O Jogo no Tabuleiro

- O Nemthru -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

 

A Falcoeira

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capitulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

A Casa de Lícora

 

 

 

13. 

Quatro dias ainda se passaram até que finalmente chegaram ao Enigma de Ebadha, o Labirinto de Cristal.

De perto, a parede cristalina oferecia tanta decepção quanto uma miragem. A superfície, arranhada por milhares de tempestades de areia e suja pela fumaça do acampamento att-manie que se levantava junto a seus alicerces, erguia-se como um monumento à miséria humana.

Havia dois dias que os viajantes não comiam nada substancioso. Os mantos já não protegiam do vento noturno. Tinham perdido peso e estavam sedentos, porque a água terminara na metade da noite. Mesmo assim, os habitantes do acampamento não demonstraram nenhum resquício de piedade. Um grupo de homens e mulheres magros e bronzeados pelo sol, cobertos de panos malcheirosos, interpôs-se entre eles e as fogueiras bruxuleantes, tão logo se aproximaram. Eram silenciosos e seus olhos brilhavam com selvageria.

– Alto! – ordenou um homem de cabelos longos e sujos, mas os viajantes já tinham parado, antes mesmo dele falar. O sol erguia-se pouco a pouco, queimando-lhes as costas e ferindo seus olhos, já demasiado acostumados com a luz das estrelas e das luas. "Esta parte não está tão ajustada", pensou César, exausto. "Clara deve ter pensado que não chegaríamos tão longe."

– Quem são vocês? – perguntou o sujeito. Parecia um mau ator, numa peça mal dirigida.

– Viajantes. Viemos de muito longe para conhecer o Enigma de Ebadha – murmurou Faiald, cujos pés haviam começado a doer ainda de madrugada. Temia que as bolhas que tinha feito nos últimos dias houvessem inflamado, mas recusava-se a contá-lo aos demais. "Chegamos muito longe," pensava, "para sermos atrasados por uma coisa idiota como esta!"

O att-manie de cabelos compridos olhou para o grupo que o acompanhava.

– Imaginei que o fossem – disse, ferozmente. Bateu palmas e algumas mulheres caminharam em direção às barracas, de onde trouxeram ânforas cheias de um líquido espesso, de cheiro agreste.

– Peguem as ânforas e voltem por onde vieram – ordenou o homem, dando-lhes as costas e afastando-se. – Aqui não há nada para vocês.

– Vamos entrar no Labirinto! – bradou Faiald, dando um passo trôpego em sua direção. O homem parou e, com ele, toda a tribo. Deu meia volta e encarou o ruivo. O rapaz sacudiu a cabeça, aborrecido.

– Desculpe. A fórmula certa é: "precisamos entrar no Labirinto" – disse ele, baixando de tom.

– Tolos – disse o homem balançando a cabeça com uma afirmação gentil. Depois deu-lhe as costas e afastou-se mais alguns passos. Por fim, voltou-se brevemente. – Não se aproximem de nossas fogueiras. Não queremos a companhia de gente impura.

Deu-lhes as costas outra vez e deixou-os sozinhos.

– Que draminha ruim – resmungou o mago.

O sol continuava a castigá-los com sua luz esfuziante, devorando calmamente as sombras das dunas distantes. Os integrantes do grupo, exaustos, sentaram-se onde estavam e experimentaram o líquido das ânforas com desconfiança.

– É amargo – murmurou Cíntia, com uma careta, depois de vários goles.

– Será que é mesmo para beber? – indagou Eneias, com o coração apertado.

– Era só o que nos faltava: ser envenenados – resmungou Márcia. – Meu voto é para que não o bebamos.

– E o que faremos? Morreremos de sede? – ralhou César.

– O que nos diz, Faiald? – perguntou Cezna sobrevoando uma das ânforas.

– Que estou cansado e quero dormir – disse o rapaz, deitando-se na areia e encolhendo-se sob as tiras do manto de penas.

Daniel piscou os olhos de trás dos óculos e suspirou.

– Bem – disse – acho melhor todos nós descansarmos um pouco. Depois veremos. Não creio que o líquido seja veneno, porque se eles não querem companhia de gente impura, muito menos desejariam cadáveres impuros apodrecendo diante de suas tendas.

Os jogadores não pareceram muito convencidos, e sentaram-se próximos a Faiald com um ar desolado. Em pouco tempo estavam adormecidos sob o sol, enquanto atrás deles o labirinto cintilava indiferente.

