou-se para ela rapidamente, e a areia deslizou com um chiado para dentro do buraco.

– Tínhamos apenas o número suficiente para recolher as chaves do Destino. Foi uma partida muito arriscada.

– Entretanto, se vê que todos chegaram ao final sãos e salvos, e com as respectivas chaves – observou César levando o globo de luz para ver melhor o último afresco. – Isso aqui é o Portal das Eras, não é? E a sua chave era o Búzio que Cida encontrou.

– Sim, isso mesmo – respondeu Faiald, absorto.

– E o que havia no afresco desaparecido? O que aconteceu depois?

O ruivo fitou-os quase com raiva e bateu com uma pedra no meio da última obra visível. O estuque seco rachou e alguns pedaços desprenderam-se.

– Foi o final do jogo. Uma batalha. Nós perdemos. Nos rendemos. Fim da partida – ele resmungou, irritado e saiu do salão.

Os demais se entreolharam preocupados, com exceção de Lúcia, que tinha voltado a agachar-se e ganir como um cachorro faminto.

– Por que fico com essa sensação desagradável de que não está dizendo tudo o que sabe? – comentou Edula, inquieta.

– É óbvio que no final aconteceu alguma coisa que ele não quer nos contar – deduziu César. – Daria minha mão direita para poder ver o último afresco. Aposto que ia nos esclarecer muitas coisas.

– Essas pinturas daqui fazem menção à história que Tharia contou à Cida quando cruzávamos o vale antes das Rineve, não é ? – fez Márcia, apontando para as três paredes onde aparecia a grande fortaleza.

– Parece que sim – analisou César.

– Vocês acham que Faiald teve alguma coisa que ver com o que passou em na Prisão de Kavaal? E isso aqui em Drida, o que será?

César e Edula balançaram a cabeça.

– Parece que ele teve um papel importante nos dois episódios, pelas lágrimas do tipo de óculos e porque depois ele dá as costas a Faiald, como se estivessem de mal, um com o outro – concluiu Cezna.

– Mas isso não pode ser verdade! A Prisão de Kavaal e Drida eram lendas do povo de Tharia! A História leva muito tempo para transformar-se em lendas e mitos. Além disso, Drida... vocês viram como estava! Se tudo isso aconteceu, quantos séculos terão se passado? Quantos anos tem Faiald? – argumentou a guerreira.

– Drida? Olhe bem para o lugar onde estamos, Edula. Veja esse afresco com moldura! A corrente de ouro bem poderia ser a que Cezna encontrou lá fora. E a torre sobre a entrada do monastério... – murmurou César.

– Crê que estamos ali? Quero dizer que esse lugar é parte do monastério e que o demais ainda está enterrado na areia? – indagou Eneias, com um estremecimento.

– Sim.

– Mas isso tudo tem que ter sido feito depois do final do jogo, senão Nacin não poderia saber o que aconteceu diante do Portal das Eras... essa história está muito confusa! – gemeu Cíntia.

– Acho que depois do final do primeiro jogo houve alguma coisa terrível... – murmurou César ajeitando os óculos sobre o nariz. – Uma grande modificação no Tabuleiro, e talvez no jogo em si mesmo. Talvez Clara tenha utilizado a oportunidade para melhorá-lo desde o seu ponto de vista, ou para programar outras armadilhas... Em todo o caso, algumas coisas devem ter ficado como eram. Talvez o monastério fosse um desses lugares, quem sabe? Sem a última parede perdemos a mais valiosa das informações que esse lugar poderia nos oferecer. É lamentável.

César baixou o globo de luz e as sombras percorreram seu rosto grave.

– O nemthru torce os fatos a seu favor – continuou. – Não nos contou a verdadeira história da primeira partida e não quer que perguntemos sobre o primeiro jogo. Talvez ele se culpe pela derrota do grupo.

Edula olhou para o chão envergonhada. César a fitou, penalizado.

– Inclusive, se quer saber minha opinião, Edula, você não é primeira que se apaixona por ele. Olhe bem os afrescos. Em apenas um deles Faiald não tem ao seu lado direito a mesma mulher. E nesse único, é ele quem aparece do lado direito dela. Pode ser que ele use a mesma tática da irmã: enamorar para conseguir aliados. Exatamente como Clara fez com Cida!

– Essa mulher parece levar a roupa de Nesbex – continuou Cíntia. – Se fosse amarelada, e se ela levasse leques, poderia ser a própria Nesbex. Inclusive tem o cabelo penteado como o dela.

