O Jogo no Tabuleiro

- O Nemthru -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capitulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

A Casa de Lícora

 

 

 

12. 

– Fazemos um alto! – ordenou Faiald sobre uma duna. O grupo parou ao redor dele, arquejante, e alguns  sentaram-se na areia fria. A noite caíra rapidamente e eles estavam caminhando desde várias horas. Num dos horizontes vinha nascendo uma das luas. No outro lado, o pequeno minguante da menor delas já alcançava a unha crescente maior, que flutuava sobre eles.

– Aí estão – observou Faiald. – Quando a última das lua nascer, veremos o fenômeno que lhes dá nome: as três bailarinas.

Olhou para grupo silencioso e suspirou.

– Não que vocês estejam interessados nisso, não é?

– A arte virtual deixou de ter atrativos para mim – resmungou Cíntia passando por ele.

Já seguiam há dois dias a rotina de andar durante a noite e descansar em tendas improvisadas com os mantos durante as horas em que o sol castigava a terra árida, imersos na imensidão triste e vazia. Nada havia ao seu redor, senão areia, estrelas e muito cansaço. A temperatura, à noite, caía vertiginosamente, e a verdade é que caminhar era bom, porque pelo menos a atividade física os mantinha um pouco aquecidos.

Ao fim do terceiro dia, quando se preparam para partir viram um brilho constante ao sul de sua posição. A princípio, pensaram que era alguma miragem mas, depois, quando a menor das As-Ein iluminou parcamente o deserto, o brilho destelhou outra vez sobre as dunas do deserto azulado.

– O que será? – perguntou Cíntia. Edula, ao seu lado, piscou os olhos para a escuridão do horizonte e depois virou-se de costas para ela, fitando longamente Faiald, que vinha subindo a encosta arenosa com dificuldade.

– Alguém tem alguma ideia de onde estamos? – perguntou.

– Na direção do Labirinto de Ebadha, espero – ele murmurou. Pararam ambos sobre a duna, observando os arredores. – Está vendo aquela estrela? As fadas chamam-na "a abelha". Descreve um movimento de vai e vem, entre o pequeno agrupamento de cinco estrelas, próximo ao horizonte, também chamada "a colméia", e este gigantesco pentágono acima de nós.

– Que pentágono? – perguntou Cíntia torcendo o nariz.

– Está um pouco desencaixado, é verdade – respondeu o Damin, encolhendo os ombros, satisfeito por conseguir quebrar o gelo. – Não importa. O que quero dizer é que o movimento da "abelha", que leva três meses para ir até a "colméia", delimita claramente a direção à seguir: sempre assinala o sul.

Olhou ao redor.

– Ali, estão vendo? – perguntou, apontando com o queixo para a formação rochosa que se levantava à sua esquerda e que mal se via na escuridão. – É a torre de Perian. Estamos junto à Cidade Perdida.

– Para mim é apenas um amontoado de pedras sem graça – replicou Cíntia.

– E aquilo, o que é ? – resmungou Cezna, sentado no ombro do mago.

A tênue luminosidade oscilava logo à frente. Edula franziu o cenho. Faiald balançou a cabeça.

– Podem ser... não sei. Att-manies, eu acho – ele disse pensativo. – Uma tribo de nômades do deserto, mas eu não sabia que viajavam durante a noite.

– Seja o que for, está bastante apressado. Vai na mesma direção que nós, mas duvido que os alcancemos – disse Edula, tranqüila.

– De qualquer maneira será melhor nos mantermos longe da Cidade Perdida – observou Faiald, distraído. – Pode ser que o povo de Perian ainda viva ali.

– O povo de Perian? Quem são eles? – quis saber Edula, franzindo a sobrancelha.

O ruivo sobressaltou-se e amaldiçoou sua língua grande em toli-ilía, o dialeto das fadas.

– Gente do deserto. Gente ruim. Vamos embora.

