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O Jogo no Tabuleiro - O Nemthru - |
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O Nemthru
Capítulo 15
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15. O Portal era uma peça de arte. Suas formas deliciosamente esculpidas se entrosavam criando uma fascinante impressão de movimento como se estivesse sujeito a um contínuo transmutar de formas. Era feito de pedras lívidas, quase irreais contra as sombras da floresta. A primeira providência do grupo ao deparar-se com o Portal, entretanto, não foi perder-se em sua contemplação. Havia uma fonte ali perto e uma mesa servida fartamente, então todo mundo tratou de encher os cantis e fartar-se de água e comida antes que os donos do banquete aparecessem armados até os dentes. Só Daniel e Edula deixaram a comida para mais tarde, porque estavam mais preocupados com o estado de Faiald do que com a própria fraqueza. De fato, quando Daniel passou sobre as feridas um pano umedecido com a água do riacho, o rapaz gritou, torturado e o pano chiou, despendendo fumaça e um cheiro nauseabundo. O médico ofegou alarmado, mas ao descobrir a pele ferida, verificou, com certa surpresa, que as pústulas começavam a cicatrizar. – Vamos pegar panos e fazer compressas – murmurou ele, apressando-se em rasgar um pedaço da própria manga. Edula olhou por cima do ombro e pensou no banquete. – E se os donos do piquenique aparecerem? – indagou, pálida. Daniel a fitou demoradamente. – Nós somos os donos dele – murmurou inexpressivo. Edula estreitou os olhos. – Como assim? – Este é o Festim dos Vencedores. Ninguém lhe disse? É como um game qualquer: quando o sujeito chega ao último nível, antes de entrar em confronto encontra à disposição tudo o que vai precisar para enfrentar o fim do jogo. – Então temos mais um confronto pela frente? Agora mesmo? – ela indagou, assustada. Daniel balançou a cabeça num afirmação muda. Depois se decidiu: – Muito bem, ajude-me a levantar Felipe. Ajeitou o ruivo nos ombros e murmurou: – Espero que o seu coração esteja melhor do que o resto, garoto, porque vai doer. Vai doer muito. – O que quer dizer com isso? – perguntou Edula entre dentes, fazendo força para sustentar o jovem. Daniel abanou a cabeça e tropeçou. – Quando sairmos daqui, eu lhe conto. Tenha paciência, estamos no final. Junto ao riacho, fizeram Faiald sentar-se na beira da água. Depois, Daniel pegou os pés feridos e mergulhou-os no líquido claro. O ruivo soltou um grito lancinante e desabou nos braços de Edula contorcendo-se, mas quando o médico elevou seus pés da água, a pele estava refeita, com apenas algumas cicatrizes grandes e brancas. O nemthru voltou lentamente a si. Quando finalmente conseguiu olhar em volta, reprimiu um grito de espanto. – O Portal das Eras? Como chegamos aqui? – indagou. – Como tem de ser – replicou Daniel. Estava sentado em uma pedra observando o sobrinho com preocupação. – A última coisa que tenho na memória, é que chegamos ao Labirinto de Ebadha. – É melhor que não se esforce por lembrar o resto, não vale a pena – replicou Cíntia com a boca cheia e ar de culpada. Ofereceu-lhe uma perna de frango tostada que segurava com a mão suja. – Quer? O ruivo negou demoradamente e aproximou-se da mesa, onde escolheu uma fruta. A mercadora parecia uma selvagem, devorando tudo o que tinha ao seu alcance. – O Último Banquete... – disse Teodoro. – As fadas dizem que é só lenda. – Eu lhe disse que elas estavam erradas – suspirou Daniel. – De modo que vencemos – observou Eneias, saboreando o conteúdo de uma tigela. – Ainda não – replicou César. – Ainda não estamos em casa. Os demais o olharam com irritação. – Alguém tem alguma ideia do que devemos fazer agora? – grunhiu Cíntia atirando longe de si o osso que sobrara. Foi até a fonte e lavou-se. – No portal há nichos, nos quais devemos depositar as chaves – esclareceu Faiald. – Então, vamos lá, minha gente. O que estamos esperando? – perguntou a loira. Aos poucos o grupo deixou de comer e passou a fitar o Portal. Cezna foi o único que olhou para trás, voltando-se tristemente para além das roseiras. Recordou o brilho do Labirinto, o caminhar pelo deserto, a luz do horizonte, a estrada na Planície do Caminho das