O Jogo no Tabuleiro

- O Afilhado das Fadas -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

 

A Falcoeira
 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

8.

 

Depois de estarmos todos despertos, Edula saiu com Bulbo para arranjar mais lenha à fim de acender a fogueira que se havia apagado para que pudéssemos comer alguma coisa consistente antes de enfrentar a caminhada que nos esperava. Eu, pelo menos, estava morta de fome e isso me animou. Normalmente eu durmo até a metade da manhã, mas aqui no Tabuleiro descobri que o ar fresco da manhãzinha não só é mais leve e revigorante, como que alimenta o espírito de uma certeza de que um novo dia é um dia novo. Nem é preciso dizer que a lembrança da Colônia já ficara para trás. Não compreendi o que significara aquele primeiro encontro com os terrores do Tabuleiro e é bem possível que estivesse pensando que não podia haver nada pior do que aquilo, que já estava superado e fazia parte do passado. Um raciocínio burro do tipo “agora que o pior já passou, melhores dias virão”.

Enquanto eu divagava à cerca das vantagens de levantar cedo e admirava o orvalho nas rosas, César aproximou-se da irmã e tomou-lhe a mão deitada sobre a laje fria, apertando-a com carinho. Vi um sorriso leve desenhar-se nos lábios finos e acerquei-me dele junto com Cíntia e Cezna.

– Edula continua pensando que tudo é um sonho ? – perguntou ele com os olhos presos na face pálida de Márcia. Não parecia o mesmo César que eu conhecia.

– Acho que sim – respondi. – Quase não falei com ela na noite passada.

– Você quase não falou com ninguém na noite passada – disse Cíntia olhando-me de soslaio. Encolhi os ombros sem saber o que dizer.

– É mesmo! – murmurou Cezna sentado na laje ao lado da cabeça de Márcia. Observei que, de novo, Cíntia desviava o rosto, evitando fitá-lo de frente. – Estava bem desligada!

– Foram as luas,– murmurei, sorrindo. – Três lindas luas.

– E daí? – perguntou Cíntia cruzando os braços. – Qual é o problema?

– Problema nenhum. Só que em nosso céu há só uma lua – murmurou Cezna pensativo, olhando para cima.

– A imaginação de Clara criou três luas. Não há nada de fantástico nisso. Posso imaginar um céu verde com cinco luas vermelhas, e daí? – resmungou a mercadora. – Isso não é natural, nem verdadeiro.

– Ora, você não apreciaria um Van Gogh se visse um – observei, aborrecida. – Quando é que Márcia vai acordar?

– Logo, logo – sussurrou César dando um beijo na testa da irmã. – Ela logo despertará.

– Isso se estiver viva,– resmungou Cíntia de novo. – Parece que nem está respirando.

Vade retro! – bradou Cezna,divertido. – Vê se não fica chamando desgraça para cima da gente!

Eu ri um pouco da careta cômica dele, mas Cíntia não a viu porque lhe deu as costas.

– Ela não está respirando – confirmou César com um meio sorriso.

– O quê? – gritou nossa amiga empalidecendo de novo.

– Não se preocupe – respondeu César sorrindo mais calorosamente e encarando a mercadora por cima dos óculos. – Ela está viva. Logo vai voltar para nós.

– Como? Nunca vi isso! E se não despertar? – gemeu ela tremendo.

– Ei, ei, tenha calma, Cíntia – murmurou Cezna voando para frente dela. A moça recuou trêmula, pálida.

– Afaste-se! Fique longe de mim! – gritou agudamente. Nós a olhamos espantados. Cezna pousou no meu ombro e pude perceber o quanto estava magoado.

– Nada mudou para mim, sabia? – ele disse com um tom rouco na voz. – Você continua a mesma. Ou continuava, até agora.

– Você não tem o direito de agir desse jeito – murmurei, tão magoada com ela quanto Cezna. Cíntia mordeu os lábios confusa e estendeu as mão s para nós.

– Me desculpem. Este lugar me dá nos nervos – sussurrou. – Eu só quero ir para casa o mais depressa possível.

– Este lugar dá nos nervos de qualquer um e todos nós queremos ir para casa – resmungou Cezna voando para o alto de uma coluna. – Eu mais que qualquer um.