Os viajantes voltaram-se novamente para o afresco que ela apontava e Cezna concordou:

– Cíntia tem razão. Nesse caso... por que Nesbex tratou Faiald tão mal, quando estivemos ali? Por que levava os leques sobre o rosto? Deveria ter ficado feliz de vê-lo, não é ? Poderia ter se juntado ao nosso grupo!

– São incógnitas demais, mas, em todo o caso, a resposta não parece ser das mais animadoras – queixou-se César. – Vamos. Todos para fora que manter a luz acesa esta começando a me cansar.

– Quero ficar aqui. É fresco – discordou Lúcia.

O mago olhou para ela e mordeu as bochechas antes de dizer, entredentes:

– Para quem não queria nem entrar...

– Ela tem razão! – protestou Márcia. – Se vamos passar todo o dia no deserto, descansando, como disse Faiald, o mais lógico é que aproveitemos a sombra.

– Logo que o sol se mover, teremos um pilar de sombra fora daqui. Vamos embora – insistiu o mago, com mais irritação.

Súbito, algo escuro e sinuoso saiu do poço e sem maiores delongas, agarrou Lúcia pelo pescoço. A alquimista emitiu um grasnido, quando a coisa levantou-a sobre a cabeça dos demais e sacudiu-a até que o corpo pendeu inerte. Depois puxou-a com violência para dentro do buraco, deixando nas bordas afiadas um pouco da pele dela.

Um grito uníssono levantou-se do grupo. Edula jogou-se de bruços no funil de areia, tentando inutilmente alcançar o corpo da Alquimista, mesmo sabendo que já devia estar morta. César a seguiu, atirando para dentro do buraco uma das bolas de fogo. As labaredas explodiram iluminando o interior da abertura por um momento, e os dois recuaram rapidamente, aterrorizados.

– Fora! Fora daqui! – berrou a guerreira para o grupo que titubeava entre a sombra e a luz da entrada. Faiald apareceu na abertura.

– O que houve?

O mago e a moça se fitaram através do vazio sobre o buraco e então ouviram um gorgolejar insano que vinha da escuridão e algo cuspiu a cabeça de Lúcia para longe. O crânio ensangnentado bateu nas paredes como uma bola de pingue-pongue e o Cíntia começou a gritar como uma possessa.

– Saiam daí! – ordenou Faiald, puxando a loira para fora da torre. Márcia e Eneias seguiram-na aos tropeços e quando Edula se moveu para imitá-los, um punhado de finos tentáculos emergiu do funil. Vários deles tinham coisas que se pareciam a olhos que se moveram em diferentes direções, demorando-se no mago.

– A maldita da sua irmã lia demasiada literatura de terror barato para o meu gosto! – gritou ele para Faiald. Edula sacou a espada e com uma passada limpa, decepou os tentáculos, que esguicharam um líquido verde e malcheiroso. A coisa mergulhou no poço, emitindo um grunhido, que logo se transformou em um guincho. César atirou outra bola de fogo para dentro do buraco. Edula correu para a porta e tropeçou em algo. Olhou para baixo e fitou os olhos aterrorizados do que fora Lúcia. A cabeça fora arrancada do corpo.

– Saia, Edula! Fora daqui! – berrou o mago, empurrando-a. Os dois rolaram sobre Faiald e os três afastaram-se o mais que puderam da abertura. Outro punhado de tentáculos, maiores e mais ágeis, emergiu do buraco e dois deles se enterraram no lugar onde estivera Edula. Outros começaram a deslizar pela abertura da saída. César estirou a mão trêmula para a base da torre e o edifício tremeluziu um instante antes de implodir com um ruído vago. Uma nuvem de poeira levantou-se e os três puderam sentiram uma vibração a qual seguiu um som agudo e furioso, logo abaixo deles.

– O que era aquilo? – gemeu o ruivo. Edula e César se entreolharam.

– Acha que vai conseguir sair? Era enorme!

– Pode ter outros buracos além desse. Se tiver, pode ter certeza de que os usará. Não viu os... os... Cristo! Patas, pés, eu que sei o que era aquilo?

Olhou para moça pálido.

– Vamos embora! – gritou Faiald para os outros três. Márcia, Cíntia e Eneias agarraram as mochilas mais próximas e apressaram-se a pô-las sobre os ombros. A areia abaixo de Edula começou a vibrar com mais força.