Águas, Sambara dos Pescadores e as montanhas. Soube então, de uma maneira misteriosa, que eram aquelas montanhas as que desenhavam a linha cinzenta que tinham visto ao sul do deserto. Depois pensou na cabeçorra de Moredhra, no brilho do Reflexo Verde, na ponte de Drida e no caminho antes dela, gelado, terrível. Sem querer, estremeceu ao lembrar da água das montanhas e da magia da Prisão de Kavaal, e depois na ensolarada Arrelipe e, num lugar não muito distante, o brilho fugaz das colunas quebradas. Reviu a dança de Nesbex, o rosto de Tharia, a presença constante de Cida. Ah, aquele caminho do qual só ansiara pelo fim, aquele lugar de onde só vira o terror! Súbito, sentiu as lágrimas correndo e começou a soluçar. – O que houve Cezna? Você está bem? – indagou a irmã do mago. O homem pássaro controlou-se, mas seus olhos ainda eram vertentes de dor. – Ah, Márcia, eu não estou pronto para ir! – ele gemeu. – Não haverá mais belbelitas sobre o Espelho Florido, nem crianças rindo nas ruas de Arrelipe, ou jovens indo às ruínas do castelo de Arrelipe à procura do elixir do amor! Não haverá o brilho misterioso da ilha de Kavaal! E seremos nós, unicamente nós, que teremos destruído esse lugar! Soluçou por um momento, depois retomou, baixinho: – Enquanto o jogo prosseguir, Cida viverá. Eu sei que ela está em Drida, encantada, presa, mas viva. Se nós vencermos e o Tabuleiro acabar, o que será dela? – Não seja idiota – resmungou Eneias. – Ela está morta. Escolheu morrer. – Foi culpa minha. Eu a traí e isso a matou. Não quero traí-la de novo! Márcia apertou os olhos. – Não seja tolo. Cida fez uma escolha. Errada, mas foi a escolha dela. Ponto final – replicou, mas a força de sua voz sumira. – Você sabe que eu tenho razão – Cezna sussurrou. – Se parássemos para olhar ao nosso redor não faríamos o que estamos a ponto de fazer. Vamos destruir uma Criação, matar um deus. Vocês não percebem? Os outros o olharam em silêncio. Apenas Daniel sorriu e murmurou, irônico: – Eu já ouvi essa conversa antes... – Deixemos de idiotices! – interrompeu Eneias sacudindo a cabeça. – Que droga, vamos para casa, de uma vez! Vocês não têm vontade de abraçar sua gente? Dormir em uma cama de verdade? – Defina "de verdade" – sussurrou César com um sorriso malvado. – Defina o que é a realidade, Eneias. Eu gostaria de ouvir você fazer isso, depois de tudo, depois de atravessar uma irrealidade que poderia ter nos matado. Fez-se um breve silêncio. – A deixa dos viajantes é "não voltarei, não voltarei, não voltarei" – decidiu Edula. – Estou cansada. Todos estamos. Seria tolice ter percorrido todo esse caminho para desistir agora! Tudo o que passamos, a luta com os Bins, a morte de Cecília, tudo! Não estou nem aí para a Filosofia. Vamos acabar com isso antes que apareça mais alguém querendo o nosso escalpo. Daniel disse que talvez tenhamos outro confronto antes de sair. Ela baixou os olhos. – Além disso, Cida me traiu primeiro – murmurou. – Quero entregar o Búzio e voltar para minha casa. – Mesmo se isso significar destruir um Universo? – insistiu o mago. Ela ergueu os olhos para ele de novo e disse com ferocidade: – Eu não sou Cida, César, preciso do meu mundo, aquele que eu acredito ser o mundo real. Terminarei louca, nesse lugar! Por fim, Márcia ergueu-se com firmeza. – O jogo era para ser jogado – murmurou. – Nós vencemos e se acabou. Avançou calmamente para o Portal. Nenhum dos demais moveu-se quando encaixou o mapa vítreo num dos redutos com absoluta exatidão, sentindo um frio alívio nos braços. Súbito, o objeto brilhou intensamente, espalhando sua luz por todo o arco. Algumas figuras perderam a nitidez quase imperceptivelmente. – Eu fiz a minha parte – disse a moça baixinho. – São as regras. Nós vencemos. Teodoro ergueu a cabeça. Suspirou. Sua mão direita procurou alguma coisa no interior do bolso do manto que usava e caminhou até junto da menina com o rosto carregado. Depositou uma faixa de tecido brilhante e verde como uma folha nova em outro nicho. – O Código Imortal. – ele sussurrou baixinho, quase em prece, enquanto o Portal se recobria de novo de mais luz e mais indistinção entre as formas que o compunham. – Abra o Portal, Clara! Baixou a cabeça e suspirou: – Deus, isto era para