Cíntia não disse nada e nem era preciso. A ordem das coisas, tudo era diferente ali, algo muito mais sutil do que aquilo que nossos cinco sentidos registravam. Teríamos de aprender as regras antes de nos sentirmos à vontade.

Compreendi isso enquanto ela se voltava para Edula e Bulbo e caminhava para junto da fogueira que eles tinham acendido. Sobre as labaredas assava um petisco que Faiald tinha arranjado. Segui-a apenas alguns passos atrás, pensando que talvez minha visão daquele lugar era positiva demais. Mal tínhamos sentado, quando Márcia aproximou-se, encolhida sob a capa de César, amparada pelo irmão.

– Ei! – gritou Cíntia, levantando-se de novo. – Você está bem, Márcia?

– Estou, estou sim – murmurou a pequena, abraçando-a.

– Puxa, então estamos todos bem, prontos para outra – exclamei alegremente ao abraçá-la. A irmã do mago afastou-me, encarou-me um pouco séria, mas logo sorriu.

– Parece que sim – disse, numa risada.

Depois do reforçado café da manhã, arrumamos tudo e nos dispusemos a partir. Já estávamos todos prontos, quando Edula voltou-se para o ruivo.

– E então? Ela vai demorar?

Faiald fez uma careta de desagrado e percebi que os dois tinham tido alguma discussão que eu perdera.

– Já lhe disse antes: Nesbex não vai conosco.

– E por que ela nos acompanharia? – admirou-se Cíntia. Edula voltou-se para ela com os olhos faiscando.

– Ora, porquê! Ela não é uma das jogadoras da primeira partida? Não é uma pessoa "lá de fora", para dizer de alguma maneira? Então!

Minha amiga fez um gesto como se dissesse "não é preciso dizer mais nada, ou é?". Eu balancei a cabeça.

– Não tinha pensado nisso – comentei baixinho.

– Edula tem razão – intrometeu-se César. – Se Nesbex é uma jogadora, como nós, ela deveria vir junto. Seu poder e seu conhecimento poderiam ser úteis...

– Esta discussão é inútil. Nesbex não pode sair do círculo da roseira – resmungou Faiald dando-nos as costas e dirigindo-se à abertura no muro de flores. Como nenhum de nós, salvo Bublo, o acompanhou, obrigou-se a parar e voltar-se para nos encarar. Suspirou, procurando uma resposta para nossos olhares surpresos.

– Deixem-me tentar explicar –  começou. – Nesbex era uma jogadora como nós. Mas quando perdemos a primeira partida ela... ela... como direi... ela foi engolida pela reorganização do Jogo. É como se tivesse se transformado num dos personagens do Jogo. Ela, agora, está sujeita à regras muito diferentes que nós, está sujeita às leis que regem o próprio softwere do Tabuleiro. Se sair daqui, sofrerá as consequências do castigo que lhe foi imposto.

– Castigo? Quem a está castigando? –  quis saber Cíntia.

– Clara.

– Por quê? – sussurrou Cezna no meu ombro.

– Porque ela ousou... impor-se aos desejos da Mestra do Jogo, mesmo tendo perdido.

– O que acontece se ela sair daqui? –  perguntou Márcia, curiosa.

– Será tocada pelo tempo. Se desfará em pó. É o seu castigo.

– Sei... – murmurei com o que esperava que fosse sarcasmo. – Shangrilá e aquela bobagem toda.

Faiald inclinou a cabeça concordando.

–  Talvez.

Houve um curto e desagradável silêncio. Estávamos todos começando a pensar na mesma coisa. Na mesma coisa desagradável.

– O que acontece se perdermos a partida? –  indagou Edula num sopro.

– É melhor não perder para descobrir – César mastigou as palavras com raiva e avançou até a abertura do muro de rosas.

– Não vamos perder – consolou Faiald, parecendo confiante.

– Acho bom, mesmo. Eu é que não quero passar o resto dos meus dias num lugar maluco como esse – declarou Cíntia, seguindo o mago. Eu entrei na fila e num instante havíamos deixado o refúgio das roseiras.

