O Jogo no Tabuleiro

- O Afilhado das Fadas -

 

 

 

O Afilhado das Fadas

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

 

 

 

A Falcoeira
 

O Guerreiro Cinzento
 

O Nemthru

9.

Encontramos os animais numa depressão entre três colinas. Tinham o focinho semelhante ao das lhamas, e o lombo grande de um cavalo. Na testa traziam um chifre espiralado, em cujo centro brilhava uma gema que, ao sol, luzia vermelha, azul ou amarela, dependendo do animal. Os pelos longos podiam ser brancos ou marrons, malhados, ou um cinza escuro muito bonito, semelhante ao chumbo. Tinham a aparência pacata e pastavam tranquilamente, olhando ao redor de vez em quando, cutucando os filhotes com os focinhos macios e arredondados.

Deitada numa das colinas, colada o mais possível ao solo, me senti um tanto estúpida. Olhei para Edula, estirada ao meu lado direito e vi que ela tinha um ar divertido nos olhos.

– Contei quarenta animais – segredou ela. – Deve haver uns dez filhotes.

Um pouco mais abaixo, César fez-me sinal para descer. Engatinhamos de volta, para junto do resto do grupo, com o mínimo de ruídos que podíamos fazer, embora eu tivesse a impressão de que naquela campina silenciosa nós ou um trem de ferro, era a mesma coisa.

– Meu plano é o seguinte – sussurrou Faiald com os olhos cinzentos pulado de um para outro do grupo. – César formará uma cerca de magia ao redor por cima das colinas e Edula e eu fecharemos a abertura da depressão. Os outros tentarão capturar uma cabra para si e depois nos ajudarão a pegar uma para cada um de nós. Não precisam ter medo, elas são muito dóceis e depois de montadas uma vez tornam-se ótimos corcéis. Acha que pode dar conta do recado, Mago?

– Pode contar com isso – disse César empurrando os óculos sobre o nariz, sorrindo.

– Você deve estar brincado, se pensa que vamos pegar esses bichos sem cordas nem coisa alguma – protestou Cíntia olhando com desconfiança para o alto da colina. – Eu não vou enfrentar aqueles chifres imensos.

– Aqueles "chifres imensos" são inofensivos! – retorquiu Faiald.

– Um chifre daquele tamanho, inofensivo? – ela insistiu, descrente.

Faiald revirou os olhos, irritado.

– Se você tem uma ideia melhor...

– Ah, vamos lá, não deve ser tão difícil – tentou animar Cezna.

– Você nem tamanho tem para dar opinião – resmungou a loura.

– Deixe de ser enjoada, Cíntia – pediu Márcia. Ela ainda estava pálida e Faiald resolvera deixá-la fora da caçada.

– Sim, vamos nos mexer, antes que elas dêem o fora – murmurei ansiosa.

– E então ? – pediu Faiald olhando na direção da mercadora.

– Não contem comigo – replicou ela.

– Vamos – comandou César. – Depois que essa teimosa vir que não há problema, também vai querer arranjar uma para si. Ou então, irá o resto do caminho à pé.

– Faiald disse a mesma coisa sobre a trilha que pegamos na floresta. E vejam no que deu – argumentou a mercadora, venenosa.

Olhei para ela, controlando uma vontade muito grande de esganá-la.

Essa é a última coisa da qual quero me lembrar hoje – murmurou a irmã do mago, ainda mais pálida.

– Vamos, comecem a contar. Na marca de cinqüenta estaremos todos em posição. Na marca de sessenta, começamos a caçada – comandou Faiald, encarando a mercadora com franca irritação. – Um, dois, três...

Continuamos a contar no mesmo ritmo, enquanto Edula e Faiald se afastavam em direção à saída da depressão e César subia a colina do meio. Nosso “grupo de ataque”, era constituído por um anão de contos de fadas, um homenzinho alado de trinta centímetros de altura e eu. Sorri para eles, um sorriso amarelo, e me senti mais estúpida que antes.

Começamos a subir a colina. Minha contagem estava em quarenta, quando alcançamos o topo dela. Espiei por entre os capins para verificar se elas ainda estavam lá. Estavam. Todas elas, tão inocentes quanto pôneis num pasto de exposição. Sorri. Aquela sensação estúpida transformou-se numa excitação gostosa que me fazia sentir-me extremamente viva. Continuei contando.

Estava em cinquenta e quatro, quando as coisa começaram a sair mal.

César ergueu-se sobre uma das colinas antes da hora, inquietando o rebanho. Olhei para a abertura do vale. Edula e Faiald ainda não estavam lá, mas meu amigo mago abriu suas mãos e começou a brilhar com suavidade sob o sol. Súbito, de seus dedos saíram fibrilas de energia que trançaram-se com uma rapidez surpreendente e espalharam-se, avançando em nossa direção, ameaçando deixar-nos fora do âmbito da caçada. Ouvi Cezna dizer para pularmos para dentro, mas então eu já o tinha feito e rolara colina à baixo sem conseguir parar. Fui cair de quatro diante de um dos animais, que deu salto para trás enquanto um de seus companheiros me atacava pela retaguarda desguarnecida e, com uma chifrada direta em minhas nádegas, me atirou dois metros adiante, fazendo com que eu caísse de cara no charco que havia no meio do capim e sobre o qual ninguém me avisara! Tentei erguer-me mas um dos animais simplesmente pisou em cima de mim, a fim de alcançar um tufo de grama mais suculento e afundou-me ainda mais.

