O Jogo no Tabuleiro

- O Afilhado das Fadas -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

 

A Falcoeira
 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

5.

– Estamos prontos para continuar, agora.

Damin Faiald encarou-nos por cima do pedaço de coelho que fumegava em seu prato, e olhou rapidamente para Bulbo, ao seu lado. O gnomo franziu a boca, mas nada disse.

– Vou começar minha história antes de mim. Vou começar minha história com a de minha irmã, uma menina muito imaginativa chamada Clara, que ganhou um jogo de RPG de seu avô.

"Embora ela seja uma completa desconhecida para vocês, era uma das jogadoras mais famosas do país. Naturalmente, isso é um pouco pomposo de dizer, já que os jogos de RPG não são muito populares. Mas dentro desse meio, Clara era muito conhecida como mestre de jogo e suas mesas eram as mais concorridas nos encontros. Ela sempre oferecia jogos novos e complicados, ao que somava uma grande capacidade narrativa. Havia gente que nem jogava: contentava-se, simplesmente, em observar a aventura, em ouvi-la..."

"Na faculdade, Clara surpreendeu nossa família ao optar pelo curso de Física. Todo mundo esperava que ela fizesse Enfermagem... a família acreditava que isso seria bom para todos... enfim, ela meteu-se com um grupo de estudantes que desenvolviam programas para gerar hologramas e desenhar fractais. Depois abandonou a Física e começou a estudar programação."

Sorriu mecanicamente, como um mau ator repetindo o mesmo ato mil vezes ensaiado. Estava pálido e a fronte molhada de uma fina camada de suor, que apressou-se em secar.

– Pensei que minha irmã estava regredindo nos seus estudos – continuou –  até que certa noite ela me mostrou o que tinha inventado. Estava muito alterada quando falou no assunto. Disse que tinha inventado um programa para ser Deus. Eu pensei que necessitava ver um psiquiatra, mas a verdade é que estava muito pior do que eu imaginava. Quando as pessoas que tinha convidado chegaram, levou-os até a sala dos fundos de sua casa, a mesma para a qual levou vocês, e propôs uma partida contra um "super-programa de realidade virtual". Depois falou em hologramas e jogos de computador, em hardwere biológico, no experimento de Philadelfia e em outras dimensões. Misturava conceitos, ideias, não dava para entender claramente o que tinha em mente. Suponho que nem ela as compreendia, para dizer a verdade.

Faiald parou de falar para beber um pouco de água adoçada com mel. Seu rosto estava tenso. Prosseguiu, sem levantar muito a voz:

– Tudo aconteceu muito depressa. De repente, mal ela havia deixado a sala, o domo de fios sobre o tabuleiro começou a zumbir e logo a luminária explodiu em milhares de cores. Quando nos demos conta estávamos aqui, igual à vocês.

Nos entreolhamos espantados.

– A maior parte do grupo havia passado finais de semana muito divertidos com jogos de RPG de Clara. Era uma maneira de sermos coisas que nunca poderíamos ser e ir a lugares que nunca poderíamos ir, a não ser na imaginação. Em pouco tempo nos demos conta do que Clara tinha criado um mundo real para jogar. Aparentemente, ela descobriu a falha no projeto Philadélfia. Não se tratava de tornar pessoas invisíveis, mas de enviá-las à outro lugar. Se não há outro lugar, as pessoas voltam à origem, mas se você lhes der uma coordenada real, tudo muda. Neste caso o grupo foi enviado a um cyberespaço incrivelmente real. Em vez de gráficos de vídeo-jogos, aquela era uma autêntica realidade paralela! Tudo aqui é de verdade. Não se trata de realidade virtual, nem hologramas,  simples vídeo-jogo, é muito mais do que isso. Não me admira que estivesse tão perturbada. Era uma invenção genial e logo nos demos conta disso, porque era... era um programa para tornar-se Deus!

Faiald riu para si mesmo.