ser apenas um jogo! Daniel avançou. Sua mão desapareceu no regaço da túnica e de lá emergiu com uma chave de madeira, gravada com estranhos símbolos. Sopesou-a pensativo e comentou com voz neutra: – Eu a roubei dos silfos, numa noite de lua, quando ela brilhava como uma gema preciosa. Toquei a pedra proibida de sua morada. Profanei seu futuro e destruí sua inocência. Fiz tudo em nome de tudo o que me foi tirado, e faria mil outras coisas perversas se fosse necessário para vencer. Cíntia engoliu em seco e agarrou a pedra das Mil Cores com as duas mãos. Era algo tão precioso quanto sua alma. Olhou para os demais. "Será deles esses olhos desconhecidos que me fitam?" perguntou-se, sem se dar conta que ela mesma estava tão mudada que teria dificuldade de se reconhecer. Olhou para a pedra com admiração e amor, depois tirou o colar do pescoço e colocou-o ao lado dos outros objetos. – Para sempre – disse em voz baixa. – Jamais poderei voltar para o lugar de onde a trouxe. Um lugar que é muito mais do que qualquer um de nós imagina. Mas que não é o meu lugar. César, perto do Portal, não se moveu por alguns instantes, fitando o livro que tinha em suas mãos. Súbito, estremeceu e depositou-o com violência no nicho adequado ao seu tamanho e deu as costas para o arco iluminado, indo juntar-se à irmã sem uma palavra sequer. Cezna ficou alguns instantes encolhido sob as asas até compreender que todos esperavam por ele. Esperavam que cumprisse sua parte de destruidor, que fosse mais um do grupo. – Odeio vocês – murmurou e depositou o cubo onde cintilavam os elementos da Terra. Sabia que não era verdade. Soluçando, voltou ao seu reduto sobre uma pedra. Havia somente um encaixe vazio. As formas antes nítidas, magníficas, eram agora um pouco mais do que nuances na rocha, tênues e frágeis. Edula olhou para o Portal e remexeu nervosa o Búzio que tinha nas mãos. Andou até a construção e depositou-o, dando alguns passos para trás, esperando que o arco branco ficasse uniforme e liso. Nada aconteceu. – Por que o Portal não se iluminou? – balbuciou Márcia. – Porque foi Edula, e não outra pessoa, quem depositou a chave – murmurou Faiald avançando. Titubeou por um instante, depois tirou o Búzio da reentrância. Segurou-o um longo segundo e então voltou a colocá-lo ali, espalmando suas mãos na pedra branca e fria. E, novamente, nada aconteceu. – E então ? – cobrou Eneias. – Era o que eu temia – sussurrou Faiald. Havia um franco alívio em sua voz. – Somente a falcoeira poderia acendê-lo. Sem ela, não podemos vencer o jogo. Não podemos sair. – Mas Cecília está morta! – explodiu Edula. – Pois é – replicou o ruivo, imperturbável. – E se nós a chamássemos? Alguém pode me alcançar um dos copos que estão sobre a mesa? – indagou Eneias desvairado. – Um, o quê? Um copo? Para quê? – murmurou Márcia, sentando desalentada no gramado, encarando-o como se finalmente houvesse perdido o pouco juízo que ainda lhe restava. – Para fazer o jogo do copo... – argumentou ele, aflito. – Não seja ridículo! – grunhiu Cíntia. – Uma vez fizemos isso na minha casa, e conseguimos falar com um tio meu que havia morrido há pouco tempo... – Não acredito que depois de tudo, não possamos sair porque aquela imbecil se matou lá em Drida! – vociferou Cíntia ignorando o trovador. – ... e ele nos disse onde estava o dinheiro que a minha tia precisava... – É o que parece – respondeu César imitando-a. – ... e aí ficou tudo bem! – berrou Eneias. Fez um curto silêncio ofegante e esfregou o rosto agoniado. – Presos aqui, para sempre – gemeu num fio de voz. – Até o último dos nossos dias! Cezna sorriu: – Ora, parece que, afinal, nosso caminho terá volta... – Também isso me soa conhecido – replicou Daniel, soturno. – Não é Faiald? “Vamos destruir um universo, vamos matar um deus”, foi o que você disse antes de quebrar o primeiro Búzio contra uma pedra. “Nosso caminho terá volta, eu garanto!”