Já era quase madrugada quando o grupo atingiu um planalto agreste, cujo solo endurecido apresentava profundas fendas. A desaparição da areia foi recebida com alívio e o grupo avançou mais depressa. Quando o dia nasceu, estranhamente nublado, acamparam junto ao final da meseta, que contava com várias dezenas de metros de altura. O vento soprava com força e nuvens cobriam a Cidade Perdida que tinham deixado atrás de si.

– Espero que não chova, senão vamos ter lama por toda parte – murmurou Cíntia, quando a despertaram para seu turno de guarda. Antes que chegasse o momento de Eneias rendê-la, entretanto, as primeiras gotas se fizeram sentir. Logo desabava um aguaceiro que formou um lençol de água sobre a terra ressecada. A mercadora praguejou como um estivador e encolheu-se o mais possível debaixo do seu manto. Não demorou muito e estavam todos despertos e molhados. Pouco depois, a chuva parou e o sol espiou entre os cúmulos que se desgarravam. O céu abriu e a água parada começou a evaporar.

– Que nojo – queixou-se Márcia. – Me sinto como um pedaço de carne defumada.

– Na verdade, não cheiramos muito diferente – riu César.

– O que você está espiando? – interessou-se Cezna aproximando-se de Edula, que examinava o horizonte com uma mão sobre os olhos.

– Aí vêm alguém.

O grupo todo se levantou e olhou na direção em que ela vigiava. Em breve, duas figuras se destacaram, caminhando na direção deles.

Quando os dois viajantes se aproximaram mais, houve um momento de desconcerto. A dupla parou, inquieta, ao alcance de um grito e Faiald deu alguns passos na direção deles. Depois voltou-se para seus companheiros com um imenso sorriso.

– É meu tio! É Daniel!

Os demais piscaram aturdidos enquanto o ruivo caminhava decidido na direção dos recém-chegados. Contudo, o homem mais baixo de cor cetrina, que levava um par de óculos de armação dourada, permaneceu onde estava e quando o sobrinho chegou perto, estendeu a mão num cumprimento frio.

O outro viajante abanou alegremente e caminhou depressa para eles. Era um sujeito alto e delgado, negro como ébano. Abraçou o trovador com entusiasmo.

– Cara! Como está você ? – perguntou, alegre. Levava uma mochila nas costas e suas roupas ensopadas desprendiam vapor e um cheiro almiscarado.

– Olá Teo. Quanto tempo. Não esperava ver você outra vez – murmurou Eneias desconfortável. Deu-se conta do que tinha dito e tentou explicar-se com monossílabos gaguejados.

– Deixe disso! – riu o poeta. – Sei muito bem o que você quer dizer. Tampouco eu esperava vê-lo outra vez, e quanto mais no meio deste nada! A última vez que nos vimos foi em Arrelipe!

– Que tal foi a sua... viagem? – murmurou o jovem, nervoso, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra e roendo a unha do dedo mindinho.

– Maravilhosa! Imagine que fui até a Floresta de Ujier e, rapaz, eu os vi! Vi com esses olhos que a terra há de comer.

– Viu, o quê ? – indagou o trovador, coçando o nariz.

– Os unicórnios!

Eneias baixou a mão e piscou incrédulo por um instante. A palavra "impossível" brincou por um momento em seus lábios, mas a reteve a tempo de não dizer uma tolice.

– Unicórnios? – intrometeu-se Márcia. O recém chegado voltou-se para ela e dedicou-lhe um olhar longo e interessado. Quando compreendeu que Eneias não ia apresentá-los, perguntou:

– Muito prazer, meu nome é Teodoro. Sou o Poeta, um jogador. E você, quem é ?