– Meu primeiro comentário foi que havia perdido uma irmã e ganhado uma milionária. O que ela inventara tornara a virtualidade obsoleta. Sua invenção era um salto à frente. Era delicioso, era como estar de férias no mundo das fadas e desfrutamos de tudo com muito prazer. Até que uma das feras que habitam a floresta nos atacou e matou um de nós.

O rapaz parou um momento e espiou-nos de relance, avaliando-nos quase aflito.

– Não sei se o jogador morreu ou se foi simplesmente eliminado do jogo, compreendem? Essa dúvida... essa dúvida me atormenta demais! Os jogadores eliminados morrem? São eliminados do jogo e voltam à sala de onde saímos? Então por que nunca mais retornam para jogar outra partida? O lógico seria que voltassem em outro grupo de jogadores... ou que enviassem uma mensagem... que tentassem nos resgatar, enfim. Além do mais ninguém jogaria uma partida neste lugar apenas uma vez, se pudesse voltar, quanto mais um jogador de RPG. Imaginem poder deixar de fazer de conta e experimentar de verdade a sensação de ser um mago e fazer mágicas, ser uma criatura com asas e voar, ser um guerreiro e destroçar seus oponentes! Contudo os que morreram não voltam e se não voltam é por que estão mortos de fato ou por que alguma coisa no programa não permite que voltem? Para onde eles vão ? Eu não sei. Não sei de nenhuma resposta que não tenha origem na fé. Ser Deus deve ser uma responsabilidade e tanto.

Calou-se de novo, bebeu outro gole.

– Só posso contar-lhes com certeza o que aconteceu comigo, porque são as únicas coisas de que tenho consciência. Todas as sensações, aqui, são reais. Fome, sede, dor, desejo, prazer. As feridas se produzem e se curam da mesma maneira que no mundo real. O sol queima, as noites gelam. Até onde sei, existe apenas uma maneira de voltar para casa: vencendo o jogo. Bem, suponho que eu poderia tentar o suicídio e descobrir o que acontece, mas, sinceramente, e como vocês mesmos logo descobrirão, este lugar é real demais para que eu leve essa possibilidade à sério. Mas também pode ser que eu seja apenas um covarde.

Ele parou um instante, mastigando.

– Em todo o caso, nos organizamos e partimos – continuou. – Pensamos que seria fácil. Pensamos que logo chegaríamos ao final, venceríamos e o programa seria desligado. Afinal, tratava-se apenas de uma demo, e além do mais éramos sete jogadores, sete cabeças contra uma só. Mas após meses de uma jornada que eu preferia esquecer, apenas eu voltei para a floresta.

– Meses! – exclamou Márcia.

– Mas que tamanho tem esse lugar? – indagou Cíntia assustada.

– Acho que você não entendeu – disse Edula. – Isso aqui pode ser tão grande quanto Clara quiser.

Faiald sorriu para ela. Olhei para meu prato assustada e todo mundo ficou em silêncio por um momento.

– Mas o quê aconteceu? Vocês não chegaram até o final? – indagou César que, aparentemente, tinha se interessado pela história. Faiald nos devolveu com um olhar cansado. Massageou os olhos e apertou os lábios antes de responder, rouco:

– Houve uma batalha junto ao Portal das Eras. Perdemos. Perdemos o jogo.

– E você voltou sozinho? Todo mundo morreu, menos você? – sussurrou Cíntia.

– Não, nem todo mundo morreu. Outros companheiros além de mim sobreviveram ao... ao final da primeira partida. Eles ficaram... ficaram para trás, cuidado de um dos nossos, que se feriu na batalha. Eu voltei sozinho. Tinha esperança de que Clara arranjasse logo outros jogadores, já que, aparentemente, não pretendia desligar o programa. Então eu queria estar aqui quando o próximo grupo chegasse, para poder orientá-los, como fiz com vocês. Mas o segundo grupo reagiu muito mal. Eram apenas três jogadores, porque eu ainda estava aqui e havia pelo menos quatro outros jogadores do primeiro grupo vagando em algum lugar da estrada. Então, teoricamente, como era preciso apenas sete pessoas para introduzir as chaves no portal, tudo o que precisávamos fazer era nos reunir e recomeçar a viagem. Mas não deu certo.