. Foi o que você disse. O grupo voltou-se para o ruivo. – Você... quebrou o búzio? – balbuciou Cíntia. – Mas... por quê? Por que fez isso? – Ele traiu todo mundo no final – murmurou Edula encarando Faiald. – E por que não me surpreendo? Faiald não se apaixonou por ninguém em particular, apaixonou-se pelo Tabuleiro em si mesmo! E no final, quando tinham vencido o jogo, quebrou o Búzio e condenou todo mundo a ficar aqui para sempre, inclusive Perian e sua mulher. – Dá igual – comentou Daniel cruzando os braços. – Ela não teria conseguido sair daqui. – Você não sabe – retrucou Edula. – Ninguém sabe. Mas nós acreditamos – respondeu o homem sentando-se pesadamente no chão. Os outros o imitaram um a um. – E a batalha? Alguém falou sobre uma batalha – perguntou Márcia voltando-se para Faiald derepente. Ele murmurou: – Você sabe o que o caminho faz. O que acha que aconteceu quando os meus companheiros se deram conta de que eu havia prendido todo mundo aqui? – Os ânimos esquentaram rapidinho – comentou Daniel com uma sombra de sorriso. – Quando o Búzio se esfacelou o próprio Portal desmoronou e as chaves desapareceram. Perian puxou uma espada, eu quis intervir. Faiald virou uma fera. No começo, Nacin e Nesbex ficaram ao lado dele. Arathi quis impedir o conflito e pôs-se entre o amante e meu sobrinho. Perian a acertou debaixo de uma costela por acidente. Ajudei como pude, mas foi inútil. No final, Faiald ficou sozinho contra todos. – E venceu? – admirou-se Cezna. – Eu sou o Irmão da Terra – sussurrou Faiald. – Quando Clara entendeu que eles iam me matar, interferiu. Pessoalmente, quero dizer, a deusa em pessoa. – Sim: ela convocou um exército para defender o irmão e reorganizou o jogo a partir daquele momento. Afati, dizem as fadas, “o universo caindo” – contou Daniel. Voltou-se para Cíntia com um ar exausto. – Por isso eu lhe disse: não queira ver este Universo caindo sobre nós. Mas não se desesperem. Ainda estamos jogando e ainda estamos aqui. Só precisamos descobrir como fazer o Búzio funcionar no Portal. Sentaram-se num círculo, desanimados, sentindo o Tabuleiro inteiro ao seu redor, com mais intensidade que nunca. Cada perfume, cada um dos pequenos ruídos da noite assaltou-os com força. Eneias foi o único a não sentar. Ficou dando voltas em torno dos amigos, chutando a grama e quebrando galhos das roseiras, rosnando que "elas não podiam fazer isso com a gente, não podiam!" Quando lhe perguntaram quem eram "elas", gritou, irritado: – Clara e Cecília, quem mais? Voltou-se na direção em que pensava que estavam as Rineve e pôs-se a gritar com toda força que tinha em seus pulmões, a voz ecoando pela mata: – Cecília! Cecília, sua cretina, como foi fazer isso com a gente? Você é uma egoísta! Está me ouvindo? Espero que arda no Inferno, ouviu Cecília? Cecília!!! Calou-se, ofegando. Depois deu meia volta e olhou para a roda de viajantes. Havia um vulto lá. Um vulto de luz, uma forma esbranquiçada, suave, sem um rosto muito definido. Seus cabelos de luz e seus braços de prata pairavam no ar e a aparição flutuava cambaleante, como se estivesse tonta. Quando por fim ergueu os olhos, o trovador sentiu os cabelos da nuca eriçarem-se, os dentes baterem, o corpo gelar de pavor e frio, o frio das almas sem paz, o frio dos ermos brancos de Drida. Num sopro gelado, a aparição perguntou, ameaçadora: – Quem me chama? Cezna, hirto, soltou o ar devagar, silvando pelos lábios entreabertos. – É ela – sussurrou, aconchegando-se ao poeta. Seus membros tremiam com tal força que não conseguia impedi-lo e por algum tempo permaneceu em silêncio. Depois saltou para o ar e perguntou, pairando diante dela: – É Cecília, não é ? O que está fazendo aqui? – Alguém me chamou com muita força. A voz era poderosa... Uma voz que dissipa a névoa mais fechada e faz a terra se abrir em fontes. É o dom dos trovadores. Não pude resistir. Como posso saber o que estou fazendo aqui? – respondeu ela, como se sonhasse. – A batalha dos reis...? – murmurou o homem-alado lembrando claramente do sonho que tivera em Sambara dos Pescadores. A visão arregalou os olhos estranhos e luminosos como se visse algo muito além deles. Entreabriu os lábios brancos, murmurando: – Está acontecendo. A Última Batalha. Ouço os gritos... é horrível! Eles sabem! Oh, deusa, eles sabem o que irá acontecer! Estão mortos e têm medo! Oh, o medo dos mortos! Tharia e eu estávamos na beira do abismo... se eles nos alcançarem me destruirão. Vingança! Clamam por vingança! Estou marcada. A aparição inclinou a cabeça como se olhasse para baixo e ouvisse alguma