O trovador sorriu amarelo e nomeou a irmã do Mago. Depois, viu-se obrigado a apresentar todo mundo e Teodoro cumprimentou-os afetuosamente, inclinando levemente o tronco diante de cada um. Depois, quando Daniel e Faiald aproximaram-se, encarregou-se ele mesmo de apresentá-los ao tio do jovem. E quando o homem apresentou o sobrinho, Teodoro imediatamente fez o Gesto na direção do ruivo, cheio de respeito. Os companheiros do Damin o observaram, surpresos.

– Ah, me poupe! – resmungou Faiald na surdina. – Somos jogadores, eu e você...

– Me permita! – insistiu o jovem, interrompendo. – Seu tio me contou tudo. Dificilmente poderei me expressar, logo eu!

Ele riu, constrangido e satisfeito e comentou, girando ao redor de si mesmo com os braços abertos:

– A mente humana não é, simplesmente, a única coisa realmente livre no Universo?

Faiald sorriu, um pouco constrangido e Teodoro voltou-se para ele, novamente:

– Asseguro-lhe, Felipe: é uma honra.

– Felipe? O nome dele é Faiald! – protestou Cíntia, aborrecida. Teodoro voltou-se para ela, depois consultou Daniel com um olhar. O médico balançou a cabeça.

– A saudação devia ser para Clara. Tudo foi criado por ela, afinal de contas. Ela é a possibilitadora – interferiu Faiald dando de ombros. Teodoro fez um gesto matreiro e comentou, divertido:

– Ela criou o softwere. Mas o hardwere...

– Vamos mudar de assunto? – pediu o ruivo.

O poeta oscilou sobre os pés, as mãos nas costas, pensativo.

– Mesmo assim...

– Eles levavam a luz que vimos ontem a noite. Devemos ter passado por ambos depois de chegar a esse planalto – informou Faiald cortando o assunto completamente.

– Sem dúvida, anda-se bem mais rápido sobre o solo duro do que subindo e baixando dunas de areia – concordou Teodoro resignado. – Se bem que tínhamos mais do que pressa, ontem pela noite.

– O que aconteceu? – interessou-se Edula.

– Tivemos um mau encontro na Cidade Perdida – resmungou Daniel.– Perian não perdoodeu o primeiro jogo.

Os outros viajantes entreolharam-se e César voltou-se para a palidez de Faiald.

– Ah, sim: e quem é Perian afinal de contas? Ele jogou a primeira partida? – perguntou.

Daniel olhou para o sobrinho por um longo instante.

– Não lhes contou sobre o primeiro jogo?

– Claro que sim – respondeu o ruivo. – Mas não creio que tenha informado a respeito dos nomes de todos os jogadores. Para quê ?

Houve um momento de silêncio.

– Sim, Faiald, para quê ? – repetiu o homem sem expressão alguma. Depois voltou-se aos demais jogadores: – Perian era um dos componentes da primeira expedição, assim como Faiald, eu, uma jovem chamada Ana, e um desenhista que se fazia chamar Nacin. Também estavam Ramón, e uma maga, que assumiu o nome de Nesbex. Ah, já vejo que os de Nesbex e Nacin lhes soa familiar.

Ajeitou os óculos e fitou o horizonte:

– Antes de nos lançarmos à estrada, éramos oito pessoas. A cada passo, um novo deslumbramento. Era magnífico. Ainda é. Às vezes paro para pensar no que é isso tudo e estremeço.

Cíntia fungou e franziu a testa.

– Espere um momento aí...

Todos se voltaram para ela.

– Eu só contei sete pessoas naqueles desenhos que encontramos na construção lá trás –  continuou a moça, para surpresa de todos. – Havia Faiald e a moça que achamos ser Nesbex. Tinha também outra garota, um sujeito metido a guerreiro, um cara com um vestido branco, o desenhista e um sujeito de óculos que, se isso tudo tiver algum sentido, deve ser o senhor mesmo. Sete pessoas. E Faiald mesmo nos disse que só tinha um número certo de jogadores para cada chave e que por isso a partida tinha sido arriscada. São sete chaves: eram sete jogadores. Sete, não oito.