Faiald pousou a faca na beira do prato e fitou a comida tristemente.

– Uma das jogadoras enlouqueceu. Matou um dos rapazes e depois fugiu para a floresta. Sobramos dois. Nos mantivemos juntos. Era pleno outono e eu não queria viajar no inverno, então decidimos esperar. Mas um dia encontrei Márcio pendurado num carvalho. A segunda partida nem chegara a começar.

– Pendurado num carvalho? – estranhou Cíntia. Faiald fixou nela uns olhos estranhamente vazios.

– Ele se matou. Se enforcou.

Minha amiga soltou um gritinho. O ruivo apertou os lábios.

– Nem todo mundo consegue se adaptar. Tudo o que se considera mágico em nosso mundo, aqui é real e cotidiano. Basta olhar para Bulbo. Francamente, eu não posso me queixar. A floresta me dá tudo o que necessito. Caço para o jantar, assisto à dança das fadas nas noites de lua cheia e cheguei mesmo à tocar alaúde para elas. Quando estou cansado, subo no alto das árvores e durmo nos galhos grossos. Se tenho fome, estendo a mão para os frutos e me sacio. Mato a sede com a água dos regatos, e se quero fazer amor com uma mulher busco às fadas, que conhecem mil formas diferentes de amar. Aprendi a atirar com os silfos e com eles segui a trilha dos unicórnios antes da primeira neve do inverno, os espreitamos e depois tocamos seus couros brilhantes e sedosos, perfeitos.

Sorriu outra vez.

– Só que eu estava sozinho. Às vezes eu andava dias inteiros sem encontrar viv'alma, a menos que se possa chamar assim as naiades, os centauros e os faunos de uma floresta localizada em um espaço criado por um computador. Por isso, depois de muito tempo associado à Bulbo, contei-lhe  tudo o que havia nos passado desde o primeiro instante do Jogo. Creiam-me, mesmo o dorso aveludado dos unicórnios não vale tanto para mim quanto o couro grosso do seu nariz.

Bulbo sorriu diante de tamanho elogio e, como tínhamos terminado a refeição, começou a tirar a mesa

– Era uma noite escura, e nevava lá fora. Ele ouviu cada palavra que eu disse e acreditou nelas. Imagine que alguém chegue para vocês e lhes diga que o mundo que conhecem não é mais que uma invenção, que faz parte de um jogo do qual ele é um jogador. O lógico é que ninguém acreditaria!

– Ah, certo – bocejou César espreguiçando-se. – Escolha a pílula vermelha, Neo, e vamos dar uma voltinha pela a toca do coelho.

– O quê? – Cíntia perdeu-se com um ar de impaciência.

– Acho que não entendi – murmurou Faiald.

– Não, claro. Se de fato perdeu os últimos anos lá fora, não sabe do que estou falando – replicou meu amigo com um sorriso. – Mas a Cíntia devia de saber. Ela adora o Keanu Reeves.

– O que o Keanu Reeves tem a ver com isso tudo? – irritou-se ela.

– Eu estava citando Matrix, Cíntia. Vai me dizer que não viu? – ele replicou.

– Ah, aquele filme... tá... – ela murmurou desviando o olhar para o outro lado.

– Você, é claro, não entendeu nem a metade – provocou César.

– Quer calar a boca? Eu estava escutando a história do Francisco! – irritou-se a moça.

– Faiald! Damin Faiald! Quantas vezes ele vai ter de se apresentar para você? – irritou-se o mago.

Faiald esperou que ambos ficassem em silêncio e depois continuou.

– O caso é que Bulbo me ouviu com atenção e depois trouxe uma lágrima de vento.  As lágrimas de vento são gotas de um metal semi-líquido que se garimpa nas minas do sul. Está sempre associado à prata, mas se desloca no subsolo como se tivesse vida própria. As pepitas, ou gotas, são sensíveis ao fogo. Quando são expostas a ele, permitem que a gente projete nossa imagem em qualquer lugar, e receba imagens de volta. Mas depois de usadas uma vez, o metal escurece e só serve como peso de porta.