Quase perdi o fôlego, mas não me machuquei seriamente, apesar do peso do bicho. Consegui por-me sobre os joelhos tossindo, mas uma parte do rebanho, espantada com a corrida de um dos machos em que Bulbo tentava subir por uma perna, veio direto em minha direção e eu tive de abaixar-me outra vez enquanto eles pulavam por cima de mim com a graça das gazelas. Consegui, enfim, me por em pé, olhando a confusão que provocáramos. Na saída do vale, Faiald e Edula olhavam a tudo com uma expressão idiota e, de algum lugar atrás de mim, a risada de Cíntia chegou tão nítida quanto o sol.

As cabras, agora, tinham decidido usar Bulbo como bola, atirando o pobre de um lado para o outro com os chifres. O gnomo agarrou-se na própria touca com as duas mãos e começou a berrar:

– Socorro! Alguém faça alguma coisa!

Cezna voava em círculos ao redor dele, tentando ajudá-lo, mas uma das cabras o pegou delicadamente com os dentes e atirou-o justamente sobre mim, que perdi o equilíbrio e voltei para dentro do charco. Que pontaria tinham aquelas danadas, caramba! Olhei para o animal que atirara Cezna e compreendi que elas não estavam nem um pouco preocupadas com o fato de estarem aprisionadas por uma cerca mágica, com a única saída ocupada por dois guerreiros armados e sendo caçados por um trio de amadores. Que nada! Eles estavam era se divertindo!

Resolvi levar a coisa à sério. Meu prestígio, que subira com o episódio do ladrão-de-olhos, estava caindo vertiginosamente e eu estava decidida a fazer alguma coisa para impedir ainda mais a sua queda. Além do mais, estava desejosa de um banho desde o dia anterior mas, pelo amor de Deus, um banho com água e sabão, e não com aquela coisa barrenta que, pelo cheiro, talvez nem água fosse!

Levantei-me resoluta. Dei alguns passos na direção das cabras com o que esperava ser uma cara de meter medo. Ainda mantinha uma certa audácia dentro de mim, um sentimento que nenhum banho de lama poderia tirar e Cíntia começou a irradiar a caçada.

– E atenção, senhoras e senhores! Agora nossa meio de campo Cida vai tentar uma ação de represália. Está avançando corajosamente no meio de nossos atacantes e acaba de ser atirada para o lado!

Era verdade. Um dos bichos abalroou-me e fez-me dar alguns passos para o lado. Gemi de dor nas costelas, mas investi novamente, com a incansável Cíntia rolando de tanto dar risada.

– Agora, senhores ouvintes, a meio de campo acaba de conseguir chegar ao meio da ação e tirar de cena o gnomo promovido é bola. Não dá para ver muito bem, mas parece que os animais a estão segurando com os dentes pelo cangote... É isso mesmo! Eles a sustentam pelo cangote, enquanto nossa jogadora dá chutes e esmurra o ar. Parece furiosa, senhoras e senhor, pois tudo indica que eles vão jogá-la novamente dentro da água, ou o que quer que seja aquilo... eee... pronto! Lá está ela de água pela canela, pálida de raiva. Ai! Vai apelar para a ignorância. Está sapateando, senhoras e senhores, sapateando! Pulando de raiva! Suponho que se houvesse um juiz aqui, já teria recebido um cartão vermelho.

Olhei para ela e sacudi o punho, com raiva.

– Você deveria estar aqui comigo – gritei enfurecida.

– E perder o melhor da festa? – gargalhou a loura. – Agora, senhoras e senhores ouvintes, diretamente da Malucândia, nossa meio de campo está puxando o carrinho. Isto é, está tentando correr atrás das cabras-do-sol. Elas se limitam a saltar para o lado quando nossa corredora chega perto.

Cíntia interrompeu-se para rir enquanto eu tentava me aproximar dos animais à toda velocidade. Mas os bichos simplesmente saltitavam para o lado rebolando os traseiros imensos e me deixando só com o vazio. Vá lá, correr nunca foi a minha especialidade, mas aquilo se tornara uma questão pessoal, já que Cezna e Bulbo haviam sentado na grama dando palpites bobos. Faiald e Edula, parados na passagem, gritavam coisas que eu não compreendia. Só sabia dos bichos, do sol e da zombaria nos olhares deles. Tropecei nos próprios pés e quase caí. Consegui me recuperar e então ouvi Edula:

– O cinzento é o líder.

Certo, Edula, muito bem. E eu com isso? Vejam lá vocês se eu estava em condições de pegar o líder, quando não conseguia sequer aproximar-me dos mais velhos e fracos!

Súbito, César gritou lá de cima:

– Anda com isso, Cida! Estou ficando cansado!