Ao fugir da Colônia no dia anterior, tínhamos nos desviado da trilha que Faiald esperava seguir originalmente e assim teríamos de vencer mais um trecho de floresta antes de chegar à estrada em busca das campinas do sul. Uma vez lá, Faiald pretendia conseguir montarias para todos, uma espécie animal chamado "cabras-de-sol". Passei a maior parte do dia tentando imaginar como montaríamos em cabras, o que me levou a pensar que talvez fossem animais  tamanho gigante, numa alusão do meu subconsciente ao tamanho das aranhas da Colônia. O dia passou sem novidades e durante muito tempo ainda o perfume das roseiras nos perseguiu por todos os recantos. Caminhamos calmamente, enfrentamos mosquitos e moscas, comentando sobre os limites da obra de Clara. Afinal, aqueles insetos não eram diferentes daqueles que conhecíamos em nossas casas. Seriam eles lembranças da mestra do jogo?

Ao entardecer, alcançamos uma vasta campina, tão grande quanto o campo em que tínhamos despertado dois dias antes. À esquerda a estrada se estendia escura entre o solo verde, cortando aqui e ali as colinas. Deixamo-nos cair sobre as mochilas. Algumas estrelas já começavam a surgir apressadamente, cintilando com alegria no veludo do céu. César acendeu uma fogueira para nós com um passe mágica, e ao redor dela nos sentamos, aquecendo os restos do café da manhã. Para quem passara o dia inteiro à base de frutas, água e bolachas secas, o jantar veio em boa hora. Os restos de nossas provisões foram devorados num instante.

Já mais descansados, de barriga cheia e aquecidos, lamentei em pensamento ter deixado tão cedo o refúgio de Nesbex. O campo pareceu ficar ainda mais nú e desabrigado quando a primeira das três luas nasceu, rápida, apressada, tingindo tudo de prata. Eu estava sentada de lado para a mata, conversando com Cíntia sobre um animal azul que tínhamos avistado naquela tarde, quando um grito de admiração de Cezna me chamou a atenção.

– Vejam só aquilo! – gritou ele.

– O quê ? – perguntei, olhando para meu amigo alado, enquanto Cíntia franzia a testa, confusa.

– O que foi que disse? – perguntou, ao que Cezna respondeu:

– Olhem só aquilo no horizonte!

Na direção em que ele apontava, uma série de luzes vermelhas, amarelas e azuis deslizavam rapidamente, ziguezagueando entre si. Às vezes uma se afastava das companheiras para logo retornar e fundir-se ao grupo novamente. Súbito, o movimento todo mudou e as luzes puseram-se a correr na direção contrária aquela que até então seguiam e continuaram a correr até que desviaram-se para o outro lado e desapareceram atrás das colinas.

– O que era aquilo? – perguntou Cezna, maravilhado.

– Cabras-de-sol – respondeu Faiald admirado também, mas, não tanto quanto nós. – Teremos de caçá-las, amanhã.

– Estão em estado selvagem? – perguntou César desanimado.

– Sim, mas não se preocupem – respondeu o ruivo, tragando do seu inseparável cachimbo. – São muito dóceis depois que são capturadas. Além do mais, trouxemos os arreios...

– O problema é justamente capturá-las – interrompeu Bulbo, rindo, bem humorado.

Olhamos para ele, desconfiados.

– Oh, não se preocupem, não são ferozes – explicou o gnomo. – São dóceis, como disse Faiald, mas são muito velozes. Não será fácil.

– Eu não disse que seria fácil, disse? – replicou Faiald voltando as costas para o horizonte.

Por um momento ficamos em silêncio. De repente, Cíntia perguntou:

– Será que a Colônia era o animal mítico que tínhamos de enfrentar?

Quase todos nós a encaramos irritados. Ninguém queria pensar na Colônia naquele escuro. Mas Faiald balançou a cabeça numa negativa, levando a pergunta dela em consideração.

– Aranhas gigantescas não são animais míticos – disse.

– Será que vocês não têm outro assunto? – protestei.

– Ah... eu pensei –  suspirou a loura, chateada.

– Pois não pense – resmungou César. Ela nos olhou, ofendida.

– Eu só queria eliminar uma etapa do jogo, entendem? Queria poder dizer que essa tarefa foi resolvida! – explicou, muito digna. Márcia sorriu e encaixou o braço no dela, num gesto fraternal.

– Vamos esquecer isso. Estou morta de cansaço, por que não dormimos? – perguntou nossa caçula. – Além disso, parece que amanhã teremos muito o que fazer.

