O Jogo no Tabuleiro

- O Afilhado das Fadas -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

 

A Falcoeira
 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

7.

– Não parem – murmurou Faiald ofegante, passando por nós apressado. – Continuem andando.

– Vá com calma – resmungou César, sentando-se no chão. – Não fomos feitos de ferro, sabe?

– Terei pesadelos durante um ano – murmurou Cíntia sentando-se cuidadosamente, e sustentando Márcia. A irmã da mago parecia drogada e sua mão, inchada e preta, pendia mole ao lado do corpo. Os buracos que os dentes daquele bicho tinham feito em sua pele destilavam um líquido viscoso. César arrastou-se até ela e tomou-lhe a cabeça do colo de Cíntia, beijando-lhe ternamente a fronte.

– Precisamos de ajuda – murmurou com a voz embargada de lágrimas.

– Onde está Cezna? – gritei de repente, horrorizada com a ideia de que com a fuga houvéssemos deixando o homem-pássaro para trás.

– Aqui – murmurou Faiald que havia parado também, tirando-o de sua mochila. O pequeno ainda estava envolto na teia, mas seu rostinho estava livre, permitindo-lhe a respiração. Ainda assim, era um rosto macilento e inconsciente.

– Ele está... bem? – indaguei, não me atrevendo a perguntar o que realmente me preocupava.

– Está salvo, se é isso que quer saber – disse Faiald empenhando-se em livrá-lo do envoltório branco. – O quanto a experiência o afetou só saberemos quando o livrarmos da teia.

– Será que se pode saber que ideia absurda foi essa de cortar caminho pelo meio mato? – explodiu Edula avançando para o ruivo com fúria na voz. – Nos levou diretamente para aquelas.... aquelas.... meu Deus, eu nem sei como devo chamá-las! Aquelas coisas! Perdeu o juízo, foi? Ou será que você não tem a mínima noção de por onde está andando?

– Ei, calma lá! – defendeu-se o ruivo. – Eu não sabia que a Colônia estava na floresta.

– Não sabia! – escarneceu Cíntia, os olhos azuis chispando de raiva. – Como é que alguém pode “não saber” que uma coisa dessas está há perto de sua casa? Vai dizer que não viu nenhuma delas zanzando por lá?

– Ei! Eu também estava com vocês! – ele protestou. – Também podia ter morrido!

Houve um silêncio surpreso, como se essa ideia não tivesse realmente passado pela cabeça de ninguém até então. Alguém podia mesmo ter morrido. Alguém podia de fato ter ficado para trás. Alguém, algum de nós, podia estar lá agora mesmo, gritando e se debatendo enquanto elas injetavam no corpo aquela coisa que transformava a carne num líquido sanguinolento, que sugavam gulosas, as presas agudas e enormes furando e arrancando pedaços de...

Parei de pensar, as mãos tremendo de novo.

– O que está havendo? – indagou a voz fraca de Cezna e eu suspirei de alívio. Depois ele lembrou-se do que vira e gemeu soluçando, arrancando os nacos de teia de si mesmo.

– Isso gruda! Ah, meu Deus, isso gruda tanto, eu quero que isso saia de mim! – começou a balbuciar. Tomei-o das mãos de Faiald com delicadeza e o pus em cima de uma pedra, auxiliando-o no que podia. Ouvia a voz de minhas amigas gritando com nosso guia e ele tentando dar alguma inútil explicação. Eu não estava em condições de julgar ninguém naquele momento, não poderia falar, mesmo que quisesse. Limitei-me a ajudar Cezna, os olhos secos, a boca tremendo como se fosse chorar, agitando-se como se rezasse.

– Você acha mesmo que eu me arriscaria a cruzar com a Colônia? – gritou Faiald para Edula. – Não enlouqueci ainda! Delas você apenas escapa, ou não. Entendeu?          

– Não tente me enrolar! – replicou a outra em resposta e ouvi um ruído semelhante ao de algo sendo quebrado. Depois outro. Pus-me de pé num salto e olhei ao redor. Minha amiga dedicava-se a fustigar um tronco com um pedaço de pau da grossura de um cabo de vassoura.