Fiquei com vontade de mandá-lo fazer algo difícil de se fazer sozinho, mas o grito dele distraiu o animal mais próximo de mim. Ele ficou parado olhando para a figura impressionante de meu amigo e eu aproveitei para pular em seu pescoço. O bicho se assustou e saiu correndo comigo agarrada em seu pelo.

– Socorro! – berrei. A cabra deu um pinote mas eu a segurava com toda força que tinha.

Para encurtar a história, o bicho me arrastou pelo vale mais rápido do que eu jamais imaginei que alguém com pernas e coração poderia correr até que finalmente se cansou e eu consegui, muito trêmula, subir em sua garupa.

Como Faiald dissera, o bicho era "muito dócil". Logo eu estava me entendendo perfeitamente com minha montaria: eu lhe indicava o que queria que fizesse e ela fazia exatamente o contrário. Às vezes ficava difícil saber quem capturara quem. E além disso, tínhamos mais cinco para pegar!

Entretanto, os outros não foram tão difíceis. E, quando conseguimos capturar a segunda cabra, tudo ficou realmente simples. Era só cercar o animal que escolhíamos e o futuro cavaleiro tinha de tentar montá-lo. Conseguimos um para Márcia, outra para César, mas Cíntia teve de vir pegar a sua sozinha. Foi a minha vez de sentar-me na grama e rir dela. O de Faiald foi o último. Conseguiu um jovem macho de pelo malhado e pedra vermelha no chifre.

Finalmente, deixamos que o resto da manada se fosse, e César deixou-se cair no gramado, ofegante, sentindo dores terríveis nos braços.

Pensando bem, e olhando para trás, creio que foi a última vez que vi Cíntia sorrir e lhe ouvi a risada. Ela parecia encantada com sua montaria e alisava o focinho do bicho com freqüência, lamentando não ter um torrão de açúcar para lhe dar. Passamos o resto do dia tentando conhecer as cabras-do-sol, aprendendo a montá-las e ensinando-lhes como obedecer às rédeas que nossos guias tinham insistido em trazer. Ao anoitecer estávamos mais mortos do que vivos e caímos sobre nossos cobertores, enquanto os animais derramavam o luzir de suas pedras luminosas sobre nós. Como na noite anterior, fiquei com o primeiro turno da guarda. E lembro como se fosse hoje: no rosto sujo de Cíntia havia um inconfundível sorriso de prazer, como uma criança que, tendo passado um belo dia de Natal, deita-se com seu urso de pelúcia para sonhar com os presentes sob a árvore. 

Bem como Faiald nos dissera, as cabras não mais se afastaram de nós. Acho que apreciavam a nossa companhia, não por acharem-na um exemplo de vivacidade e inteligência, mas porque se divertiam com a gente.

Ganhamos a estrada no dia seguinte, bem cedinho. Nossas provisões tinham acabado, e Cíntia passou a manhã inteira reclamando que estava com fome, que estava cansada e que queria ir para casa. Sentada na garupa da cabra-de-sol que capturara para mim, e a quem chamava de Maricota, eu procurava não ouvir o que dizia mercadora, nem os protestos do meu estômago. Afinal, não tínhamos que nos cansar, nossas montarias nos levavam pela estrada de linhas tortas e aparência infinita. Cezna estava encarrapitado no chifre de Maricota, olhando para todos os lados, embebendo-se de sol e verde.

Parecia-me que, por mais tempo que vagássemos por aquelas terras de colinas e sol, aquele céu de nuvens e brisa fresca jamais me entediaria, jamais me cansaria. Era como um encantamento de espaço livre. Enlevava-me com cada florzinha minúscula que libertava o verde de sua unidade total com seus pingos violáceos ou amarelos, ou à imitar o céu. O Tabuleiro era o lugar mais bonito que eu já vira.

Por volta do meio dia, chegamos à um território onde havia plantações extensas, plantas que variavam entre diversos tons de verde, até um roxo bem escuro. Depois das plantações, passamos por diversos pomares e alguns campos onde pastavam animais de grande porte, semelhantes a vacas, mas com os chifres recurvados que formavam verdadeiros telhados sobre as cabeças. Seus olhos eram pacatos e negros, e nos fitavam com alguma curiosidade, como se viajantes não fossem muito comuns naqueles ermos.

Logo começamos a ver casas no meio dos campos, solitárias fazendas caiadas de branco ou amarelo em meio à hortas e jardins. O cheiro dos almoços sendo cozidos ou servidos, chegava até nós, enchendo minha boca de saliva. Comecei a perceber que nunca tinha sentido fome, fome de verdade, aquela que nos parece imensa e que, diante do fato de não termos como abrandá-la, torna-se maior ainda.

– Faiald, o que há ao norte, além da Floresta dos Espinheiros? – indagou Edula, que mantinha sua montaria ao lado da dele.

– Alguns dizem que é uma cidade – ele murmurou encolhendo os ombros. – Outros, que se trata de um reino imenso, fantástico, com muralhas grossas que o guardam dos saltimbancos do deserto. Eu não sei, nunca precisei ir até lá.