– Vamos ter de montar guarda – anunciou nosso guia, reavivando o fogo com um galho comprido. O fitamos confusos e ele concluiu, como se isso explicasse tudo: – Teremos de evitar surpresas desagradáveis.

Olhei para o lado e a floresta pareceu crescer imensamente sobre meu ombro. Lembrei de súbito que em algum lugar daquele manto imenso, a Colônia movia-se, levando sua terrível matriarca e estremeci, encolhendo minhas pernas.

– Eu fico – me ofereci. – Estamos de oito e acredito que uma hora de vigia não fará mal à noite de sono de ninguém.

– Está bem – disse Cezna voando para minha mochila e tirando de lá um dos gorros de Bulbo com o qual se cobrira na noite anterior. – Acorde-me para o próximo turno.

– E onde vamos dormir? – quis saber Edula olhando ao redor.

– Enrolados nas capas. No chão – especificou Bulbo. Nossa incredulidade atingiu picos homéricos. Chegou a ser engraçado!

– Neste frio? Neste sereno? – guinchou Cíntia resumindo tudo. – Vou ficar doente! Isso, se eu conseguir dormir!

– Ontem você não reclamou, no refúgio de Nesbex – observou Faiald.

– Lá foi... lá foi diferente. Você sabe: o chão estava cheio de capim macio, ou algo assim. E estava protegido do sereno por... não sei, estava protegido, não era tão úmido e ninguém falou em montar guarda! Não estamos no exército! – continuou a loura. Voltou-se para César, esperançosa.

– Bem, você não acendeu a fogueira só de olhar para ela? Porque não providencia colchões de acampamento e barracas? – sugeriu, animada. Faiald intrometeu-se com uma carranca.

– Que ideia! Com o bom tempo que faz? César tem de poupar suas forças! Não podemos desperdiçar energia com luxo!

– E desde quando um teto para dormir é luxo? – ela protestou batendo o pé no chão.

– Desde que você chegou aqui, Mercadora. Você acha que isto é uma excursão?

Cíntia o encarou com o lábio de baixo tremendo, ao borde das lágrimas. Edula se aproximou dela e passou o braço sobre seu ombro, solidária.

– Vamos, Cíntia, ele pode ter razão. Eu te empresto minha capa, você vai ficar mais confortável, e a gente te deixa com o último turno. Assim, poderá dormir a noite inteira. Só terá de acordar mais cedo, o que você acha?

Nossa amiga não disse nada. Virou o rosto e engoliu as lágrimas que teimavam em embargar-lhe a voz. Gemeu:

– Vou terminar doente neste lugar.

Márcia cutucou o irmão com o cotovelo e ele suspirou, aborrecido:

– Vamos cuidar de você, está bem? Você só tem de se preocupar em descansar.

E fez um gesto largo que aplainou um bocado de terra ao redor da fogueira, livrando-nos de pedras e raízes. Faiald balançou a cabeça e nada disse, mas bem se via que ele não aprovava semelhante “conforto”.

– Olha, até parece o colchão lá de casa! – animou-se Márcia, mas Cíntia não parecia nada animada quando se enrolou nos cobertores. Todos se acomodaram o mais próximo possível da fogueira, estendendo o corpo cansado sobre o solo – e é claro que apesar de liso, ele continuava duro como qualquer chão de estrada. Eu fiquei em silêncio, olhando o céu e as luzes, desviando meus pensamentos para as ruínas de Nesbex e para Ré, com seu trinado suave e estranho. Àquela altura da noite, as outras duas luas já haviam nascido, a maior delas um imenso círculo, cheio de prata. Eu me sentia cansada, mas não tinha sono. Encostei-me numa árvore e guardei meus amigos durante duas horas, até que finalmente meus olhos ameaçaram se fechar e fui obrigada a chamar Cezna. Depois deitei-me e adormeci de imediato, mergulhando num sono sem sonhos.

Despertei com uma impressão estranha. Parecia que alguém me observava. A impressão era tão forte que não pude evitar de sentar-me de supetão, olhando ao redor.

Detive-me, gelada.