coisa. – Estão vindo... estão vindo... nada restará de Drida para que se vangloriem de suas façanhas. Nada, nem lendas. Eles sabem! Querem vingar-se, antes do fim! Tenho de saltar... Onde está Tharia? O que vocês querem? Tenho de saltar junto com ele ou nunca mais o verei. O perderei entre as estrelas! Um frêmito de pavor sacudiu o grupo, e Cezna continuou: – Queremos que você ponha o Búzio no Portal das Eras. Queremos que o toque e o desperte. Que abra o portal e nos deixe voltar para casa... A aparição quedou muda e imóvel por um momento. – Tharia partiria antes de mim, se eu o fizesse. Eu o perderia! – sussurrou. – Vocês nunca se pertenceram – disse Eneias aos berros. – Ele é só um produto da imaginação dessa louca da Clara! A aparição voltou para ele o cintilar gélido e implacável de seus olhos. Por um instante, o rapaz não saberia indicar o céu ou a terra. Por um instante. – Ninguém pertence à ninguém. Mas você pode andar junto daquele que ama. – Você não nos ama, Cecília? – perguntou Edula com o rosto banhado em lágrimas. – Eu não posso mais andar entre vocês – disse a aparição. Havia uma cálida suavidade naquelas palavras e Cezna pensou ver um brilho nos olhos dela. – Então... – sussurrou ele. – Vai privar seus amigos de andar entre aqueles que amam por causa disso? Cecília, ou o que quer que fosse aquela coisa, titubeou. Seu corpo tremeluziu sob a fria aragem das estrelas. – Você sempre foi altruísta, Cezna – murmurou, num suspiro. – Não é egoísta quanto eu. Posso sentir o quanto quer ficar... Posso sentir tantas coisas em você... tanto desejo, tanto amor. Como não o percebi, antes? Ele baixou a cabeça e pensou ouvir o próprio coração batendo no cerne dos seres e das coisas. Depois, um sorriso da aparição, mais adivinhado, do que visto. Ela disse: – Muito bem, onde está a minha chave? Eu sabia que deveria fazê-lo por uma última vez, antes do fim... Voltou-se para Faiald e completou com uma mesura, tocando a testa com dois dedos da mão direita: – Eu ainda lembro do meu juramento. Cezna a guiou. Sua tristeza era tão grande que parecia capaz de arrebentar seu peito quando mostrou o nicho do Búzio para o vulto de luz. Afastou-se quando as mãos de névoa luminosa avançaram para o reduto e flutuaram um instante sobre o objeto, antes que uma luz centelha se acendesse dentro dele. A luz cresceu e ganhou força, resplandeceu sozinha, dando uma espécie de forma ao rosto da aparição. – Eu também amo você, Cezna – murmurou ela ao desfazer-se. O Portal se iluminou, um arco de luz pura e única como o sol e as estrelas do firmamento. Além dele surgiu uma neblina esbranquiçada que vibrou e começou a tomar forma e cor. A forma e a cor do salão dos fundos da casa onde Clara os trancara, na Avenida Benjamin Constant, nº 4170. – Aí está! – gritou Daniel correndo para fora do portal. Ele parou diante da porta da sala e desferiu um chute violento logo abaixo da fechadura. A madeira cedeu com um estalido. O médico voltou-se para os jogadores e encarou o sobrinho. – Espere aí um momento. Eu... eu vou buscar ajuda... vou chamar uma ambulância para você Felipe. Não saia daí ainda, ouviu? Eu já volto. Edula encarou o ruivo que, os lábios brancos como sal, fitava o tio respirando aos arrancos. Parecia morto de medo. – Bem, aí está – suspirou Eneias com um enorme sorriso sem perceber nada do que se passava ao seu redor. – Acho que vou acender um par de velas pela alma de Cida, afinal de contas. – Cale essa boca – redarguiu Cezna, magoado. – Cale essa boca e não agradeça, não diga jamais o nome dela outra vez, ou, juro por Deus que o farei calar-se. – Ih – ironizou o trovador seguindo Daniel. Uma lâmpada brilhava nos fundos da casa, iluminando tudo com sua luz vermelha e dura. Havia uma névoa suja, a névoa das cidades, o suor e a respiração dos seus edifícios. Os próprios aposentos pareciam pequenos e estranhos. – Por que ele vai chamar uma ambulância para você, Faiald? – indagou César aproximando-se do ruivo e tocando-lhe a pele fria do pulso. Faiald estremeceu e o encarou assustado. – Por causa dos pés é que não deve ser. Estão curados – murmurou Márcia aproximando-se também. Depois sacudiu a cabeça. – Quer saber? Não me importa. Não me importa mesmo. Vamos sair. – E