Voltou-se para Daniel e esperou. O homem sorriu um pouco.

– Sim, minha cara, você tem razão. É que no início nós não tínhamos a intenção de jogar. Ficamos na floresta aproveitando a interface, encantados, esperando que Clara se sentisse entediada e desligasse o programa. O caso é que ela  ela aborreceu-se: ordenou a um urso que devorasse um de nós. O jovem se chamava Lucas. Era o oitavo jogador.

– Já discutimos isso antes! –  interveio o ruivo. – Ninguém teve culpa de que Lucas fosse um idiota rematado e se metesse no covil do bicho... e isso não significa que o urso tivesse sido enviado por Clara para nos forças a fazer coisa alguma!

– Lucas não era um idiota! Ele foi separado de nós pelo urso, como um bezerro da manada. Entrou na gruta porque achou que estaria a salvo!

– O que prova que era um idiota – insistiu Faiald. – Quando o urso apareceu, todo mundo subiu numa árvore, menos ele. Depois você veio com essa balela e nos fez entrar na estrada e jogar o Jogo. Foi você quem deu a partida nesse pesadelo, porque estava dormindo com o garoto e está ansioso para desligar o Jogo e voltar a vê-lo! Se fosse por mim, estaríamos dando risada até hoje, lá no Planalto, todos juntos! Não venha me dizer que não tem nada para fazer por lá!

Daniel fixou um olhar frio e inexpressivo no sobrinho por um longo silêncio antes de comentar em voz baixa:

– Lucas e eu nos amávamos. Isso vai um pouco além do "estávamos dormindo juntos", mas eu não sei se você consegue perceber a diferença.

Voltou-se para o grupo.

– Na realidade, não sabemos o que acontece realmente com os jogadores "mortos". Provavelmente, quando o jogo acabar, descobriremos que estamos todos bem. Clara, afinal de contas, não é uma assassina. Eu realmente espero voltar a ver Lucas um dia. Estou ansioso por isso. Tenho esperado por esse dia há muito tempo.

– Ela não é uma assassina, mas é uma deusa, neste lugar. Poderes ilimitados, esse tipo de coisa. Mesmo que tenha de manter o programa que criou, bem que podia dar uma dica a respeito do destino dos jogadores, não?  – observou César, cortante. Daniel olhou para ele, depois sorriu.

– E correr o risco de ficar sem jogadores pra terminar a partida com uma batalha épica? Não faz o estilo dela. Em todo o caso, Clara é uma boa deusa, se me permite o comentário, uma deusa generosa, apesar de todos os pesares.

César calou-se e olhou para o horizonte, pensando em Lúcia.

– De qualquer maneira – prosseguiu Daniel – quando Lucas morreu, nos demos conta de que Clara não estava brincando e que para sair do Tabuleiro, teríamos que fazer o que ela queria. Então nos pusemos à caminho. E que partida foi essa!

O Damin fungou com desprezo e olhou para longe. A medida em que o homem seguia seu relato, o grupo foi se voltando para o ruivo, incrédulo.

– A primeira Arrelipe – não essa que vocês conheceram – era uma reunião de duas ou três casas ao pé de um castelo de madeira, uma sentinela avançada de Kavaal, o mais importante dos reinos que houve nessas terras. Nos envolvemos numa guerra entre o senhor de Arrelipe e Kavaal. O dono do burgo aliou-se a feiticeiros exilados de Periandra e mercadores, e antes que nos déssemos conta, estávamos presos dentro da cidadela capital, em estado de sítio. O maior Estado deste lugar... e éramos prisioneiros de seus inimigos. Parece que Faiald se empenhou muito na queda do reino, não é verdade, Damin?

Faiald não disse nada.