Meu movimento espantara, mas não afastara, uma criatura pouco maior do que um mastim, com uma grande cauda que movia-se de um lado para outro, nervosamente. Tinha caninos do tamanho de um punhal, brancos, afiados e bem pontudos. Ao redor do pescoço, trazia uma coisa que à princípio me pareceu ser uma juba, mas que ao observar melhor descobri ser uma membrana de couro que se movia lentamente. A cauda do animal enrolava-se e desenrolava-se e a língua, dupla como a de uma serpente, espichava-se para fora, silvando desagradavelmente. Os olhos da criatura tinham reflexos verdes e me fixavam diretamente. Parecia muito perigoso. Cezna remexeu-se a poucos centímetros de uma das garras do animal, uma garra forte, com longas unhas. O bicho desviou o olhar de mim por um instante e o voltou para meu amigo. Engoli em seco e movi-me em direção à espada de Edula.

Ele sentiu meu movimento e fitou-me de novo. Senti o suor correndo em minhas costas.

"Pelo amor de Deus, eu mal despertei!", pensei.

Nem sequer me passou pela cabeça que eu podia estar sonhando. Aquelas garras fortes com longas unhas azuladas não era nenhum pesadelo. Eram muito pior do que isso.

Lentamente, muito lentamente, estendi a mão para a bota de Faiald, à minha direita, e cuja cabeça também estava próxima do bicho. Os dentes da fera cintilavam e seus músculos rijos por baixo do couro macio me faziam crer em movimentos tão ágeis quanto fulminantes. Não duvidei em nenhum momento que ele poderia arrancar a cabeça do ruivo com uma patada.

Agarrei o cabo do punhal que nosso guia levava na bota e o puxei de sua bainha, sem tirar os olhos da criatura. Deus me livrasse de perder um único de seus movimentos! Não me passava, certamente, a ideia de atracar-me com ele, mas ter uma faca afiada em mãos, à essa altura dos acontecimentos, me pareceu mais do que necessário. Molhei os lábios, empunhei a faca firmemente e me ergui de supetão.

O animal deu um pulo para trás, afastando-se do grupo. Ele é arisco, pensei um pouco animada, imaginando se isso não seria uma vantagem. Um grunhido surdo e ameaçador saiu de sua garganta porém, e qualquer vantagem que pudéssemos ter se perdeu em minha pernas trêmulas.

Eu precisava de uma solução, e depressa, antes que minha parca coragem se fosse. Lembrei-me de um filme que tinha visto alguns anos atrás e resolvi por a ideia em prática. Ergui meus braços, corri na direção dele, gritando como uma maluca, na esperança de assustá-lo com meu berreiro televisivo.

O bicho baixou a juba que tinha alta, emitiu uma espécie de latido misturado com rugido e recuou. Não muito. Na verdade, uns poucos passos. Mas recuou.

Parei ofegante, não me atrevendo a deixar o círculo de corpos adormecidos. A fogueira estava apagada e, me pareceu, há muito tempo. Quem, afinal de contas, tinha ficado com o último turno de guarda? Como pudera dormir? Com que direito deixava apagar o fogo?!

O animal deu um passo para mim. Engoli em seco. Dessa vez, pensei, comprei uma briga grande demais.

– Fique onde está – murmurou a voz de Faiald e senti minhas pernas amolecerem de alívio. Enfim, a cavalaria. E já não era sem tempo! – Não faça nenhum movimento.

– Só quero que ele vá embora – disse eu, trêmula.

– E ele só quer comer – continuou Faiald. Bulbo erguera-se também e todos haviam acordado com meus gritos.

– Não tire os olhos dele – recomendou Bulbo. – Se o fizer, estamos todos perdidos.

– Recue bem devagar, de-va-gar, entendeu? – perguntou o ruivo com a voz calma. Meus ouvidos tamborilavam com as batidas do meu coração, muito alto e muito rapidamente. Eu quase não ouvia, mas balancei a cabeça e obedeci engolindo em seco.

Acenei de novo e mordi os lábios com força.

– Ele está preso aos seus olhos – explicou Faiald. Tive a nítida impressão de que ele havia acendido de novo o seu cachimbo e ia nos dar uma palestra didática sobre os hábitos daquele animal, enquanto eu ficava ali parada, suando de medo e louca para correr o mais longe possível. – Se você mover seus olhos, ele se moverá junto. Se olhar para um de nós, ele se transportará para o meio do grupo, e é exatamente isso o que quer que você faça. Esses animais são semi-racionais, não é bom subestimá-los.