– Aposto que eles tem comida por todos os lados – murmurou Márcia. O ruivo sorriu e virou a cabeça para trás, a fim de encará-la.

– Está com fome? – perguntou.

– Estou, você não ? – replicou a irmã do mago ansiosa.

– Claro que sim – ele murmurou divertido.

– E quem não está? – resmungou Cíntia ao meu lado, mau-humorada.

– Então, por que não paramos em uma destas fazendas e pedimos alguma coisa para comer? – insistiu a caçula do grupo. Sem tanta maquiagem como costumava usar, Márcia parecia ainda mais menina do que habitualmente.

– Bem, a cidade não está muito longe e tudo o que precisamos é encontrar uma boa taverna. Vocês podem agüentar mais um pouco! – exclamou ele, divertido.

– Pode apostar que não ! – murmurou Cíntia com o rosto redondo fogueado pelo sol.

– Às vezes, quando não encontro nada em minhas caçadas, passamos um par de dias sem comer, sabem? – comentou nosso guia absorto na estrada. – No inverno é mais difícil de se conseguir carne. Também não há frutas, só cogumelos que dão em lugares bem protegidos, e com a estrada fechada por causa da neve não podemos vir até aqui, comprar mantimentos. Se bem que seria uma tolice e uma temeridade enfrentar a estrada e o campo aberto em meio às nevascas.

– É verdade – confirmou Bulbo, em sua garupa. – No inverno passado foi muito difícil. Os rios congelaram e não conseguimos sequer pescar!

– Os invernos são muito duros por aqui? – perguntou Cezna.

– Sim. Pelo menos desse lado das Montanhas Rineve – disse o gnomo, apontando para algum lugar a nossa direita.

– Teremos de atravessar alguma montanha? – indagou Edula.

– Sim – retorquiu Faiald. – Mas não se preocupem. As trilhas são conhecidas e existem guias.

– Espero que não tenhamos de escalar nada antes do almoço – comentei.

Faiald deu uma risada e disse, apontando para frente, lá onde, agora, se viam os telhados de casas, feitos de palha e de pequenas tábuas marrons:

– Não se preocupem. Já estamos chegando.

À medida em que nos aproximávamos da aldeia Arrelipe, compreendíamos melhor a geografia do Tabuleiro. Tínhamos viajado sobre um planalto e a aldeia ficava numa suave depressão à beira de um abismo que se abria para um profundo vale fértil. Todas as casas eram sobrados, com grandes chaminés de tijolos castigadas pelo tempo. Nas janelas havia flores coloridas, avencas e cortinas de renda. As ruas eram de paralelepípedos e os cascos de nossas cabras ecoavam alegremente, repicando como os enfeites que se penduram nas portas e janelas. Algumas crianças saíram de uma construção baixa, de apenas um andar, que se destacava das demais por sua largura e a cor azul do telhado. Diante da porta larga, um sino de cobre tocava alegremente, o som se espalhando no ar claro da aldeia, cheio de aromas agradáveis. Bulbo disse que era uma escola. Os pequenos rodearam-nos com curiosidade, não sei se mais por causa das cabras-do-sol ou por causa do gnomo. Gritavam entusiasmadas, correndo ao nosso lado, fazendo sinais umas para as outras e girando suas cartilhas no ar.

Seguimos até uma taverna, outra construção de apenas um andar, com um telhado que chegava até quase o chão. Havia uma tabuleta com um urso segurando o pedaço de madeira onde alguns rabiscos esquisitos pareciam uma escrita. Desmontamos aos gemidos, descobrindo que, mais do que nossas aventuras do dia anterior, a cavalgada da manhã nos deixara em pedaços. Faiald afastou as crianças que ainda nos rodeavam com um punhado de moedas que pediu à Cíntia. Os pequenos pularam sobre os círculos de cobre com mais alguns gritos de entusiasmos e se afastaram sorrindo e acenando para nós.

Entramos na taverna e sentamos numa mesa baixa e comprida, junto à uma janela suja, baixa e de vidro fosco, que quase não deixava entrar luz. Na verdade, o lugar era iluminado por várias lanternas de sebo que brilhavam sobre nossas cabeças, misturando o cheiro da gordura derretida ao aroma da comida e das bebidas que serviam ali. Senti-me enjoada e sentei-me na ponta do banco comprido, olhando com atenção para a janela, na esperança que fosse possível abri-la um pouco. Enquanto isso, nosso guia dirigiu-se ao balcão e pediu refeições e bebidas para todos. Depois, juntou-se a nós e em menos de cinco minutos estávamos com a mesa cheia de pratos fumegantes, saladas diversas e enormes canecas de cerveja escura.

– E os garfos? – perguntou Edula um pouco escandalizada.

– O que quer dizer aquela placa da entrada? – perguntou Cezna com a boca cheia. Ele não tinha esperado Edula terminar de reclamar para atacar um prato de algo que se parecia a alface. Eu ainda estava lutando com a janela e quando ela abriu-se com um soco, bati meu braço com força contra a parede.

– Droga!