– Saímos dali e nossa próxima parada foi a espetacular Drida. Magnífica. Estava habitada por todo tipo de artistas e especialistas em mão-de-obra artesanal que fabricavam qualquer artigo de luxo que vocês possam imaginar. Ali era o centro do mundo intelectual. Um lugar repleto de vida. Mantinha um comércio esplendidamente ativo com todos os reinos do Tabuleiro. Sua queda foi mais triste que se possa imaginar.

– Vimos o afresco que Nacim pintou – solidarizou-se César. O tio de Faiald estremeceu, pálido.

– É verdade, vocês estiveram na Porta de Doshapp!

– Sim – disse Faiald. – Lamentavelmente estivemos ali. Perdi outro jogador. Se não fosse a sua mensagem, provavelmente teria desistido.

Daniel sorriu brevemente.

– A ideia da pintada foi minha – intrometeu-se Teodoro. Voltou-se para o homem de óculos. – Eu disse que podia funcionar.

– Não acreditava que alguém chegasse a lê-la – desculpou-se Daniel. – Aquela área é muito dada à tempestades de areia, e as coisas aparecem e desaparecem como por arte de mágica.

– Pois sim – resmungou Cíntia. – E depois que vocês saíram de Drida?

Daniel limpou a garganta.

– Depois que saímos de lá, passamos por muitas aventuras. Na partida que jogamos as coisas eram diferentes... O deserto não era de areia. Era um emaranhado de formas geológicas difícil de explicar. Perian se apaixonou pelo deserto... e por uma nativa chamada Arathi. Tivemos uma discussão muito séria na Cidade do Deserto, como se chamava a Cidade Perdida naqueles dias. Ele queria ficar no Tabuleiro.

– Como Cida! – sussurrou Márcia.

– Quem é Cida? – interessou-se Daniel.

– Uma colega nossa. O que aconteceu depois? – interrompeu Eneias antes que alguém respondesse. O homem suspirou, e prosseguiu:

– Conseguimos convencê-lo a prosseguir viagem até o Portal das Eras. O lugar que não está em nenhum lugar, como dizem as fadas. Ao final houve uma batalha terrível, bem ao estilo de Clara... perdemos, é óbvio. E por causa disso, minha sobrinha pode reestruturar o programa do jogo. Afati, e centenas de anos se passaram. Afati, e Doshapp tornou-se uma extensão imensa de areia. Afati, e Arrelipe tornou-se uma bonita cidade. A viagem de volta ao início foi muito longa. Eu não cheguei até a floresta.

– Por quê ? – quis saber Edula.

– Já deu para ver que eu e meu sobrinho temos uma diferença de opiniões. Não pude seguir com ele.

– E por que vocês tiveram um mau encontro na cidade essa, aí atrás? – perdeu-se Cíntia.

Daniel olhou para Faiald antes de prosseguir.

– Na batalha do final, Arathi foi seriamente ferida e morreu. A essa altura dos acontecimentos o Portal da Eras já tinha sido quebrado e o elo com o mundo real tinha sido desfeito. Ele culpou Felipe... desculpe, Faiald, por tudo Enfim, ele tentou matar o Damin. Eu e Nacim o impedimos. Não seríamos loucos de deixar isso acontecer. Então ele fugiu e muito tempo depois eu soube que tinha voltado para o que fora a Cidade do Deserto. O procurei, porque tinha uma certa esperança de encontrá-lo vivo, mas pelo jeito, alguma tragédia dizimou a gente que vivia lá. Não havia restou, a não ser magia negra e armadilhas retorcidas. Suponho que ele esperava que você fosse buscá-lo algum dia, Faiald...

– Que horror– surpreendeu-se a mercadora.

– Não, querida, absolutamente previsível em se tratando de Perian – tornou o homem.

– Arathi... – murmurou César olhando para longe. – Sim, é isso mesmo. Parece um anagrama.

– E isso o que é? Alguma fórmula mágica? – interessou-se Márcia. Teodoro riu.

– Quase isso, minha bela – explicou. – Um anagrama é um jogo com letras ou palavras de uma frase. Você as muda de lugar e elas ganham outro significado.