– E o que vamos fazer, então ? – perguntou Cezna furioso e assustado. – Cida fica olhando para o bicho para o resto da Eternidade?

– Não seja tolo – retorquiu Faiald.

– Então me diga o que devo fazer! – pedi, aflita. Não me atrevia nem a piscar.

– Atenção, ele vai dar o bote! – gritou Bulbo ao meu lado. O animal baixara os quartos dianteiros e encolhera a cauda bem junto ao corpo. Ouvi Faiald dizer qualquer coisa sobre onde estaria sua arma e minha mão suada remexeu o cabo do punhal, inquieta, na esperança de poder segurá-lo ainda mais firmemente e, quem sabe, adquirir mais força para enfrentá-lo.

Súbito, tive uma ideia. Nem sei se foi uma ideia mesmo ou só instinto. Quando o animal saltou em nossa direção, um salto longo, suave, as garras distendidas para meu peito, o bafo quente roçando minha face, olhei para a árvore mais alta e distante que havia em meu campo de visão. Quando olhei para o lugar onde o animal estivera, vi que havia desaparecido silenciosamente. Em algum lugar da mata ouvimos um ganido rouco e decepcionado de caçador logrado. Bulbo saltou para o lado e um instante mais tarde, balbuciou:

– Onde está?

– Cadê ele? – gritou Cíntia, sempre redundante. Olhei para Faiald, muito pálido, e estendi-lhe a faca.

– Não preciso mais disto – murmurei, conseguindo sorrir. O ruivo encarou-me atordoado e então, começou a rir.

– Essa foi boa! – disse.

– Alguém pode me explicar o que aconteceu? – perguntou Márcia, intrigada.

– Eu o olhei para longe – expliquei, mas se a frase fazia sentido para mim, logicamente, não o fazia para meus companheiros.

– Fez o quê ? – insistiu César, procurando a árvore para onde eu apontava. O animal ainda estava lá em cima, olhando assustado para baixo. De vez em quando ouvíamos um ganido surdo.

– Claro! – replicou Edula compreendendo. – Se olhar para um de nós o traria para perto, olhar para longe só poderia arremessá-lo adiante.

– Ora, até parece que Cida está se adaptando muito bem ao Tabuleiro – riu Cezna. – Quem sabe se ela não gostaria de voltar e ocupar a toca de Bulbo?

– Muito engraçadinho! – repliquei. Os ganidos do animal chegavam aos meus ouvidos e comecei a ficar com pena dele.

– Como é o nome daquela coisa? – perguntou César espreguiçando-se.

– Ladrão-de-olhos – respondeu Faiald.

– Se tivermos outro despertar como esse, juro que deixo Eneias aqui e volto para casa sozinha – disse Cíntia que não parecia nada divertida com o assunto.

– O bicho poderá sair de onde está ? – perguntei, voltando-me para Faiald. Percebi que meu corpo doía e gemi ao me sentar.

– Não se preocupe, ele dará um jeito – disse Bulbo com um sorriso embaixo do nariz vermelho. – Alguém gostaria de ir comigo? Vou buscar frutas.

– Eu vou – anunciou Márcia.

– De quem era o último turno? – indaguei quando eles já iam mais afastados. César olhou para a irmã, que protestou.

– Não senhor! – ela gritou. – Depois de mim, cheguei a acordar Cíntia. Foi o que combinamos, lembra? Aliás, foi o que você disse para a gente fazer!

Olhamos todos para a loura que enrubesceu como um pimentão.

– Puxa, desculpem! – sussurrou ela erguendo as sobrancelhas. – Acho que dormi de novo.

– Pois o seu sono poderia ter nos custado a vida – reclamou Faiald. – Daqui por diante seria muito bom que todos levassem mais à sério suas obrigações – agarrou a arma de cano duplo e afastou-se, irritado.

– Tanto barulho por nada – resmungou Edula voltando a deitar-se em seu cobertor.

Abri a boca para protestar, mas reconsiderei. Não valia a pena e, apesar do susto, eu me sentia muito satisfeita comigo mesma. O sol ainda não erguera de todo sua face de fogo mas antes mesmo que estivesse alto no céu, já estávamos à caminho do lugar no horizonte onde havíamos vislumbrado a manada de cabras-do-sol na noite anterior.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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