– Não é "droga" – respondeu Bulbo, sorvendo sua cerveja. – é o nome do lugar: Taverna da Panela Redonda

– O alfabeto não é igual ao nosso? – perguntei, voltando-me para meus amigos. Não havia pratos individuais. Cada um de nós recebera uma colher e as travessas eram todas coletivas. Meti meu talher num monte de legumes e molho de onde vinha um aroma delicioso. Cíntia, que conseguia manter ordem e pose, mesmo numa situação de emergência daquelas, me olhou de lado e sorveu o conteúdo de sua colher educadamente. Eu tinha metido tanta comida na boca que mal conseguia mantê-la fechada. Que fome, meu Deus do céu!

– O alfabeto é semelhante, não igual – explicou Faiald cortando um pouco do assado que tinham posto no meio de tudo. Passou o naco numa espécie de farinha grossa e amarelada e mastigou-o demoradamente. – Eles tem todas as nossas letras, e algumas a mais, que significam sons para os quais utilizamos duas letras. O equivalente ao "s", nunca vale "z", assim que não possuem o "ss", "ç" ou "sc". Têm um sinal para "õe", outro para "ão ", e mais, "qu", "cc", "gu", "rr", "lh" e "nh". Não possuem o "ch", que substituem pela mesma letra que equivale ao "x". Todas as palavras estão acentuadas na sílaba tônica, sem exceção.

– Algumas dessas letras, as encontraremos pelo caminho – continuou Bulbo, rabiscando alguma coisa num papel que tirou da mochila. – O   , ou "a", de "azar".    ,"s", de "sorte", e    "d", de "destino". Esses símbolos aparecem em coisas ligadas às portas das casas que representam, surgindo isoladamente.

– E por falar nisso – murmurou César, engolindo o que tinha na boca – eu gostaria de saber: poderíamos considerar a Colônia como uma Casa Cinzenta?

– Pelo amor de Deus! – protestei, largando minha colher de pau. – Vamos mudar de assunto que eu estou comendo!

– Mas César tem razão – interferiu Faiald inclinando-se no banco e fazendo sinal para o garçom trazer-lhe outra caneca de cerveja. Pelo menos a cerveja era individual. – Eu diria que apenas o que encontramos na estrada é uma casa cinzenta, mas as tocas de que nos falou Nesbex ficava numa ramificação da estrada, que conduzia à leste. O jogo está em constante modificação. Acho que você não está errado em considerá-la uma Casa Cinzenta.

– Neste caso, as cabras-do-sol e a morada de Nesbex, podem ser consideradas Casas Vermelhas – concluiu Edula, encarando o ruivo pensativa.

– As cabras-do-sol, sim, a morada de Nesbex, não – respondeu ele.

– Por quê... onde vai você? – interrompi-me ao ver que Márcia se levantara e caminhava intrigada para a lareira do salão, sobre a qual repousava um escudo mal talhado e sujo.

– Os símbolos das Casas podem surgir em qualquer lugar? – ela indagou para Bulbo. Todos nós a seguíamos com olhares intrigados. – Até numa lareira?

– Talvez, se a lareira estiver associada à estrada e se o símbolo estiver gravado em cima dela... Do que é que está falando?

Meu coração batia junto da boca. O próprio ar parecia carregado de eletricidade, abafado, apesar da janela aberta. O vento entrava carregando os sons da cidade, as risadas das crianças que pulavam corda do lado de fora, jogando pião e riscando as pedras da estrada, mas eu não podia ouvi-las.

– Estou falando disto aqui – disse a irmã do mago, estendendo o braço para um símbolo quase apagado do escudo. Eu observei a mão dela aproximando-se quase em câmera lenta, sentindo o ar ser atravessado por invisíveis correntes que sacudiam meu corpo e minha alma num frenesi assustador, um rodopio insano de magia. No último instante, César conseguiu libertar-se dos turbilhões e ergueu-se de um salto:

– Não toque nisso!

Márcia virou-se para nós e tocou o amuleto, quase sem querer. Então desapareceu, como a imagem de uma TV que alguém apaga de um piparote.

– Ei! – gritou Cezna, voando na direção em que ela estivera, enquanto nos erguíamos assustados, subitamente envoltos do ar e dos sons das crianças e dos ruídos da taverna. César correu para a lareira e o seguimos espantados, atraindo a atenção do taverneiro, que aproximou-se limpando as mãos no avental sujo. Algumas das pessoas também chegaram mais perto com suas canecas de cerveja em punho e suas brilhantes e rosadas bochechas.

– Onde está ela? – perguntou César gaguejando miseravelmente, acariciando frenético a superfície de madeira. – Onde está minha irmã? Márcia! Márcia! Minha mãe vai me matar se eu não levar ela de volta sã e salva!

Súbito, levado por uma fúria descontrolada, começou a bater no mudo pedaço de pau que se negava a lhe dar informações ou abrir sua fechadura mágica para nós. Antes que pudéssemos intervir, o taverneiro atirou-se sobre ele e aplicou-lhe uma chave de braço, ameaçando quebrá-lo.