Olhei para Faiald com curiosidade. Ele balançou a cabeça.

– Foi uma dessas que eu usei para entrar em contato com vocês. O único problema é que usar uma lágrima de vento atraí problemas, como o mel atrai abelhas. Naquela tarde em que falei com vocês estava em uma campina ensolarada na Floresta e depois que conversamos passei o resto do dia me escondendo de um bando de elfos negros!

O ruivo sorriu um pouco, como se recordasse algo divertido. Depois ficou novamente sério.

– Bulbo me contou que foi através de uma lágrima de vento que ele descobriu o Mundo Real. Ele tinha duas lágrimas sem uso e as ofereceu para mim. Bulbo foi muito rico, certa vez, o filho de um rei, e sempre foi generoso. A primeira lágrima eu usei para descobrir que todos os participantes do jogo haviam sido dados como desaparecidos. Ninguém havia voltado! Isso me deu muito em que pensar. A outra eu guardei... esperava o momento certo de usá-la.

Calou-se amargo, fitando o tampo da mesa.

– Naquele inverno chegou um grupo cinco pessoas que eu conhecia de alguma partidas jogadas Lá Fora. Dois ficaram parados junto à estrada, a espera de um ônibus. Foi durante a pior nevasca que eu já vi. Os encontrei na primavera, quando aconteceu o degelo. Os outros três sobreviveram ao choque inicial.

Márcia estremeceu e aconchegou-se a César.

– Formado um novo grupo, nos metemos na estrada no começo da primavera, logo que os caminhos degelaram. Alguns meses mais tarde eu estava de volta, mais morto do que vivo. Do terceiro grupo, apenas um jogador sobreviveu, e desde então nunca mais o vi. Depois que eu me curei, voltei a procurar ajuda. É absolutamente impossível cruzar toda a trilha sozinho. É necessário trabalho em grupo. Mas titubeei em seguir com os novos jogadores que apareceram, o grupo onde conheci Eneias.

– Eneias! – gritamos todos quase ao mesmo tempo lembrando o que havia nos trazido até ali.

– Ele está bem? – indagou Márcia ansiosa. – Onde está ele?

Faiald sorriu, condescendente.

– Se continua seguindo meus conselhos, está na segurança da Prisão de Kavaal – respondeu.

– E isso fica muito longe? – quis saber Cíntia.

– Há alguns dias de caminhada daqui.

Minha amiga fez uma careta de desagrado.

– Que horror! – comentou.

– E como chegou até nós? – indagou César mudando o rumo da conversa.

– Isso é fácil! – me intrometi. – Eneias falou de nós para Faiald e este entrou em contato conosco através da lágrima de vento restante, certo?

O ruivo sorriu outra vez.

– Isso mesmo.

– Que divertido – comentou Edula, apoiando o rosto nas mãos e os cotovelos sobre a mesa. – Lembrarei de escolher melhor meus amigos, daqui por diante. 

– Agora, o primeiro a decidir é: vocês querem jogar ? – interpelou o ruivo. – Quero que tenham em mente duas coisas. Primeira: podem estar arriscando a vida. Compreendem? A segunda: se não jogarmos, tampouco sairemos daqui. Mas é preciso reconhecer que, uma vez adaptados, a vida se torna bastante agradável.

– Então por que você tem tanto empenho de sair do Tabuleiro?

Foi a primeira pergunta inteligente que ouvi Cíntia fazer em todo o dia. Faiald calou-se por um instante. Depois protestou:

– Deus meu, isso não é real! Quero saber o que aconteceu aos meus amigos! Eu aqui estou brincando de realidade. Eu não existo, porque só existo para este mundo, que é uma farsa. Se eu não soubesse que o ele é, talvez sequer imaginasse a possibilidade de me afastar daqui. Mas eu sei que isso não é real.

– E quer enriquecer, também? – era Márcia, cáustica como sempre. Faiald não se deu por aludido. Balançou a cabeça.

– A questão não é se Faiald quer sair daqui – interrompeu César. – A questão é que nós precisamos voltar para casa. Pedindo desculpas pela franqueza, acho que devemos ser muito egoístas, agora.