– Você sabia para onde estávamos indo. Você sabia! – ela gritava e à cada palavra mais alta o galho seco ficava um pouco menor.

– Por favor – interrompeu César, enérgico. Voltamo-nos para ele e pude ver que as lágrimas corriam por seu rosto. Fitei-o fascinada. Nunca ninguém conseguia pegá-lo com algum sentimento à flor da pele. Ele era o cara que ia ver “Dumbo” e achava uma piada sarcástica a respeito das orelhas do elefante para dizer no final. Ele nunca parecia abalar-se com coisa alguma.

Até então.

Pois, de repente, César era igual a nós, um manancial de dores e medo. Ele, que se me mantivera em pé quando aquele ovo explodira sobre minha bota, pedia aos soluços que por favor, parássemos de gritar e prestássemos atenção na sua irmãzinha que estava morrendo a olhos vistos, e a abraçava, embalando sua cabeça morena e bonita com suavidade e carinho.

Cíntia aproximou-se dele, tirou-lhe os óculos e abraçou-o.

– Como é ? – perguntou para Faiald. – Não tem nada para dizer? Não vai tirar nenhum coelho da cartola?

O ruivo calou-se, encarando-a surpreso.

– Como assim? – indagou.

– Droga, será que não tem nenhum remédio para ela? – gritou a mercadora furiosa. César olhou para ela tristonho e Cíntia balançou a cabeça pedindo desculpas.

– Não, não conheço nenhum remédio – murmurou Faiald aturdido. – Nunca comecei uma viagem com um augúrio tão ruim.

– Nesbex conhece – murmurou Bulbo com apreensiva atenção. Edula o fitou atenta.

– Onde ela mora, é perto?

– Do outro lado da roseira – murmurou o gnomo dando as costas para Faiald. O ruivo chutou um tufo de grama e fez uma careta aborrecido.

– Bem, e por onde se atravessa a roseira? – perguntou a guerreira decidida. Olhou para Faiald inquisidoramente, quando Bulbo deu de ombros. – Tem alguma entrada, ou vamos ter de abrir caminho à força?

Damin deu um meio sorriso, como se a ideia de alguém tentando abrir caminho pelos espinhos da roseira de Nesbex lhe fizesse graça. Depois andou um pouco ao redor do grupo, suspirou e, fitando o rosto doente de Márcia, murmurou:

– Tem uma entrada. Vamos até lá. Cezna também pode precisar da sabedoria dela.

Olhei diretamente em seus olhos e nada disse a ninguém do que vi neles. Não era medo, nem desconfiança. Era uma triste e imensa dor.

Acomodamos Márcia numa maca improvisada com galhos e os restos de nossos mantos, tentando deixá-la o mais confortável que era possível naquela situação. A menina caíra num delírio febril. Em certo momento, abriu os olhos e agarrou meu braço, fitando-me com aflição, depois fechou-os e suspirou, aliviada. Eu andava ao lado da maca, ajudando a erguê-la por cima dos troncos caídos de árvores realmente muito velhas. Ali a mata era mais selvagem, povoada de animais que não tínhamos avistado até então, mas eu perdera a curiosidade. Estava vazia e zonza. Levei algum tempo para entender que a metade de minha confusão era fome. A outra metade era um pânico surdo, zumbindo logo abaixo da superfície da consciência, esperando qualquer movimento mais rápido em minha direção, qualquer coisa que caísse das árvores. Estremecia o tempo todo. As folhas oscilavam à nossa passagem e era eu quem perdia o equilíbrio. Os galhos se quebravam e era eu que gemia. Os animais fugiam espavoridos e era o meu coração que saltava. Eu tudo sentia, tudo percebia por detrás do manto espesso das folhagens. Eram meus os olhos brilhantes que nos fitavam com espanto no fundo de uma carinha peluda. Era eu que não reconhecia aquelas estranhas criaturas bípedes caminhando ao longo do muro de roseiras com as roupas rasgadas. Fora eu quem tivera minha paz perturbada com minha própria passagem, com os ecos de meus próprios pés, e não a Colônia. Eu e a floresta éramos uma só.