– Fique quieto, rapaz, ou não terá mais com o que bater em coisa alguma – berrou ele. – Esse brasão é de família e eu não quero vê-lo arranhado por causa de uma bobagem

– Tenha cuidado com ele, é um mago. Como lhe faça algum dano, lançará uma praga de sete anos sobre sua taverna e o levará à falência – anunciou Cezna, voando em torno da cabeça do homem. O taverneiro estremeceu, empalidecendo, mas não afrouxou o aperto.

– Mago ou não, nada lhe dá o direito de ofender as armas de minha família! – replicou feroz. – Além do mais, já estamos fartos de magos por aqui!

Deu uma guinada e atirou César contra uma mesa, puxando uma adaga de suas costas, no que foi imitado por vários outros.

– Epa! – murmurei, dando um passo para trás e tateando atrás de mim em busca de algo com que me defender. Encontrei uma das colheres de madeira, mas não me pareceu de muita valia para o problema do momento. Edula e Faiald sacaram suas espadas e saltaram para adiante, os músculos tensos e os olhos brilhantes.

– Ah, não! Não percamos a paciência – gritou Cíntia, surpreendendo-nos a todos. – Vamos conversar!

Deu um passo à frente e interpôs-se corajosamente no meio das pontas afiadas. Sorriu, cativante.

– Sejamos civilizados – sugeriu. – Estamos apenas de passagem e ninguém pretende ficar morando aqui por toda a Eternidade, não é mesmo? Além do mais, um lugar tão acolhedor quanto Arrelipe não pretende levar a fama de ter uma taverna pouco amistosa. Isso poderia ser pior do que uma praga de sete anos.

– E a senhora acha civilizado ofender o símbolo da minha família dessa maneira? Um brasão centenário, minha senhora, dos antigos magos de Arrelipe, do meu tataravô!

Faiald franziu a testa e fez uma careta.

– Tataravô? – grunhiu, incrédulo.

– Sim, senhor, o mago Asprath em pessoa!

O ruivo empalideceu e baixou a espada.

– Espero que me perdoe – murmurou humildemente. – Estou profundamente envergonhado com nosso procedimento.

O taverneiro o encarou com desconfiança.

– Estão vendo? Eu não disse que conversando todo mundo se entende? – disse Cíntia sorrindo ainda mais calorosamente, mais simpática do que antes. Faiald embainhou a espada, mas Edula hesitou. então a loura fez-lhe tal olhar que, mesmo à contragosto, terminou imitando nosso guia.

– Pronto – disse Cíntia, à continuação, tirando um punhado de moedas de sua bolsa. – Agora estamos agindo da maneira certa. Olhe, meu bom homem, estou pagando uma rodada de cerveja para todo mundo. Será que isso basta? Ótimo, foi o que pensei. Não se preocupe com o troco. Duas rodadas de cerveja, se for o caso. Tudo certo então ?

Fitava os outros homens que ainda tinham os punhais desembainhados

– Tudo certo, tudo certo – prosseguiu o taverneiro voltando-se para os companheiros. – Vamos, rapazes, guardem isso e vamos tomar a cerveja, que a moça está pagando.

– E a minha irmã? – gritou César, agarrando a manga do homem. Ele olhou-o com ares de poucos amigos e deu de ombros.

– Como quer que eu saiba? Mas isso não de lá o direito de sair batendo na minha lareira como se ela tivesse culpa de alguma coisa. E agora largue-me, antes que eu perca a minha paciência.

Faiald tocou o braço de César com suavidade.

– Acalme-se, é só uma casa do Destino. Daqui à pouco ela estará de volta com alguma das chaves. Vamos esperar.

– Está vendo, Mago, não há nada com que se preocupar – murmurou Cíntia sorrindo ferozmente para nosso amigo. – Largue o homem!

O tom de voz era impossível de ser ignorado. Os dedos de César se abriram um por um e o taverneiro afastou-se sacudindo a camisa.

– Seria bom se todo mundo fosse sensato como a senhora, moça – ele grunhiu, lançando um olhar venenoso para César, que soluçou e estremeceu.

– Vamos, César – murmurou Edula puxando-o de volta para nossa mesa. Eu mordi os lábios e os segui.

– Quem sabe, o senhor pode nos ajudar – murmurou a mercadora para o dono da taverna, que se afastava contando as moedas que lhe dera. Ele parou e voltou-se desconfiado.

– Ajudar? – repetiu cauteloso.

– Precisamos de mantimentos. Estamos de viagem e quem sabe se o senhor não poderia arranjar-nos o bastante para alguns dias?

– Para três semanas – acrescentou Faiald, atrás dela.

– Bem, er...

– Aqui tem, ahm, trinta moedas de ouro – continuou Cíntia, sem dar-lhe tempo para pensar. Seu charme era perfeito. O homem tossiu diante do sorriso dela e contou o novo punhado dourado que ela lhe alcançara. Olhou-nos outra vez e voltou a tossir.

– Por trinta moedas, posso arranjar o bastante para duas semanas – regateou ele, mesquinhamente.