– É claro que precisamos voltar para casa! – exclamei. – Mas podíamos aproveitar o tempo e desfrutar do programa por uns dias.

– Negativo! Quero voltar o quanto antes – interferiu Cíntia.

– Além do mais, temos de resgatar Eneias – lembrou Márcia.

– Quando partimos, então ? – repetiu Edula.

Nos entreolhamos por um instante.

– Se não houver nenhum impedimento quanto ao clima, o quanto antes – decidiu César, finalmente.              

– Um momento, primeiro é preciso conhecer as regras – interrompeu Bulbo, trazendo um livro enorme, encadernado com couro.

– Regras? – engasgou-se Edula.

– Certo, regras, todo jogo as têm – murmurei, ajudando a colocar o livro diante do Damin. Ele o abriu, virando as folhas com cuidado.

– De onde saiu isso? – quis saber César.

– Venho escrevendo nesse calhamaço desde que comecei a compreender o mecanismo do jogo – explicou Faiald, num murmúrio mal-humorado.

– Primeiro – leu Bulbo levantando o dedo indicador. O fogo da lareira iluminava-o de lado, acentuando as feições rudes e enrugadas dele. – Vamos nos apresentar. Eu sou um gnomo, Bulbo Nariz de Tulipa, e dessa vez vou acompanhar os jogadores. Quero ver o que há além das colinas verdes. Você – disse, e apontou para Cezna. – Você recebeu asas.

Meu amigo piscou surpreso.

– Grande vantagem – falou aborrecido.

– Talvez seja, meu amiguinho, talvez seja – retrucou o gnomo. – Você!

Cíntia pulou e retesou-se na cadeira.

– O que é você ?

Ela nos olhou e encolheu os ombros.

– Como assim? Sou uma mulher, por Deus, não está vendo? – ela comentou como se falasse com um idiota. Bulbo balançou a cabeça.

– Não, não! Me refiro ao personagem que você é aqui, no Jogo. Você não é só uma mulher. Recebeu atributos... o que é você?

Ela pensou um pouco e depois respondeu, aborrecida, meio arrependida, talvez, por não ter escolhido algo diferente:

– Acho que sou uma mercadora.

– Ah, bem! Então deve ter uma bolsa escondida em algum lugar.

Cíntia piscou os olhos muito azuis, apalpou a cintura e colocou sobre a mesa uma sacola de couro.

– Como adivinhou?

– É lógico, não é? – disse o homúnculo, sorrindo. – Aposto minha dentadura que contêm no mínimo cem moedas de ouro.

Cíntia abriu-a e, embora não contasse, vimos por seu ar espantado que ele devia ter razão.

– Você! – ele gritou dando um pulo e voltando-se para mim. Pus a mão no peito divertida.

– Eu sou a Falcoeira.

Bulbo enrugou a testa, avaliando-me.

– Isso valerá para alguma coisa? – indagou para si mesmo. – Não recebeu nada em especial?

– Bem, só uma luva. E Cezna é meu acompanhante.

– Claro, que cabeça a minha! – exclamou ele voltando-se para César. – Você é, sem dúvida alguma, o mago.

Meu amigo molhou os lábios muito sério e então um sorriso suave brotou de suas profundezas.

– Acho que sim.

– E você ?

Márcia nos encarou constrangida e deu de ombros.

– Sou apenas eu... não assumi nenhum personagem.

– Mau, mau, muito mau. Como vai ajudar seus amigos? – cobrou o pequeno.

– Como eu ia adivinhar? – ela respondeu irritada. – Eu não tinha que saber de nada, entendeu? Nada!

– Zangada por quê, Marcinha? Consciência pesada? – grunhiu César estalando os dedos das mãos, cínico. Márcia voltou-se para ele e se levantou disposta a retomar a discussão adiada no portão de Clara, mas Bulbo os interrompeu, muito sério por baixo das sobrancelhas cinzentas:

– A primeira regra para todos é não perder a calma. Nunca. Temos de trabalhar em conjunto. Temos de nos ajudar, de confiar cegamente uns nos outros. A segunda regra deste jogo, e talvez a mais importante, é ouvir em silêncio e pensar em silêncio.