– Cida!

Olhei Edula. Quem era mesmo aquela moça com profundas olheiras e espanto na voz? Ela me conhecia, que me chamava pelo nome? Quem era mesmo essa tal de Cida? Meu corpo era um manto verde estendido por dois quintos de um lugar chamado Tabuleiro, galgando serras abruptas e mantendo sobre minha pele uma criatura imensa, velha e feroz que perambulava sobre mim em busca do quê? Comida? Abrigo? Que comida poderia bastar para tamanho apetite? Que lugar poderia servir-lhe de lar, que lugar a aceitaria? Eu tinha a impressão que onde as árvores haviam quebrado quando a Sombra despencara de seu andor branco, a própria terra revolvia-se enojada com seus miasmas. Não, a terra não mais permitiria que ela se alojasse em seu fértil leito imaculado. Não àquela que já deveria ter morrido há muito tempo, seguindo o ciclo natural de todas as coisas, mas que recusara e continuara a crescer, sustentando-se sobre pernas cada vez mais velhas e arrastando atrás de si um abdômen cada vez maior, transgredindo o equilíbrio de sua própria existência. E isso tudo, por quê ?

Porque o Irmão da Terra anda pelos caminhos outra vez, respondeu alguém dentro-fora de mim.

– Cida! – chamou minha amiga apertando-me o braço.

– O que foi? – indaguei, baixinho.

– É aqui, chegamos.

– Onde?

– Onde mora Nesbex!

Olhei para ela e nada disse. Sacudi a cabeça e segui-a através de uma abertura no roseiral, descascando de mim o suave e imenso manto floral.

Depois da roseira, havia uma clareira coberta de grama macia e limpa. O reduto era perfeitamente redondo, tendo como centro ruínas brancas, algumas com heras crescendo em seu redor.

O grupo estava todo sentado num ponto onde a sombra da tarde já se projetava no chão. Do lado de dentro do muro, ao contrário do que víramos de fora, não havia uma fresta de verde, tudo era branco e rosa, uma flor ao lado da outra, uma pétala entrelaçando-se com a seguinte, perfumadas, coloridas. Aspirei o perfume que era o pai de todos os outros perfumes daquele lugar, a fonte imersa na floresta, a origem de tudo o quanto era doce, de tudo o que possuía paz, beleza e ordem.

As ruínas do centro. Até elas tinham um equilíbrio, um ordenamento estético, embora fossem só colunas quebradas e houvessem pedaços delas espalhados pelo chão. Ali não havia o cantar dos animais e adivinhei que o arrastar da Colônia jamais penetrara ou ecoara dentro do roseiral. Nem a brisa fazia ruído. Nada. O silêncio era o bálsamo e o presente de boas-vindas aos viajantes que ali chegavam.

Meus amigos estava distribuindo os alimentos entre si sobre uma lona estendida no chão. Sentei-me junto deles e agradeci com um murmúrio quando me entregaram um pedaço de pão. No entanto, não comi. Fiquei olhando para aquele bocado de trigo e sol, de campo e vento que soprava em horizontes infinitos.

– Está se sentindo bem? – preocupou-se Edula.

– Não sei – respondi com simplicidade.

– Coma, vai se sentir melhor – consolou-me Bulbo com um sorriso penalizado. Obedeci maquinalmente, sem sentir o gosto de nada. Depois me sentei com as costas apoiadas nas rosas, mirando as ruínas e o lento entardecer. Aos poucos o céu azul perdia sua tonalidade alegre e tingia-se de lilás e negro. Para os lados do Ocidente, a aura amarelada do sol se apagava pouco à pouco sobre as árvores cada vez mais escuras e depois só restaram faixas que emanavam do distante ocaso, cor-de-rosa como as rosas, só que ainda mais diáfano. As cores se misturavam em minha mente, as ruínas brancas iam perdendo a materialidade e as rosas despejaram ainda mais seus aromas incomparáveis. Eu não sabia que as flores cheiram mais ao entardecer. Eu não conhecia o tom arroxeado do céu, nem presenciara o nascer da primeira estrela. Meu firmamento, à noite, não possuía estrelas de verdade. Tinha lâmpadas de mercúrio. Luminosos coloridos e esfuziantes. Sinaleiras. Edifícios iluminados, janelas para outras vidas.