acho melhor a gente se apressar – disse Cíntia olhando além das árvores. – Aquela coisa ali não está me cheirando bem. Os outros olharam e viram, espraiando-se entre os ramos, um nevoeiro branco sem brilho, que engolia a tudo e fazia as árvores estremecerem num átimo antes de desaparecer, desfeitas em nada. – Afati! – gemeu Faiald, fascinado. O grupo ignorou o irmão da terra, e deu um passo em direção ao arco luminoso. Então se detiveram, incapazes de avançar. O mundo atrás deles, os chamava. Baldrício... os irmãos de Tharia... o perfume das rosas... o som da noite... as três luas... "somos os deuses da morte", murmurou César e então sentiu um movimento às suas costas, como se a Criação inteira se levantasse e caminhasse para eles. – Ai, meu Deus! – gemeu Márcia olhando sobre o ombro. Atrás deles, um semi-círculo de homens que viviam ao pé do Labirinto de Cristal, armados com longas cimitarras adornadas com belos desenhos, aguardavam. E por trás deles, uma serpente emplumada os fitava do fundo de seus olhos brilhantes e escamas avermelhadas. – Suponho que agora saberemos o que estava retratado no último afresco – admitiu César, friamente. – Não podem sair – disse a serpente com um silvo. A voz era de Clara. – Não devem levar o Irmão da Terra. Um tremor percorreu os viajantes. A névoa que se infiltrava entre as árvores também tocava a roseira que separava a floresta da clareira, lenta mas inexoravelmente. – Faiald... irmãozinho... você sabe que não pode, sabe que não deve – silvou a serpente. Os outros jogadores o fitaram. Faiald tremia e suava frio. – Você não atravessou o portal da outra vez. Não o fará agora. Nunca o fará. Não há nada para você lá fora. – Faiald, se você não vier com a gente, os outros jogadores continuarão presos. Nunca saberemos o que aconteceu com eles, nunca saberemos o que aconteceu com Cida e Lúcia – gritou Edula sacudindo-lhe o braço.– Seja lá o que for que você têm, vai sobreviver até chegar a ambulância. Vamos logo! Venha com a gente! Se você ficar, sempre haverá um jogador e o jogo não terminará, não vê o que ela está fazendo? – Afati – concordou ele com um leve aceno de cabeça. – Ela está reorganizando o jogo. Preparando uma nova partida. Faiald escondeu o rosto nas mãos. – Não posso ir. Não estou preparado! Mesmo que estivéssemos apenas jogando, mesmo que isso tudo não fosse real no sentido que as pessoas comuns o entendem, onde os demais se abrigariam enquanto as partidas estavam sendo jogadas? Passou-se muito tempo! Três anos dos nossos! Eu ouvi o que César disse no Enigma de Ebadha e sei que ele tem razão! Meus amigos estão mortos e mesmo que não estivessem, eu não posso sair daqui! Edula sacudiu a cabeça. – Você tem de vir com a gente, droga! – gritou ela, cheia de raiva. Puxou a espada da bainha e apontou-a para o peito dele. – Agarre-o, César, e vamos dar o fora! – Não! – gritou um dos homens do deserto, atirando sua cimitarra na direção da guerreira. Edula desviou-a com um golpe e a lâmina bateu com força contra o Búzio, deslocando-o de seu nicho. O objeto estremeceu por um momento antes de desfazer-se no ar. O Portal apagou-se subitamente e a imagem do mundo real desfez-se. Não havia mais lâmpada de mercúrio, nem névoa suja, nem ruas asfaltadas. Cíntia gritou e correu para debaixo do arco. – Onde... onde está? – gritou. – O que fez com ele? A serpente alada soluçou e avançou um pouco na direção deles. O monstro era enorme e atrás dele espraiava-se a neblina, sem, entretanto, ultrapassá-la. Batia nela como ondas de um mar lento e pesado, e no entanto tão diáfano que desmanchava-se ao tocá-la. – Eu ainda sou a Deusa deste lugar – disse a serpente com a voz macia. – Deixe-nos sair e lhe deixaremos Faiald! – propôs Cíntia. – Cale-se! – berrou Edula. O ruivo ergueu a cabeça. Seus olhos lacrimejaram olharam para Cíntia e seu choro desesperado. Encarou Edula, pálido, e César mais além, pálido e tenso. – Então, nosso destino será fazer parte do jogo? Será esse o nosso prêmio? Ser uma das lendas do Tabuleiro como Nacim e Nesbex? Era isso o que havia no último afresco, não é verdade? – indagou o mago, friamente. Faiald cambaleou. – Não, desta vez – murmurou e o brilho de um punhal escorregou por sua mão. No