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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capítulo 14
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14. Para César não houve nenhuma transição de espaço: seguia no centro do labirinto. A única diferença era que seus amigos haviam desaparecido e que agora, diante dele, erguia-se um grifo enorme, prateado e negro, com o bico de pura madrepérola, extremamente afiado. O monstro ergueu o pescoço e gritou, um berro longo e agudo, e bateu as garras diante do rapaz. Ele recuou apressado, recoberto de medo como nunca sentira antes. Medo do desconhecido total e absoluto, o mais desconhecido de todos os mistérios do Universo. – Você não pode me derrotar – ecoou o grito do monstro. – porque não sabe quem eu sou. Eu sou você e você não sabe quem é! Avançou para o Mago, agitando as grandes asas de sombras, sombras que tinham vindo de Drida e da Floresta dos Espinheiros e de todos os lugares que ele temia, o banheiro da escola, o espaço onde se ocultava motor de puxar água do poço na casa da avó. Eram velhos e implacáveis, entrelaçados naquelas asas, erguendo-se insanos diante dele. César desviou-se aflito e estendeu as mãos, chamando um encanto que não veio. O grifo riu à vontade e seu riso era como se o Enigma de Ebadha inteiro se desfizesse em pedaços. – Oh, sim, você é muito bom nisso, conhecimento e teoria. – disse o monstro avançando mais uma vez, ameaçadoramente, os olhos brilhando sob as estrelas brancas e frias, um mistério em cada uma delas. – Mas, onde está a sua sabedoria, ó mago? Perdeu-se dentro do labirinto de seus conhecimentos, como eu nesse labirinto de cristal? Saltou para o rapaz e deu-lhe uma patada que lhe cortou as roupas e atingiu a pele. Aquilo era real, absurdamente físico! Aquele monstro existia de verdade e não apenas em sua imaginação, ou na imaginação de Clara. César gritou e fugiu rapidamente para um canto da esplanada, ofegando de pavor, envolto pelo medo cada vez maior. O grifo era tão... conhecido! Tocou as feridas ardidas, percebendo que o sangue corria em abundância. Soube com absoluta certeza que ia morrer. Estremeceu. Tenho tanto medo de morrer, que vou morrer de medo, pensou. A cada passo que dava, deixava atrás de si um rastro escuro e úmido. Depois as pernas já não obedeceram e caiu junto ao muro. Sentiu o corpanzil do monstro deslocar-se ágil e faminto em sua direção mas, embora seguisse consciente, já não podia fugir. Encolheu-se, resignado. Ia morrer. Uma ideia aflorou sua mente, mas não chegava a ter corpo. De repente, nem sequer o grifo tinha importância. De repente, compreendeu tudo, de alguma forma. Tudo fez sentido. O mundo, o universo, ele e Deus. O próprio Tabuleiro. Tudo isso há um segundo de sua morte e mesmo ela fazia sentido, tinha um papel na estrutura de tudo. Resignou-se e o medo desapareceu. O grifo estava há poucos metros. Seus músculos formidáveis tensionaram-se feito rochas e o fantástico animal encolheu-se com violência e ferocidade, para então estender-se num salto único e interminável. Saltou para César. Para o mago, que estendeu a mão para o grifo. O monstro gritou e abocanhou-o. Mas agora César sorriu, completamente seguro, e a criatura parou intrigada, uma única dúvida nos olhos maquiavélicos. E subitamente explodiu em milhões de estrelas e galáxias, de átomos e núcleos e partículas sub-atômicas e forças que ninguém conseguia explicar, e um silêncio dominou o Universo inteiro, queimando, devorando tudo o que havia. César foi arremessado contra um canto, trespassado de dor. Depois a sensação física diminuiu e restou somente uma plenitude sem igual. No breve segundo que se passou, vislumbrou toda a Eternidade que pairava sobre ele, e soube que a solidão de Deus é a única que é verdadeira. Então gritou de pavor, e durante largos instantes sua mente beirou o vórtice da mais completa loucura. No instante seguinte se viu sentado, rodeado de seus companheiros com um livro na mão. Seus olhos, a face molhada, as roupas cheirando à suor e urina. Márcia beijava-lhe o rosto e as mãos que seguravam o antigo calhamaço. – Meu Deus, César, você está bem? – perguntou Edula aproximando-se dele assustada com a profunda tristeza em seu olhar e a palidez de sua pele. – Eu vi a mim mesmo – ele soluçou. Edula olhou para Márcia e a moça encolheu os ombros, feliz demais por tê-lo consigo para permitir se preocupar com o que quer que pudesse ter presenciado. Agora, no lugar onde estivera o cubo que tinha gravada a letra do destino, havia um mapa detalhado do Tabuleiro, muito semelhante àquele que tinham visto na sala onde Clara os tinha introduzido. – E isto, agora, o que é? – perguntou Eneias abatido. Seus olhos descansavam inertes sobre o mapa e Cíntia dava voltas ao redor dele, intrigada. – Onde está o Portal das Eras? – perguntou. – Da outra vez estava aqui, no centro da Floresta. Mas, vejam, só há ruínas ! – disse Daniel com a voz rouca, mostrando uma área no meio da cordilheira sem tocar a maquete. – Não será isso daqui? – indagou Teodoro apontado para outra construção que emergia um pouco arredondada na floresta de Ujier. – Lembre-se da canção das fadas: "Debaixo da cúpula de ramas/ onde o silêncio nasce e morre,/ onde nenhum lugar é algum lugar,/ ali está do final a Lei./ Mas para aquele que tem os pés sobre o caminho,/ nada é empecilho e seu coração diz ao pulsar:/ não voltarei, não voltarei, não voltarei". Os viajantes entreolharam-se antes de se voltarem para a maquete. – Deve ser. Então vamos de uma vez – disse Márcia caminhando cambaleante para a passagem pela qual haviam entrado. – Espere, como pensa que vai até lá? – perguntou Eneias espantado. – Andando – balbuciou a menina, escorada na parede. – Mas não creio que chegue. – Tolice – disse Daniel gentilmente, com um imenso sorriso. – Para ir ao portal, é só tocá-lo. Ergueu-se e fitou Teodoro demoradamente. – Espero que tenha razão. Se estiver errado, seremos arremessados a algum lugar e teremos de voltar aqui para tentar de novo – disse. Com um gesto firme, tocou o mapa no local assinalado. Súbito, seu corpo se transformou numa bola de luz que rodopiou sobre si mesma e depois subiu, célere, e desapareceu no céu estrelado. Os outros entreolharam-se. Eneias, espantosamente, foi o primeiro a imitar o médico. Os restantes seguiram-nos numa procissão de vencidos e então, de súbito, viram-se ao pé de um arco branco no meio de uma cúpula de roseiras. Muito perto deles havia uma grande mesa cheia de comida e uma fonte pura ao lado. Sem que ninguém percebesse, César ficou por último. Permaneceu sozinho no centro do labirinto, espreitando as sombras como se esperasse ver o grifo emergir delas à qualquer momento – mas não havia nada lá, nem mesmo uma brisa. Nada além de cristal frio, reflexos ilusórios e o luar das As-Ein iluminando tudo. – Eles nem perguntaram... nem quiseram saber – soluçou para si mesmo. E no longo momento em que se demorou para tocar a maquete, compreendeu que todos eles eram tão reais – e tão irreais – quanto o grifo que o ferira.
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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