Súbito, ouvimos um som. Ele penetrou suave mas firmemente no meu pensamento. E como aquele som era espesso! Podia senti-lo movendo-se com determinação, desbravando cada esconderijo do círculo e da minha alma. Era o cantar mais doce que um pássaro já cantara e perdia-se em ecos dentro de mim, repetindo-se, depois, cada vez mais familiar.

A temperatura começou a cair rapidamente. Ergui-me e fui cobrir Márcia, que delirava gemendo fracamente. César estava sentado ao lado dela, segurando-lhe a mão sã. Edula veio sentar-se ao meu lado e de repente olhou para mim.

– Você está chorando, Cida!

Eu estava. Edula me abraçou e eu chorei como uma criança em seus braços e nunca mais um abraço foi tão doce quanto o dela, desinteressado, solidário. Ela não me disse para parar com aquilo. Não disse nada. Só ficou ali me segurando, impedindo que eu me afogasse em mim mesma.

– Afinal de contas, onde está a tal Nesbex? – reclamou Cíntia de repente. – Não apareceu ninguém a tarde inteira e Márcia está cada vez pior.

Faiald encarou-a através da noite fresca e da quase escuridão que emanava do céu.

– Ela logo virá – ele disse.

– Isso mesmo – disse Bulbo, com um tremor. – Ela já vai chegar. Não apresse a corrente de rio, ou ela pode arrastá-la consigo.

– O quê ? – começou Cíntia, mas Edula interrompeu:

– Chhh! Olhem ali!

Uma luz amarelada, esquisita como a cor exagerada de uma televisão, nascia suavemente de um ponto das ruínas. Emergia como uma sombra e movia-se lentamente, em nossa direção.

Lentamente a luz então a forma de uma mulher, vestida como eu jamais tinha visto igual. Era uma saia longa e puxava atrás de si algo como uma esteira de pequenos babados que pareciam ondular como se flutuassem numa esteira de vento. Usava os cabelos muito compridos, muito finos e muito negros, num rabo-de-cavalo baixo, preso com uma fita larga que também lhe caia nas costas. Seus braços ondulavam numa dança debaixo de largas mangas e seu rosto estava oculto por dois grandes leques amarelo-dourados, um de cada lado da face, presos um ao outro por uma fita, igualmente dourada, que lhe enfeitava a cabeça, trançada com o cabelo. Ela ficou diante de nós dançando e começamos a ouvir dentro de nossas mentes, o som que ela dançava, um som suave, uma melodia leve que eu sou incapaz de esquecer ou cantarolar. Nesbex, pois essa era a feiticeira que viéramos procurar, passou diante de nós e caminhou por todo o círculo tocando as pedras com delicadeza, antes de sentar-se num dos pilares quebrados com a majestade das rainhas.

Faiald ergueu-se e caminhou em direção à ela, parando à alguns metros da aparição e dobrando o joelho, humildemente.

– Nesbex!

Sua voz era suave e triste, dolorida como o quebrar de um copo de fino cristal.

– Silêncio! – ela ordenou.– Não ouse levantar de novo a sua voz neste lugar, Irmão da Terra.

Vi Faiald empalidecer sob a luminescência amarelada, encantadora, e perguntei-me porque tinha no rosto aquela expressão de culpa.

– Que desejam? – indagou ela. Eu estava por demais embebida naquela criatura para poder falar. Edula, porém, ergueu-se e caminhou resoluta para o lado do ruivo.

– Eu sou Edula. Vim com meus amigos pedir-lhe que ajude Márcia.

Os leques moveram-se um pouco para que os olhos ocultos em sua sombra pudessem fitar minha amiga e sua positividade.

– E o que têm sua Márcia para necessitar de meu auxílio? – indagou a aparição com uma leve zombaria na voz.