Algumas horas mais tarde, antes do meio-dia, despertaram abrasados pelo calor. Mesmo usando o que restara dos mantos como proteção para os rostos e as mãos, suas peles tinham uma cor avermelhada e Márcia se queixava de que seus braços ardiam. Teodoro dividiu a última porção de sua comida e se puseram de pé, à muito custo. Trôpegos, aproximaram-se das ânforas novamente.

– Eu bebi e estou viva – comentou Cíntia. – Não está envenenado. Devemos beber.

Os outros se entreolharam.

– Ela tem razão – concordou César puxando um dos recipientes para si.

Os viajantes se fartaram do líquido. Ele era amargo, de fato, mas estava fresco, apesar de haver passado horas ao sol, e sentiram-se quase refeitos depois de beberem. Apenas Faiald ficou parado, observando-os em silêncio, os lábios partidos pelo calor e pela dor que lhe invadia.

Sentindo-se um pouco mais fortes, o grupo caminhou na direção de uma abertura que cortava o muro. Passaram diante da aldeia, procurando ignorar o silêncio hostil da pessoas que os vigiavam. As enormes paredes do labirinto pareceram crescer, opacas e impessoais. A majestade da construção recordava um pouco o afresco de Nacim.

Entraram por um corredor que dobrava mais adiante. Havia sombra a frescor ali dentro, e as paredes eram do mais puro cristal transparente. Para onde quer que olhassem aparecia um tom azulado e suave que era cortado de quando em quando por faixas verticais de um azul ainda mais intenso e escuro. Andaram um bom pedaço até que encontraram uma abertura na parede à esquerda. Olharam por ela vislumbrara um corredor paralelo àquele que seguiam.

– Bem, e então ? – perguntou Edula, apoiada na parede externa. – Para onde vamos?

– “Enigma de Ebadha”! – escarneceu César. – Que nome mais pomposo e estúpido! Isso não passa de um labirinto! Podemos ficar aqui dentro, dando voltas, durante dias! Aposto que era isso que aparecia no desenho de Nacim: o mapa deste lugar! Você não lembra do caminho, Daniel?

– Como quer que lembre? Faz anos que estive aqui e ninguém pode garantir que Clara não o modificou, quando refez o jogo. Em todo o caso, as paredes são do mesmo material. Sempre me lembram um conto de Lovecraft. Um tipo que está em Vênus e descobre um labirinto completamente invisível... – resmungou Daniel.

– E ele como sai de lá? – perguntou Márcia.

– Não sai – respondeu o homem numa gargalhada vazia.

– A última coisa que precisamos agora é de literatura mórbida – respondeu a moça num resmungo irritado.

– Tenho uma ideia! – anunciou Cezna, voando diante deles.

– Graças a Deus, alguém ainda consegue pensar por aqui – gemeu Cíntia.

– Se eu sobrevoar o labirinto, poderei ver o desenho do lugar desde lá de cima e poderei guiá-los. A única coisa que preciso saber se vamos atravessá-lo ou chegar até o meio dele.

– Estamos buscando o centro do labirinto onde se encontra a Ponte Mítica – respondeu Teodoro, bocejando. – Gostei da sua ideia, homem-pássaro.

Cezna sorriu e laçou voo, subindo além dos muros, transformando-se num pontinho muito pequeno que brilhava como bronze polido lá em cima. Voltou depois de algum tempo, animado.

– Vamos em frente.

Logo descobriram que a transparência das paredes do interior causava constantes ilusões de distância. Andaram durante horas, seguindo corredores que pareciam idênticos uns aos outros, divididos por paredes praticamente invisíveis e perdendo aberturas laterais que deveriam levá-los adiante. O calor começou a diminuir no final da tarde, mas não chegou a fazer frio. O crepúsculo coloriu o céu, depois começou a escurecer.

– Acho que já estivemos neste corredor – disse Márcia olhando ao redor.

– Como pode saber? São todos iguais! – resmungou Edula. – Podíamos ficar dias aqui, estando é um passo da saída.

– Ela tem razão – murmurou César. Faiald, de cabeça caída sobre o peito, muito pálido, manteve-se em silêncio e seu estado físico começava a preocupar os companheiros.

– Estou pensando se não seria melhor voltarmos – opinou Cíntia. Olhou ao redor e começou a tremer. – Estamos perdidos, não estamos?

– Ora, vamos, só porque eu me enganei nalgum corredor, isso não é motivo para se desesperar – reclamou Cezna. Ato contínuo, subiu, novamente, depois voltou com um sorriso.

– Ânimo, gente, estamos quase no meio do caminho! – exclamou. – Sigam-me!

O grupo seguiu o homem alado por um bom tempo. Os corredores, alternados com as aberturas, iam mudando de cor. Por alguns momentos, tudo rescindiu à lilás, despendendo chispas roxas, desde o chão em que pisavam, até o alto das muralha. Eles mesmos pareciam iluminados por alguma luz interior.  Era o crepúsculo.