– Como assim? – ela indagou, mais confusa do que antes.

– Como “arathi”, o nome da garota de Perian, e “tharia”, – murmurou César. Cezna estremeceu no ombro do rapaz. O mago continuou, voltando-se para Faiald, que o encarava com uma expressão atordoada que ia se diluindo em horror:

– Como foi que você não percebeu? Se a morte da garota foi mesmo culpa sua, Clara lhe ofereceu uma chance para se redimir.

Faiald deu-lhes as costas de súbito e deixou-se cair sentado pesadamente no chão. Seus ombros estremeceram por um momento e ele escondeu o rosto nas mãos. Mas depois levantou a cabeça e eles ouviram-no murmurar para si mesmo: "apenas um jogo”.

– Não sei o que está acontecendo exatamente, mas parece que Clara é mais rebuscada do que nós imaginamos, não é mesmo? – comentou Daniel pousando a mão no ombro do sobrinho. Depois indagou suavemente: –  Tem notícias dos demais?

– Tenho – resmungou o ruivo com amargura, sem se voltar. – Nacim está morto. Nesbex se esconde atrás de um par de leques. Está completamente desequilibrada: tratou uma picada que Márcia levou de uma das aranhas da Colônia e dois minutos depois quase acabou com Cida e Bulbo, que nos acompanhavam então. Se ainda não enlouqueceu, isso não demorará a acontecer. Agora o senhor me disse que Perian morreu. Nosso grupo foi dizimado, afinal.

Daniel meditou um pouco antes de responder:

– Bem, suponho que o tempo não passe de igual maneira para todos os que andam pelo Tabuleiro, mas, ao fim e ao cabo, passa. Vivi durante algum tempo com Ramón e Ana. Morreram senis.

Comentou friamente:

– Será que você sentiu o mesmo que eu, quando voltou ao início Faiald? Afati, e nossos amigos foram incorporados ao jogo, personagens poderosos, muito mais longevos que os personagens virtuais, mais ainda assim, os séculos que a transformação sugere passaram sobre eles. Nacin também comentava como se fossem reais eventos que para você só faziam parte das histórias locais? Ana contou-me como a seca do poço dizimou as mulheres que mantinham a Porta de Doshapp. Ela viveu isso, mas eu só encontrei as ruínas e só ouvi as histórias! O tempo passou para eles e eles passaram pelos séculos como memórias vivas... mas para nós o tempo não passou nem um dia, não é verdade? É como se tivéssemos entrado no Tabuleiro hoje mesmo. Nós ainda somos os jogadores. Eles não. Eles se tornaram parte do Jogo.

O ruivo baixou a cabeça.

– O tempo pode não ter passado para mim fisicamente – respondeu levantando-se. – Mas minha memória está repleta de mil vidas, Daniel, e agora, mais do que nunca, quero acabar com isso. Quero ter o direito de esquecer muitas coisas.

O homem sorriu.

– Acredito. Deve ser horrível viver mil vidas com a consciência pesada – disse.

O Damin prendeu nele um olhar seco e duro, que assustou até mesmo Edula. Daniel, entretanto, não se alterou. Fitou sua assistência e sorriu. Talvez pensasse que ainda conhecia o sobrinho, pensou a guerreira, mas aquele caminho era muito longo. Era surpreendente que Faiald ainda mantivesse a razão.

– Terminou a sua novelinha? Podemos prosseguir? Vai se unir ao grupo, ou prefere dispensar a minha companhia outra vez? – indagou o Damin, voltando-se para enrolar o manto molhado sem esperar a resposta.

César franziu o cenho, intrigado. Tinha alguma coisa faltando, algum dado que ambos ainda deixavam fora de suas versões. O que havia acontecido na batalha final para que tivessem perdido? Eles tinham chegado até o Portal do Destino, e portanto ao final do jogo, porque tinham visto o afresco na Porta de Doshapp.