– Foi picada por uma das aranhas da Colônia – explicou a guerreira.

Nesbex moveu os leques e fitou Márcia. César, ao seu lado, encarou a sombra dos abanicos dourados ansiosamente.

– A Colônia está se mudando – concordou ela, fazendo um gesto majestoso para a maca que ergueu-se flutuando e deslizou no ar com um silvo em direção a uma imensa pedra, sobre a qual pousou suavemente.

– Por quê? – indaguei eu, olhando sua magia ainda mais fascinada. Os leques moveram-se de um lado para o outro e ela desceu do pilar onde estava, com graça e leveza.

– Que pergunta tola para uma élfide – observou ela. – Ré, traga-me as ervas da terceira prateleira.

Imediatamente um pássaro de plumagens cinza e rosa ergueu vôo do meio das ruínas e desapareceu no roseiral de onde saiu pouco depois, trazendo um ramo de galhos cheirosos no bico.

– Élfide? – repeti confusa.

– Agora traga-me aquele frasco azul-escuro que está no centro da prateleira dos arabescos, Ré, por favor.

Fizemos silêncio enquanto a ave ia e vinha, trazendo o material que Nesbex lhe pedia e ao final de alguns minutos ela quedou-se em silêncio sob o olhar brilhante do pássaro. Quando terminou o tratamento, deixando nossa companheira envolta de uma nuvem de fumaça clara, Nesbex voltou-nos os leques, encarando a cada um de cada vez. Deteve-se mais em Edula e Faiald, inclinando a cabeça num movimento breve para Bulbo e – mistério!– para mim.

– Já lhe disse para não trazer essas criaturas aqui para dentro – observou, seca, para o ruivo. A voz  dela tinha tomado uma inflexão metálica e nosso guia retesou-se, preparado para alguma coisa. O corpo da feiticeira deslizou para uma das colunas quebradas. – Um gnomo e uma élfide ao pé do Portal Quebrado é uma afronta à qualquer jogador!

Ergueu os braços e as mangas amareladas caíram para trás revelando membros velhos e desgastados.

Por um momento eles cintilaram suavemente.

Depois suas mãos acenderam-se em chamas.

– Vou queimá-los como tochas – ela sussurrou.

Faiald gritou. Bulbo e eu recuamos no mesmo movimento assustados, mas devo confessar que o gnomo ainda encontrou sangue frio para ficar na minha frente, apesar de ser ele, e não eu, quem sabia o que aquela cintilância significava.  Caí de joelhos ao seu lado e me abracei a ele com toda força. Algo passou por mim muito rapidamente, roçando uma fazenda áspera no meu rosto. Houve um lampejar ofuscante e um trovejar medonho. Foi tudo ao mesmo tempo.

–  Nesbex, espere!

A voz era de Faiald. Me admirei por ainda estar em condições de reconhecer alguma coisa, e espiei com o canto do olho. Parado ao meu lado, César esticava as mãos na direção dela e na palma delas uma espécie de fogo se espalhava enfurecido. O jato de energia que vinha das mãos da feiticeira batia de frente na barreira que meu amigo havia criado.

Por um momento, achei que estava a salvo.

Então ela grunhiu algumas palavras e César gemeu de dor. Seus braços cederam um pouco, seus joelhos vergaram. Eu me abracei à Bulbo de novo e fechei os olhos com força, enfiando o nariz na barba dele sem nenhum constrangimento. Ouvi a espada de Edula sendo puxada com força para fora da bainha.

– Nesbex – gritou o Damin,– a moça não é uma élfide! Não é uma criatura do Tabuleiro!

Houve um instante de silêncio. Depois, mais senti do que vi, César caindo de quatro ao nosso lado, ofegando.

A feiticeira tinha baixado os braços e olhava para mim, imóvel. Julguei vislumbrar no fundo daquela escuridão um clarão amarelado como veios de ouro na terra. Ela ficou um instante em silêncio, encarando-me até que, vencida pela sombra e sua profundidade capaz de encerrar um infinito entre os dois leques, baixei os olhos.