Seu estado físico declinava à cada passo. A sede voltou a castigá-los, mas já não tinham o que beber e Cíntia começou a choramingar de cansaço. Pararam várias vezes para descansar, depois caminhavam outro tanto, só para dar de cara com outro beco sem saída.

Em uma das muitas paradas, perceberam que Faiald não conseguia mais andar sozinho. Apoiado em Edula, e arrastando-se atrás dos companheiros, o ruivo avançava gemendo a cada passo. Houve uma pequena discussão quando Daniel aproveitou uma parada do grupo e insistiu em examinar os pés do sobrinho. Assustados, os viajantes viram que os membros do ruivo estavam tão inchados que não era possível tirar suas botas sem cortá-las. Um cheiro desagradável encheu o ar quando finalmente livraram-no dos calçados e o médico balançou a cabeça preocupado. As bolhas que tinham se aberto nos pés do Damin haviam se tornado profundas pústulas de mau aspecto.

– Jesus! Isto está muito feio – resmungou, o homem olhando para o jovem, preocupado. – Você precisa repousar alguns dias até que eu possa dizer se isso vai curar ou piorar. Você devia ter tirado as botas, Faiald! Parece que nunca enfrentou umas simples bolhas antes!

– Deixe de bobagens – balbuciou o moço. – está bem feito para mim. Tenho crimes à pagar, sabe, tio? Traição, assassinato, coisas de rotina. Ora, mas o que estou dizendo? O senhor sabe muito bem. Arathi, Kaaval, Drida, Nesbex... Perian... Nacin... Cida... e até uma estúpida criação de Clara que me salvou a vida mais de uma vez. Tharia, se chamava. Tharia, o anagrama, ha, ha!

Soluçou secamente e baixou a cabeça. César balançou a sua, numa negativa muda.

– É melhor que pare de falar. Isso gasta saliva e forças – murmurou sem expressão.

– Achei! – anunciou Cezna descendo rapidamente dos céus. – Teremos de voltar um pedaço...

– Outra vez? – vociferou Eneias. – Quem sabe você prestava atenção no que faz?

– Quem sabe você ia no meu lugar? – replicou o homem-pássaro irritado. – Estou tentando ajudar.

– Pois então, ajude e não atrapalhe! Já é quase de noite e não temos nada para comer! Nem para beber! Estou cansado disso tudo! Estou cheio de vocês!

– Vamos perder o controle. Temos de encontrar o centro desse lugar o mais depressa possível – murmurou Edula.

Com os restos de tecido mais limpo que vestiam, Daniel improvisou vendas leves para os pés do Damin, perguntando-se se adiantariam para alguma coisa. Depois Cezna voltou a guiá-los. À medida em que avançavam os corredores se tornavam mais curtos e obscuros. Em breve era noite fechada. No alto dos muros, um rio de estrelas parecia querer iluminar a escuridão.

Já tinham perdido a conta das horas que andavam, quando a segunda das luas veio tingir de prata as paredes do labirinto que perderam sua transparência facilitando a orientação dos jogadores por algum tempo. Chegaram ao centro do labirinto pouco depois disso, um espaço branco de luar. Não havia nada ali, senão uma pedra nua e cúbica, sobre a qual havia uma letra. A letra da Casa de Licóra.

– E agora? Onde está o tal do Portal? – irritou-se Eneias olhando ao redor, mas sem ousar aproximar-se da pedra.

– Se não me engano, é preciso transformar a última Casa do Destino, não é Faiald? Entrar, conquistar a chave e transformá-lo numa passagem para o Portal das Eras. Era isso? – indagou Daniel. O ruivo não respondeu e ele examinou o sobrinho novamente. O Damin ardia em febre

 

os cheiros iam e vinham, as palavras, as frases

               

– Precisamos encontrar algo para curá-lo. Se Faiald morrer... – sussurrou Daniel para si.

 

sabia que não ia sair do jogo agora, mas a febre mesclava as realidades como as frases de um texto e era tudo tão confuso

 

– O que acontece se ele morrer? – indagou Edula.

 

podia sentir a preocupação de Edula junto com a bolsa de gelo em sua cabeça e a dor nos pés e o termômetro e o gosto de metal na boca

 

– Particularmente, me dá igual! – resmungou Cíntia sentando-se pesadamente no chão. Daniel olhou para ela e sorriu sem humor.

– Garanto-lhe que não lhe daria igual, não, senhorita. Pode ser que este universo inteiro desmorone se ele se for – murmurou o médico.