instante seguinte, com os olhos cheios de lágrimas, avançou para serpente alada. Os homens do deserto investiram. Edula saltou para protegê-lo e os viajantes avançaram como um só. Com um gesto, César concedeu à cada um dos companheiros e a si mesmo, uma espada reluzente de lâmina lilás. Seu brilho acendeu-se pela primeira vez no mundo do Tabuleiro e elas se chamaram Gualifan, as espadas gêmeas. De suas pontas, ao sentirem a proximidades de suas iguais, saltavam chispas roxas que demoraram a se apagar e que, no meio da refrega, muitas vezes se deixaram ver. Como há tanto tempo que mesmo os mitos haviam se esquecido, eram sete guerreiros. Cezna, munido com a faca que Márcia largara tão logo sentira a espada mágica alojar-se em sua mão, voou para junto dos inimigos e foi o mais terrível deles, pois era pequeno e rápido e sua mão firme enterrava o punhal profundamente na nuca dos seus inimigos. "O Dente Alado", gritavam quando o viam aproximar-se, mas então já era tarde demais, e caíam mortos antes mesmo de terminar de falar. Edula, Cíntia, Teodoro e Márcia, de costas uns para os outros, defendiam-se valorosamente. Entre eles e seus oponentes em breve jaziam muitos corpos, alguns mortos, outros moribundos. César, a espada em uma mão e a força da magia na outra, lutava com uma ferocidade de que não seria capaz, se não estivesse seguro de que nunca sairiam dali. Os inimigos caíam aos seus pés e ele abria caminho entre seus corpos, decidido. Porém, suas energias chegavam ao fim. A caminhada através do deserto havia exaurido suas forças. A própria Era que tinham encontrado ao chegar ao Tabuleiro, terminara. Estavam não só longe de seu mundo, no mais completo sentido da palavra, mas fora de seu tempo e das coisas que conheciam dele. Eram lendas. Dentro em breve, se as coisas continuassem como estavam, seriam lendas mortas. Faiald conseguiu vencer a última linha de combatentes e aproximou-se da serpente emplumada. Caiu de joelhos diante dela, com a adaga em riste. Molhou os lábios e encarou a medonha criatura. – Deixe-os partir – ordenou. – Demasiado tarde – ofegou ela. – As chaves já não se encontram no Portal. O programa tem seus limites, você sabe! Não posso parar tudo e deixá-los sair, eu não vou correr esse risco, irmãozinho! Se quiserem partir, terão de jogar novamente. – Não mais, deusa, não mais! De repente, em meio a batalha, um grito, mais alto e agudo que os demais. Os homens do deserto pararam estarrecidos. Os viajantes viraram-se para Faiald e viram, como quem vê através de um longo túnel, que o ruivo conseguira decepar as asas da serpente e a segurava com força num dos braços, a adaga a um triz de sua garganta. – Desligue o jogo, Clara, desligue-o agora mesmo! – ele exigiu soluçando. – Vencemos, não entende? Vencemos de acordo com as suas regras! – Minhas regras? Nossas regras, irmão! – ela protestou num guincho. Faiald continuou pressionando o corpo da criatura com crueldade, e por fim ela capitulou: – Está bem, eu o farei! Libertarei os jogadores. Criarei um bug, uma rotina, não sei, vou dar um jeito! Só não atravesse o Portal! Faiald titubeou. Seu rosto iluminou-se e abateu-se quase ao mesmo tempo. Porém, antes que respondesse, antes que capitulasse mais uma vez, Edula correu para eles e cravou sua espada na garganta do monstro. O ruivo estremeceu com o berro estrangulado que escapou da bocarra da serpente. Ficaram um momento estáticos e então, de súbito, viram-se sem nenhuma transição, no salão do jogo, na casa de Clara. Edula olhou ao redor em busca do jovem mas não encontrou. Faiald não estava ali. – Droga! Ele ficou! Ele ficou! Ele ficou no Tabuleiro! – ela explodiu em lágrimas, cambaleando para fora do aposento, procurando apoio nas paredes reais da lavanderia. Na sala os outros jogadores aos poucos compreenderam o que havia acontecido. Cíntia abraçou-se a Teodoro, aos gritos e Márcia começou a pular no mesmo lugar e batendo palmas. Cezna levantou-se do canto onde havia sido arremessado e olhou ao redor confuso, detendo-se no rosto pálido e contraído de César que fitava o fundo da sala. – Meu Deus! – sussurrou o rapaz baixando a cabeça num soluço. Cezna espiou por cima dos ombros do outro, mordendo os lábios quando o cheiro de podridão