– O quê ? – admirou-se o ruivo. – O tataraneto de Asprath agindo como um reles avarento?

O taverneiro enrubesceu e fechou a mão sobre o dinheiro, como se alguém o quisesse levar.

– O senhor não tem o direito de falar assim comigo. São tempos difíceis...

– Sempre são tempos difíceis. Trinta moedas de ouro são mais do que o suficiente para mantimentos por três semanas – insistiu nosso guia.

– Talvez não levemos tanto tempo para encontrarmos as Sete Casas – murmurou a voz de Márcia. César saltou por cima do banco com um grito de entusiasmo e correu até ela, abraçando-a. Eu não vi de onde saiu e acho que ninguém o viu de fato, porque não havia nada para ver. Assim são as coisas da magia.

– Onde esteve? – perguntamos quase ao mesmo tempo, esquecendo por um instante do taverneiro e dos mantimentos.

– Num lugar estranho – murmurou ela, depois que César largou do abraço apertado. – Não consigo explicar melhor. Mas trouxe algo de lá.

– E o que é ? – indagou Bulbo.

– Vejam – ela sussurrou colocando uma chapa de vidro sobre a mesa. Era pequena, não mais de dez centímetros quadrados, e tinha gravada uma série de desenhos estranhos. Porém, à medida em que observava aquilo, os desenhos pareciam se ordenar destacando-se como as velhas ilustrações em terceira dimensão. As linhas desdobraram-se, desenharam montanhas, alargaram vales e eu pisquei assustada. O efeito desapareceu imediatamente.

– É um mapa! O Mapa do Tabuleiro! – gritou Cezna surpreso

– Ótimo! – disse Faiald com alegria. – Agora, tudo será mais fácil.

– Ah, sim? – ironizou meu amigo com asas.

– Vocês vão querer os mantimentos para uma ou duas semanas, afinal? – indagou o taverneiro, aproveitando nossa confusão.

– Três semanas – disse Cíntia, que não perdia o tino, nem o sorriso simpático. – Três semanas por trinta moedas de ouro e mais aquela rodada de cerveja que lhe encomendei, para todo mundo do Panela Redonda.

– Bem, bem – concordou o homem, dando finalizadas as negociações, quando os olhares dos clientes se voltaram ansiosos para ele. Algumas palmas esparsas se fizeram ouvir e os mesmos homens que, instantes antes, tinham puxado as facas para nós, começaram a cantar uma canção de viajantes em nossa homenagem.

Voltamos à nossa mesa, mas eu tinha perdido o apetite. Fiquei brincado com a colher de pau, ouvindo os gritos das crianças ecoando pela rua à fora. A gritaria diminuiu por alguns instantes, depois voltou a imperar com alegre algazarra.

– Estou com vontade de dar um passeio. Alguém me acompanha? – convidei, erguendo-me de súbito. De um momento para outro, a taverna me pareceu insuportavelmente abafada, escura e malcheirosa. Precisava de sol e ar fresco e da sensação do ar imóvel ao meu redor. Edula olhou-me com espanto e concordou.

– Ótima ideia! Nada como uma caminhada depois do almoço.

– Também vou! – ofereceu-se Márcia. – Precisos respirar um pouco.

Saímos todos do bar, com exceção de Cíntia e Faiald que ficaram para tomar conta do assunto dos mantimentos e andamos de vagar pelas ruas, procurando as poucas sombras para escapar do sol. Algumas crianças passaram correndo e rindo por nós, perseguindo um cão, em cuja cauda alguém amarrara alguns potes de barro, agora já virados em cacos. Um homem os perseguia aos brados, não sei se o dono do cachorro ou dos potes, causando o riso de um grupo de mulheres que andava por uma das ruas com trouxas de tecido muito branco nas cabeças louras. Tinham formas arredondadas, dentaduras perfeitas e bochechas rosadas. Tinham um andar orgulhoso e um olhar iluminado. Bulbo aproximou-se delas e, muito galantemente, saudou-as, tirando a toca da cabeça e dobrando-se até quase arrastar o grande nariz no chão. As mulheres sorriram diante de nosso diminuto amigo, detendo-se por instantes.

– Acaso alguma das belas senhoritas saberia me dizer onde encontro um guia para nos mostrar as belezas de Arrelipe, se é que há alguma que seja maior do que vosmecês?

As moças se entreolharam com um sorriso matreiro, olhando para nós em seguida.

– Na próxima rua, à esquerda, há uma janela com gerânios cor-de-rosa. Batam e perguntem por Tharia – respondeu uma delas, saudando-nos com um simpático sorriso.

Segui-as com meu olhar, até que a voz de Edula me interrompeu.

– Pensativa? – perguntou.

Sorri.

– Talvez eu tivesse sido mais feliz se houvesse nascido aqui – murmurei sem me dar conta do que dizia. O rosto de minha amiga franziu-se.

– Está maluca, Cida? – indagou entredentes. – Será que eu ouvi direito?

– Ora, foi só um jeito de falar – respondi, incomodada com sua atitude. Fiz um gesto com a cabeça em direção às moças que se afastavam. – Só pensei que seria interessante viver em lugar onde não tivesse que me preocupar com a reação da balança cada vez que como algo que gosto.