– Não – murmurou a feiticeira com a voz estranhamente entoada. – Não é uma élfide. Por um momento, contudo, pensei que...

Silenciou, depois olhou para Bulbo.

– Ele é um gnomo! – acusou, apontando o braço desnudo e cintilante outra vez. César esboçou um gesto.

– Ela é mais forte do que eu. Muito mais forte. Sinto muito, – soluçou. Edula saltou para diante de nós. A feiticeira riu um pouco.

– Tola – sibilou, e juro que eu nunca tinha ouvido a maldade até então.

– Nesbex, ele é...              

– Cale-se, Faiald! – ela interrompeu-o irritada.

– Bulbo é um jogador – insistiu Faiald.

A mulher fez uma pausa.

– Mentira – duvidou.

– É verdade – sussurrou Bulbo, alto apenas o suficiente para ela ouvi-lo.

Súbito, ouvimos um som baixo, cínico, mau. O braço dela desapareceu debaixo da manga larga e sua risada elevou-se nos ares, transformando-se num brado de ódio:

– Ouviu isso, Clara? Uma das tuas criaturas, carne da tua terra, sangue da tua água, trama contra ti! Isso não é fantástico? Desde quando a criatura trama contra seu criador?

– Desde o nascimento dos mundos – murmurou César sentando-se no chão. Nesbex voltou-se para ele. Quase podia ver-lhe o sorriso inteligente oculto por seu disfarce.

– Sim, mago, você tem razão – concordou com suavidade. – Somos ingratos rebentos do Universo. Nascidos para subjugá-lo e governá-lo, esquecendo que a maior das bênçãos é fazer parte dele, e não possuí-lo.

Avaliou-o em silêncio, depois completou:

– Corajoso e forte como uma menina tola que eu conheci. E tão iniciante quanto ela, antes de ser eu. Não sou mais forte do que você, mago. Sou apenas mais sábia. Mais velha. Muito mais velha.

Meu amigo balançou a cabeça. Seu cabelo fumegava levemente.

A feiticeira voltou-se para Bulbo.

– Você é um jogador? Tem certeza do que está dizendo?

– Sim, senhora – gaguejou o pequenino – Eu sou um jogador.

Ela suspirou.

– Então está bem, você pode ficar.

Houve um breve silêncio. Edula ajudou César a levantar-se e Cíntia me estendeu a mão. Acho que todo mundo esperava um pedido de desculpas por parte de Nesbex, mas ele não veio e o silêncio prolongou-se, desconfortável. Resolvi arriscar.

– Por que a Colônia está se mudando? – perguntei. Estremeci ao me lembrar do que houvera naquela manhã, mas pareceu uma boa idéia lembrar de algo que parecia ser uma ameaça a todos nós, inclusive à Nesbex. Os leques moveram-se com vagar e ela pareceu fitar o vulto alto as árvores além das roseiras.

– Ela passou muito perto daqui hoje – murmurou com pesar e temor. – Por que saíram de seu buraco, onde se ocultavam em escuras tocas? Não sei. Mas o Irmão da Terra está em movimento e tudo o sabe, tudo o sente, tudo se move com ele. Não é assim, Faiald?

O ruivo desviou os olhos e deu-lhe as costas em silêncio, andando em direção às nossas mochilas.

– Sempre um covarde – ela murmurou balançando a cabeça. – Não merece a sua confiança, jogadores. Cuidado com ele.

– Ele demonstrou muita coragem hoje, quando fomos atacados pela Colônia – murmurou Edula. – Salvou Cezna e deixou-se ficar por último quando quando as árvores desabaram, à fim de que fôssemos na frente.

– Oh, não estou me referindo às coisas terríveis. Para isso, Damin Faiald é um excelente companheiro e um sábio guardião – replicou a feiticeira num tom de pouco caso. – Estou falando das coisas simples. De assumir quem ele verdadeiramente é. Mas agora, desejo que descansem. Vejam, sua amiga está dormindo o sono da recuperação. Quando a manhã nascer, poderão partir e seguir seu caminho. Por favor, sentem-se. Tenho certeza de que Faiald e Bulbo acenderão uma fogueira sem demora. Descansem. Não erguerei mais minha mão contra vocês e aqui estarão em segurança. Ré, cante uma canção para eles.