"Que diabos estava pintado no último afrasco?" pensou com um nó gelado se formando no estômago.

– Suponho que a Cidade Perdida seja um marco em nosso caminho – comentou, rouco.

– Sim. Significa que estamos no rumo certo – explicou Daniel, seguindo o sobrinho quando se pôs a caminho.

Partiram em seguida, ouvindo o relato das aventuras de Teodoro. O poeta não cansava de descrever as belezas dos lugares onde tinha estado e parecia encantado com tanto público. Quando pararam, ao nascer do dia, e montaram o acampamento, ocultando-se na parcas sombras que os mantos úmidos proporcionavam, Edula puxou de sua mochila um maço de folhas amareladas.

– Estava pensando em onde estaria isso.

Olhou para as letras que se agrupavam e leu-as com pesar. César ergueu os olhos míopes e viu o rosto da guerreira molhado de lágrimas.

– Na confusão, lá em Drida, ajuntei esses papéis e os tenho trazido comigo desde então. Foi o que Cida escreveu – explicou ela, fungando. Estendeu o maço para o mago. – Tome, creio que você saberá o que fazer com isso, melhor do que eu.

Sentou-se, depois, junto de Faiald e ficou em silêncio, olhando para o grupo. A comida estava escassa e a água racionada e a presença dos dois novos viajantes só complicava as coisas.

– Acho que não vamos mais voltar para casa – ela disse de repente. – Acho que vamos morrer aqui.

Faiald passou o braço sobre seus ombros e a puxou de leve contra si. Ela pensou em resistir, mas terminou cedendo.

– Não diga isso, não perca a esperança, Edula. Se você o fizer, o que será de mim? Você é minha fonte de coragem!

A guerreira olhou-o e sorriu por baixo do pano. Depois, ao sentir-se invadida pela doçura que a presença do corpo dele lhe proporcionava, não pode deixar de pensar na história de Daniel.

– Acho que vou montar guarda – murmurou, afastando-se dele e dirigindo-se para onde Eneias, sozinho, contemplava o deserto. O Damin viu com pesar como ela saia de seus braços, mas não encontrou forças para impedi-la. Desde que tinham entrado em Doshapp, cada passo que davam era como se caminhassem em direções opostas. Seus olhos se perderam no brilho que cintilava esmaecido no horizonte sul, apenas um ponto branco na linha entre a terra dourada e estéril e o azul sem nuvens do céu.

Ao anoitecer, desmontaram o acampamento miserável e seguiram na direção da fulgência, voltando a entrar numa área de dunas.

– Espero que a tribo dos att-manies siga ao pé do Enigma de Ebadha. Assim conseguiremos água  comida – disse Daniel, apontando para o cintilar constante. –  Sabia que agora eles são sedentários, Faiald?

– E o que faremos se nossos mantimentos terminarem antes de chegarmos lá? – indagou Edula no silêncio teimoso do ruivo.

– Aprenderemos a rezar – resmungou César.

Durante os três dias que se seguiram, tudo o que tiveram pela frente foi areia e céu e o brilho que aumentava rapidamente e se transformava em uma muralha bem visível contra o horizonte. Ao entardecer do segundo dia, Márcia acreditou ver algo estranho à leste: uma linha muito tênue, cinza-azulada. Os demais fizeram alto.

– Lá, estão vendo? O que é aquilo? – perguntou, apontando.

– Eu diria que são umas montanhas – resmungou Edula. – De fato, parece uma cordilheira.

– Não há cordilheiras que delimitem com o deserto – recitou Daniel. – Não há nada lá. O Tabuleiro tem um limite, não é esférico.

– Mas eu estou vendo – teimou Márcia.

– Todos estamos – replicou Faiald.

– Estão vendo uma miragem. Não há cordilheiras a leste de Doshapp. Ponto final – resmungou Daniel, pondo-se a caminho, apressado. – E se não há cordilheiras, não há nada lá.

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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