Márcia torceu o nariz, mas não respondeu.

– Você é a guerreira! – gritou o gnomo em seguida, voltando àquele alegre tom de parque de diversões e apontando para Edula, que começou a rir da careta dele.

– Certo, espertinho. Ou pelo menos, deveria ser. Afinal, eu recebi uma espada.

– Você é uma guerreira – decidiu ele, voltando-se para Faiald. – E você é....

– Eu sou Damin Faiald – cortou o ruivo, secamente.

O gnomo sorriu, e a cara ensombrecida pelo fogo, não foi nada bonita. Comentou sem levantar a voz:

– Sim, você o é. E eu sei do que é capaz.

Depois voltou-se para o livro e folheou mais algumas páginas.

– O objetivo do jogo é reunir as Sete Chaves das Sete Casas do Destino e levá-las ao Portal das Eras – leu ele.

– As Sete Casas do Destino encontram-se espalhadas ao longo da estrada. Numa há um livro, chamado Livro da Sabedoria. Noutra, uma faixa de pano, chamada Código Imortal. Na terceira das Sete Casas há uma gema preciosa, a Gema das Mil Cores. A quarta casa guarda a Fertilidade das Terras. As três restantes possuem a Chave, onde está gravada a Palavra Proibida, o Mapa do Tabuleiro e o Candeeiro. Estas são as principais peças do jogo."

 – Gema de mil cores, e código imortal. Quanta babaquice! – resmungou César.

– Então é só ir pelo caminho e procurá-las. Nada mais fácil! – concluiu Cezna.

– Nada mais difícil – discordou Faiald. – Ao longo da estrada existem outros lugares a que chamamos de Quinta Casa, ou Casa Cinzenta. Podem ser exteriores ou interiores. Quando são exteriores, não nos damos conta de que penetramos em uma delas, em geral até que seja tarde demais. As criaturas que estão sob a influência desses lugares tendem a impedir nossos avanços. Outra, a Quarta Casa, ou Casa Vermelha, tende a estimular a jornada, embora, muitas vezes, graças ao desempenhar dela, nos deparemos com uma armadilha logo adiante.

– Odlon é a Casa da Sorte, ou Segunda Casa – continuou Bulbo com um sorriso no rosto barbudo. – Em geral quem penetra numa Casa da Sorte, mergulha em uma espécie de espaço paralelo, do qual só poderá sair com alguma graça conquistada como uma espada mágica ou um globo de cristal. Entretanto, ao fazê-lo, o jogador altera a natureza do lugar e ela passa a chamar-se Cotin, ou Casa do Azar, ou Terceira Casa. Aí, quem entrar terá de ter algo a oferecer, geralmente uma prenda de alguma Casa da Sorte anterior. Nesse caso, voltará a alterar a natureza da Casa de Cotin, tornando-a Casa de Odlon. Se não tiver nada para oferecer, o jogador ficará prisioneiro nela. Não poderá sair dali até o jogo terminar. No entanto, cremos existir a possibilidade de nos depararmos com casas interiores que não alterem sua natureza. A Casa Primeira é a de Lícora, a Casa do Destino, das quais se tiram as sete peças principais do jogo.

– Mas o que são essas “casas”? – quis saber Cezna.

– Para a realidade do Tabuleiro, as Quarta e Quinta casas, são lugares onde existem criaturas maléficas ou benéficas aos jogadores, dependendo da natureza delas. As Segunda e Terceira casas, ou seja, aquelas nas quais o jogador chega a entrar, são o mesmo que o Tabuleiro é para nós: um bolsão de realidade alternativa – explicou o ruivo. – Mas são lugares onde a Mestra do Jogo não pode penetrar. É por causa delas que eu alimento a esperança de que os jogadores que são eliminados do Jogo não morrem. Eu acredito que eles estejam num estado suspenso, esperando o Jogo terminar para então voltar à realidade.

– Isso é tudo? – interrompeu Cíntia.