atingiu-o como um soco violento. Empilhados em um canto da sala havia pelo menos quinze cadáveres em diferentes estados de decomposição. Os mais antigos eram apenas esqueletos vestidos com farrapos. O mais recente era uma coisa inchada e deforme jogado sobre os demais. Houve, então, um momento de silêncio, quando Cíntia parou de gritar e Márcia recolheu as mãos contra o peito, paralisada pelo achado. Depois, a menina aproximou-se do monte observando atentamente o corpo de uma mulher muito idosa. Não imaginava quem poderia ser. Outro corpo estava seco, mumificado e quebradiço. Debaixo de todos sobressaía um fêmur desgastado, como se tivesse sido roído por algum animal. O corpo no alto da pilha não tinha cabeça. – Suponho que estas são as pessoas para as quais Faiald tanto almejou a liberdade – murmurou ela com uma careta de pena. Um movimento fez o grupo voltar-se para a porta outra vez. Daniel retornava à lavanderia, num passo próximo ao da corrida, com Eneias no seu encalço. Ao ver o grupo na sala e Edula sentada junto da parede aos prantos, estacou chocado. – Já chamei a ambulância – sussurrou. – E a polícia? – perguntou Cezna arrastando-se para fora da sala como se seu corpo pesasse uma tonelada. O trovador olhou ao redor com uma careta de asco. – Credo! Tem uma coisa queimando por aqui! – observou. – Que fedor! – E Felipe... ? – indagou o médico.. Cíntia revirou os olhos deu de ombros. – Ficou no Tabuleiro. Quem se importa? – Clara apareceu no jogo... – soluçou Edula aos pés do médico. – Veio na forma de uma serpente alada. Faiald se zangou com ela, ele se zangou mesmo. Cortou suas asas. Daniel passou a mão no rosto lívido. Eneias olhou as unhas em busca de algo para roer. Não encontrou nada. – Meu Deus. E então ela desistiu? – indagou o médico num sopro. A guerreira conseguiu levantar-se um pouco. – Então eu a acertei com a minha espada... – balbuciou num soluço medonho. Daniel entreabriu os lábios secos. – Minha doce criança, mas o que foi que você fez? – disse sem expressão. – Eu a matei, seu idiota! Não entendeu ainda? – explodiu a guerreira levantando-se e arrancando o pano do rosto ainda deformado, horrendo de se ver em sua juventude. – Eu peguei a espada que ela deixou César fazer, agarrei com a força que ela me deu no começo dessa zorra toda e enterrei limpamente na garganta dela! Fim do jogo! O soco do médico a interrompeu e a atirou nos braços de Cezna. O grupo moveu-se com violência entre os dois. – Enlouqueceu, Daniel? – berrou Teodoro agarrando o companheiro pelo colarinho. Com dois gestos secos, o homem se livrou dele. – Ela está histérica! – gemeu enterrando o rosto nas mãos. – Você também está! – retrucou o rapaz, no mesmo tom. – Ei, gente, o Eneias não está brincando quando diz que tem alguma coisa queimando por aqui – observou Márcia, sombria. – Onde está a fogueira? – Que fogueira, sua doida? Estamos de volta, entendeu? Não tem mais isso de "fogueira" – irritou-se Cíntia. Os outros olharam ao redor, apreensivos. Então Daniel moveu-se, arrastando-se até o fundo do aposento, onde o cheiro era pior. Parou diante da porta de um armário embutido e agarrou o umbral com força, enquanto soluçava como uma criança. Depois desceu as mãos trêmulas para o trinco e a abriu de uma vez. O corpo de Clara estava numa cadeira de escritório barata, o tronco caído sobre uma mesa onde repousavam vários computadores de onde saltavam chispas, desprendendo um cheiro de plástico queimado. Um grupo de cabos quase intactos atravessavam a parede em um buraco improvisado e perdiam-se no aposento ao lado. À direita, próxima de uma pequena janela, uma caixa de eletricidade clandestina fumegava: vários componentes estavam derretidos. Os cabelos da mulher estavam ressecados e a língua saltava roxa dos lábios rachados. Na cabeça dela havia uma espécie de capacete cheio de fios e o metal de que era feito incrustara-se no couro cabeludo e emanava um cheiro insuportável. Desde muito longe, o berro estridente de uma sirene chegou cortando os ares Estar de volta era tão diferente assim?
texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422 www.porteiradafantasia.com - todos os direitos reservados
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