Quando me virei para ver Faiald, vi que ele tinha, de fato, acendido uma pequena fogueira que ardia com inigualável apelo. A ave cinzenta pôs-se a cantar uma melodia esquisita e suave quanto arrastávamo-nos até o fogo. Fitando as brasas eu podia sentir o cansaço infiltrando-se nos meus ossos, o calor relaxando os músculos contraídos, deixando que a dor que me dominava fluísse em ondas que lentamente se esvairiam na benção do sono. Todos nós nos encarávamos do mesmo jeito, exaustos. Olhei para cima e vi a lua redonda, cheia, sobre um dos pilares. Depois, um pouco abaixo dela, à direita, vi um quarto crescente um pouco menor, emergindo da floresta, lenta, mas visivelmente mais rápida que a outra. À esquerda de ambas, apenas uma ponta do quarto minguante da terceira lua espiava sobre as árvores. Fiquei olhando-as embevecida por longos instantes, até que me dei conta de que de fato, havia três luas no céu. As estrelas, brancas, frias, distantes, formavam constelações desconhecidas. Tremia de emoção e ao tocar o braço da pessoa ao meu lado, vi que era Faiald.

– Veja – sussurrei como que para não espantá-las. – Três luas.

– Sim – ele respondeu com um sorriso tão luminoso quanto a luz que elas emitiam. – Chamam-se "as três que bailam", ou "três bailando". As-ein, no idioma das fadas.

Continuei olhando para elas, cheirando o perfume das rosas novas e das rosas velhas que o ar me trazia, e de alguma rosa oculta no roseiral, misteriosa, cintilando seu perfume através de todos os outros. Eu poderia apontar a dona daquele aroma, entre milhares de outras, iguais que fossem na cor e na forma.

Esqueci de todo o resto. Não sei o que foi que se falou enquanto Bulbo distribuía uma nova porção de comida, mesmo porque não comi nada. A luz das luas batia no branco marmóreo das colunas e, mesmo aquelas cobertas de heras, refulgiam de leve como pedaços de um quebra-cabeças incompleto. Adormeci e de madrugada, antes do outros despertarem, acordei de repente, saindo de um pesadelo onde as árvores caíam ao meu redor explodindo em raios de energia, revelando o perfil da criatura que eu não tinha coragem de nomear. Sentei-me de chofre, o coração batendo nos meus ouvidos, o sangue pulsando em minhas veias. Estava suada e de repente o frio da madrugada me invadiu. Mas ali não havia perigo algum. Nada vinha afrontar a muralha espinhosa durante a noite, e aquilo que eu temia estava muito longe. Apenas a lua cheia ainda permanecia no céu. Ré, no alto de seu poleiro, olhou para mim com seus olhos cheios de segredos. Márcia, sobre a mesa, dormia, e seu rosto estava pálido como a lua. Nesbex havia desaparecido, a fogueira ardia baixa. Do outro lado dela, Faiald estava sentado, fumando seu cachimbo, com Bulbo dormindo ao seu lado, meio destapado por algum gesto. Damin tapou o ombro dele com sua capa, olhou para mim e então sorriu. Olhei para a lua de novo. Como estava alta no céu! Quão distante estava de nós e das estrelas! Foi crescendo, crescendo, tudo prateando com seu fulgor melancólico. Adormeci.

Despertei quando Cíntia tropeçou em mim, ao amanhecer. Olhei ao redor e Ré havia desaparecido, junto com a lua e a beleza excêntrica da noite. As colunas voltaram a parecer ossos maltratados, o lugar, velho, e a floresta além do cerco de roseiras, ameaçadora. Suspirei terminando de despertar, já esquecida do pesadelo e agradecida pelo dia anterior ter ficado para trás. Sacudi a capa cheia de orvalho frio, e adivinhei que o rocio era, na verdade, o suor das estrelas.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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