 

afati! o universo caindo! de novo! não!  precisava estar lá! não podia deixá-los sozinhos

 

– Pois isso: se esse lugar desmoronar, o que nos restará? Aquela sala idiota, onde Clara nos trancou – replicou a loura. – Que morra, que morra de uma vez! Seria bem feito!

 

e isso o deixava com muita raiva, as coisas que Cíntia estava dizendo, porque da outra vez ele fora o heroi

 

– Cale a boca – murmurou Edula, os braços ao redor do ruivo.

 

ele mantivera a cabeça no lugar quando o jogo chegara ao final       

 

– Você não sabe o que diz, menina, – sussurrou Daniel, pálido. – Além do mais, nunca viu este universo desmoronar. Não queira vê-lo. Eu não me atreveria a prever o que nos aconteceria se tentássemos sair sem ter vencido o jogo... não sei sequer se isso é possível. E não me atreveria a imaginar o que Clara poderia fazer ao perceber que o jogo causou a morte do adorado irmão caçula.

 

ele fora o único que fizera o que tinha de ser feito. o único com coragem para isso

 

– "Adorado irmão caçula"! – resmungou Cíntia. – Essa tal de Clara é doida!

 

o  único com medo bastante para fazê-lo

 

– Mas aqui ela é a deusa – recordou Eneias, tremendo. – Céus! Era tudo o que nos faltava: uma deusa louca!

– E qual deus não o é? – sussurrou César. O trovador revirou os olhos.

 

o único com coragem. o único com medo. o único

 

– Mas não há aquela discussão sobre se os jogadores morrem ou não morrem? – interrompeu a guerreira num soluço.

Daniel olhou para ela sem dizer nada. César suspirou:

– Edula, use a cabeça. É claro que morrem. Clara nos mandou a um outro endereço no Universo, uma realidade alternativa, mas é só isso! Quem morre aqui, está necessariamente morto em todos os lugares possíveis e imagináveis.

A guerreira o fitou com os olhos cheios de lágrimas.

– Não estou entendendo o que você quer dizer... – balbuciou, teimosa. O mago abaixou-se diante dela e secou-lhe as lágrimas com carinho depois fitou os companheiros por cima do ombro.

– Quantas chaves do destino temos? – perguntou aos demais.

Rapidamente fizeram as contas: Márcia, Cíntia e Cezna levavam uma cada um, mais o Búzio de Cida. Daniel levava a chave dos silfos de Ujier e Teodoro trazia o Código Imortal. Seis, ao todo.

– As chaves que temos de apresentar são sete – completou o tio de Faiald. – A última está na pedra de toque aí na frente, a que se transforma em passagem para o Portal das Eras.

– Então, quem de nós vai buscar a última chave? – suspirou Edula.

– Eu – disse César.

– E pode se saber, por quê ? – indagou Eneias, aborrecido.

– Você quer ir? – retorquiu o mago.

– Eu não! – gritou o trovador, recuando.

– A conta é muito simples: três de nós ainda não têm nenhuma chave do destino. Não contaremos com Faiald, que parece incapaz de dar um passo. Eu irei primeiro. Se não cumprir a missão, a seguinte a tentar deverá ser Edula. Se não conseguirmos extrair a chave da Casa de Lícora, a missão recairá em Eneias.

Ninguém se atreveu a retrucar. Por fim, o Mago fitou a moça diante de si e suspirou. “Eu gostaria de ter dito algo antes, Lá Fora, quando eu olhava para você e pensava que um dia toda a sua futilidade se derreteria diante da minha inteligência e você viria para mim como uma ave que volta para o ninho. Agora não vai dar. Seria covardia”, ele pensou, mas não ousou dizer nada.            

– Tome cuidado, pelo amor de Deus, César. Volte para a gente, certo? – murmurou Edula num sopro, quase como se tivesse ouvido seus pensamentos.

– Certo – ele sussurrou e levantou-se com um sorriso triste. Caminhou para o cubo sob o olhar aflito de Márcia. Ela mordeu os lábios para não gritar e lágrimas correram-lhe pelas faces magras. Lembrou-se do vazio em que encontrara-se em Arrelipe ao tocar a letra de Licóra, o pânico que a invadira. Mas isso fazia muito tempo e naqueles dias não estavam acostumados com a magia, nem com as regras do jogo. Agora, o ato de coragem do irmão lhe parecia ainda maior.

César hesitou junto à letra e olhou para trás. Sorriu de novo, como se desse força a si mesmo e então tocou o desenho, sumindo como se jamais tivesse estado ali.

– Agora, toca a esperar – disse Daniel sentando-se no chão.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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