– Você não tem de se preocupar com coisa alguma – intrometeu-se Márcia – desde que balanceie o que come. Eu, por exemplo...

– Já ouvi essa conversa antes – interrompi-a olhando para a ponta dos telhados de palha. – O que quero dizer...

– Exatamente – murmurou Edula com rapidez, secando a testa suada com um lenço mas, pensei, o sol não estava tão quente assim! – Se você comer muito no almoço, coma pouco na janta. Se exagerar na janta, não tome café da manhã. É muito simples.

– Você conhece o regime do abacaxi? – perguntou Márcia como quem pergunta "você conhece a última do papagaio?" Sinceramente, regime do abacaxi! Me mantive calada. Eu queria falar sobre as ruas coloridas e cheirosas pelas quais andávamos, não sobre verduras!

Dobramos na rua indicada pelas moças e de longe avistei os vasos cobertos de gerânios cor-de-rosa que pareciam iluminar o sol sobre a parede caiada de branco. Minhas amigas tagarelavam incansavelmente. Das janelas vinha um cheiro de carne assada, massa, milhos grossos e tortas de amora. Franzi a boca aborrecida. Estava com fome de novo! Arrependi-me de não ter comido mais e ia abrir a boca para dizê-lo, quando Bulbo parou diante da porta de madeira, ao lado da janela, sob as flores que gritavam suas cores sob o sol do meio-dia. Edula tentava convencer Márcia de que era possível passar uma semana inteira somente com o almoço diário no estômago, teoria que eu não compartilhava, em absoluto! Bulbo bateu na porta.

Quase imediatamente, a parte de baixo da folha se abriu e surgiu o rosto de uma garotinha, espiando-nos curiosamente.

– Boa tarde. Estamos procurando o senhor Tharia – disse Bulbo tirando seu chapéu educadamente, reverenciando a menina que começou a rir, divertida. – Disseram-nos que ele poderia ser nosso guia em nossa visita à cidade, se, é claro, não chegamos numa hora inoportuna.

– Espere só um pouco, homem-do-pote-de-ouro – ela murmurou, fitando-o com os olhos brilhantes, imaginando, talvez, em qual dos dois bolsos da calça esconderia o mapa para o tesouro, que, por força da tradição, Bulbo deveria ter oculto nalguma gruta funda. Deu-nos as costas e correu para dentro, deixando totalmente aberta a metade de baixo da porta.

– Não há dúvida – murmurou Edula beijando a careca de Bulbo antes que ele tivesse tempo para tapá-la. – Você é um rapaz muito charmoso.

O gnomo encolheu os ombros e fez ares de pouco caso.

– Mal de família. Todos os gnomos tem esse sex-apeal!

Começamos a rir dele, esquecidas dos regimes.

Então, a parte de cima da porta se abriu e deu passagem a um rapaz.

– Roti me disse que procuravam um guia – ele disse com a voz rouca e profunda. – Estou às suas ordens.

Meu Deus, pensei de repente, como estou suja. E despenteada. E cheirando mal. Era um contraste tão grande com a parede branca, os gerânios rosados e o sol luminoso, que poderia ser a sombra de mim mesma. E que louros, eram os cabelos encaracolados de Tharia, que azuis aqueles olhos! Sem entender o que fazia, procurei esconder-me atrás de minhas amigas.

– Espero que não estejamos atrapalhando o seu almoço – disse César ao apertar-lhe a mão.

– Não, não se preocupe, em geral eu sequer almoço – explicou ele colocando sobre os cabelos dourados uma touca parecida com a de Bulbo. – De onde são vocês?

Edula o fitou com desconfiança.

– Do norte – respondeu evasivamente, enquanto nos púnhamos à caminho.

– De Periandra? – indagou ele fitando-me diretamente. E enquanto Edula dizia que não, e enquanto ele explicava que sempre quisera conhecer a cidade de Periandra, para ver os entalhes das cumeeiras e dos alpendres das casas, seu rosto, seu sorriso e sua voz se gravaram profundamente em minha alma. Como entalhes na madeira. Como o sol na terra. Como a lembrança do verão. E ainda que seguisse me chamando Cida, eu soube que nunca mais seria a mesma, estivesse onde estivesse, passasse o que passasse. Invadiu-me a estranha sensação de que havia, finalmente, depois de um longo caminho tortuoso, voltado para casa.

Ainda agora, depois de tudo por que passamos, todo o horror, todo o medo, a certeza da morte e da virtualidade, ao lembrar daquela manhã me sinto imensamente afortunada. Se é verdade que Clara é uma deusa neste lugar estranho, sou extremamente grata à ela por Tharia existir. Eu viveria tudo de novo, mil vezes se fosse preciso, sem medo algum, se soubesse que o meu amor estava ali à minha espera, mesmo que não soubéssemos os dois que nos esperávamos desde sempre.

 

 

texto registrado na Biblioteca Nacional sob o número 449.762, Livro 844, Folha 422

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