– Bem, quase tudo – murmurou Faiald espreguiçando-se e bocejando. – Nunca sabemos o que o caminho nos reserva. E Bulbo não citou o personagem mítico.

– Ah, é...

– Quem? – perdeu-se Cíntia.

– Que personagem mítico? – perguntou César debruçando-se sobre a mesa e observando Faiald atentamente.

– Ao longo do caminho nós encontraremos algum personagem comum às histórias de espada e feitçaria. Não estará ligado à casa nenhuma, mas é preciso vencê-lo antes de prosseguir. É a regra – explicou o gnomo.

– Um personagem de espada e feitiçaria como você? – continuou meu amigo, muito sério. Bulbo engoliu em seco e piscou indignado.

– O quê? Eu? Não! Eu não!

– Eu disse um personagem de espada e feitiçaria, não histórias de fada – interferiu Faiald prontamente. – Bulbo é nosso aliado. Eu estava me referindo a outra coisa. Por exemplo, na primeira partida, meu tio teve de vencer um unicórnio para que pudéssemos seguir em frente.

– Um unicórnio? Que fofo! – comemorou Cíntia, um pouco animada.

– Experimente ter um unicórnio enfurecido perseguindo-a por mais de um dia, senhorita, e verá como isso pode ser realmente "divertido". Eles são rápidos, fortes, e muito, muito furiosos. Seu chifre é tão afiado e pode furar uma placa de aço de meia polegada e seus cascos são como navalhas. Daniel deve ter cicatrizes até hoje.

 A loura piscou um pouco indignada mas ficou em silêncio.

– Contudo, isso não deve ser motivo de preocupação. Quando encontrarmos o personagem mítico, saberemos. E, bem, um unicórnio não é tão grande assim – completou o ruivo. Sorriu para nós e terminou: – E isto, senhores, é tudo.

É, nenhuma preocupação. Se nós soubéssemos... quanta ironia! Vi os olhos de César se estreitando atrás dos óculos, cauteloso. Se era só isso, como é que ninguém conseguira vencer o jogo até então?

– Então, partiremos amanhã, o mais cedo possível. Antes teremos de reunir cobertores, alguma comida condicionada, cantis para água – decidiu Edula levantando-se. – Deveríamos levar alguma lona, também, se quisermos acampar no seco, caso chova. Ah, e combustível para acender fogueiras; isqueiros, sei lá, o equivalente a isso por aqui...

– Deixe o fogo por minha conta – observou nosso mago com um sorriso mau no rosto. Encarei-o sem entender muito bem o que queria dizer aquilo. Ela balançou a cabeça.

– ... e armas. Talvez venhamos a necessitá-las.

– Oh, sim, talvez – ironizou o ruivo. – O que mais?

– Alguém tem alguma outra sugestão ? – perguntou ela. Ficamos em silêncio. Eu me sentia como se fosse sair em excursão e sem contar Cíntia e César, todos os outros pareciam ter a mesma ideia. Havia uma excitação no ar, apesar do nosso cansaço.

– Nesse caso, sugiro que descansemos. Foi um dia emocionante e talvez amanhã o Tabuleiro nem esteja mais aqui quando despertarmos – completou Edula bocejando.

– Você está muito enganada – observou Faiald levantando-se. – Bulbo, há camas para todos?

– Claro que sim, acompanhem-me! Tenho colhido musgo especialmente para isso, nos últimos dias! Venham, venham!

Fiquei sentada na mesa, enquanto os outros se retiravam, seguindo o gnomo, cansados. Eu também estava esgotada, mas minha cabeça fervia e eu sabia que não conseguiria dormir. A euforia foi diminuindo rapidamente. Dentro de algumas horas, quando despertássemos, nos lançaríamos a uma aventura perigosa, que poderia nos custar a vida... ou não? Pensei que aquilo era uma espécie de roleta-russa, e que só descobriríamos se o cano estava de fato carregado depois de apertar o gatilho. Comecei a tremer e de repente percebi que estava com muito medo.

"Medo", digo eu! Como se eu soubesse, então, o que isso realmente significa!

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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