– Vamos! Vamos! – ela gritou, levantando-se de imediato. Os dois rapazes a seguiram e em poucos minutos, o grupo se afastava apressadamente das ruínas.

Caminharam durante um bom tempo, avançando o mais depressa que conseguiam sobre a areia macia, observando constantemente o deserto atrás deles, até que Faiald concordou em parar um pouco. O mago e a guerreira caíram sentados lado a lado, ofegando.

– O que havia dentro do buraco? – quis saber Márcia.

Edula sacudiu uma negativa com força, os olhos muito arregalados.

– Não posso... não posso dizer o que era. Era abominável. Quando fecho os olhos... meu Deus!

– Também o vê? – sorriu César, maldoso.

– E Lúcia? – gaguejou Cíntia. – Como pudemos fazer isso? Como pudemos deixá-la lá?

Edula virou-se para ela, pálida de raiva e asco.

– E o que esperava que fizéssemos? Que costurássemos sua cabeça de volta ao corpo?

Cíntia encolheu-se com um gemido.

– O que vamos fazer agora? – choramingou Márcia. – E se era ela quem devia entregar o Búzio, no final? E como vamos recolher as chaves que faltam?

Começou a chorar, assustada. Eneias tentou abraçá-la, mas ela o empurrou para longe. Faiald suspirou e olhou ao redor. Tinha perdido o rumo, claro, mas qualquer direção era boa se punha terra entre eles e a coisa da torre. Quando a noite caísse com todas suas estrelas, poderia dizer com exatidão onde estavam e para onde deviam ir. Resolveu que acampariam ali até o anoitecer.

– Nem tudo está perdido – murmurou. – Enquanto vocês estavam dentro da torre encontrei uma mensagem pintada num dos muros. Era do meu tio. Nós ainda tivemos sorte: de acordo com o que ele escreveu, seu grupo perdeu vários homens no mesmo lugar, antes de seguir para o Enigma de Ebadha. Ele e Teodoro levam duas das chaves. Pode ser que ainda tenhamos uma chance.

Os viajantes encararam o ruivo em silêncio.

– Quem é Teodoro? – indagou César por fim.

– Um dos componentes do meu grupo – informou Eneias. – Era o poeta.

O Damin levantou-se com um suspiro aliviado.

– Alegrem-se, falta somente uma chave para o portal! – anunciou ele.

César sentiu o sangue ferver. Levantou-se com ferocidade e golpeou o jovem com violência, derrubando aos seus pés.

– Como pode dizer uma coisa dessas? – berrou sacudindo o outro pelo colarinho, golpeando com o punho fechado. – Lúcia foi despedaçada diante dos nossos olhos! Aquela coisa a comeu, entende? Meteu o corpo dela dentro de uma boca enorme e arrancou-lhe cabeça fora como se fosse uma boneca de pano! Entendeu agora?  Entendeu?

O mago levantou a mão direita envolta em uma aura de fogo e poder. Cíntia começou a ganir e Márcia atirou-se sobre o irmão.

– Deixe-o, César! – sussurrou no ouvido dele. – Não faça nada que a gente vá se arrepender depois!

O rapaz baixou a mão, o rosto congestionado, umedecido por um suor frio e pegajoso. Lentamente baixou a mão e a cintilância desapareceu de seu punho.

– Você é que devia ter estado ali! Você não leva nenhuma chave! Não nos serve de nada! – grunhiu ele para Faiald. O ruivo levantou-se surpreso, e tentou secar o sangue que corria do roso ferido.

– Você não se dá conta, não é verdade? – grunhiu, entredentes. – NÃO SABEMOS SE OS JOGADORES MORREM! Pode ser que o que vocês viram não era mais do que um modelo virtual de Lúcia! Será que vou ter de repetir sempre a mesma coisa? Além do mais, eu já empunhei o Búzio em uma partida. Talvez ele ainda esteja com a gente porque talvez eu o possa empunhar de novo, no final!

César conseguiu livrar-se dos demais e encarou o ruivo com fúria:

– E talvez você esteja errado. Pode ser que você não faça diferença alguma. Pode ser que as mortes sejam reais. Pode ser que quando o jogo acabe nos deparemos com uma casa cheia de cadáveres.

O ruivo fungou irritado.

A tarde desfazia-se nos tons rosados do crepúsculo.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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